Baseado nos artigos publicados da matéria Imunologia da Central de Estudos (fonte principal) e em revisões e diretrizes de alto impacto — Nature Reviews Immunology, Nature, NEJM, JACI, Cell, Science, WAO/EAACI 2020-2021 e classificação IUIS 2022 (complemento, sempre com DOI). Resumo de estudo — na conduta real, confira sempre a versão vigente do protocolo.
01
Imunidade inata, hipótese do perigo e complemento
barreiras e células inatas · PRRs e TLRs · DAMPs e modelo do perigo · inflamassoma · complemento: vias, regulação e doenças (HAE, SHUa, HPN)
Resposta inata
min–horas
sem especificidade de antígeno, sem memória
Complemento
> 30 proteínas
cascata solúvel da imunidade inata
Terminal C5b–9
MAC
defeito → meningococcemia recorrente
CH50 / AH50
clássica / alternativa
triagem laboratorial das deficiências
1. As duas metades do sistema imune
A imunidade inata responde em minutos a horas com receptores codificados na linhagem germinativa (PRRs), sem especificidade fina e sem memória; a adaptativa responde em dias com receptores clonais (TCR/BCR) gerados por recombinação somática, com especificidade e memória. As duas se comunicam: a inata decide SE e COMO responder (sinal de perigo), e a célula dendrítica é a ponte que leva o antígeno ao linfócito virgem.
Barreiras são a primeira linha: pele íntegra, mucosas com muco e cílios, pH gástrico ácido, lisozima e lactoferrina nas secreções, flora comensal que compete com patógenos. A falha de barreira (queimadura, cateter, mucosite) explica grande parte das infecções hospitalares — antes de qualquer defeito imunológico.
2. Células e mecanismos efetores inatos
Neutrófilos: primeira célula recrutada ao foco (quimiotaxia por C5a, IL-8, fMLP); abscesso = neutrófilos mortos + tecido necrótico.
Macrófagos residentes: os primeiros a reconhecer o patógeno no tecido; fagocitose, apresentação em MHC II e produção de citocinas (IL-1, TNF, IL-6 — a base da febre e da resposta de fase aguda).
Células dendríticas: capturam antígeno no tecido, maturam com o sinal de perigo e migram ao linfonodo — a única célula que ativa linfócitos T virgens com eficiência.
Células NK: citotoxicidade inata contra células com MHC I reduzido e via ADCC.
Citocinas antivirais: IFN tipo I (alfa/beta) produzido pela célula infectada induz estado antiviral nas vizinhas — o mesmo eixo da síndrome gripal das interferonizações.
3. PRRs: os receptores que reconhecem o padrão
PRRs reconhecem PAMPs (padrões moleculares de patógenos conservados pela evolução) e distribuem-se por compartimento — membrana, endossomo e citosol. A família mais cobrada é a dos Toll-like receptors (TLRs):
4. Hipótese do perigo: o que de fato ativa a imunidade
O modelo clássico self × non-self (Burnet) não explica por que o sistema responde a vacinas com adjuvante, a enxertos e ao feto semialogênico — nem por que NÃO responde à flora comensal. Matzinger propôs a hipótese do perigo: o sistema imune responde a sinais de dano e estresse celular, não apenas ao que é estranho. Células necróticas e estressadas liberam DAMPs (alarminas) — HMGB1, ATP extracelular, cristais de urato, proteínas de choque térmico — que ativam as mesmas células e receptores que os PAMPs. A resposta adaptativa só começa quando a inata entrega ao linfócito o antígeno (sinal 1) MAIS o sinal de perigo (sinal 2 de costimulação).
5. Sistema complemento: três vias, uma convergência
Via
Gatilho
C3-convertase
Clássica
C1q ligado a IgM ou IgG imunocomplexado (IgM > IgG3 > IgG1)
C4b2a
Lectina
mannose-binding lectin (MBL) e ficolinas ligando carboidratos microbianos
C4b2a
Alternativa
hidrólise espontânea de C3 (tick-over) + fatores B/D; amplificação em superfícies sem regulação
C3bBb
As três vias convergem em C3 — a proteína mais abundante da cascata. C3b deposita-se na superfície do microrganismo (opsonização, reconhecida por CR1/CR3 dos fagócitos), gera C5-convertase, cliva C5 e permite a montagem do complexo de ataque à membrana C5b–9 (MAC, lise osmótica). Fragmentos derivados: C5a (a anafilatoxina e quimiotático mais potente — recruta neutrófilos e contrai músculo liso) e C3a. O depósito de C3d sobre o antígeno, lido pelo CD21 do linfócito B, baixa o limiar de ativação do BCR — o complemento é literalmente a ponte inata-adaptativa.
6. Regulação do complemento — onde moram as doenças
Regulador
Função
Perda → doença
C1-inibidor (C1-INH)
freia C1r/s e MASP da via clássica/lectina e a calicreína do eixo da bradicinina
angioedema hereditário (HAE)
Fator H, fator I, MCP (CD46)
desativam a amplificação da via alternativa nas superfícies do hospedeiro
SHU atípica
DAF (CD55)
acelera o decaimento das convertases nas células próprias
hemoglobinúria paroxística noturna
CD59
impede a montagem do MAC na célula própria
HPN (junto com o DAF)
Deficiência
Quadro
C3 (ou sua via)
infecções piogênicas graves de repetição + glomerulonefrite por complexos imunes
C5–C8 (montagem do MAC)
meningococcemia e gonococcemia recorrentes — paciente saudável entre os episódios
C1q, C2, C4 (via clássica)
depuração de imunocomplexos falha → fenótipo lúpus-like
C1-INH
HAE: angioedema recorrente mediado por bradicinina
Fator H/I/MCP
SHU atípica: anemia hemolítica microangiopática + trombocitopenia + lesão renal
DAF/CD59 (defeito adquirido de PIGA)
HPN: hemólise intravascular por MAC, crises noturnas e trombose
Questões do módulo · 01
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioAdolescente de 15 anos apresenta o terceiro episódio de angioedema de língua e lábios em um ano, o último após extração dentária, SEM urticária ou prurido, com resolução espontânea em 2 dias; anti-histamínico e corticoide nas crises anteriores não mudaram a evolução. C4 sérico baixo; C3 normal. O mecanismo do quadro é:
2.AvançadoJovem de 18 anos sobreviveu a 2 episódios de doença meningocócica invasiva por sorogrupos diferentes, sem outros antecedentes infecciosos; imunoglobulinas normais. CH50 e AH50 indetectáveis. O defeito mais provável e a medida obrigatória que acompanha o diagnóstico:
desenvolvimento e seleção no timo e na medula · os 3 sinais da ativação · subsets de TCD4 · centro germinativo: hipermutação e troca de classe · memória
1. Desenvolvimento dos linfócitos T no timo
Progenitores da medula óssea colonizam o timo, rearranjam o TCR (seleção beta) e tornam-se duplo-positivos CD4+CD8+. Seguem duas peneiras:
Seleção POSITIVA (córtex): o TCR que reconhece MHC próprio com afinidade adequada sobrevive — e define se a célula enxerga MHC I (vira CD8) ou MHC II (vira CD4).
