Baseado nos artigos publicados da matéria Parasitologia da Central de Estudos (fonte principal) e nos Seminários do Lancet (malária, Chagas, leishmanioses, escabiose), revisões do NEJM e do Clinical Microbiology Reviews, diretrizes MS/OMS/IDSA e periódicos brasileiros (Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rev Inst Med Trop SP) — complemento sempre com DOI verificado. Resumo de estudo — na conduta real, confira sempre a versão vigente do protocolo do Ministério da Saúde.
01
Protozoários intestinais
amebíase intestinal e abscesso hepático · giardíase · coccidioses oportunistas · fluxo da síndrome disentérica · drogas luminares
Amebíase invasiva
Metronidazol 750 mg 8/8 h
7–10 dias + droga luminal obrigatória
Giardíase
3 amostras de fezes
cistos de eliminação intermitente
Cryptosporidium
Ziehl-Nielsen modificada
oocistos ácido-álcool-resistentes nas fezes
Abscesso hepático amebiano
homem jovem
febre + dor em hipocôndrio direito + US cavitária
1. Amebíase: quando a Entamoeba invade
Entamoeba histolytica é adquirida por via fecal-oral (cistos de 4 núcleos em água e alimentos) e diferencia-se de E. dispar e E. moshkovskii, morfologicamente idênticas e não patogênicas — a distinção exige antígeno fecal ou PCR. O trofozoíto invade a mucosa do ceco e cólon ascendente produzindo úlceras em botão de camisa (base estreita, alargando em profundidade); daí pode disseminar pela circulação portal e causar abscesso hepático amebiano, clássico em homem jovem adulto.
Forma clínica
Quadro
Diagnóstico
Tratamento
Portador (não invasiva)
assintomático; elimina cistos
cistos na EPF; diferenciar de E. dispar (antígeno/PCR)
somente droga luminal: paramomicina 25–35 mg/kg/dia por 7 dias (diloxanida em outros países)
Colite amebiana (disenteria)
diarreia subaguda com muco e sangue, tenesmo, cólica; febre baixa
exame fresco: trofozoítos com eritrócitos fagocitados
metronidazol 750 mg VO 8/8 h por 7–10 dias + droga luminal
Abscesso hepático amebiano
febre + dor em hipocôndrio direito + hepatomegalia dolorosa, sem icterícia importante
metronidazol + luminal; drenar apenas se > 10 cm, lobo esquerdo, iminência de ruptura ou sem resposta em 3–5 dias
Abscesso amebiano
Abscesso piogênico
Perfil
homem jovem, previamente sadio
idoso, doença biliar, bacteriemia, diabetes
Lesão
geralmente única, lobo direito
frequentemente múltiplas
Antecedente
disenteria prévia em parte dos casos
foco abdominal/biliar
Laboratório
sorologia amebiana positiva; aspirado estéril (líquido cor de pasta de anchova); eosinofilia não ocorre
hemocultura/aspirado com bactéria; leucocitose com desvio
2. Giardíase: a diarreia crônica do berçário
Giardia lamblia (intestinalis) coloniza duodeno e jejuno: o trofozoíto piriforme em dupla (a carinha sorridente) adere à mucosa causando atrofia vilositária e má absorção; o cisto oval resistente contamina água (resistente à cloração — remover por filtração ou fervura), creches, acampamentos e viajantes. Fatores de suscetibilidade clássicos: deficiência de IgA, acloridria e desnutrição.
Clínica: diarreia crônica com flatulência, esteatorreia, cólicas, eructações sulfurosas e perda de peso; em crianças, desnutrição e queda do arco de crescimento. Não há febre, sangue nem leucócitos fecais.
Diagnóstico: EPF em série de 3 amostras (a eliminação de cistos é intermitente — 1 amostra detecta cerca de metade dos casos), teste da fita de náilon (Entero-test), antígeno fecal (ELISA/imunocromatografia).
Tratamento: metronidazol 250 mg VO 8/8 h por 5–7 dias; alternativas com dose única ou curta: tinidazol 2 g VO dose única ou nitazoxanida 500 mg VO 12/12 h por 3 dias. Tratar contatos em surtos institucionais.
Dor em hipocôndrio direito + febre (com ou sem disenteria prévia)
Suspeitar de abscesso hepático amebiano → US de abdome + sorologia.
Resposta: metronidazol; drenagem só nas exceções (> 10 cm, lobo esquerdo, sem resposta em 3–5 dias).
Diarreia aquosa profusa no imunossuprimido
Ziehl-Nielsen modificada nas fezes (Cryptosporidium, Cystoisospora, Cyclospora).
Coccidioses respondem a TMP-SMX, EXCETO Cryptosporidium — cuja terapia definitiva é a TARV.
Questões do módulo · 01
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioHomem, 32 anos, febre há 10 dias com dor em hipocôndrio direito e hepatomegalia dolorosa; sem icterícia relevante, eosinófilos normais; US mostra lesão cavitária única de 8 cm no lobo direito hepático. Conduta:
2.FundamentalCriança de 3 anos, de creche, com diarreia há 6 semanas, flatulência, fezes claras e fétidas, sem sangue e sem febre, com queda ponderal; 1 exame parasitológico de fezes negativo. Próximo passo:
Gota espessa: identifica espécie e quantifica a parasitemia (parasitas/µL ou % de eritrócitos infectados) — é o exame de referência operacional no Brasil.
Teste diagnóstico rápido (TDR): detecção de antígenos (HRP2, LDH) — útil onde não há microscopia; a HRP2 persiste dias após a cura, então não serve para controle terapêutico.
Gota espessa negativa NÃO afasta malária nas primeiras horas de febre (sequestração no falciparum): repetir em 6–12 h mantendo a suspeita.
