Baseado nos artigos publicados da matéria Neurocirurgia da Central de Estudos (fonte principal) e nas diretrizes vigentes — Brain Trauma Foundation 4ª ed. (2017), AHA/ASA 2022 (hemorragia intracerebral), AHA/ASA 2012 (hemorragia subaracnoidea), classificação OMS 2021 de tumores do SNC (complemento, sempre com DOI). Resumo de estudo — na conduta real, confira sempre a versão vigente do protocolo.
01
Hipertensão intracraniana e monitorização
doutrina de Monroe-Kellie · fisiopatologia e hérnias · clínica e síndrome de Cushing · TC e cateterismo ventricular · escada terapêutica (receita) · DECRA e RESCUEicp
PIC normal
5–15 mmHg
adulto em decúbito dorsal
Tratar PIC
> 22 mmHg
limiar da BTF 4ª ed.
CPP alvo
60–70 mmHg
CPP = PAM − PIC
Resgate alvo
PaCO₂ 30–35
hiperventilação só temporária
1. Fisiopatologia: como a PIC sobe e como o cérebro hernia
Aumento de volume: lesão expansiva (hematoma, tumor, abscesso), edema (citotóxico na isquemia, vasogênico ao redor de tumores, traumático difuso), hidrocefalia e aumento do volume sanguíneo (hipercapnia e hipóxia dilatam o leito arterial; obstrução venosa aumenta o volume venoso). A hipertensão intracraniana reduz a pressão de perfusão cerebral (CPP = PAM − PIC) e, ao comprimir estruturas, produz as síndromes herniativas — emergências absolutas:
Hérnia
Estrutura comprimida
Quadro clínico
Uncal (lateral, tentorial)
III nervo e pedúnculo cerebral
anisocoria com midríase ipsilateral ao hematoma + hemiparesia contralateral; a midríase (3º nervo) é o primeiro sinal
Cingulada (subfalcial)
cíngulo sob a foice
frequentemente silenciosa; desvio de linha média à TC; pode evoluir para uncal
Central (transtentorial descendente)
diencéfalo e tronco
pupilas médias fixas bilaterais, postura de descerebração, deterioração respiratória
Tonsilar (forame magno)
tonsilas cerebelares no bulbo
parada respiratória com PIC discreta — a hérnia que mata o paciente com hematoma de fossa posterior
2. Clínica: a tríade e os sinais de ruptura
Cefaleia progressiva, pior nas primeiras horas da manhã e com manobras de Valsalva; vômitos em jato (sem náusea prévia) que aliviam a cefaleia.
Papiledema (demora horas a dias para surgir — ausência não exclui HIC); declínio progressivo do nível de consciência.
Síndrome de Cushing (hipertensão com aumento do diferencial, bradicardia e respiração irregular): sinal TARDIO de herniação iminente — esperar por ele para agir é tarde.
Anisocoria nova em paciente neurológico = hérnia uncal em curso até prova contrária: hiperventilação + osmoterapia e preparo cirúrgico imediatos.
3. Diagnóstico e monitorização
A TC sem contraste mostra os mecanismos da HIC: lesão expansiva, edema (apagamento de sulcos), colapso das cisternas da base e dos ventrículos, desvio de linha média. A monitorização invasiva da PIC está indicada no TCE grave com Glasgow 3–8 e TC anormal (hematomas, contusões, edema, cisternas comprimidas) — ou com TC normal quando presentes ≥ 2 de: idade > 40 anos, postura de descerebração/decorticação e PAS < 90 mmHg (Brain Trauma Foundation). O cateter ventricular (drenagem ventricular externa, DVE) é o padrão-ouro: mede a PIC e permite TRATAR drenando LCR; o cateter intraparenquimatoso é alternativa quando a ventriculostomia é inviável.
4. Tratamento: a escada terapêutica
Escada da hipertensão intracraniana
PIC > 22 mmHg — em que degrau da escada o paciente está?
▼
DEGRAU 0 — SEMPRE (antes de qualquer droga)
Cabeceira elevada 30–45° com cabeça em posição neutra (facilita drenagem venosa).
Sedação e analgesia adequadas (lutar contra o tubo dobra a PIC).
Corrigir hipotensão: a CPP precisa de PAM adequada — hipotensão é tão deletéria quanto a própria PIC.
DEGRAU 1 — PIC ELEVADA
Drenagem de LCR pela DVE (1–2 mL, repetida conforme a PIC).
Osmoterapia: manitol 0,25–1 g/kg IV em 15–30 min OU NaCl 3% em bolus, monitorando osmolalidade/sódio e volemia.
Hiperventilação SÓ como resgate temporário de herniação (PaCO₂ 30–35 mmHg) enquanto se prepara a medida definitiva.
DEGRAU 2 — HIC REFRATÁRIA
Coma barbitúrico (tiopental/pentobarbital) com suporte hemodinâmico e EEG — supressão de bursts.
Craniectomia descompressiva de resgate (RESCUEicp): reduz mortalidade, à custa de mais sobrevida com deficiência grave.
Repetir TC: procurar lesão cirúrgica nova que mudou o jogo (hematoma em expansão).
5. Craniectomia descompressiva: o que os ensaios mostram
DECRA (NEJM 2011): craniectomia bifrontal PRECOCE para HIC refratária em lesão difusa associou-se a PIOR desfecho em 6 meses (desfecho desfavorável 70,6% vs 51,9% do grupo clínico) — cirurgia precoce de rotina não é resposta. RESCUEicp (NEJM 2016): craniectomia como ÚLTIMO degrau terapêutico reduziu mortalidade (26,9% vs 48,9%), com mais sobrevida em estado vegetativo ou dependência grave. A síntese para a prova: descompressiva é terapia de resgate na HIC refratária, com decisão compartilhada sobre os desfechos — não é medida precoce de rotina nem proibida.
Complicações da HIC e do seu tratamento: herniações, infecção da DVE (diagnóstico por LCR da drenagem), hiponatremia (SIADH vs síndrome de perda de sal cerebral), diabetes insipidus no traumatismo cranioencefálico e úlcera de estresse. O prognóstico depende da causa, do tempo até o controle da PIC e da manutenção da CPP — cada hora com PIC descontrolada custa tecido cerebral.