Seleção NEGATIVA (medula): o TCR de ALTA afinidade por peptídeo próprio induz apoptose — deleção clonal. Mais de 95% dos timócitos morrem no processo.
AIRE (regulador autoimune) permite às células epiteliais medulares expressar antígenos de tecidos periféricos (insulina, proteína básica da mielina) para essa peneira — sua falha causa autoimunidade múltipla (APECED).
2. Ativação do linfócito T virgem: os 3 sinais
Fluxo da ativação de célula T virgem
A célula T virgem recebeu o sinal 1 (TCR + peptídeo-MHC) — recebeu o sinal 2 (CD28 × B7/CD80-86 na APC)?
▼
SIM + sinal 3 (IL-2 e citocinas)
Expansão clonal, diferenciação em efetora (Th1, Th2, Th17, Tfh, Tc) e geração de memória.
A qualidade do sinal 3 polariza a resposta.
NÃO — sinal 1 isolado
ANERGIA: a célula entra em paralisia funcional e não responde ao antígeno mesmo reencontrando-o.
É o princípio do belatacepte (CTLA-4-Ig) no transplante e da tolerância periférica.
COM EXCESSO DE CTLA-4/PD-1
Checkpoints inibitórios competem com o CD28 e desligam a resposta nos tecidos.
Bloqueá-los (ipilimumabe, nivolumabe) libera a resposta antitumoral — e causa autoimunidade.
3. Subsets de TCD4: o destino define a função
Subset
Fator / citocina-chave
Função
Correlato clínico
Th1
T-bet · IFN-γ, IL-2
ativa macrófagos (imunidade celular, DTH), defesa contra intracelulares
tipo IV de Gell-Coombs; falha do eixo IL-12/IFN-γ → micobactérios
Th2
GATA3 · IL-4, IL-5, IL-13
ativa eosinófilos e mastócitos, troca para IgE; helmintos
atopia e asma alérgica
Th17
RORγt · IL-17, IL-22 (estabilizada por IL-23)
recruta neutrófilos; defesa fúngica e extracelular
espondilite, psoríase — alvo de anti-IL-17/anti-IL-23
Treg
FoxP3 · IL-10, TGF-β
suprime a resposta (tolerância periférica)
IPEX quando FoxP3 falha
Tfh
Bcl6 · IL-21
socorre o B no folículo e no centro germinativo
obrigatória para troca de classe e hipermutação
O TCD8 citotóxico mata pela via granular (perforina cria poros e as granzimas entram para induzir apoptose) e pela via Fas-FasL — o mesmo mecanismo do NK. O defeito de citotoxicidade (perforina, granzimas, Rab27a/MUNC13-4) causa a linfohistiocitose hemofagocítica.
4. Resposta B: T-dependente × T-independente
T-dependente (proteínas)
T-independente (polissacarídeos, repetições)
Colaboração
o B apresenta peptídeo em MHC II ao Tfh (ponte CD40-CD40L)
aglutinação cruzada do BCR sem ajuda T
Isotipos
troca de classe plena: IgG, IgA, IgE
predomina IgM, troca escassa
Afinidade
hipermutação somática + seleção no centro germinativo
sem maturação de afinidade
Memória
duradoura (a base das vacinas conjugadas)
curta ou ausente — o lactente responde mal a polissacarídeo puro
5. Resposta primária × secundária
Primária: latência de dias, IgM aparece primeiro e depois IgG de afinidade moderada, títulos baixos. Secundária (memória): latência curta, títulos muito maiores, predomínio de IgG/IgA de alta afinidade — a razão imunológica dos reforços vacinais e da proteção duradoura após infecção natural.
Questões do módulo · 02
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioMenino de 4 anos com pneumonias de repetição por germes piogênicos e uma pneumonia por Pneumocystis jirovecii. Exames: IgM sérica ELEVADA, IgG e IgA muito baixas, linfócitos B presentes, linfonodos sem centros germinativos. O defeito molecular mais provável:
2.AvançadoEm um modelo experimental, um linfócito T virgem reconhece peptídeo-MHC em uma célula do hospedeiro que NÃO expressa moléculas B7 (CD80/86). Qual a consequência imunológica desse encontro?
1. Estrutura: uma molécula com dois territórios funcionais
A imunoglobulina é um tetrâmero de 2 cadeias pesadas + 2 leves unidas por pontes dissulfeto, organizado em domínios Ig de cerca de 110 aminoácidos. Cada braço carrega a região VARIÁVEL (VH + VL, com as CDRs hipervariáveis que formam o sítio de ligação) e a região CONSTANTE. A digestão enzimática clássica define os territórios: papaína gera 2 Fab (antigen binding) + 1 Fc (efetor); pepsina gera 1 F(ab')2 bivalente. A região dobradiça dá flexibilidade entre Fab e Fc — e concentra as diferenças entre subclasses.
única que atravessa a placenta (FcRn, sobretudo no 3º trimestre); opsoniza, ativa complemento (IgG3 > IgG1) e faz ADCC; principal Ig da resposta secundária
IgM
pentâmero + cadeia J (10 sítios, avidez máxima)
primeira produzida (resposta primária); NÃO cruza placenta — IgM elevada no RN = infecção congênita (toxoplasmose, rubéola, CMV, sífilis); os anti-A e anti-B naturais são IgM; a melhor ativadora do complemento
IgA
monômero no soro; DIMERO + cadeia J + peça secretória nas mucosas
a imunoglobulina produzida em maior quantidade por dia (a maior parte no trato gastrointestinal); principal Ig do leite materno e das secreções; a peça secretória (do epitélio) a protege das proteases
IgE
monômero; menor concentração sérica
citofílica: liga o FcεRI de mastócitos e basófilos com alta afinidade — base da alergia tipo I e da defesa contra helmintos; meia-vida sérica curta (dias), longa quando ligada ao mastócito
IgD
monômero
quase toda ancorada como receptor na superfície do B maduro (ao lado da IgM); função sérica desprezível
3. Subclasses de IgG — números e viés de função
IgG1 responde por ~60–70% da IgG total, IgG2 por ~20–30%, IgG3 por ~5–8% e IgG4 por menos de 5%. Viés funcional: IgG2 é a subclasse dirigida a antígenos polissacarídicos capsulares (sua deficiência cursa com otites e sinusites por pneumococo e Haemophilus); IgG3 é a mais potente em complemento e ADCC, mas tem meia-vida de apenas ~7 dias, herdada da sua dobradiça longa (também a mais imunogênica em aloimunização); IgG4 marca exposições repetidas, doença relacionada a IgG4 e uso de biológicos.