4. Tratamento — esquemas brasileiros
Cenário
Esquema
P. vivax/ovale não complicado
cloroquina VO total de 25 mg/kg em 3 dias (esquema MS: 10 mg/kg no 1º dia e 7,5 mg/kg no 2º e 3º) + primaquina 0,25 mg/kg/dia (adulto: 15 mg/dia) por 14 dias, após afastar deficiência de G6PD
P. falciparum não complicado
ACT: artemeter-lumefantrina VO (adulto ≥ 35 kg: 4 comprimidos por dose, nas horas 0-8-24-36-48-60) + primaquina em dose única gametocitocida (0,25–0,5 mg/kg conforme diretriz) no 1º dia
Malária grave (qualquer espécie)
artesunato IV/IM 2,4 mg/kg nas horas 0, 12 e 24 e depois 1×/dia, até no mínimo 24 h e tolerância à via oral; completar com ACT por 3 dias. Alternativa: quinina IV em infusão lenta 8/8 h
Gestante
vivax: cloroquina (primaquina contraindicada — reavaliar no pós-parto); grave: artesunato salva a gestante (quinina histórica)
Deficiência de G6PD
primaquina semanal supervisionada 0,75 mg/kg por 8 semanas, ou não usar — decisão especializada
5. Babesiose: a falsa malária do esplenectomizado
Babesia microti (nordeste dos EUA, carrapato Ixodes — o mesmo da doença de Lyme e da anaplasmose) e B. divergens (Europa, bovina, devastadora no esplenectomizado) infectam eritrócitos e causam síndrome malárica: febre, calafrios, sudorese, anemia hemolítica e trombocitopenia. Grupos de risco: esplenectomizados, idosos e imunossuprimidos; transmissão transfusional ocorre. No esfregaço: merozoítos em tétrade (cruz de Malta), formas extracelulares e AUSENcia de pigmento (hemozoína) — a chave que diferencia da malária. Confirmar com PCR/IFA.
Gravidade
Tratamento
Leve a moderada
atovaquona 750 mg VO 12/12 h + azitromicina 500 mg no 1º dia, depois 250 mg/dia — 7 a 10 dias
Grave (esplenectomia, parasitemia > 10%, SDRA)
clindamicina IV + quinina VO por 7–10 dias; considerar exsanguineotransfusão
Questões do módulo · 02
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioHomem, 30 anos, 6 dias após retorno de garimpo no Pará: febre 39 °C com calafrios, cefaleia e plaquetopenia; gota espessa: P. vivax, parasitemia 0,3%, sem critérios de gravidade; G6PD normal. Esquema:
2.Prova difícilMulher, 35 anos, esplenectomizada por púrpura trombocitopênica imune, retorna de viagem ao nordeste dos EUA com febre, anemia hemolítica e trombocitopenia; esfregaço de sangue: tétradas em cruz de Malta dentro de eritrócitos e formas extracelulares, sem pigmento; parasitemia 8%. Conduta:
vias de transmissão (vetorial, oral, congênita) · aguda e crônica · cardiopatia (BCRE + HBAE, morte súbita) · megas · sorologia · benznidazol · reativação no imunossuprimido
Crônicos
30–40%
desenvolvem cardiopatia décadas depois
ECG clássico
BCRE + HBAE
bloqueio de ramo direito + hemibloqueio anterior
Benznidazol
5 mg/kg/dia × 60 dias
tratamento etiológico (MS)
Morte súbita
principal causa
arritmia ventricular na cardiopatia chagásica
1. Agente, vetores e vias de transmissão
Trypanosoma cruzi é transmitido pelas fezes dos triatomíneos (barbeiros — Triatoma infestans, Panstrongylus megistus, Rhodnius spp.), que defecam durante o repasto e contaminam a mucosa ou a lesão de picada — o parasita NÃO é inoculado pela saliva (diferente da leishmaniose). Outras vias: oral (açaí e caldo de cana contaminados — surtos amazônicos, formas mais graves com miocardite), transfusional (triagem sorológica obrigatória nos bancos de sangue), congênita (ocorre em torno de 1–5% dos filhos de mães soropositivas), transplante, aleitamento (raro) e acidente laboral. O Brasil recebeu certificação internacional da interrupção da transmissão domiciliar por T. infestans em 2006.
2. Fases clínicas
Fase
Achados
Diagnóstico
Aguda (até 2 meses)
chagoma de inoculação; sinal de Romaña (edema bipalpebral duro e indolor); febre, adenomegalia, hepatosplenomegalia; miocardite e meningoencefalite são as formas graves; via oral: miocardite frequente
exame direto do sangue (gota fresca), Strout, hemocultura, PCR — parasitemia alta
Indeterminada
assintomático; ECG, eco e radiografia normais
≥ 2 sorologias reagentes (ELISA, IFI, HAII)
Crônica cardiopatia (30–40%)
extrasístoles, palpitações, síncope; IC dilatada; aneurisma apical com trombo; ECG: BCRE + HBAE (padrão mais característico), BAVs, taquicardia ventricular; morte súbita é a principal causa de óbito
sorologia + ECG/ECO (aneurisma apical, FE reduzida)
Crônica digestiva (10–15%)
megaesôfago: disfagia, sialorreia, regurgitação (radiologia: dilatação, retenção; manometria com aperistalse); megacólon: constipação de longa data, fecaloma, volvo
radiologia contrastada; sorologia
3. Diagnóstico — fase define o método
Aguda e reativação: parasitemia demonstrável — exame direto (gota fresca/Strout), micro-hematócrito, hemocultura ou PCR.
Crônica: 2 sorologias reagentes por técnicas diferentes (ELISA + IFI/HAII); reação cruzada com leishmaniose é a principal causa de falso-positivo. O xenodiagnóstico é histórico.
Congênita: exame direto do sangue do recém-nascido (micro-hematócrito/Strout) ao nascer, repetindo mensalmente se negativo; a sorologia só vale a partir de 8–9 meses de vida (a IgG materna persiste até ~6–9 meses).
4. Tratamento
Cardiopatia: terapia padrão da IC (diurético, IECA/BRA, betabloqueador com cautela), amiodarona para arritmias, marcapasso no BAV total sintomático, anticoagulação na disfunção importante/aneurisma com trombo/embolia prévia; transplante em casos selecionados (risco de reativação — benznidazol profilático).
Megaesôfago: dilatação pneumática, miotomia de Heller; megacólon: laxativos e ressecção cirúrgica (Duhamel) nas formas complicadas.
Questões do módulo · 03
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioMulher, 28 anos, doadora de sangue, nasceu em zona rural de Minas Gerais; duas sorologias reagentes para T. cruzi (ELISA e IFI); assintomática, ECG e ecocardiograma normais. Conduta:
2.AvançadoSurto familiar após ingestão de açaí no Pará: 4 pessoas com febre prolongada, uma com miocardite e arritmia; sem lesão cutânea ocular. O exame de escolha para confirmar a fase aguda é:
LTA cutânea e mucosa (espundia) · cutânea difusa anérgica · LV (calazar): febre + hepatoesplenomegalia + pancitopenia · Montenegro · antimoniato, anfotericina lipossomal e miltefosina
Vetor
Lutzomyia (flebotomíneo)
mosquito-palha; picada com SALIVA infectada
LV
febre + hepatoesplenomegalia + pancitopenia
criança < 10 anos; sem eosinofilia
Antimonial
20 mg Sb⁵⁺/kg/dia
cutânea 20 dias · mucosa 30 dias
LV no Brasil
anfotericina B lipossomal
1ª linha no SUS
1. Agentes e ciclo
Leishmania spp. é transmitida pela picada de flebotomíneos (Lutzomyia — o mosquito-palha), que inoculam PROMASTIGOTAS na pele; estas são fagocitadas por macrófagos e transformam-se em AMASTIGOTAS (corpúsculos de Leishman), que se multiplicam e rompem a célula. No Brasil: LTA por Leishmania (Viannia) braziliensis (úlcera cutânea com potencial de metástase MUCOSA — a espundia), L. (V.) guyanensis (Norte) e L. (Leishmania) amazonensis (pode dar cutânea difusa); LV por L. (L.) infantum (chagasi), com o cão como principal reservatório urbano (vetor Lutzomyia longipalpis). Doença de borda de floresta em processo de urbanização/periurbanização.
