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Revisão completa da imunidade inata: barreiras anatômicas, receptores de reconhecimento de padrões (TLRs e inflamassoma), células inatas, as três vias do complemento com suas regulações, deficiências com fenótipos clássicos, rastreio com CH50 e AH50 e tratamentos com doses, do icatibanto ao eculizumabe.
[1] Ricklin D, Hajishengallis G, Yang K, Lambris JD. Complement: a key system for immune surveillance and homeostasis. Nat Immunol. 2010;11(9):785-97 · DOI 10.1038/ni.1923 · PMID 20720586 | [2] Noris M, Remuzzi G. Overview of complement activation and regulation. Semin Nephrol. 2013;33(6):479-92 · DOI 10.1016/j.semnephrol.2013.08.001 · PMID 24161035 | [3] Tangye SG, Al-Herz W, Bousfiha A, et al. Human inborn errors of immunity: 2022 update on the classification from the IUIS Expert Committee. J Allergy Clin Immunol. 2022;149(5):1648-64 · DOI 10.1016/j.jaci.2021.12.664 | [4] Zuraw BL. Hereditary angioedema. N Engl J Med. 2008;359(10):1027-36 · DOI 10.1056/NEJMcp0803977 · PMID 18768923 | [5] Murphy KM, Weaver C. Janeway's Immunobiology. 9ª ed. New York: Garland Science; 2017 | [6] Sociedade Brasileira de Imunizações. Calendários de vacinação e recomendações para imunodeprimidos · sbim.org.br · DOI 10.1038/ni.1923
Quando um microrganismo rompe as barreiras, a resposta imune inata age em minutos a horas e a resposta adaptativa (anticorpos e linfócitos T específicos) demora dias: a janela crítica de 0 a 96 horas é totalmente responsabilidade da imunidade inata. A imunidade inata é não clonal (seus receptores são codificados no DNA germinativo e não sofrem recombinação), não específica a um antígeno único, não gera memória imunológica clássica e não discrimina tanto self de não self quanto reconhece padrões moleculares de microrganismos (PAMPs) e sinais de perigo endógeno liberados por células lesionadas (DAMPs). A falha de um único componente inato já produz fenótipos clínicos muito característicos que as provas adoram: deficiência da via terminal do complemento causa meningococcemia invasiva recorrente; deficiência do inibidor de C1 causa angioedema; defeito do NADPH oxidase causa doença crônica granulomatosa. Por isso, este artigo percorre barreiras, reconhecimento, células, complemento, deficiências, rastreio laboratorial e tratamento com os números que a banca cobra.
A imunidade inata reúne quatro grandes grupos de componentes que atuam integrados: barreiras anatômicas e químicas (pele, mucosas, microbiota e substâncias antimicrobianas), células (neutrófilos, macrófagos, células dendríticas, células NK, mastócitos, eosinófilos e basófilos, além de plaquetas e células epiteliais com função imune), mediadores solúveis (sistema complemento, proteínas de fase aguda como PCR e proteína ligadora de manose, interferons tipo I, interleucinas da inflamação e quimiocinas) e o próprio processo inflamatório, com rubor, calor, tumor, dor e perda de função, que traz células e proteínas para o sítio da agressão. Um conceito moderno que já aparece em provas é a imunidade treinada: monócitos e macrófagos podem ser reprogramados epigeneticamente por estímulos como a vacina BCG, respondendo com mais intensidade a estímulos não relacionados, uma forma de memória inata, sem especificidade antigênica e sem recombinação de receptores.