4. Funções efetoras — o que o Fc contrata
Neutralização (Fab): bloqueia a adesão e a entrada de vírus e bactérias e a ação de toxinas — não exige Fc.
Opsonização: os FcγR dos fagócitos reconhecem a IgG ligada; o C3b soma esforços sobre o mesmo alvo.
Ativação do complemento pela via clássica: IgM (após mudança conformacional ao ligar o antígeno) > IgG3 > IgG1; exige dois Fc próximos na superfície.
ADCC: o NK reconhece a IgG via FcγRIII (CD16) e mata a célula opsonizada — mecanismo central do rituximabe.
Transferência passiva: IgG via placenta (proteção do RN por cerca de 6 meses) e IgA via colostro; o anticorpo materno, porém, interfere na resposta vacinal do RN nas primeiras semanas — parte da lógica do espaçamento do calendário.
Reciclagem pelo FcRn: o receptor neonatal Fc devolve a IgG à circulação e explica a meia-vida de ~21 dias — a engenharia da meia-vida estendida sustenta os anticorpos terapêuticos de intervalo mensal.
5. Aplicações clínicas diretas
Anticorpos monoclonais: sufixo -zumabe (omalizumabe anti-IgE na asma e urticária; rituximabe anti-CD20; infliximabe anti-TNF) — versões humanizadas/humanas reduzem imunogenicidade.
Imunoglobulina humana (IVIG/SCIG): reposição nas deficiências humorais; doses imunomoduladoras na PTI e em Guillain-Barré.
Eletroforese e dosagens: pico monoclonal M (mieloma IgG; IgM monoclonal sugere macroglobulinemia de Waldenström); dosar subclasses quando há infecções recorrentes com IgG total normal.
Sorologias: IgM = infecção aguda ou recente; IgG isolada = contato prévio ou vacinação; a conversão de IgG negativa para positiva em amostras pareadas fecha a infecção recente.
Questões do módulo · 03
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalRecém-nascido a termo, saudável, filho de mãe imunizada. Qual mecanismo explica a proteção humoral contra bactérias piogênicas nas primeiras semanas de vida?
2.IntermediárioPaciente em uso de rituximabe (anticorpo anti-CD20) tem linfócitos B circulantes opsonizados pelo fármaco destruídos por células NK, sem participação de complemento como mecanismo principal. A função do anticorpo exemplificada e o receptor envolvido:
via citosólica × endossômica · estrutura e distribuição de MHC I e II · restrição MHC · polimorfismo HLA · associações HLA-doença (B27, DQ2/DQ8)
1. As duas vias de processamento
Via citosólica (endógena)
Via endossômica (exógena)
Origem do antígeno
proteínas sintetizadas na célula (vírus, tumor, próprias)
proteínas capturadas do meio (bactérias extracelulares, toxinas, alérgenos)
Processamento
ubiquitinação + PROTEASSOMA → peptídeos de 8–10 aa
endossomo/lixossoma com catepsinas → peptídeos de 13–25 aa
Carregamento
peptídeos entram do citosol pelo TAP até o retículo
a cadeia invariante (CLIP) é trocada pelo peptídeo no compartimento MIIC
MHC e quem reconhece
MHC I (cadeia pesada + β2-microglobulina) → TCD8
MHC II (cadeias α + β) → TCD4
Distribuição do MHC
TODAS as células nucleadas (+ plaquetas)
células apresentadoras profissionais: dendrítica, macrófago, linfócito B (induzível por IFN-γ em outros tipos)
2. Restrição MHC: o experimento que valeu o Nobel
Zinkernagel e Doherty (1974, Nobel 1996) mostraram que linfócitos T citotóxicos de camundongo A só matam células infectadas pelo vírus da coriomeningite linfocítica SE as células-alvo expressarem o MHC I do próprio camundongo A: o TCR reconhece SIMULTANEAMENTE peptídeo + MHC próprio. Consequência prática: não há resposta T contra antígeno apresentado em MHC alógênico — e a diversidade de MHC entre indivíduos explica por que a compatibilidade HLA importa no transplante e na resistência populacional a vírus.
3. Polimorfismo HLA: o locus mais variável do genoma
Os genes HLA são os mais polimórficos conhecidos, com expressão codominante: cada indivíduo exibe até 6 moléculas de classe I e até 12 de classe II (uma de cada haplótipo parental).
Os aminoácidos variáveis concentram-se na FENDA peptídica — cada alelo exibe um repertório distinto de peptídeos.
Vantagem populacional: a heterozigose amplia a cobertura de peptídeos apresentados (seleção balanceadora); custo individual: alelos que apresentam peptídeos próprios com alta eficiência predisõem à autoimunidade.
Haplótipo: bloco HLA herdado em conjunto de um dos progenitores — base do pareamento familiar em transplante.
4. Cross-apresentação e a ponte inata-adaptativa
Células dendríticas especializadas conseguem levar antígeno EXÓGENO à via do MHC I (cross-apresentação) — é assim que vacinas de subunidades e antígenos de células apoptóticas geram TCD8. A dendrítica imatura captura antígeno no tecido; o sinal de perigo (TLRs, DAMPs) a faz MADURAR (upregula MHC e B7) e migrar ao linfonodo, onde ativa o T virgem — sem maturação, a mesma célula induz tolerância. Este é o fundamento dos adjuvantes vacinais.