Questões do módulo · 01
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioHomem, 24 anos, TCE grave por acidente de moto, Glasgow 6 (sem sedação), pupilas isocóricas reativas. TC: edema difuso com cisternas da base comprimidas, sem lesão focal. Conduta de monitorização:
2.AvançadoMesmo paciente monitorado: PIC sustentada em 28 mmHg apesar de cabeceira a 30°, sedação, PaCO₂ 38 mmHg, drenagem pela DVE e um bolus de manitol; PAS 112 mmHg, hemodinamicamente estável. Próximo degrau da escada:
Glasgow e prioridades do ATLS · regra canadense de TC · extradural × subdural × contusão × LAD · critérios operatórios (números) · fratura deprimida · lesão da coluna cervical
Grave
Glasgow ≤ 8
intubar e proteger a coluna cervical
Extradural
> 30 cm³
cirurgia independente do Glasgow
Subdural
> 10 mm
ou desvio de linha média > 5 mm
Contusão
> 50 cm³
cirurgia; > 20 cm³ com efeito de massa também
1. Classificação e triagem de imagem
Glasgow: 13–15 leve · 9–12 moderado · 3–8 grave (somatório ocular 4 + verbal 5 + motor 6). No TCE leve com perda de consciência, amnésia ou confusão, a regra canadense de TC (Canadian CT Head Rule, Stiell, Lancet 2001) seleciona quem precisa de TC:
Risco
Critérios (aplica-se a GCS 13–15 com perda de consciência/amnésia/confusão)
ALTO — TC obrigatória (risco de intervenção neurocirúrgica)
Glasgow < 15 reavaliado 2 h após o trauma · suspeita de fratura aberta ou deprimida · qualquer sinal de fratura de base (hemotímpano, olheiras em óculos, sinal de Battle, rinorreia/otorreia) · ≥ 2 episódios de vômito · idade ≥ 65 anos
MÉDIO — TC indicada
amnésia retrógrada > 30 min antes do trauma · mecanismo perigoso (ejeção do veículo, atropelamento, queda de altura > 3 m ou > 5 degraus)
2. As lesões e seus critérios operatórios (a tabela que decide a prova)
Lesão
Achado clássico
Indicação cirúrgica (Brain Trauma Foundation)
Hematoma extradural
jovem, trauma temporal; intervalo lúcido; coleção biconvexa (lenticular) que não cruza suturas (artéria meníngea média)
volume > 30 cm³ — opera independente do Glasgow; < 30 cm³ com espessura < 15 mm, desvio < 5 mm, Glasgow > 8 e sem déficit → manejo clínico com TC seriada/monitorização
Hematoma subdural agudo
idoso/alcoólatra; coleção em crescente que cruza suturas (veias pontentes)
espessura > 10 mm ou desvio de linha média > 5 mm — independente do Glasgow; também opera com queda do Glasgow ≥ 2, anisocoria/pupila fixa ou PIC > 20 mmHg
Contusão intraparenquimatosa
lobo frontal/temporal; hipodensidade com focos hemorrágicos; pode amadurecer (blossoming) em 24–72 h
lesão > 50 cm³; frontal/temporal > 20 cm³ com desvio ≥ 5 mm ou cisternas comprimidas; deterioração neurológica referível à lesão ou PIC refratária
Fratura de crânio deprimida
degrau palpável; TC óssea
depressão maior que a espessura da calota; fratura exposta: debridamento e fechamento idealmente em < 24 h (reduz infecção)
Lesão axonal difusa (LAD)
coma imediato pós-desaceleração com TC frequentemente normal; RM com micro-hemorragias junção córtico-subcortical, corpo caloso, tronco
sem indicação cirúrgica: escada da PIC + reabilitação
TCE com coleção à TC — opera ou monitoriza?
Há critério objetivo de volume/espessura ou sinal de herniação?
▼
SIM
Craniotomia (ou trepanação, no subdural crônico sintomático) com evacuação — o mais rápido possível.
Anisocoria/pupila fixa ou Cushing: hiperventilação + manitol enquanto se leva à sala (ponte, não tratamento).
NÃO — lesão abaixo dos critérios
UTI neurológica com exame serial; considerar monitorização da PIC conforme Glasgow/TC.
TC de controle em 6–24 h: extradural e contusões podem expandir.
SEM LESÃO FOCAL (difuso/LAD)
Tratamento clínico pela escada da PIC; RM posterior para caracterizar lesão axonal difusa.
3. Depois da cirurgia
Monitorização e escada da PIC (módulo anterior) — a cirurgia não encerra o risco de HIC.
Prevenção de convulsão: profilaxia anticonvulsivante de rotina prolongada não é recomendada; usar apenas na primeira semana quando há risco alto (hematoma, contusão hemorrágica, fratura deprimida, Glasgow < 10) e reavaliar.
Complicações: hidrocefalia pós-hemorrágica, fístula de LCR (rinorreia/otorreia persistente → conduta neurocirúrgica), meningite, hematoma expansivo contralateral e hipopituitarismo (rastreado clinicamente no TCE grave).
Craniectomia descompressiva: DECRA (precoce, pior desfecho) × RESCUEicp (último degrau, menos mortalidade com mais sequelas) — ver módulo 1.
Prognóstico: depende da gravidade inicial (Glasgow, pupilas), da lesão à TC, da idade e — acima de tudo — da prevenção de insultos secundários (hipóxia, hipotensão, hipercapnia, hiponatremia, hipertermia, convulsão). O TCE grave tem mortalidade na casa de 20–30% mesmo em centros de referência; a lesão axonal difusa é a grande causa de mau desfecho não cirúrgico.
Questões do módulo · 02
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalHomem, 19 anos, queda de moto com perda breve de consciência seguida de melhora por 2 h; agora Glasgow 12, anisocoria direita com midríase fixa. TC: coleção biconvexa temporal direita de 45 cm³ com desvio de linha média. Conduta:
2.IntermediárioHomem, 34 anos, TCE grave (Glasgow 7) resgatado hipotenso (PAS 82 mmHg) e hipoxêmico (SpO₂ 85%). Qual medida impacta diretamente a mortalidade na fase inicial?
hipertensiva × amiloide · clínica e TC · escore ICH · pressão arterial (INTERACT2) · reversão de anticoagulação · STITCH II e cirurgia · CLEAR III · prognóstico
Proporção dos AVCs
10–15%
hemorrágico vs isquêmico — TC diferencia
PAS alvo
140 mmHg
faixa 130–150, nas primeiras horas (AHA/ASA 2022)
Volume
A×B×C/2
elipsoide na TC — 30 mL pontua no ICH score
Cerebelar
> 3 cm
cirurgia, com compressão de tronco/hidrocefalia
1. Clínica: como suspeitar na maca
Déficit focal de instalação súbita que PIORA progressivamente em minutos a horas (o isquêmico costuma vir pronto), com cefaleia, vômitos, rebaixamento do nível de consciência e pressão arterial elevada. Sinais de gravidade: Glasgow baixo na admissão, dilatação pupilar, hematoma de fossa posterior (risco de morte súbita por hérnia tonsilar) e paciente anticoagulado (expansão do hematoma). Convulsão no início ocorre sobretudo nos lobares.