2. LTA cutânea
Úlcera crônica (semanas a meses) com borda elevada e infiltrada, fundo granuloso e base indurada, pouco dolorosa, com adenopatia satélite; lesões múltiplas em imunodeprimidos.
Diagnóstico: parasitológico DIRETO do bordo da lesão (impressão em lâmina, aspirado ou biópsia — amastigotas em macrófagos), PCR; a intradermorreação de MONTENEGRO (leishmanina) é positiva na maioria dos casos, mas não distingue doença ativa de infecção passada.
Tratamento: antimoniato de meglumina 20 mg Sb⁵⁺/kg/dia IV/IM por 20 dias (MS não limita dose máxima; sociedades internacionais limitam a 850 mg/dia) — vigilância de amilase (pancreatite) e ECG (prolongamento QT).
Alternativas: pentamidina 3–4 mg/kg IM em dias alternados (4–7 doses — usada no Norte), miltefosina 2,5 mg/kg/dia VO por 28 dias (teratogênica), anfotericina B lipossomal nas refratárias/graves e termoterapia em lesão única recente.
3. LTA mucosa (espundia) e cutânea difusa
A lesão mucosa aparece anos depois da cutânea (média de 2 anos) em minoria dos infectados por L. braziliensis: começa no septo nasal (congestão, epistaxe, perfuração) e pode destruir cartilagens de nariz, palato e faringe (rouquidão, disfagia, aspiração) — sem atingir o osso. O parasitismo é escasso: o diagnóstico combina clínica + epidemiologia + sorologia (IFI/ELISA) + PCR + Montenegro; a anfotericina lipossomal é reservada às formas graves ou refratárias ao antimonial por 30 dias. Na leishmaniose cutânea difusa (L. amazonensis, hospedeiro anérgico), nódulos e placas sem úlcera coexistem com MONTENEGRO NEGATIVO e parasitismo abundante.
4. Leishmaniose visceral (calazar)
Clássica da criança < 10 anos em área endêmica (Nordeste, Norte, Tocantins, Minas): FEBRE prolongada (semanas) + HEPATOESPLENOMEGALIA (esplenomegalia marcada) + PANCITOPENIA (anemia normocítica, leucopenia, plaquetopenia) + hipergamaglobulinemia e perda de peso; petéquias e palidez.
Complicações e causas de morte: infecções bacterianas secundárias (pneumonia, otite, diarreia/sepse) e hemorragias; na coinfecção HIV, doença atípica, recidivante, com parasitismo gastrointestinal.
Diagnóstico: demonstração de amastigotas no aspirado de MEDULA ÓSSEA (mielograma; sensibilidade em torno de 60–90%) ou baço; rK39 imunocromatográfico como triagem rápida; IFI/ELISA (com reação cruzada com Chagas).
Tratamento: 1ª linha no Brasil — anfotericina B lipossomal (esquemas fracionados de 3–5 mg/kg/dia até o total de ~20–30 mg/kg; referência IDSA: 3 mg/kg/dia nos dias 1–5, 14 e 21); alternativas: antimoniato de meglumina 20–30 dias e miltefosina 2,5 mg/kg/dia por 28 dias (vedada na gestação).
Febre prolongada com esplenomegalia
Diferenciais e pistas
Esquistossomose hepatoesplênica
história de contato com água doce; EOSINOFILIA presente; função hepática preservada nos dois
Leucemias/linfomas
citopenias com blastos/adenomegalia; mielograma decide
Tuberculosis miliar / histoplasmose disseminada
imagem difusa, febre vespertina com sudorese
Febre tifoide
bradicardia relativa, leucopenia, cultura de sangue/fezes
Doença de Gaucher
esplenomegalia maciça sem febre, células de Gaucher no mielograma
Fluxo da suspeita de leishmaniose
Qual síndrome o paciente apresenta?
▼
Úlcera cutânea crônica em área endêmica
Confirmar: parasitológico direto do bordo (± PCR); Montenegro apoia.
LV: rK39/IFI como triagem e mielograma (amastigotas) para confirmar.
Anfotericina B lipossomal é a 1ª linha no Brasil; tratar infecções associadas — são a principal causa de morte.
Questões do módulo · 04
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioHomem, 42 anos, extratorista do Acre: há 3 meses úlcera de 3 cm na perna com borda elevada e fundo granuloso, pouco dolorosa. Há 2 anos teve úlcera semelhante que cicatrizou; agora refere congestão nasal e epistaxe, com perfuração do septo à rinoscopia. Conduta:
2.Prova difícilCriança de 4 anos, do interior do Tocantins, com febre há 5 semanas, esplenomegalia de 6 cm, Hb 7 g/dL, leucócitos 2.500/mm³, plaquetas 60.000/mm³, eosinófilos 0; rK39 reagente. A confirmação parasitológica preferencial antes do tratamento específico é:
vias de aquisição (carne, oocistos, congênita) · IgM e teste de avidez · gestação e tetrada de Sabin · toxoplasmose ocular · cerebral no HIV · pirimetamina + sulfadiazina + folínico
Sorologia pré-natal
IgG + IgM no 1º atendimento
rotina brasileira de pré-natal
IgM isolada
não é doença ativa
persiste meses a anos — confirmar com avidez IgG
Toxo cerebral
IgG negativa praticamente exclui
lesões múltiplas em anel, CD4 < 100
Esquema cerebral
pirimetamina + sulfadiazina + folínico
6 semanas; manutenção até CD4 ≥ 200
1. Vias de aquisição
Cistos teciduais em CARNE CRUA OU MALCOZIDA (principal via humana), oocistos esporulados em fezes de gato contaminando hortaliças, água e areia; via transplacentária (taquizoítos) e, raramente, transfusão/transplante.