5. Associações HLA-doença: a tabela que fecha questões
Alelo HLA
Doença
Nota de prova
HLA-B27
espondilite ancilosante (presente em mais de 90% dos pacientes), artrite reativa, uveíte anterior aguda
a associação mais forte da imunogenética humana; mecanismo não totalmente esclarecido
HLA-DQ2 / DQ8
doença celíaca (presentes na quase totalidade dos pacientes)
HLA é necessário, não suficiente: DQ2 e DQ8 NEGATIVOS tornam o diagnóstico muito improvável (alto valor preditivo negativo — ESPGHAN 2020)
HLA-DR3 / DR4
diabetes melito tipo 1
haplótipos DR3-DQ2 e DR4-DQ8; risco maior com dose dupla
HLA-DQB1*06:02
narcolepsia com cataplexia
presente na quase totalidade dos casos — favorito de prova
HLA-B51
doença de Behçet
associação clássica em populações do Oriente Médio e da Rota da Seda
Questões do módulo · 04
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioCélula epitelial infectada por vírus de RNA precisa alertar linfócitos T CD8 sobre proteínas virais sintetizadas no seu citosol. O caminho correto do antígeno é:
2.Prova difícilCriança com diarreia crônica e baixo peso; sorologia antitransglutaminase IgA repetidamente NEGATIVA (IgA total normal) e tipagem negativa para HLA-DQ2 e DQ8. A interpretação correta:
mimica a infecção natural: resposta forte e duradoura, celular E humoral; contraindicada na imunossupressão grave e na gestação (agente vivo replicante)
Inativada (morta)
VIP (Salk), influenza injetável, raiva, hepatite A
segura em imunodeprimidos e gestantes; resposta predominantemente humoral, exige reforços
Subunidade / toxoide
toxoide tetânico e diftérico, pertussis acelular
antígeno definido + adjuvante; sem material genético do agente
polissacarídeo capsular LIGADO a proteína transportadora: recruta Tfh, permite troca de classe e memória e FUNCIONA no lactente — a polissacarídica pura é T-independente e falha nessa faixa
Recombinante (proteína/VLP)
hepatite B (HBsAg em levedura), HPV (cápside L1)
partículas sem genoma; excelente perfil de segurança
mRNA
BNT162b2, mRNA-1273 (COVID-19)
RNA em liponanopartícula codifica a proteína S no citosol do hospedeiro: apresentação por MHC I e II (resposta humoral e celular), sem entrar no núcleo e sem integrar o genoma; escalabilidade rápida
Vetor viral não replicante
ChAdOx1 (adenovírus), Ad26 (Janssen)
DNA viral entra no núcleo (sem integração) e expressa o antígeno; imunidade prévia ao vetor pode reduzir a resposta
2. Marcos do calendário brasileiro (PNI) que valem ponto
Nascimento: BCG (protege contra as formas miliar e meníngea da tuberculose da criança) + hepatite B, ainda na maternidade.
2, 4 e 6 meses: pentavalente (DTP + Hib + hepatite B), VIP e pneumocócica conjugada 10-valente; o rotavírus oral completa o esquema aos 2 e 4 meses.
12 meses: tríplice viral (1ª dose); 15 meses: 2ª dose da tríplice viral e reforços (DTP, Hib, pneumococo).
Adolescentes: HPV (duas doses) e atualizações conforme o calendário vigente; gestantes: dTpa a CADA gestação (idealmente entre 27 e 36 semanas) para proteger o RN contra coqueluche pelo anticorpo transferido.
A VIP substituiu a VOP no esquema infantil de rotina; a VOP permanece em campanhas, e os contatos de imunodeprimidos devem receber VIP em vez de VOP.
Contraindicada na imunossupressão grave (SCID, quimioterapia intensa, corticoide em dose alta, transplante recente): risco de doença pelo agente vacinal (BCGite disseminada no SCID).
Gestantes também não recebem atenuadas.
NÃO (inativadas, subunidades, conjugadas, recombinantes, mRNA)
Seguras — a resposta pode ser menor: medir sorologia quando disponível e reforçar depois.
Sempre que possível, vacinar ANTES da imunossupressão prevista.
CONTATOS DOMICILIARES DO IMUNODEPRIMIDO
Devem estar com o calendário em dia (proteção indireta); recebem VIP em vez de VOP; tríplice viral e varicela são permitidas nos contatos saudáveis.
4. Imunidade de rebanho e hesitância
A imunidade de rebanho protege os não vacinados quando a cobertura interrompe a cadeia de transmissão — o sarampo, uma das doenças mais contagiosas que existem, exige cobertura de 95% ou mais; coberturas em queda explicam os surtos das décadas de 2010-2020 no Brasil e no mundo. A hesitância vacinal (definição do grupo SAGE/OMS: adiamento ou recusa apesar da disponibilidade) tem determinantes clássicos organizados em 3 Cs: confiança (na vacina, no serviço, no profissional), complacência (percepção de baixo risco) e conveniência (acesso). Conduta: acolher a dúvida sem constranger, corrigir desinformação com dados e registrar cada recusa.
Questões do módulo · 05
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioCriança de 3 anos em quimioterapia de indução para leucemia linfoblástica aguda, com imunossupressão intensa. O calendário vacinal deve:
2.AvançadoA plataforma de mRNA das vacinas anti-COVID-19 (BNT162b2, mRNA-1273) gera resposta imunológica porque:
círculos de excisão do receptor T — detectam SCID no teste do pezinho
IVIG
400–600 mg/kg
a cada 3–4 semanas (consenso brasileiro)
Sinal de alerta
≥ 2 pneumonias/ano
no adulto, sem explicação — investigar
1. Conceito e epidemiologia
Imunodeficiências primárias — hoje chamadas erros inatos da imunidade (IEI) — são defeitos monogênicos ou de padrão definido do desenvolvimento ou da função imune, presentes desde o nascimento. A atualização IUIS 2022 cataloga mais de 400 fenótipos. A deficiência seletiva de IgA é a mais comum (estimativas populacionais variam, na faixa de 1:300 a 1:700 conforme a série), muitas vezes assintomática; o CVID é a IEI sintomática mais frequente no adulto (cerca de 1:25.000 a 1:50.000 nas séries clássicas). O clínico não precisa decorar genes: precisa SUSPEITAR.
2. Sinais de alerta (adaptados dos 10 da Jeffrey Modell Foundation)
Quatro ou mais novas otites por ano na criança (ou duas no adulto sem causa); duas ou mais sinusites por ano; duas ou mais pneumonias em 1 ano ou pneumonia com hospitalização.
Antibioticoterapia por 2 meses ou mais sem efeito; necessidade repetida de antibiótico venoso.
Abscessos profundos ou recorrentes de pele e órgãos; linfadenopatia ou visceromegalia inexplicada.
Candidíase oral persistente após os 6 meses de vida ou infecções por germes OPORTUNISTAS (Pneumocystis, Aspergillus, CMV, BCGite).
Falha de crescimento, diarreia crônica; história familiar de IEI ou mortes precoces por infecção.
ALERTA MODERNO: IEI não é só infecção — autoimunidade (citopenias), alergia grave, linfoproliferação, doença granulomatosa e autoinflamação podem ser a apresentação.