2. Diagnóstico e investigação da causa
TC sem contraste é o exame inicial: hiperdensidade espontânea, define local, volume e presença de sangramento intraventricular.
Volume pela fórmula do elipsoide: A × B × C/2 (maior diâmetro × perpendicular × número de cortes × espessura ÷ 2).
TC com contraste (sinal spot — extravasamento) prediz expansão do hematoma.
RM e angio-TC/angio-RM para causa: suspeita obrigatória em jovens, hematoma atípico, padrão suspeito de MAV/aneurisma; arteriografia digital quando a angio não fecha a causa.
Escore ICH (Hemphill): Glasgow 3–4 = 2 pontos e 5–12 = 1; idade ≥ 80 anos = 1; origem infratentorial = 1; sangramento intraventricular = 1; volume ≥ 30 mL = 1 — mortalidade em 30 dias cresce de ~0–13% (escores 0–1) a > 70% (escore ≥ 3).
Padrão à imagem
Diagnóstico a considerar
Putaminal/talâmico/pontino/cerebelar em hipertenso
hemorragia hipertensiva
Lobar em idoso, múltipla ou recidivante
angiopatia amiloide cerebral
Jovem, hematoma com vaso anômalo à angio
malformação arteriovenosa ou aneurisma
Infarto recente que sangra em área arterial
transformação hemorrágica de isquemia
Cefaleia + déficit em gestante/puerpéra ou usuário de anticoncepcional
trombose de seio venoso cerebral
Febre + sinais focais em paciente séptico
abscesso cerebral
3. Tratamento: os três eixos das primeiras horas
Conduta aguda na hemorragia intracerebral
TC mostra hematoma intraparenquimatoso espontâneo — por onde começar?
▼
EIXO 1 — REVERTER O SANGRAMENTO
Varfarina: complexo de protrombina 4 fatores (PCC) IV + vitamina K IV — mais rápido e menos volume que plasma.
Heparina: protamina; dabigatrana: idarucizumabe; inibidores do fator Xa: andexanet alfa ou PCC 4F.
Transfusão de plaquetas NÃO é rotina no antiagregado (piorou desfecho no PATCH); reservar para cirurgia de urgência.
EIXO 2 — PRESSÃO ARTERIAL
PAS > 150 mmHg: reduzir para alvo 140 mmHg (faixa 130–150) com hipotensor IV na fase aguda — seguro e pode melhorar o desfecho (INTERACT2, diretriz AHA/ASA 2022).
Não baixar de 130: hipoperfusão em cérebro com autorregulação doente.
EIXO 3 — CIRURGIA (DECISÃO POR LOCAL)
Cerebelar > 3 cm, compressão de tronco, hidrocefalia ou deterioração: craniectomia suboccipital com evacuação — indicada e urgente.
Lobar superficial com deterioração: considerar craniotomia (STITCH II: sem benefício global na lobar).
Profundo (putaminal/talâmico): cirurgia convencional sem benefício — manejo clínico; minimamente invasiva permanece em investigação (MISTIE III).
Hidrocefalia com rebaixamento: DVE; PVH volumoso: DVE ± fibrinolítico intraventricular (CLEAR III).
Anticonvulsivante profilático de rotina: não recomendado; tratar crise clínica e usar EEG contínuo no paciente rebaixado sem causa aparente.
DVE na hidrocefalia com rebaixamento do nível de consciência.
Reabilitação precoce; controle rigoroso da pressão arterial em longo prazo (a recidiva hipertensiva é prevenível); suspender/repensar anticoagulação conforme indicação e risco.
Prognóstico: mortalidade em 30 dias na casa de 30–40%; sobreviventes frequentemente com sequelas. Preditores independentes de mau desfecho: Glasgow baixo, idade avançada, volume grande, sangramento intraventricular e origem infratentorial (o próprio escore ICH). A reabilitação começa na UTI.
Questões do módulo · 03
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioHomem, 58 anos, hipertenso sem tratamento, hemiparesia esquerda há 1 h, Glasgow 14, PAS 210 mmHg. TC: hematoma putaminal direito de 18 mL. Conduta para a pressão arterial:
2.AvançadoMulher, 70 anos, cefaleia e ataxia de marcha há 6 h; agora Glasgow 12 e pupilas reativas. TC: hematoma cerebelar de 3,8 cm compressindo o tronco e hidrocefalia ventricular. Conduta:
04
Hidrocefalia e derivações ventriculares
produção e absorção do LCR · classificação · hidrocefalia da criança · hidrocefalia normotensiva do adulto · DVP e suas complicações · ventriculostomia endoscópica · cisto colóide
Produção de LCR
~500 mL/dia
~20 mL/h — plexo coroide; volume total ~150 mL
Tríade da HNT
marcha + cognição + esfíncter
a marcha vem primeiro e é a que mais responde
Tap test
30–50 mL
punção lombar terapêutica prediz resposta à derivação
Criança: macrocrania com perímetro cefálico cruzando percentis, fontanela tensa e abaulada, veias do couro cabeludo proeminentes, sinal do pôr-do-sol (olhar em pôr-do-sol), atraso do desenvolvimento.
Causas na criança: estenose do aqueduto (congênita), mielomeningocele/Chiari II, pós-hemorrágica do prematuro (matriz germinal), pós-meningite e tumores de fossa posterior (meduloblastoma).
Complicações crônicas não tratadas: déficit intelectual, convulsões e prejuízo visual.
2. Hidrocefalia normotensiva (HNT) do adulto — a tríade que cai
Elemento
Como se apresenta
Marcha
marcha magnética: passos curtos, lentos, pés grudados no chão, dificuldade de iniciar e virar; instabilidade; costuma ser o PRIMEIRO sintoma e o que melhor responde ao tratamento
ventriculomegalia desproporcional à atrofia cortical (RM: alargamento dos ventrículos com sulcos preservados)
Confirmação funcional: tap test — punção lombar com retirada de 30–50 mL de LCR e teste de marcha antes/depois; melhora da marcha após a punção prediz resposta à derivação. Tratamento: derivação ventriculoperitoneal (a pressão do LCR é normal — o nome não muda a conduta). O diferencial clássico é a atrofia cerebral com ex-vacuo (sulcos E ventrículos aumentados proporcionais).