Felídeos são os únicos hospedeiros definitivos (eliminam oocistos nas fezes); o gato doméstico limpo, alimentado com ração, é fonte pouco provável — a carne malcozida é a via que a banca cobra.
2. Interpretação sorológica — o passo que decide tudo
Achado
Significado
Conduta
IgG− IgM−
nunca infectado
gestante: orientar prevenção e repetir mensalmente/trimestralmente conforme protocolo
IgG+ IgM−
imunidade prévia (cistos)
gestante imune: sem risco de toxoplasmose congênita por reativação (exceção: imunossupressão)
IgG+ IgM+
infecção indeterminada — IgM persiste meses a anos
confirmar: IgG sequencial (soroconversão/quadriplicação de títulos em 2–3 semanas) e TESTE DE AVIDEZ IgG
Avidez ALTA em amostra até 3–4 meses do início
infecção antiga
afasta infecção recente — tranquiliza
Avidez baixa
infecção recente provável
encadear investigação/terapia fetal
3. No imunocompetente e na gestação
Imunocompetente: 80–90% oligossintomático; síndrome mononucleose-símile com linfadenopatia cervical, febre baixa e mialgia, autolimitada — tratar apenas quadros graves (retinite, visceral).
Risco de transmissão fetal cresce com a idade gestacional (~10–15% no 1º trimestre; ~60–70% no 3º), enquanto a GRAVIDADE cai: 1º trimestre = abortamento e doença grave (tetrada de SABIN: convulsões, calcificações intracranianas, hidrocefalia, coriorretinite); 3º trimestre = recém-nascido aparentemente normal com retinocoroidite e sequelas tardias.
Gestante com infecção aguda: ESPIRAMICINA 1 g VO 8/8 h para reduzir transmissão placentária; se infecção fetal confirmada (PCR no líquido amniótico, amiocentese a partir de ~18 semanas) e/ou protocolo indicar após o 1º trimestre → PIRIMETAMINA + SULFADIAZINA + ÁCIDO FOLÍNICO (a pirimetamina é teratogênica e proibida no 1º trimestre).
Recém-nascido infectado: pirimetamina + sulfadiazina + folínico por até 1 ano em seguimento especializado; a metanálise SYROCOT mostrou que o tratamento pré-natal não reduz claramente a transmissão, mas o tratamento precoce pode atenuar a doença clínica.
4. Toxoplasmose ocular
Causa importante de uveíte posterior no Brasil: dor ocular, fotopsias/moscas e baixa visual; fundo de olho com foco de retinocoroidite necrosante branco-amarelado hiperêmico adjacente a cicatriz pigmentada antiga (aspecto em cabeça de alvo), com vitreíte.
Tratamento: pirimetamina + sulfadiazina + ácido folínico (alternativa com clindamicina) + CORTICOIDE sistêmico (prednisona ~1 mg/kg) somente após 48–72 h do antimicrobiano e nunca isolado — corticoide sozinho dissemina o parasita. Gestantes: espiramicina ou esquema conforme trimestre.
5. Toxoplasmose cerebral no HIV
CD4 < 100 células/mm³, IgG positiva: cefaleia, déficit focal, convulsões, febre; TC/RM com lesões MÚLTIPLAS com captação em anel e edema (lesão única sugere mais linfoma primário do SNC).
Conduta: tratamento EMPÍRICO — pirimetamina 200 mg VO de ataque, depois 50–75 mg/dia (conforme peso) + sulfadiazina 4–6 g/dia (1–1,5 g 6/6 h) + ácido folínico 10–25 mg/dia, por 6 semanas; manutenção com metade das doses até CD4 ≥ 200 por mais de 6 meses sob TARV. Alternativas: pirimetamina + clindamicina; TMP-SMX.
Resposta clínica/radiológica em 2 semanas confirma; sem resposta → biópsia. Profilaxia primária: TMP-SMX quando CD4 < 100 e IgG positiva.
7. As outras oportunistas do imunossuprimido (além da toxo)
Parasitose
Cenário imunossuprimido
Achado-chave e conduta
Criptosporidiose
HIV avançado (CD4 < 100), transplante
diarreia aquosa persistente; exame parasitológico com coloração especial (Ziehl/imunofluorescência); a TARV é a terapia principal — não há fármaco consistentemente eficaz
Estrongiloidíase hiperinfectiva
corticoterapia prolongada, HTLV-1, transplante
diarreia + pneumonite + bacteremia por gram-negativos entéricos (larvas disseminam flora); ivermectina é a base
Microsporidiose e isosporíase
HIV CD4 < 100
diarreia crônica; isospora responde a TMP-SMX; microsporídio a albendazol
Leishmaníase visceral no HIV
resposta inflamatória atenuada, recidivas
esplenomegalia/pancitopenia; anfotericina B lipossomal; seguimento longo sem alta parasitológica definitiva
Chagas reativado
transplante de órgão sólido, HIV muito avançado
miocardite aguda/lesões cutâneas; benznidazol
Questões do módulo · 05
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioGestante de 22 semanas, soronegativa no 1º trimestre, agora com IgM reagente e IgG com soroconversão documentada, sem sintomas. Conduta:
2.AvançadoHomem, 38 anos, HIV com CD4 60 células/mm³, sem TARV, há 2 semanas com cefaleia progressiva e hemiparesia direita; TC: 3 lesões com captação anelar e edema perilesional; sorologia IgG anti-T. gondii reagente, IgM negativa. Conduta:
ascaridíase (Löffler, obstrução) · enterobíase (fita adesiva) · ancilostomíase (anemia ferropriva) · estrongiloidíase e hiperinfecção · filariose e larva migrans
Ascaris
20–35 cm
maior nematoide intestinal do homem
Ancilostomíase
anemia ferropriva
verme sangra continuamente no duodeno
Estrongiloidíase
LARVAS na EPF
não ovos; autoinfecção → décadas de infecção
Hiperinfecção
ivermectina diária
até negativação das larvas
1. Geohelmintos: a lógica comum
Ascaridíase, enterobíase, ancilostomíase e estrongiloidíase compartilham o contaminação fecal do solo (fecalismo): ovos/larvas eliminados nas fezes amadurecem na terra e reinfectam por ingestão (ascaridíase/enterobíase) ou penetração cutânea (ancilostomíase/estrongiloidíase). Cargas altas em crianças causam desnutrição, anemia e prejuízo cognitivo — a OMS recomenda quimioterapia preventiva em massa com albendazol 400 mg ou mebendazol 500 mg em dose única, 1–2×/ano, em escolares de áreas endêmicas.