3. Os quadros-chave para prova
IEI
Defeito / laboratório
Assinatura clínica
SCID
T muito baixos (B e NK variam: IL2RG ligada ao X, T−B+NK−, é a forma mais comum; RAG1/2 = T−B−NK+; ADA = T−B−NK−)
início nos primeiros meses: infecções graves oportunistas, candidíase, falha de desenvolvimento, ausência de tonsilas; BCGite; letal nos primeiros anos sem TMO/terapia gênica; TREC no pezinho
DiGeorge (22q11.2)
timo hipoplásico ou ausente: T baixos, B e Ig normais ou discretamente baixas
frequentemente assintomática; infecções mucosas recorrentes; RISCO DE ANAFILAXIA a hemocomponentes (anti-IgA pré-formado)
4. Racional diagnóstico: do barato ao sofisticado
O hemograma com contagem diferencial e a dosagem de IgG/IgA/IgM resolvem o primeiro nível do eixo humoral; IgE e subclasses de IgG completam. Nível T: contagens de CD3/CD4/CD8 (linfopenia T persistente é sinal de alerta) e testes proliferativos. Nível fagocitário: NBT/DHR. Nível complemento: CH50/AH50 e componentes. A imunofenotipagem por citometria organiza o diagnóstico e orienta o teste genético (painel de IEI) — hoje o padrão para fechar o defeito molecular.
Questões do módulo · 06
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioMenino de 14 meses com otites e pneumonias recorrentes por germes encapsulados desde os 7 meses, sem diarreia nem candidíase. Exame: ausência de tonsilas palatinas e de gânglios palpáveis. Hemograma normal; linfócitos B circulantes indetectáveis; IgG, IgA e IgM muito baixas. O diagnóstico esperado e o tratamento de base:
2.AvançadoCriança de 5 anos com dois abscessos hepáticos por Staphylococcus aureus, uma pneumonia por Aspergillus e obstrução intestinal por granulomas. Imunoglobulinas e contagens de T e B normais. O teste que fecha a suspeita principal e o mecanismo do defeito:
Gell e Coombs I–IV · fisiopatologia da resposta IgE · anafilaxia: critérios e conduta (fluxo) · diagnóstico alérgico · reações medicamentosas graves (DRESS, SJS/TEN)
1. Classificação de Gell e Coombs: a tabela que organiza tudo
Tipo
Imunologia
Tempo
Exemplos de prova
I — imediata
IgE no FcεRI do mastócito → desgranulação (histamina, leucotrienos, PAF); fase tardia em 4–6 h com eosinófilos (IL-5)
15–30 min
rinite e asma alérgica, urticária aguda, anafilaxia, alergia a penicilina e veneno
II — citotóxica
IgG/IgM contra antígeno da superfície celular → complemento e/ou fagocitose/ADCC
variável (horas a dias)
anemia hemolítica autoimune, PTI (anticorpo antiplaquetário), doença hemolítica perinatal anti-D, síndrome de Goodpasture, pemfigo, hipertireoidismo por anticorpo estimulante
III — por complexos imunes
imunocomplexos depositados em vasos e serosas → complemento → neutrófilos
1–3 semanas após a exposição
doença do soro (fármaco/biológico), glomerulonefrite pós-estreptocócica, vasculites e lúpus
IV — retardada
TCD4/Th1 (ativação de macrófagos) ou TCD8 citotóxico — sem anticorpo
48–72 h
PPD/tuberculina, dermatite de contato por níquel, Stevens-Johnson/Lyell, rejeição de transplante
2. Fisiopatologia da alergia IgE (tipo I)
SENSIBILIZAÇÃO: em terreno atópico (predomínio Th2, IL-4/IL-13), o alérgeno é apresentado em contexto Th2 e o B troca classe para IgE — que ocupa o FcεRI do mastócito por semanas a meses. DEGRANULAÇÃO: a reexposição cruza dois IgE de membrana → sinal intracelular → liberação imediata de histamina (prurido, urticária, broncoconstrição, vasodilatação) e síntese de leucotrienos, prostaglandinas e PAF. FASE TARDIA (4–6 h): citocinas Th2 (IL-5) recrutam eosinófilos — a inflamação que sustenta a asma e a rinite crônicas. O terreno atópico tem forte componente familiar; a hipótese da higiene conecta a menor exposição microbiana precoce ao desvio Th2.
3. Anafilaxia: critérios clínicos (NIAID/FAAN, mantidos pela WAO 2020)
Anafilaxia é provável quando houver início AGUDO (minutos a poucas horas) com: (1) envolvimento cutâneo-mucoso (urticária generalizada, angioedema, prurido ou flush) MAIS pelo menos um sistema — respiratório (dispneia, broncoespasmo, estridor), cardiovascular (hipotensão, síncope) ou gastrointestinal (vômitos incoercíveis, dor abdominal); OU (2) dois ou mais sistemas após exposição a alérgeno provável; OU (3) hipotensão após exposição a alérgeno conhecido do paciente. A pele pode estar poupada — anafilaxia sem urticária existe e atrasa o diagnóstico.
Fluxo da anafilaxia
Critérios clínicos de anafilaxia presentes — qual a sequência?
▼
1. EPINEFRINA IMEDIATA
Epinefrina 1 mg/mL (1:1000): 0,3–0,5 mg IM na face anterolateral da COXA do adulto (criança 0,01 mg/kg, máximo 0,3 mg).
Repetir a cada 5 minutos sem resposta — o atraso da epinefrina é o principal determinante de morte.
2. POSIÇÃO + OXIGÊNIO + VOLUME
Decúbito dorsal com pernas elevadas (não levantar o paciente — colapso de pré-carga), oxigênio em alto fluxo se hipoxemia, vias áreas permeáveis.
Expansão vigorosa: SF 0,9% 1–2 L em bolus no adulto (20 mL/kg na criança) — o desvio plasmático para o interstício é maciço.
3. ADJUVANTES E OBSERVAÇÃO
Broncodilatador inalatório para o broncoespasmo; anti-histamínico e corticoide são ADJUVANTES — nunca substituem a epinefrina.
Epinefrina venosa em infusão apenas no choque refratário, em ambiente monitorado; se o paciente usa betabloqueador e não responde, glucagon.
Manter observação pela possibilidade de reação BIFÁSICA (retorno em até 20% das séries, tipicamente em horas); alta com autoinjetor de epinefrina e encaminhamento ao alergista.
4. Diagnóstico alergológico
Prick test (puntura): leitura em 15–20 min — tipo I; suspender anti-histamínicos antes (5–7 dias, conforme o fármaco).
IgE específica sérica: útil em dermatografismo, dermatite extensa ou anti-histamínico ininterrupto; não prediz gravidade.
Triptase sérica: colher na crise (pico em 1–2 h) e basal — a basal elevada sugere mastocitose (reações mais graves e refratárias).