3. DVP: o sistema e suas complicações
A derivação ventriculoperitoneal leva o LCR do ventrículo lateral à cavidade peritoneal (alternativas: átrio — drenagem ventriculoatrial — e pleura) através de válvula regulada. É dispositivo de salvação com falhas — e reconhecer a disfunção é emergência:
Complicação
Apresentação
Conduta
Obstrução (a mais comum, geralmente no catéter proximal)
sinais de HIC: cefaleia, vômitos, sonolência, marcha piorando na criança
emergência neurocirúrgica: TC comparativa + radiografia do trajeto (shunt series) + punção da válvula; revisão cirúrgica
febre + sinais de disfunção + dor abdominal (pseudocisto)
cultura do LCR pela válvula; antibiótico IV e discussão de remoção/externalização do sistema
Superdrenagem
cefaleia postural (melhora deitando), coleções subdurais/hidroma, ventrículos em fenda (síndrome do ventrículo em fenda na criança)
reprogramação da válvula/anti-sifão
Desconexão/migração do catéter
disfunção aguda ou falha progressiva
revisão cirúrgica
4. Alternativas e casos clássicos
Ventriculostomia endoscópica do 3º ventrículo (VET): abre o assoalho do 3º ventrículo, contornando a obstrução — tratamento de escolha na estenose de aqueduto e hidrocefalias obstrutivas selecionadas.
Cisto colóide do 3º ventrículo: cefaleia paroxística intensa desencadeada por mudança de posição, às vezes com quedas; pode obstruir intermitentemente os forames de Monro e causar morte súbita — ressecção (endoscópica ou microcirúrgica) quando sintomático.
Hidrocefalia pós-hemorragia subaracnoidea: aguda (DVE) e crônica (até 20% precisam de derivação definitiva) — ver módulo 7.
Hidrocefalia externa benigna do lactente: macrocrania com desenvolvimento normal, manejo expectante na maioria.
Prognóstico: depende da causa de base (tumor, hemorragia, infecção) — a DVP controla a pressão, não a doença. A HNT tratada tem reversão parcial da marcha e da cognição; a incontinência responde menos.
Questões do módulo · 04
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalHomem, 74 anos, há 1 ano com marcha de passos curtos e dificuldade de iniciar os passos, urgência urinária progressiva e lentificação cognitiva. RM: ventriculomegalia desproporcional à atrofia. Próximo passo:
2.Prova difícilCriança de 6 anos portadora de DVP há 2 anos: há 2 dias cefaleia, vômitos matinais e sonolência progressiva; hoje com febre 38,5 °C. Conduta:
o mais comum no adulto; meningioma é o primário benigno mais comum
Crianças
meduloblastoma
tumor maligno mais comum; fossa posterior
GBM + Stupp
~15 meses
sobrevida mediana com RT + temozolomida
1. Epidemiologia rápida
Adultos: metástases são os tumores intracranianos mais frequentes (pulmão, mama, melanoma, rim, trato gastrointestinal); entre os primários, meningioma (benigno, extra-axial) é o mais comum e o glioblastoma é o maligno mais comum.
Crianças: meduloblastoma é o tumor maligno mais comum (verme cerebelar, disseminação por LCR); astrocitoma pilocítico (grau 1, OMS) é o mais comum no conjunto.
Fatores de risco ambientais consistentes: radioterapia craniana prévia. Uso de celular: sem evidência consistente de causalidade.
2. Clínica: síndrome de HIC + foco + convulsão
Cefaleia de tumor: progressiva, PIOR de manhã, desperta do sono, piora com Valsalva, associada a vômitos que aliviam — diferente da cefaleia primária comum.
Crise epiléptica de início no adulto é sinal de alerta para lesão expansiva cortical (glioma, meningioma, metástase) — indica RM com contraste.
Déficit focal progressivo conforme a topografia; papiledema à fundoscopia; síndrome de HIC quando há hidrocefalia (tumores de fossa posterior).
Sinais falsamente localizatórios: paralisia do VI nervo (curso intracraniano longo — o primeiro a ceder à HIC, não localiza o tumor).
Topografia/achado
Lesão típica e síndrome
Convexidade/parasagittal
meningioma parasagittal: monoparesia de membro inferior contralateral (área motora medial)
Sela túrcica com deficiência visual bitemporal
adenoma pituitário (macroadenoma); endocrinopatia; apoplexia pituitária se sangra
Ângulo pontocerebelar (VIII + V + VII + ataxia)
schwannoma vestibular (neurinoma do acústico)
Lobo frontal com mudança de personalidade
glioma frontal (ou meningioma do olfatório)
Vermis cerebelar em criança com hidrocefalia
meduloblastoma (ataxia de tronco)
3º ventrículo com cefaleia postural paroxística
cisto colóide (ver módulo 4)
3. Diagnóstico
RM de crânio COM contraste é o exame de escolha (sensibilidade superior à TC, avalia fossa posterior e lesões múltiplas). A TC entra no agudo (hidrocefalia, hemorragia) e mostra calcificações (oligodendroglioma, meningioma). O diagnóstico definitivo é anatomopatológico com painel molecular (IDH, 1p/19q, MGMT); a biópsia estereotáxica é para lesões inacessíveis ou difusas; a ressecção maximal segura é ao mesmo tempo diagnóstico e tratamento. Suspeita de metástase: rastreio do primário (TC de tórax, mamografia conforme perfil) em vez de biópsia cerebral às cegas.