2. Ascaridíase: migração e complicações mecânicas
Ciclo: ovo ingerido → larva atravessa a parede intestinal → veia porta → fígado → pulmão (pneumonite por LARVA: síndrome de Löffler — tosse, sibilos, infiltrado transitório e EOSINOFILIA) → sobe a árvore respiratória e é deglutida → adulto no intestino delgado.
Complicações: OBSTRUÇÃO intestinal por massa de vermes (criança com dor cólica, vômitos e massa palpável), invasão da papila (colangite/pancreatite), apendicite e expulsão de vermes por boca/nariz.
Diagnóstico: ovos de casca mamilonada (aspecto de favo/abelha) na EPF; eosinofilia na fase pulmonar. Tratamento: albendazol 400 mg VO em dose única (ou mebendazol 500 mg); na obstrução, conduta clínica inicial (hidratação, sonda, correção eletrolítica) com cirurgia reservada às complicações.
3. Enterobíase e ancilostomíase
Enterobius vermicularis (oxiúro): criança com PRURIDO ANAL NOTURNO (a fêmea deposita ovos na dobra perianal); diagnóstico pela FITA ADESIVA transparente perianal matinal (método de Graham) — a EPF tem baixa sensibilidade; autoinfecção e contágio domiciliar. Tratamento: albendazol 400 mg VO dose única, repetindo após 2 semanas (ovos), tratando os contatos da casa.
Ancylostoma duodenale e Necator americanus: larva penetra a pele do pé descalço → pulmão → adulto no duodeno, onde se alimenta de sangue da mucosa → ANEMIA FERROPRIVA (palidez, fadiga, retardo de crescimento; geofagia/pica clássica); ovos na EPF. Tratamento: albendazol 400 mg VO dose única (protocolos podem estender por 3 dias).
Larva cutânea migrans (bicho geográfico): larva de ancilostomídeos de cão/gato (A. caninum/braziliense) faz trilha serpiginosa pruriginosa no pé — não completa o ciclo no homem. Ivermectina 200 µg/kg VO dose única ou albendazol 400 mg/dia por 3 dias.
4. Estrongiloidíase: a infecção que nunca sai
Diagnóstico: LARVAS (não ovos) rabditoides na EPF; técnicas concentradas (Baermann, placa de ágar) e sorologia são mais sensíveis — em paciente de área endêmica com eosinofilia inexplicada, pense Strongyloides.
Estrongiloidíase grave/hiperinfecção: CORTICOSTEROIDES são o principal gatilho; também HTLV-1, transplante, quimioterapia, cirrose e desnutrição — e, contraditoriamente, o HIV NÃO é fator de risco clássico. Larvas disseminam para pulmão (SDRA), trato digestivo (íleo) e SNC, arrastando flora intestinal: SEPSE POR GRAM-NEGATIVOS + eosinopenia relativa; mortalidade alta.
Tratamento: ivermectina 200 µg/kg VO (dose única na forma crônica; repetir aumenta a cura) — na hiperinfecção, ivermectina DIÁRIA até a negativação das larvas (por até 2 semanas após); albendazol 400 mg 12/12 h por 7 dias é alternativa inferior.
Prevenção da hiperinfecção: rastrear Strongyloides (sorologia/Baermann) e tratar ANTES de iniciar corticosteroide, quimioterapia ou imunossupressão em pacientes de área endêmica — diretriz da OMS (2024).
5. Filariose e síndromes de larva migrans
Parasita
Doença/marca
Conduta-chave
Wuchereria bancrofti
filariose linfática: linfangite, hidrocele, elefantíase (foco histórico em Belém/Recife); microfilárias com periodicidade NOTURNA (gota espessa noturna)
dietilcarbamazina (DEC) 6 mg/kg/dia por 12 dias; cuidados com a pele e fisioterapia do linfedema
Onchocerca volvulus
cegueira dos rios: nódulos subcutâneos, dermatite, lesão ocular
ivermectina 150 µg/kg dose única repetida — DEC contraindicada (reação de Mazzotti grave)
Loa loa
edema de Calabar migratório (África central)
tratamento especializado: risco de encefalopatia com microfilaremia alta
Toxocara spp.
larva migrans visceral: criança com eosinofilia persistente, hepatomegalia, asma/estrabismo (ocular)
albendazol 400 mg 12/12 h por 5 dias; corticoide na forma ocular
Dracunculus medinensis
dracunculíase (erradicação em curso)
extração lenta do verme + cuidado da ferida; sem droga eficaz
Fluxo da eosinofilia persistente
Eosinofilia elevada e persistente — qual parasitose rastrear?
▼
Com sintomas pulmonares migratórios
Ascaridíase na fase de migração (Löffler) ou estrongiloidíase — EPF e, se negativa, Baermann/sorologia.
Rastrear Strongyloides ANTES de corticosteroide (asma tratada com corticoide é o gatilho clássico de hiperinfecção).
Strongyloides (sorologia/Baermann) — a infecção dura décadas e pode hiperinfectar.
Filariose/toxocaríase por sorologia conforme exposição.
Questões do módulo · 06
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.Prova difícilHomem, 62 anos, HTLV-1 positivo, em prednisona 40 mg/dia há 1 mês por pneumopatia; evolui com distensão abdominal, choque séptico por E. coli e infiltrado pulmonar difuso; EPF: larvas de Strongyloides stercoralis; eosinófilos 30/mm³. Diagnóstico e conduta:
2.FundamentalCriança de 6 anos, de área sem saneamento, com dor abdominal cólica, vômitos e massa palpável em fossa ilíaca direita; RX de abdome sem pneumoperitônio; EPF com ovos de Ascaris lumbricoides. Conduta inicial:
ciclo água doce–Biomphalaria · patogenia do OVO (granuloma e fibrose de Symmers) · Katayama · forma hepatoesplênica com função hepática preservada · mielorradiculopatia · praziquantel
Agente Brasil
S. mansoni
caramujo Biomphalaria; contato com água doce
Ovo
espículo LATERAL
S. haematobium: terminal (bexiga)
Praziquantel
50 mg/kg dose única
adultos; crianças 2–15 anos: 60 mg/kg (MS)
Pré-patência
4–6 semanas
cercária → oviposição (janela do Katayama)
1. Ciclo
Ovos eliminados nas fezes chegam à água doce, eclodem miracídios que infectam o caramujo Biomphalaria (B. glabrata, straminea, tenagophila); após semanas, saem CERCÁRIAS furcobifurcadas que penetram a pele humana (prurido — dermatite cercariana), migram como esquistossômulos e amadurecem em vermes adultos nas veias mesentéricas em 4–6 semanas, quando começa a oviposição. Os vermes NÃO se multiplicam no hospedeiro: cada verme vem de uma cercária. Brasil: maior foco das Américas (Minas, Bahia, Pernambuco, e áreas de migração).