Patch test (epicutâneo): leitura em 48–72 h — dermatite de contato (tipo IV).
Teste de provocação controlada: padrão de referência para a confirmação final (alimento/fármaco), em ambiente preparado para anafilaxia.
5. Reações medicamentosas graves
Síndrome
Assinatura
Exantema maculopapular simples
a mais comum; surge dias após o fármaco; suspender e observar
DRESS (síndrome da hipersensibilidade a fármacos)
início 2–6 SEMANAS após o fármaco: febre + exantema + eosinofilia + linfadenopatia + lesão de órgão sólido (fígado, rim); clássicos: anticonvulsivantes aromáticos, alopurinol, sulfonamidas, minociclina; tratar com suspensão + corticoide
Stevens-Johnson / Lyell (TEN)
necrose epidérmica com envolvimento de MUCOSAS e sinal de Nikolsky; até 10% de superfície = SJS, acima de 30% = TEN; mecanismo tipo IV citotóxico (TCD8, granzimas/granulisina); suporte em unidade de queimados e suspensão imediata
Anafilaxia por fármaco
β-lactâmicos e anti-inflamatórios não esteroides lideram; tipo I — prick, IgE específica e provocação quando indicado
Questões do módulo · 07
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalHomem de 30 anos, 20 minutos após picada de abelha, apresenta urticária generalizada, estridor inspiratório, PA 70/40 mmHg e vômitos. Primeira conduta:
2.IntermediárioJovem em uso de biológico monoclonal há 12 dias desenvolve febre, artralgias difusas, urticária polimorfa e linfadenopatia generalizada; complemento levemente consumido. O mecanismo imunológico e a classificação:
Tolerância imunológica, transplantes e imunologia tumoral
tolerância central e periférica (AIRE, Treg, Fas) · falha = autoimunidade · rejeição de enxerto e GVHD · imunossupressores · imunovigilância e checkpoints · CAR-T
1. Tolerância central
Timo: a seleção negativa deleta timócitos de ALTA afinidade pelo próprio; AIRE permite às células epiteliais medulares expressar antígenos de tecidos periféricos (insulina, proteína básica da mielina) para a peneira — sem ele, antígenos teciduais nunca são mostrados ao sistema.
Falha de AIRE = APECED/APS-1: candidíase mucocutânea crônica + hipoparatireoidismo + insuficiência adrenal (a tríade clássica), entre outras manifestações.
Medula óssea (B): o BCR autorreativo é deletado ou REARRANJADO DE NOVO (edição de receptor) — a segunda chance exclusiva do B.
2. Tolerância periférica: o menu e suas doenças
Mecanismo
Como opera
Falha → síndrome
Anergia
sinal 1 sem costimulação (B7) paralisa o clone (módulo 2)
explorada terapeuticamente pelo belatacepte no transplante
Deleção (Fas-FasL)
reestimulação repetida induz apoptose do linfócito ativado
ALPS: linfoproliferação com linfoadenopatia e esplenomegalia + citopenias autoimunes na criança
Supressão (Treg, FoxP3)
Treg CD4+CD25+FoxP3+ inibe por IL-10/TGF-β e consumo de IL-2
IPEX (ligada ao X): lactentes homens com enteropatia, diabetes neonatal, eczema e IgE alta
Ignorância / sítios privilegiados
antígenos atrás de barreiras (olho, testículo, SNC, placenta) não encontram o repertório virgem
uveíte pós-trauma, orquite pós-vasectomia, encefalite por liberação de antígenos do SNC
Regulação por citocinas
IL-10 e TGF-β mantêm o tom regulatório nas mucosas
inflamação crônica e atopia quando o balanço de subsets se perde
3. Quando a tolerância falha: a autoimunidade em 4 eixos
GENÉTICO: o HLA é o maior locus de risco da maioria das doenças autoimunes (B27, DQ2/DQ8 — módulo 4); formas monogênicas: AIRE, FoxP3, Fas.
HORMONAL/SEXO: predominância feminina marcada (lúpus, tireoidites, esclerose múltipla) — estrogênio e o cromossomo X participam.
MIMETISMO MOLECULAR: o anticorpo/TCR gerado contra o micróbio cruza com antígeno próprio (febre reumática: proteína M do estreptococo × miocárdio e gânglios da base).
PERDA DE BARREIRA E LIBERAÇÃO: antígenos sequestrados expostos por trauma, isquemia ou infecção; o EBV e outros ativam B policlonalmente; o espalhamento de epítopos amplia a resposta com o tempo.
4. Imunologia do transplante
Rejeição
Tempo
Imunologia
Marcadores e conduta
Hiperaguda
minutos a horas
anticorpos PRÉ-FORMADOS anti-ABO ou anti-HLA (transfusão, gestação, transplante prévio) → complemento → trombose e necrose do enxerto
previnível: tipagem ABO e crossmatch linfocitotóxico — positivo contraindica
Aguda celular
semanas a meses
TCD8/Th1 contra o enxerto: infiltrado intersticial e vasculite endotelial
pulsoterapia com corticoide + ajuste da imunossupressão
Aguda humoral (AMR)
dias a meses
anticorpos DOADOR-específicos (DSA) formados de novo
C4d depositado no tecido = assinatura da via clássica ativada
Crônica
meses a anos
resposta mista humoral e celular → VASCULOPATIA do enxerto e fibrose progressiva
praticamente irreversível — a meta é preveni-la com adesão à imunossupressão
GVHD (doença do enxerto contra o hospedeiro): linfócitos T DO DOADOR reconhecem o hospedeiro imunossuprimido — o cenário clássico é o transplante de medula óssea alogênico. Forma aguda: exantema (sobretudo palmar e plantar), colestase hepática e diarreia; forma crônica: fibrose esclerodermiforme. Prevenção: depleção de T do enxerto ou profilaxia com inibidor de calcineurina e antiproliferativo. O feto é o modelo contrário: semialogênico e tolerado por Treg deciduais, HLA-G não clássico no trofoblasto, IDO e ausência de costimulação — a demonstração de que a tolerância periférica funciona na prática.