4. Tratamento por tumor
Tumor
Tratamento e números
Glioblastoma (IDH selvagem)
ressecção maximal segura + radioterapia (60 Gy em 30 frações) + temozolomida 75 mg/m²/dia concomitante, seguida de até 6 ciclos adjuvantes (150–200 mg/m², 5 dias a cada 28) — protocolo de Stupp (NEJM 2005): sobrevida mediana 14,6 vs 12,1 meses com RT isolada; campos de tratamento tumoral (TTFields) somam benefício na manutenção
Astrocitoma/oligodendroglioma (IDH mutado)
ressecção + RT/quimioterapia conforme grau e fatores; prognóstico muito melhor que o GBM; codeleção 1p/19q prediz sensibilidade à quimioterapia
Meningioma
assintomático e pequeno: observação com RM; sintomático/progressivo: ressecção (grau de Simpson I = com inserção dural — menor recorrência); remanescente/atípico: radioterapia (estereotáxica)
Metástases
corticosteroide para edema; doença controlada e lesão única/accessível: cirurgia + radiocirurgia; múltiplas: radiocirurgia ou radioterapia de cérebro todo conforme número, tamanho e prognóstico
Meduloblastoma (criança)
ressecção + radioterapia CRANEOSPINAL + quimioterapia (adaptada ao risco/molecular) — dissemina pelo LCR: o tratamento precisa cobrir todo o neuroeixo
Prognóstico: glioblastoma mantém sobrevida mediana na casa de 15 meses apesar de tudo; mutação IDH e metilação de MGMT indicam melhor prognóstico e resposta à quimioterapia; meningiomas benignos ressecados têm sobrevida próxima ao normal; o meduloblastoma de risco padrão cura na maioria das crianças em protocolos modernos. Recorrência e progressão são a regra nos gliomas difusos de alto grau — seguimento com RM é vitalício.
Questões do módulo · 05
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.AvançadoHomem, 62 anos, crise convulsiva; RM: lesão temporal direita com realce anelar e necrose. Ressecção: glioblastoma, IDH selvagem, promotor MGMT metilado. Conduta adjuvante:
2.FundamentalMulher, 48 anos, cefaleia progressiva há 2 meses, pior nas manhãs e com esforço, chegando a despertá-la à noite; vômitos matinais; papiledema à fundoscopia. Exame de escolha:
06
Coluna: hérnia de disco e estenose
anatomia e radiculopatia L4–L5–S1 · bandeiras vermelhas e cauda equina · estenose e claudicação neurogênica × vascular · tratamento conservador (NICE) · discectomia e SPORT · mielopatia cervical
Níveis
L4–L5 e L5–S1
90–95% das hérnias lombares
Conservador
6–8 semanas
a maioria melhora; imagem só com red flag ou persistência
Cauda equina
< 48 h
janela para descompressão e preservação esfincteriana
Cirurgia eletiva
6–12 semanas
radiculopatia persistente com imagem concordante
1. Radiculopatia: reconhecer a raiz na prova
Raiz
Dor/parestesia
Déficit motor
Reflexo
L4
face anterior da coxa e medial da perna
extensão do joelho (quadríceps)
patelar diminuído
L5
glúteo, lateral da coxa, perna e DORSO do pé
extensão do hálux e dorsiflexão (marcha em steppage)
normal ou hamstring
S1
face posterior da coxa/perna e planta
flexão plantar (subir na ponta dos pés)
aquileu diminuído
2. Bandeiras vermelhas: o que muda a conduta
Red flag
Suspeita
Idade > 50 + história de câncer + dor noturna não mecânica + perda de peso
metástase (pulmão, mama, próstata, mieloma)
Febre + imunossupressão + uso de drogas IV + procedimento espinhal recente
espondilodiscite/abscesso epidural
Trauma significativo ou osteoporose/corticoterapia
fratura vertebral
Déficit motor progressivo
compressão radicular em agravamento
Retenção urinária + anestesia em sela
cauda equina — emergência
3. Estenose lombar: claudicação neurogênica
Claudicação NEUROGÊNICA (estenose)
Claudicação VASCULAR
Gatilho
caminhar em pé/estendido (compressão dinâmica)
caminhar qualquer distância fixa
O que alivia
SENTAR, flexionar o tronco (carrinho de mercado, bicicleta)
PARAR de andar, em qualquer posição
Pulsos/ITB
normais
reduzidos/ITB < 0,9
Dorso do pé
sem trofismo isquêmico
queda de pelos, cicatrização lenta
Déficit em repouso
frequentemente ausente
pode haver
4. Tratamento: a escada da coluna
Lombociatalgia sem red flag
Radiculopatia sem bandeira vermelha — qual o próximo passo?
▼
FASE AGUDA (0–6 semanas)
Sem imagem: orientação, manutenção da atividade possível, AINH + analgesia simples; repouso no leito piora o desfecho — não é conduta.
NICE NG59: não investigar rotineiramente nos primeiros 6 semanas sem red flags.
PERSISTENTE (6–12 semanas)
RM lombossacra quando a dor persiste e há intenção de tratamento invasivo; considerar infiltração epidural de corticoide para dor radicular.
Fisioterapia/exercícios estruturados.
INDICAÇÃO CIRÚRGICA
Cauda equina ou déficit motor progressivo: URGENTE.
Radiculopatia persistente > 6–12 semanas apesar de conservador otimizado + imagem CONCORDANTE: microdiscectomia.
Estenose com claudicação incapacitante refratária: descompressão (laminectomia); artrodese apenas com instabilidade/espondilolistese.
5. Coluna cervical: radiculopatia × mielopatia
Radiculopatia cervical: dor em braço com dermatomo (C6 — polegar e bicipital; C7 — dedos e tricipital), piora com extensão/rotação; tratamento conservador como no lombar.
Mielopatia cervical espondilótica: compressão da MEDULA — marcha espástica, hiperreflexia, sinal de Hoffmann/Babinski, clumsy hands (desajeitamento fino), urgência urinária tardia; a descompressão para a progressão (o dano feito não regride) — não confundir com radiculopatia.
Mão desajeitada + marcha espástica em idoso = RM cervical para mielopatia, não apenas tratamento de radiculopatia.
Prognóstico: 80–90% das lombociatalgias agudas melhoram em 6–8 semanas com tratamento conservador; a descompressão oportuna da cauda equina preserva esfíncteres na maioria; a estenose operada tem boa melhora da claudicação em 70–80% dos casos, com possibilidade de recorrência em anos.
Questões do módulo · 06
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioHomem, 45 anos, lombociatalgia direita há 3 semanas irradiando para o dorso do pé, parestesias no mesmo território, força 4/5 na extensão do hálux, sem alterações esfincterianas, sem febre. Conduta:
2.FundamentalHomem, 68 anos, dor e peso em ambas as pernas ao caminhar que o obrigam a parar; o alívio é rápido ao SENTAR e inclinar o tronco sobre o carrinho de mercado; consegue pedalar sem dor; pulsos pedios presentes e índice tornozelo-braquial normal. Diagnóstico:
aneurisma sacular e risco de ruptura · cefaleia em trovoada e HSA · TC × punção lombar × angiografia · complicações cronometradas (resangramento, vasoespasmo, hidrocefalia) · ISAT clip × coil · nimodipina · MAV e cavernomas
Causa de HSA
~85%
rotura de aneurisma sacular (polígono de Willis)
TC ≤ 6 h
~98–100%
sensibilidade — cai com o tempo; após, pensar punção lombar
Vasoespasmo
dias 4–14
pico 6–8; hipertensão induzida após exclusão do aneurisma
Nimodipina
60 mg 4/4 h
VO, 21 dias — melhora desfecho funcional
1. Diagnóstico: a sequência que não pode errar
Cefaleia em trovoada — como fechar HSA
Cefaleia súbita explosiva — qual a sequência?