EPF: KATO-KATZ é o método quantitativo de referência (ovos por grama de fezes — define carga e controle de cura); HOFFMANN (sedimentação espontânea) é a rotina qualitativa brasileira.
Sorologia (ELISA/IFI): positiva antes da oviposição (útil no Katayama) e em inquéritos; não distingue infecção ativa de passada.
US de abdome: fibrose periportal, calibre da veia porta > 12 mm, esplenomegalia — classificação ecográfica padronizada da OMS estratifica a doença hepática.
Jovem com esplenomegalia/hipertensão portal
Pistas
Esquistossomose hepatoesplênica
contato com água doce em área endêmica; função hepática preservada; eosinofilia possível; Kato-Katz positivo
Cirrose (álcool, vírus)
descompensação (icterícia, ascite, encefalopatia), TAP alterado, estigmas de hepatopatia
Leishmaniose visceral
febre + pancitopenia SEM eosinofilia; rK39/mielograma
Síndrome de Budd-Chiari
trombose de veias hepáticas; dor e ascite agudos
4. Tratamento e controle
Controle: SANEAMENTO (quebra o ciclo), tratamento dos casos e contatos, moluscicidas seletivos, educação e lazer seguro — a OMS recomenda tratamento preventivo em massa com praziquantel em escolares quando a prevalência é ≥ 10%.
Não há imunidade protetora robusta: a reinfecção é a regra onde o contato com água contaminada persiste.
Questões do módulo · 07
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioHomem, 32 anos, agricultor de Pernambuco em área endêmica, chega com hematêmese; endoscopia: varizes de esôfago grau III; esplenomegalia de 8 cm; TAP e transaminases normais; plaqetas 90.000/mm³; eosinófilos 700/mm³. Qual a causa mais provável da hipertensão portal?
2.AvançadoMulher, 28 anos, esquistossomótica conhecida, desenvolve há 2 semanas dor lombar irradiada para as pernas, fraqueza ascendente dos membros inferiores e retenção urinária; RM com lesão medular lombar. Conduta:
1. Teníase e cisticercose: quem é hospedeiro de quê
Teníase: geralmente assintomática; eliminação de proglotes (T. saginata: proglotes ATIVAS migram pelo ânus; T. solium: eliminadas passivamente nas fezes). Diagnóstico: identificação de proglotes; a EPF tem baixa sensibilidade para ovos. Tratamento: praziquantel 5–10 mg/kg VO dose única (ou niclosamida 2 g dose única em jejum).
Cisticercose: nódulos subcutâneos/musculares (bolsas de água) e, sobretudo, NEUROCISTICERCOSE: epilepsia de início no adulto, cefaleia, hipertensão intracraniana; formas parenquimatosas (cisto viável com escólex no interior — alvo no interior da lesão), racemosas subaracnóideas (piores) e ventriculares (hidrocefalia); calcificações = cisto morto.
Diagnóstico da NCC: TC/RM + sorologia (ELISA/immunoblot — melhor no LCR para formas subaracnóideas) conforme critérios de Del Brutto; oftalmoscopia para excluir cisto ocular ANTES de tratar.
Tratamento da NCC: individualizado — cistos viáveis: albendazol 15 mg/kg/dia (máx. 1.200 mg/dia) por 8–15 dias + CORTICOIDE iniciado antes/concomitante (a morte do cisto causa edema e piora transitória) + anticonvulsivante; cistos apenas calcificados: só anticonvulsivante; formas ventriculares: neuroendoscopia; formas subaracnóideas: esquemas prolongados. Rastrear teníase do paciente e dos conviventes (eles são a fonte de ovos).
2. Difilobotríase e himenolepíase
Diphyllobothrium latum: peixe cru (sushi, ceviche); o maior cestóide humano (pode exceder 9 m; proglote mais larga que longa); compete pela vitamina B12 → ANEMIA MEGALOBLÁSTICA — o único helminto que a causa. Diagnóstico: ovos operculados na EPF. Tratamento: praziquantel 5–10 mg/kg dose única + B12 se necessário.
Hymenolepis nana: o único cestóide com ciclo DIRETO (ovo infectante sem hospedeiro intermediário) e autoinfecção — crianças institucionalizadas; praziquantel 25 mg/kg dose única (nitazoxanida alternativa).
3. Equinococose cística (doença hidática)
Echinococcus granulosus: o CÃO é o hospedeiro definitivo (verme no intestino, ovos nas fezes); ovinos e, acidentalmente, o HOMEM hospedam o metacestode (cisto hidático) após ingerir ovos — oncosfera porta o fígado (70%) e pulmão (20%). O cisto cresce silenciosamente por anos (cisto mãe, cistos filhos, areia hidática = escólices). E. multilocularis (Europa/China) causa doença alveolar infiltrativa, não autóctone no Brasil.
Estágio OMS-USG
Aspecto
Conduta (WHO-IWGE)
CE1
unilocular simples, parede dupla
albendazol isolado (≤ 5 cm) ou PAIR (> 5 cm)
CE2
multisseptado (roseta)
cirurgia + albendazol
CE3a
membrana destacada (sinal do lírio/nenúfar)
PAIR
CE3b
cistos filhos em matriz sólida
cirurgia + albendazol
CE4–CE5
heterogêneo sem cistos filhos; calcificado (inativos)
observar (watch and wait)
Diagnóstico: US + sorologia (ELISA/IFI — boa sensibilidade no hepático, baixa no pulmonar); eosinofilia só aparece após VAZAMENTO de conteúdo cístico; BIÓPSIA/ASPIRAÇÃO DIAGNÓSTICA é contraindicada (risco de anafilaxia e disseminação).
Albendazol 10–15 mg/kg/dia (adulto: 400 mg 12/12 h), começando ~1 semana ANTES de procedimentos e mantendo de 1 a 6 meses depois, previne a hidatidose secundária; ciclos de 28 dias com intervalos em terapia isolada.
PAIR = Punção, Aspiração, Injeção de escolicida (álcool 95% ou solução salina hipertônica) e Reaspiração — sob cobertura de albendazol e com vigilância anafilática.
Complicações: ruptura (choque anafilático + implantação secundária), compressão de estruturas, infecção bacteriana do cisto.