Imunossupressor
Alvo
Nota
Corticoides
ativação ampla via NF-κB
indução e crises de rejeição (pulsoterapia)
Tacrolimo / ciclosporina
calcineurina → NFAT → transcrição de IL-2
a base da manutenção; nefro e neurotoxicidade (tremor, hipertensão)
Micofenolato / azatioprina
síntese de nucleotídeos dos linfócitos (IMPDH)
antiproliferativos; mielossupressão; teratogenicidade do micofenolato
Sirolimo (mTOR)
sinalização de IL-2 a jusante
hiperlipidemia e retardo de cicatrização
Belatacepte (CTLA-4-Ig)
BLOQUEIA a costimulação CD28-B7 (sinal 2)
melhor função renal e perfil cardiovascular que a ciclosporina no transplante renal; evitar no receptor EBV-NEGATIVO (risco de linfoproliferação)
4b. Do matching ao seguimento: compatibilidade na prática
Avaliação pré-transplante: tipagem ABO (incompatibilidade = barreira humoral imediata), tipagem HLA-A, -B e -DR (o DR pesa mais no desfecho renal), painel de anticorpos anti-HLA (PRA — quanto maior, mais difícil o crossmatch negativo) e CROSSMATCH linfocitotóxico doador-receptor.
A incompatibilidade HLA é o motor da rejeição celular aguda e crônica MESMO em ABO compatível — a compatibilidade ABO não basta (erro clássico).
DSA de NOVO: a exposição contínua a antígenos do enxerto imuniza o receptor depois do transplante — anticorpos doador-específicos surgidos na vigilância explicam rejeição humoral TARDIA e a vasculopatia crônica; daí o monitoramento periódico de DSA (e C4d na biópsia).
Crise de disfunção do enxerto não é sempre rejeição: nefrotoxicidade por inibidor de calcineurina (creatinina sobe SEM dor, níveis séricos altos, sem infiltrado), necrose tubular por isquemia-reperfusão (disfunção PRECOCE) e infecção compõem o diferencial — a BIÓPSIA do enxerto decide.
Fronteiras atuais: xenotransplante (coração/rim suíno com edição de gal-α1,3-gal sob regime compassivo) e transplantes vascularizados compostos (face, membro) — rejeição celular intensa e necessidade de regimes induzidos, com QUESTÕES ÉTICAS próprias.
5. Imunologia tumoral
IMUNOVIGILÂNCIA: o sistema imune vigia células transformadas — o modelo da imunoedição divide a relação em ELIMINAÇÃO (o tumor é destruído), EQUILÍBRIO (controle sem erradicação) e ESCAPE (variantes imunologicamente invisíveis crescem). Antígenos-alvo: oncofetais (CEA, AFP), virais (E6/E7 do HPV, LMP do EBV), de diferenciação e NEOANTÍGENOS criados por mutação somática — os melhores alvos, pois são exclusivos do tumor.
Escape tumoral: perda ou redução de MHC I, expressão de PD-L1 (desliga o TCD8 no tecido), recrutamento de Treg e IL-10, antígeno mascarado.
Inibidores de checkpoint: ipilimumabe (anti-CTLA-4) e nivolumabe/pembrolizumabe (anti-PD-1) removem freios fisiológicos — respostas duradouras no melanoma e em dezenas de tumores; o preço é a toxicidade autoimune (colite, tireoidite, hipofisite, hepatite, pneumonite).
CAR-T: receptor quimérico anti-CD19 (tisagenlecleucel) na leucemia linfoblástica B refratária de crianças e adultos jovens — remissão em cerca de 80% na série pivotal; toxicidades: síndrome de liberação de citocinas (febre, hipotensão — tratar com tocilizumabe, anti-IL-6R) e neurotoxicidade.
Vacinas terapêuticas e vírus oncolíticos completam o arsenal — a base continua sendo induzir resposta T contra neoantígenos.
Questões do módulo · 08
3 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioMinutos após a reperfusão de um enxerto renal, o órgão fica pálido e flácido, com trombose difusa. O mecanismo e a forma de prevenção:
2.AvançadoHomem de 58 anos com melanoma metastático em uso de pembrolizumabe (anti-PD-1) desenvolve, após a 3ª dose, fadiga, hiponatremia e hipotensão; cortisol basal baixo, TSH elevado com T4 livre limítrofe. O mecanismo do quadro:
3.IntermediárioReceptor de rim, 2 anos pós-transplante, com creatinina em lenta elevação e proteinúria nova; painel revela anticorpos anti-HLA doador-específicos (DSA) que eram ausentes no pré-operatório; biópsia com C4d nos capilares peritubulares. O quadro e a conduta:
Para a véspera: o essencial, os números, os macetes e as pegadinhas que decidem a prova
Resumo essencial por módulo
Módulo
A essência
Maior incidência
01 Inata e perigo
PRRs leem PAMPs/DAMPs e decidem SE responde; o NK pune a perda de MHC I; o complemento converge em C3 e é regulado via a via — a falha do regulador nomeia a doença.
Vias e funções do complemento; HAE (C1-INH, bradicinina); TLRs
02 Adaptativa T e B
Seleção no timo, 3 sinais para ativar, subsets CD4 com assinaturas (T-bet/GATA3/RORγt/FoxP3) e centro germinativo produzindo afinidade e isotipo.
Hiper-IgM (CD40L); anergia = sinal 1 sem sinal 2
03 Anticorpos
O Fab liga o antígeno e o Fc contrata o efeito; classes com números (IgG 75%, IgM pentâmero, IgA secretória, IgE citofílica); o FcRn explica placenta e meia-vida.
IgG placentária; ADCC via CD16; IgG2 contra cápsulas
04 MHC
Via citosólica/MHC I/CD8 × via endossômica/MHC II/CD4; restrição MHC; o HLA é o locus mais polimórfico e assina doenças (B27, DQ2/DQ8).
Tabela MHC I × II; HLA-DQ2/DQ8 negativo praticamente exclui celíaca
05 Vacinas
A plataforma define o braço da resposta; a conjugada converte polissacarídeo em T-dependente (lactente); o mRNA gera MHC I e II sem integrar o genoma; atenuada proibida no imunodeprimido.
Conjugada × polissacarídica; contraindicações no imunossuprimido
06 Imunodeficiências
Suspeitar pelo padrão de infecção E pelas apresentações não infecciosas; o laboratório imunológico aponta o compartimento defeituoso (T, B, fagócito, complemento).
XLA × SCID × CVID × CGD (catalase-positivos)
07 Hipersensibilidade
Gell-Coombs classifica por imunologia e TEMPO; anafilaxia é diagnóstico clínico e trata-se com EPINEFRINA IM na coxa — anti-histamínico não substitui.
Tabela I–IV com exemplos; conduta da anafilaxia
08 Tolerância/tumor
Tolerância central (AIRE) e periférica (anergia, Fas, Treg) — a falha gera APECED/ALPS/IPEX; transplante e tumor são a tolerância na prática (checkpoints, C4d, GVHD).