▼
TC SEM CONTRASTE JÁ
Sensibilidade ~98–100% nas primeiras 6 h: sangue nas cisternas basais fecha o diagnóstico.
Confirmada a HSA: angio-TC (ou angiografia digital) para localizar o aneurisma + neurocirurgião — exclusão do aneurisma o quanto antes.
Iniciar nimodipina oral 60 mg 4/4 h (21 dias) e cuidado em UTI.
TC NEGATIVA + ALTA SUSPEITA (após 6 h)
Punção lombar: xantocromia (degradação do sangue) confirma HSA de dias.
Sem xantocromia e sem outra causa: investigar alternativas (RM: trombose venosa, dissecção arterial).
ANEURISMA LOCALIZADO
Escolher clipagem (craniotomia) × embolização endovascular (coil) — conforme anatomia, idade e experiência do centro (ISAT).
Angiografia negativa em HSA: repetir em 1–2 semanas (aneurismas pequenos podem se esconder no vasoespasmo).
2. Complicações cronometradas (a linha do tempo da prova)
Janela
Complicação
Conduta
1º dia (risco máximo)
ressangramento (~4% no primeiro dia; acumula 20–30% em semanas sem tratamento)
exclusão cirúrgica/endovascular PRECOCE do aneurisma (idealmente < 72 h)
Dias 4–14 (pico 6–8)
vasoespasmo e isquemia cerebral tardia (déficit novo sem re-sangramento)
nimodipina VO 21 dias; euvolemia; doppler transcraniano para vigilância; após exclusão do aneurisma: hipertensão induzida; refratário: angioplastia/vasodilatador intra-arterial
Primeiros dias a semanas
hidrocefalia aguda (DVE) e crônica (derivação em parte dos pacientes)
DVE se rebaixamento; derivação definitiva se persistir
Qualquer momento
hiponatremia (síndrome de perda de sal cerebral × SIADH — estado volêmico distingue)
perda de sal: reposição de volume/NaCl ± fludrocortisona; SIADH: restrição — avaliar volemia antes
anticonvulsivante se crise; suporte cardiorrespiratório
3. Clipar ou embolizar?
ISAT (Lancet 2002, 2.143 pacientes randomizados): embolização com coil versus clipagem — desfecho de morte ou dependência em 1 ano de 23,5% no grupo endovascular contra 30,9% no cirúrgico; a preferência endovascular para aneurismas elegíveis é a regra atual, aceitando mais retratamentos e um resangramento tardio discretamente maior. Favorecem a clipagem: aneurisma de cerebral média com hematoma associado, aneurisma de comunicante posterior com paralisia do III nervo (descompressão do nervo), colo largo/ramos incorporados e aneurismas grandes/gigantes. O princípio inegociável: aneurisma ROTO é tratado nas primeiras 24–72 h — o resangramento é o grande matador precoce.
4. Aneurisma não roto, MAV e cavernomas
Aneurisma não roto: prevalência em torno de 2–5% dos adultos; risco anual baixo para aneurismas < 7 mm de circulação anterior, crescendo com tamanho > 7 mm, circulação posterior, hipertensão, tabagismo, história familiar e HSA prévia (escore PHASES); decisão individualizada entre observar (controle de PA/tabagismo) e tratar.
MAV (malformação arteriovenosa): congênita, nidus sem capilares; apresenta-se com hemorragia (a mais temida, tipicamente em adultos jovens), crise epiléptica, cefaleia e sopro; risco de sangramento anual na casa de 2–4%, maior no 1º ano após sangrar; gradua-se por Spetzler-Martin (tamanho do nidus + eloquência + drenagem profunda) — graus baixos: cirurgia; pequenos e profundos: radiocirurgia estereotáxica (latência de 2–3 anos em que o risco persiste); embolização usualmente adjacente; o ensaio ARUBA favoreceu o tratamento clínico na MAV não rota, com críticas metodológicas — decisão individualizada.
Cavernoma (cavernomatose): crises e pequenos sangramentos recorrentes; RM com aspecto de pipoca (hemossiderina); risco hemorrágico anual < 1% fora do tronco; tratar crises e considerar ressecção quando acessível e sintomático — ressecar a veia de drenagem associada (anomalia venosa de desenvolvimento) é proibido.
Fístula dural: zumbido pulsátil/sopro; padrão agressivo com refluxo venoso cortical sangra — investigar com angiografia.
Prognóstico da HSA aneurismática: mortalidade em torno de 30–40% e parte dos sobreviventes com sequelas; a mortalidade cai com diagnóstico precoce, exclusão rápida do aneurisma, nimodipina, manejo do vasoespasmo e prevenção de hiponatremia/hipovolemia. A cefaleia trovoada atendida e liberada sem investigação é a tragédia evitável clássica.
Questões do módulo · 07
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioMulher, 54 anos, cefaleia súbita que atingiu intensidade máxima em segundos, com vômitos e rigidez de nuca; TC realizada 2 h após o início mostra sangue nas cisternas basais. Passo essencial seguinte:
2.Prova difícilMesma paciente: aneurisma da comunicante anterior embolizado com sucesso no dia 1. No dia 6, queda do Glasgow e hemiparesia nova; TC sem re-sangramento significativo e sem hidrocefalia; doppler transcraniano com velocidades muito elevadas. Causa provável e conduta:
R
Revisão de alta performance
Para a véspera: o essencial, os números, os macetes e as pegadinhas que decidem a prova
Resumo essencial por módulo
Módulo
A essência
Maior incidência
01 HIC e monitorização
Monroe-Kellie: tirar volume (LCR, hematoma, osmoterapia) e reduzir demanda (sedação, normocapnia); escada em degraus com PIC < 22 e CPP 60–70.
Limiares PIC/CPP, escada terapêutica, indicação de monitorização
02 TCE cirúrgico
ATLS primeiro (hipóxia/hipotensão matam); critérios operatórios objetivos por volume/espessura: EDH > 30 cm³, SDH > 10 mm, contusão > 50 cm³.