4. Ectoparasitoses
Doença
Agente/marca
Tratamento
Escabiose
Sarcoptes scabiei: túneis nas interdigitações, punhos, axilas, aréolas, genitália; PRURIDO NOTURNO que piora com calor; sensibilização em 3–6 semanas (1–3 dias na reinfestação)
permetrina 5% tópica (pescoço aos pés, 8–12 h, repetir em 1 semana) ou ivermectina 200 µg/kg VO (repetir em 7–14 dias) — tratar TODOS os contatos e lavar roupas de cama
Escabiose crostosa (norueguesa)
crostas extensas com MILHARES de ácaros — imunossuprimidos, HTLV-1, idosos, institucionalizados; altamente contagiosa
ivermectina dias 1, 2, 8, 9, 15 (+ 22 e 29 se grave) + permetrina + queratolítico; isolamento
P. h. corporis (roupas): transmitir TIFO epidêmico (Rickettsia prowazekii) e febre recorrente (Borrelia recurrentis)
banho + despediculização de roupas (calor)
Ftiríase
Phthirus pubis (piolho-caranguejo): pubis e pestanas
pediculicida tópico; vaselina oclusiva nas pestanas
Tungíase
Tunga penetrans (bicho-de-pé): nódulo perláceo com ponto escuro central em pé/periungueal; complicações: ulceração, infecção, TÉTANO
remoção estéril da fêmea, antisepsia, profilaxia antitetânica; USAR CALÇADO é a prevenção
Miíases
Dermatobia hominis (berne): furúnculo com orifício de respiração (larva por forésia em mosquito); Cochliomyia hominivorax (bicheira): feridas necróticas
oclusão do orifício (vaselina) + extração da larva; limpeza de feridas; ivermectina nas formas múltiplas
Questões do módulo · 08
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioHomem, 45 anos, zona rural de Minas Gerais, primeira crise de convulsão focal; TC: múltiplos cistos parenquimatosos, alguns com escólex no interior e calcificações; fundo de olho normal; sem sinais de hipertensão intracraniana. Conduta:
2.FundamentalFamília de 4 pessoas: o filho apresenta prurido intenso noturno com lesões nas interdigitações e no escroto há 3 semanas; agora a mãe também coça. Exame dermatoscópico com túneis e delta sign. Conduta:
Esquemas por espécie e os critérios de malária grave
03 Chagas
Fezes do barbeiro (e açaí); aguda = exame direto, crônica = 2 sorologias; BCRE + HBAE e morte súbita; benznidazol 60 dias em todas as fases (oferecer).
Cardiopatia crônica e o tratamento etiológico (BENEFIT)
04 Leishmanioses
LTA: úlcera de borda elevada + exame direto do bordo; mucosa = sistêmico sempre; LV = febre + hepatoesplenomegalia + pancitopenia sem eosinofilia.
LV (rK39/mielograma, anfotericina lipossomal) e espundia
05 Toxoplasmose
IgM isolada não é doença ativa (avidez!); gestante: espiramicina e pirimetamina só após o 1º trimestre; cerebral no HIV: lesões múltiplas + esquema triplo com folínico.
Toxoplasmose congênita e a cerebral do HIV
06 Nematodioses
Ascaris (Löffler + obstrução); enterobíase (fita adesiva); ancilostomo (anemia ferropriva); Strongyloides: larvas na EPF e hiperinfecção no corticoide/HTLV-1 → ivermectina diária.
Estrongiloidíase e a eosinofilia persistente
07 Esquistossomose
Ovo granulomatoso → fibrose de Symmers → HTP presinusoidal com função hepática preservada; praziquantel 50/60 mg/kg dose única; mielorradiculopatia = + corticoide.
Forma hepatoesplênica (jovem que sangra com TAP normal)
08 Cestodioses e ectoparasitoses
Teníase (carne) × cisticercose (ovos); NCC = albendazol + corticoide; B12 = Diphyllobothrium; hidatidose CE1–CE5 sem biopsiar; escabiose trata a casa toda.
Neurocisticercose e a escabiose
Números que você precisa saber de cor
Tema
Número
Amebíase invasiva
metronidazol 750 mg 8/8 h × 7–10 dias + paramomicina 25–35 mg/kg/dia × 7 dias
Giardíase
EPF série de 3 amostras · metronidazol 250 mg 8/8 h × 5–7 dias (tinidazol 2 g única)
carne com cisticerco = teníase (homem definitivo); ovo nas fezes = cisticercose (homem intermediário).
Fezes × saliva dos vetores
triatomíneo contamina pelas FEZES (Chagas); flebotomíneo inocula pela PICADA (Leishmania).
Eosinofilia
aponta helminto (Strongyloides, Ascaris, esquistossomo, filária, Toxocara) — amebíase, giardíase, malária, LV e toxoplasmose não dão eosinofilia típica.
LARVA na EPF
só Strongyloides aparece como larva (não ovo) no exame parasitológico de fezes.
TAP normal com varizes
jovem de área endêmica que sangra = esquistossomose hepatoesplênica (função preservada).
B12 e peixe cru
anemia megaloblástica por parasita é do Diphyllobothrium latum — o único.
IgM que não morre
IgM+ de toxo persiste meses/anos — a resposta é teste de AVIDEZ IgG antes de tratar.
Antes do corticoide
paciente de área endêmica: rastreie Strongyloides — hiperinfecção é evitável.
As pegadinhas mais cobradas
Abscesso hepático amebiano cura com metronidazol + luminal — drenar de rotina é o erro plantado; eosinofilia é ausente.
Malária por vivax PODE ser grave — responder gravidade só com falciparum derruba candidato.
Gota espessa negativa nas primeiras horas não afasta malária — repetir em 6–12 h.
Primaquina na gestação e < 6 meses: contraindicada; deficiência de G6PD exige esquema semanal supervisionado.
O triatomíneo transmite Chagas pelas fezes — não pela saliva.
Benznidazol não deteve a cardiopatia chagásica estabelecida (BENEFIT), mas o tratamento etiológico continua ofertado — sobretudo na forma indeterminada.
Montenegro negativo é a REGRA na leishmaniose cutânea difusa (anergia) e não afasta a mucosa.
LV não causa eosinofilia; esplenomegalia com eosinofilia alta pensa esquistossomose.
Pirimetamina sem ácido FOLÍNICO e no 1º trimestre da gestação são os dois erros clássicos da toxoplasmose.
Hiperinfecção por Strongyloides associa-se a corticoide e HTLV-1 — o HIV NÃO é o fator clássico.
Praziquantel dose única trata a esquistossomose, mas a mielorradiculopatia exige corticoide associado precoce.
Biópsia/punção diagnóstica de cisto hidático é proibida — anafilaxia e disseminação; PAIR é terapêutico e especializado.