Síndromes monogênicas de tolerância; tipos de rejeição; toxicidade autoimune dos anti-PD-1
Números que você precisa saber de cor
Tema
Número
Complemento — triagem
CH50 = via clássica/terminal · AH50 = via alternativa
Deficiência terminal C5–C8
meningococcemia recorrente — vacinar
HAE
C4 baixo · C3 normal · bradicinina (não histamina)
Timócitos
mais de 95% morrem na seleção (positiva + negativa)
Minutos = I · semanas após fármaco = III (doença do soro) · 48–72 h = IV — antes de ler o mecanismo, olhe o relógio do enunciado.
Freios do tumor
CTLA-4 freia no linfonodo (ipilimumabe); PD-1 freia no tecido (pembrolizumabe/nivolumabe) — tirar o freio = resposta antitumoral + autoimunidade.
As pegadinhas mais cobradas
Angioedema SEM urticária e refratário a anti-histamínico = HAE (C1-INH/bradicinina), não alergia — e o gatilho costuma ser trauma dentário.
CH50 e AH50 baixos = defeito comum (C3/terminal); só CH50 = via clássica; só AH50 = via alternativa — a banca inverte os pares.
A perda de MHC I engana o TCD8, mas entrega a célula ao NK (missing self).
O TCR não reconhece antígeno solúvel — só peptídeo + MHC próprio (restrição); e a β2-microglobulina vem do cromossomo 15.
A hipermutação somática muda a AFINIDADE; a troca de classe muda o ISOTIPO — a banca troca os dois termos.
A vacina polissacarídica pura é T-independente: IgM, sem memória e fraca no lactente — a conjugada existe exatamente para corrigir isso.
Vacinas atenuadas são contraindicadas no imunodeprimido grave (BCGite no SCID) — inativadas e mRNA são seguras.
A XLA começa após os 6 meses (queda do IgG materno); o SCID ensaia nos primeiros meses, com oportunistas.
IEI não é só infecção: autoimunidade, granulomas e linfoproliferação abrem o diagnóstico (CVID, ALPS, IPEX).
Anafilaxia sem urticária existe — os critérios clínicos dispensam a pele quando há hipotensão com alérgeno conhecido.
Anti-histamínico e corticoide são adjuvantes na anafilaxia; quem salva é a EPINEFRINA IM na coxa, com o paciente deitado.
Crossmatch positivo contraindica o transplante (rejeição hiperaguda); C4d assina a rejeição humoral; GVHD é o T do doador contra o hospedeiro.
Informações que não podem ser esquecidas
Toda célula nucleada apresenta em MHC I ao TCD8; só a APC profissional apresenta em MHC II ao TCD4 — e sem sinal 2 não há ativação.
Toda vacina de agente vivo no imunodeprimido grave é contraindicação absoluta; os contatos recebem VIP em vez de VOP.
Toda anafilaxia: epinefrina IM na coxa primeiro, volume depois, adjuvantes por último — e observação pela reação bifásica.
Toda infecção recorrente por germes estranhos (oportunistas, catalase-positivos, meningococo repetido): pergunte qual compartimento falhou antes de indicar antibiótico.
Toda reação de hipersensibilidade: o TEMPO do enunciado quase entrega a classificação de Gell e Coombs.
Todo paciente sob inibidor de checkpoint com sintoma hormonal novo: pensar toxicidade imunomediada (hipofisite, tireoidite).
Todo quadro de autoimunidade múltipla e precoce: pensar nas monogênicas da tolerância — AIRE, Fas, FoxP3.
Todo angioedema que não urtina: dose C4 — o HAE é bradicinina e o tratamento não é antialérgico.
Quadro-síntese: diagnóstico pela palavra-chave
Se a questão diz…
Pense em…
Angioedema recorrente sem urticária após extração dentária, C4 baixo
Angioedema hereditário (C1-INH)
Meningococcemia recorrente em jovem saudável
Deficiência da via terminal do complemento (C5–C8)
Menino com IgM alta, IgG/IgA baixas e Pneumocystis
Hiper-IgM por defeito de CD40L
Célula sem MHC I morta por linfócito grande granular
NK — missing self
Criança com abscessos por Serratia e Aspergillus + granulomas
Doença granulomatosa crônica (NADPH oxidase)
RN com hipocalcemia, cardiopatia conotruncal e T baixos
DiGeorge 22q11.2
Urticária + artralgia + febre 2 semanas após biológico
Doença do soro (tipo III)
Trombose do enxerto minutos após a reperfusão
Rejeição hiperaguda (crossmatch)
Lactente homem com enteropatia, DM neonatal e eczema
IPEX (FoxP3/Treg)
Anti-PD-1 com hiponatremia e cortisol baixo
Hipofisite autoimune (toxicidade de checkpoint)
Prova final — bateria geral
8 questões cobrindo todos os módulos proporcionalmente + gabarito
1.IntermediárioCultura de células infectadas por CMV mostra drástica redução da expressão de MHC I. Qual população celular se torna mais efetiva contra essas células?
2.IntermediárioNo centro germinativo, um linfócito B sofre hipermutação somática seguida de seleção por afinidade. O que muda no anticorpo resultante?
3.Prova difícilPaciente com deficiência seletiva de IgA apresenta reação anafilática grave na transfusão de concentrado de hemácias, sem histórico atópico. O mecanismo:
4.AvançadoIrmã de paciente celíaco confirmado apresenta sintomas inespecíficos e sorologia antitransglutaminase IgA negativa em duas amostras (IgA total normal). Qual achado descartaria a doença com maior eficiência?
5.IntermediárioA superioridade da vacina pneumocócica CONJUGADA sobre a polissacarídica pura no lactente explica-se porque:
6.IntermediárioRecém-nascido com tetralogia de Fallot, hipocalcemia refratária e ausência radiológica de timo. O perfil imunológico esperado:
7.IntermediárioMulher de 26 anos com púrpura dispersa, plaquetas 12.000/mm³, esfregaço sem esquizócitos, hemoglobina e leucometria normais. O mecanismo imunológico e a classificação de Gell-Coombs:
8.Prova difícilLactente homem de 6 meses com diarreia crônica refratária, diabetes melito de início neonatal, eczema grave e IgE sérica extremamente elevada. O gene defeituoso e o mecanismo perdido:
Gabarito rápido
1-B · 2-C · 3-B · 4-A · 5-B · 6-A · 7-B · 8-D
Referencial teórico
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notaResumo didático elaborado a partir das diretrizes e revisões acima (verificáveis pelo DOI) e dos artigos publicados desta matéria na Central de Estudos (fonte principal). Nenhuma referência inventada; em caso de divergência entre fontes, vale a versão vigente do protocolo oficial — confira sempre antes da conduta real.
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