Canadian CT Rule + critérios de cirurgia por lesão
03 Hemorragia espontânea
Reverter anticoagulação + PAS 140 + cirurgia só clara na fossa posterior; STITCH II/CLEAR III delimitam o que a cirurgia não faz.
Alvo de PA, reversão, indicação cerebelar
04 Hidrocefalia/DVP
Obstrutiva × comunicante decide tratamento (VET × DVP); HNT = marcha + cognição + esfíncter com tap test; DVP que falha é emergência.
Tríade da HNT, complicações da DVP, cisto colóide
05 Tumores SNC
RM com contraste na cefaleia red flag; OMS 2021 é molecular (IDH/1p19q/MGMT); Stupp para GBM; dexametasona para edema peritumoral.
dexametasona 4 mg 6/6 h (16 mg/dia) com retirada gradual
Hérnia lombar
L4–L5 e L5–S1 = 90–95% · conservador 6–8 semanas · cirurgia 6–12 semanas · cauda equina < 48 h
HSA
TC ~98–100% em 6 h · resangramento ~4% no 1º dia · vasoespasmo dias 4–14 (pico 6–8) · nimodipina 60 mg 4/4 h × 21 d
ISAT
morte/dependência em 1 ano: coil 23,5% vs clipagem 30,9%
MAV
risco de sangramento anual ~2–4%; Spetzler-Martin I–V
Macetes que salvam
Macete
Regra
Escada da HIC
Cabeceira e sedação (0) → drena LCR e osmoterapia (1) → hiperventila só resgatando (30–35) → barbitúrico → craniectomia (RESCUEicp).
Biconvexo × crescente
biconvexo preso às suturas = extradural (meníngea média); crescente que cruza suturas = subdural (veias pontentes).
Cefaleia de tumor
progressiva + matinal + desperta do sono + piora com Valsalva + vômitos que aliviam = RM com contraste.
Cauda equina em 3 sinais
retenção (resíduo alto) + anestesia em sela + ciatalgia bilateral = RM urgente e descompressão < 48 h.
Carrinho de mercado
claudicação que melhora ao sentar/flexionar = estenose (neurogênica); pulsos e ITB normais.
Cronologia da HSA
resangramento no dia 1, vasoespasmo do 4 ao 14 (pico 6–8), hidrocefalia quando quiser, hiponatremia à espreita — tudo com nimodipina desde o dia 1.
Pupila que cresce
midríase + ptose ipsilateral = comunicante posterior (III nervo); anisocoria no TCE = hérnia uncal ipsilateral ao hematoma.
As pegadinhas mais cobradas
Corticoide não trata HIC de TCE nem edema da hemorragia intracerebral — aumenta mortalidade no trauma; só serve para edema vasogênico peritumoral (e da coluna compresiva).
Limiar moderno de PIC é 22 mmHg (não 20); CPP alvo 60–70 (não mais 70–90).
Hiperventilação profilática nas primeiras 24 h é contraindicada; é resgate temporário com PaCO₂ 30–35.
Manitol em hipovolêmico (PAS < 90): estabilizar antes — diurético osmótico em choque agrava a hipoperfusão.
Extradural pequeno e Glasgow alto não vai à sala: < 30 cm³, < 15 mm, desvio < 5 mm e GCS > 8 = clínico + TC seriada.
Intervalo lúcido é clássico do extradural mas está presente em minoria; subdural crônico do idoso pode ter semanas.
Alvo de PAS na hemorragia intracerebral é 140 (130–150) — nem 180 (antigo) nem < 130 (hipoperfusão).
Hematoma putaminal/talâmico não se opera; o único sítio com indicação clara de cirurgia é o cerebelar > 3 cm/com tronco comprimido.
Transfusão de plaquetas na hemorragia do antiagregado não é rotina (piora desfecho); PCC 4F supera plasma na reversão da varfarina.
Punção lombar: permitida na hidrocefalia comunicante (tap test) e proibida na obstrutiva/efeito de massa — a banca inverte.
DVP com cefaleia e vômitos é emergência (obstrução até prova contrária); com febre, some infecção por estafilococo coagulase-negativa.
Na HSA, TC negativa após 6 h com suspeita alta não encerra: punção lombar para xantocromia; angio negativa: repetir.
Craniectomia precoce de rotina no TCE difuso piora desfecho (DECRA); como último degrau reduz mortalidade com mais sequelas (RESCUEicp).
Informações que não podem ser esquecidas
Toda anisocoria nova em paciente neurológico é hérnia uncal: hiperventilar + osmoterapia + neurocirurgia imediata.
Todo TCE grave começa com ATLS: zero hipóxia e zero PAS < 90 antes de qualquer discussão cerebral.
Toda hemorragia intracerebral em anticoagulado: reverter AGORA (PCC + vitamina K / antidotos específicos) — cada minuto de INR alto expande o hematoma.
Todo hematoma cerebelar > 3 cm ou com tronco comprimido é cirurgia urgente — a fossa posterior mata por hérnia tonsilar.
Todo portador de DVP que piora é disfunção da derivação até TC comparativa + shunt series provarem o contrário.
Toda cefaleia em trovoada é HSA até TC (e punção lombar, se TC negativa após 6 h) dizerem que não.
Toda lombociatalgia com retenção ou sela anestésica é cauda equina: RM urgente e descompressão em até 48 h.
Todo aneurisma roto é excluído nas primeiras 24–72 h com nimodipina oral desde o dia 1.