Escabiose: prurido que persiste 2–4 semanas após tratamento correto é hipersensibilidade residual, não falência — e todos os contatos tratam junto.
Informações que não podem ser esquecidas
Toda síndrome disentérica: coprocultura + EPF com exame fresco (trofozoítos hematófagos fecham amebíase).
Toda febre com retorno da Amazônia: gota espessa imediata — e malária grave é artesunato IV, não quinina.
Todo chagásico: oferecer benznidazol e seguir com ECG anual; imunossuprimido com miocardite/encefalite = reativação (exame direto).
Toda úlcera cutânea crônica em área endêmica: exame direto do bordo para Leishmania; lesão mucosa é tratamento sistêmico.
Toda gestante: sorologia para toxo no pré-natal; IgM+ isolada nunca se trata sem avidez/IgG seriada.
Todo paciente que vai imunossuprimir de área endêmica: rastreio de Strongyloides antes.
Todo jovem com hemorragia digestiva alta e função hepática normal de área endêmica: Kato-Katz para esquistossomose.
Toda primeira crise epiléptica do adulto em área endêmica: neuroimagem para cisticercose — e corticoide junto do albendazol.
Quadro-síntese: diagnóstico pela palavra-chave
Se a questão diz…
Pense em…
Homem jovem + febre + dor em hipocôndrio direito + US cavitária sem eosinofilia
Abscesso hepático amebiano
Febre + contato na Amazônia + plaquetopenia e anemia
Malária (gota espessa)
Coma + anemia grave + hipoglicemia + parasitemia alta
Malária grave por falciparum → artesunato IV
Esplenectomizado + cruz de Malta no esfregaço sem pigmento
Babesiose
Edema bipalpebral indolor ou surto de açaí com miocardite
Chagas agudo (exame direto)
BCRE + HBAE + aneurisma apical
Cardiopatia chagásica crônica
Úlcera de borda elevada e fundo granuloso em área de mata
Leishmaniose tegumentar
Perfuração de septo nasal anos após úlcera cutânea
Leishmaniose mucosa (espundia)
Criança com febre prolongada + hepatoesplenomegalia + pancitopenia sem eosinofilia
Leishmaniose visceral
Gestante com IgM+ e IgG com avidez alta
Toxoplasmose antiga — não tratar por recente
HIV CD4 < 100 + lesões cerebrais múltiplas em anel
Toxoplasmose cerebral
Eosinofilia + corticoide + sepse gram-negativa com larvas nas fezes
Hiperinfecção por Strongyloides
Criança + prurido anal noturno
Enterobíase (fita adesiva)
Anemia ferropriva + pé descalço em área rural
Ancilostomíase
Jovem de área endêmica + varizes + esplenomegalia + TAP normal
Esquistossomose hepatoesplênica
Primeira convulsão do adulto + cistos com escólex na TC
Neurocisticercose
Peixe cru + anemia megaloblástica
Difilobotríase
Prurido noturno em vários conviventes com túneis interdigitais
Escabiose — tratar a casa toda
Prova final — bateria geral
8 questões cobrindo todos os módulos proporcionalmente + gabarito
1.FundamentalAdulto jovem com disenteria há 10 dias: fezes com muco e sangue escuro, febre baixa, tenesmo discreto; exame fresco das fezes mostra trofozoítos com eritrócitos fagocitados. Tratamento:
2.IntermediárioTurista chega da Amazônia com febre, icterícia e redução do nível de consciência; gota espessa: P. falciparum com parasitemia 6%; glicemia 34 mg/dL. Conduta:
3.IntermediárioHomem, 55 anos, do sertão baiano, com IC dilatada; ECG com bloqueio completo de ramo direito e hemibloqueio anterior esquerdo; eco com aneurisma apical. Qual par de exames confirma a etiologia?
4.FundamentalHomem, 38 anos, do Pará, com úlcera cutânea de 4 cm há 2 meses, borda elevada e infiltrada, fundo granuloso e pouco dolorosa. O exame de maior rendimento diagnóstico é:
5.Prova difícilGestante de 12 semanas, previamente soronegativa, com IgM reagente e IgG reagente de BAIXA avidez coletada 10 dias após o início de sintomas gripais. Interpretação e conduta:
6.AvançadoHomem, 55 anos, natural do Maranhão, com asma, iniciará prednisona 60 mg/dia por vasculite. EPF sem parasitas; eosinófilos 900/mm³. Antes do corticoide, qual conduta?
7.IntermediárioCriança de 10 anos, de área endêmica para esquistossomose, com Kato-Katz mostrando 240 ovos de S. mansoni por grama de fezes; sem esplenomegalia. Tratamento:
8.Prova difícilMulher, 46 anos, criadora de cães e ovelhas no Rio Grande do Sul; US incidental de cisto hepático unilocular de 6 cm com paredes duplas, sem septos; sorologia positiva. Conduta:
diretriz / revisãoLacerda MVG, Mourão MPG, Alexandre MAA, et al. Understanding the clinical spectrum of complicated Plasmodium vivax malaria: a systematic review on the contributions of the Brazilian literature. Malar J. 2012;11:12.doi.org/10.1186/1475-2875-11-12
diretriz / revisãoDondorp AM, Fanello CI, Hendriksen ICE, et al. Artesunate versus quinine in the treatment of severe falciparum malaria in African children (AQUAMAT). Lancet. 2010;376(9753):1647–1657.doi.org/10.1016/S0140-6736(10)61924-1
diretriz / revisãoVannier E, Krause PJ. Human babesiosis. N Engl J Med. 2012;366(25):2397–2407.doi.org/10.1056/NEJMra1202018
diretriz / revisãoMorillo CA, Marin-Neto JA, Avezum A, et al. Randomized trial of benznidazole for chronic Chagas' cardiomyopathy (BENEFIT). N Engl J Med. 2015;373(14):1295–1306.doi.org/10.1056/NEJMoa1507574
diretriz / revisãoCoura JR, Dias JCP. Epidemiology, control and surveillance of Chagas disease: 100 years after its discovery. Mem Inst Oswaldo Cruz. 2009;104(Supl 1):31–40.doi.org/10.1590/S0074-02762009000900006
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diretriz / revisãoBrasil. Ministério da Saúde. Guia de Tratamento da Malária no Brasil. Brasília: MS; 2021.
notaResumo didático elaborado a partir das diretrizes e revisões acima (verificáveis pelo DOI) e dos artigos publicados desta matéria na Central de Estudos (fonte principal). Nenhuma referência inventada; em caso de divergência entre fontes, vale a versão vigente do protocolo oficial — confira sempre antes da conduta real.
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