Quadro-síntese: diagnóstico pela palavra-chave
Se a questão diz…
Pense em…
Cefaleia súbita que atinge máximo em segundos + rigidez de nuca
Hemorragia subaracnoidea aneurismática
Intervalo lúcido + hematoma biconvexo temporal
Extradural (artéria meníngea média)
Idoso com atrofia, trauma banal e coleção em crescente
Subdural (agudo ou crônico)
Coma imediato pós-desaceleração com TC normal
Lesão axonal difusa
Hipertensão + bradicardia + respiração irregular
Síndrome de Cushing (herniação)
Midríase + ptose + cefaleia trovoada
Aneurisma de comunicante posterior
Marcha magnética + incontinência + lentificação com ventrículos grandes
Hidrocefalia normotensiva
Cefaleia matinal que desperta + papiledema em adulto
Tumor cerebral — RM com contraste
Claudicação que melhora sentado curvado (carrinho de mercado)
Estenose lombar (neurogênica)
Retenção urinária + anestesia em sela + ciatalgia bilateral
Síndrome da cauda equina
Queda do Glasgow no dia 6 de HSA com doppler acelerado
Vasoespasmo / isquemia cerebral tardia
Criança com macrocrania, fontanela tensa e olhar em pôr-do-sol
Hidrocefalia
Prova final — bateria geral
7 questões cobrindo todos os módulos proporcionalmente + gabarito
1.IntermediárioPaciente com TCE grave monitorado: PIC 24 mmHg, PAS 108 mmHg, PAD 66 mmHg. CPP atual e interpretação:
2.FundamentalMulher, 72 anos, queda da própria altura com perda de consciência testemunhada; 2 h após: Glasgow 15, sem déficit focal, dois episódios de vômito, sem sinais de fratura de base. Conduta conforme a regra canadense de TC:
3.AvançadoHomem, 76 anos, em varfarina por fibrilação atrial (INR 3,2), chega com déficit há 40 minutos; TC: hematoma lobar de 35 mL com sangue intraventricular. Conduta de reversão:
4.Prova difícilHomem, 28 anos, cefaleias paroxísticas intensas desencadeadas por mudança de posição, às vezes com quedas; RM: cisto colóide do 3º ventrículo com ventriculomegalia. Conduta:
5.AvançadoCriança de 7 anos: cefaleia matinal, vômitos e ataxia de tronco; RM: lesão do verme cerebelar com hidrocefalia; ressecção parcial com anatomopatológico de meduloblastoma. Componente essencial do tratamento adjuvante:
6.IntermediárioHomem, 40 anos, lombociatalgia S1 à esquerda há 12 semanas apesar de tratamento conservador otimizado; RM: hérnia extruda L5–S1 esquerda comprimindo a raiz; força da flexão plantar 4/5; esfíncteres normais. Melhor conduta:
7.FundamentalQual medida tem evidência de melhora do desfecho funcional na hemorragia subaracnoidea aneurismática?
Gabarito rápido
1-A · 2-A · 3-A · 4-A · 5-A · 6-A · 7-A
Referencial teórico
15 fontes reais · DOI verificado
diretriz / revisãoCarney N, Totten AM, O'Reilly C, et al. Guidelines for the Management of Severe Traumatic Brain Injury, Fourth Edition. Neurosurgery. 2017;80(1):6–15.doi.org/10.1227/NEU.0000000000001432
diretriz / revisãoStiell IG, Wells GA, Vandemheen K, et al. The Canadian CT Head Rule for patients with minor head injury. Lancet. 2001;357(9266):1391–6.doi.org/10.1016/S0140-6736(00)04561-X
diretriz / revisãoCooper DJ, Rosenfeld JV, Murray L, et al. Decompressive Craniectomy in Diffuse Traumatic Brain Injury (DECRA). N Engl J Med. 2011;364(16):1493–502.doi.org/10.1056/NEJMoa1102077
diretriz / revisãoHutchinson PJ, Kolias AG, Timofeev IS, et al. Trial of Decompressive Craniectomy for Traumatic Intracranial Hypertension (RESCUEicp). N Engl J Med. 2016;375(12):1119–30.doi.org/10.1056/NEJMoa1605215
diretriz / revisãoGreenberg SM, Ziai WC, Cordonnier C, et al. 2022 Guideline for the Management of Patients With Spontaneous Intracerebral Hemorrhage: A Guideline From the American Heart Association/American Stroke Association. Stroke. 2022;53(7):e284–e361.doi.org/10.1161/STR.0000000000000407
diretriz / revisãoAnderson CS, Heeley E, Huang Y, et al. Rapid Blood-Pressure Lowering in Patients with Acute Intracerebral Hemorrhage (INTERACT2). N Engl J Med. 2013;368(25):2355–65.doi.org/10.1056/NEJMoa1214609
diretriz / revisãoMendelow AD, Gregson BA, Rowan EN, et al. Early surgery versus initial conservative treatment in patients with spontaneous supratentorial lobar intracerebral haematomas (STITCH II). Lancet. 2013;382(9890):397–408.doi.org/10.1016/S0140-6736(13)60986-1
diretriz / revisãoHanley DF, Lane K, McBee N, et al. Thrombolytic removal of intraventricular haemorrhage in treatment of severe stroke: results of the randomised, multicentre, multiregion, placebo-controlled CLEAR III trial. Lancet. 2017;389(10069):603–11.doi.org/10.1016/S0140-6736(16)32410-2
diretriz / revisãoWen PY, Packer RJ. The 2021 WHO Classification of Tumors of the Central Nervous System: a summary. Neuro Oncol. 2021;23(8):1211–7.doi.org/10.1093/neuonc/noab106
diretriz / revisãoStupp R, Mason WP, van den Bent MJ, et al. Radiotherapy plus Concomitant and Adjuvant Temozolomide for Glioblastoma. N Engl J Med. 2005;352(10):987–96.doi.org/10.1056/NEJMoa043330
diretriz / revisãoKreiner DS, Hwang SW, Easa JE, et al. An evidence-based clinical guideline for the diagnosis and treatment of lumbar disc herniation with radiculopathy. Spine J. 2014;14(1):180–91.doi.org/10.1016/j.spinee.2013.08.003
diretriz / revisãoWeinstein JN, Lurie JD, Tosteson TD, et al. Surgical vs Nonoperative Treatment for Lumbar Disk Herniation (SPORT). JAMA. 2006;296(20):2441–50.doi.org/10.1001/jama.296.20.2441
diretriz / revisãoConnolly ES Jr, Rabinstein AA, Carhuapoma JR, et al. Guidelines for the Management of Aneurysmal Subarachnoid Hemorrhage: A Guideline for Healthcare Professionals From the American Heart Association/American Stroke Association. Stroke. 2012;43(6):1711–37.doi.org/10.1161/STR.0b013e3182587839
diretriz / revisãoMolyneux A, Kerr R, Stratton I, et al. International Subarachnoid Aneurysm Trial (ISAT) of neurosurgical clipping versus endovascular coiling in 2143 patients with ruptured intracranial aneurysms: a randomised trial. Lancet. 2002;360(9342):1267–74.doi.org/10.1016/S0140-6736(02)11314-6
notaResumo didático elaborado a partir das diretrizes e revisões acima (verificáveis pelo DOI) e dos artigos publicados desta matéria na Central de Estudos (fonte principal). Nenhuma referência inventada; em caso de divergência entre fontes, vale a versão vigente do protocolo oficial — confira sempre antes da conduta real.
acesso de membros
Entre para acessar
Matérias, materiais na íntegra, resumos, quiz e revisões ficam liberados na sua conta — a prévia desfocada é só um gostinho.