As barreiras são o primeiro e mais eficaz componente da imunidade inata: a maioria dos microrganismos que contactamos nunca chega a causar doença porque não as atravessa. A pele é uma barreira mecânica de queratinócitos renovados e uma barreira química, com pH em torno de 5,5, ácidos graxos do sebo e peptídeos antimicrobianos; as mucosas apostam em muco aprisionador, batimento ciliar, IgA secretora e microbiota residente que disputa nicho e nutrientes com patógenos. Compreender qual barreira falhou explica a doença: a fibrose cística (muco espesso) e a discinesia ciliar predispõem a infecções respiratórias por Pseudomonas e Haemophilus; a acloridria e o uso de inibidores de bomba de prótons aumentam o risco de gastroenterites por Salmonella, Campylobacter e Vibrio; a obstrução e o refluxo vesicoureteral facilitam ITU por Escherichia coli; e o uso de antibióticos de largo espectro destrói a microbiota e abre espaço para Clostridioides difficile e candidíase.
| Barreira | Mecanismo principal | Exemplo de falha e consequência |
|---|---|---|
| Pele | Queratina, renovação epidérmica, pH 5,5, ácidos graxos, defensinas | Queimaduras e feridas: colonização por Staphylococcus aureus e Pseudomonas |
| Mucosa respiratória | Muco, batimento ciliar, IgA secretora, reflexo de tosse | Fibrose cística e discinesia ciliar: pneumonia de repetição por Pseudomonas |
| Mucosa gastrintestinal | Ácido clorídrico (pH 1,5 a 3,5), enzimas, bile, peristaltismo | Acloridria e uso crônico de ibp: gastroenterites e risco aumentado de cólera |
| Trato urinário | Fluxo urinário, esvaziamento completo, glicoproteína de Tamm-Horsfall | Obstrução e refluxo vesicoureteral: ITU recorrente por E. coli |
| Microbiota | Exclusão competitiva, bacteriocinas, indução de defensinas | Antibioticoterapia de largo espectro: diarreia por C. difficile e candidose |
| Barreira hematoencefálica | União estreita de endotélio, pericitos, astrócitos | Meningite bacteriana quando patógenos invadem a corrente (pneumococo, meningococo) |
Os peptídeos antimicrobianos merecem nota: as defensinas alfa (neutrófilos e células de Paneth do intestino) e beta (epitélios) criam poros na membrana bacteriana; a catelicidina LL-37 atua na pele e é induzida pela vitamina D (daí a associação histórica entre deficiência de vitamina D e maior suscetibilidade a tuberculose); e a lisozima, presente em lágrima, saliva e secreções, hidrolisa a ligação entre N-acetilmurâmico e N-acetilglicosamina do peptidoglicana, principalmente de bactérias gram-positivas.
As células inatas reconhecem padrões moleculares conservados de patógenos (PAMPs, como LPS, lipopeptídeos, ácidos nucleicos virais, flagelina e CpG não metilado) e sinais de perigo endógenos (DAMPs, como ATP liberado por células necróticas, cristais de urato e DNA mitocondrial) por meio de receptores de reconhecimento de padrões (PRRs) codificados no DNA germinativo. As famílias que caem em prova: Toll-like receptors (TLRs) de membrana e endossomo, receptores semelhantes a NOD (NLRs), receptores semelhantes a RIG-I (RLRs) para RNA viral, lectinas tipo C e o sistema citosólico cGAS-STING para DNA estranho. O princípio geral: cada PRR detecta uma classe de molécula e aciona vias (MyD88, TRIF, NF-kB, interferons reguladores) que produzem citocinas, quimiocinas e costimulação.
| Receptor | Ligante principal | Localização | Associação cobrada em prova |
|---|---|---|---|
| TLR4 (com CD14 e MD-2) | LPS de gram-negativas | Membrana plasmática | Choque séptico por endotoxina |
| TLR2 (heterodímeros com TLR1 e TLR6) | Lipopeptídeos e ácido lipoteicóico de gram-positivas | Membrana plasmática | Reconhecimento de estafilococos e micobactérias |
| TLR3 | RNA de fita dupla viral | Endossomo | Resposta antiviral (interferon beta) |
| TLR5 | Flagelina bacteriana | Membrana plasmática | Imunidade a bactérias flageladas (Salmonella) |
| TLR7 e TLR8 | RNA de fita simples viral | Endossomo | Lúpus (imunocomplexos com RNA); hidroxicloroquina inibe a sinalização |
| TLR9 | DNA bacteriano com CpG não metilado | Endossomo | Resposta a DNA bacteriano e de herpesvírus |
| NLRP3 (inflamassoma) | ATP extracelular, cristais de urato, alumínio, toxinas | Citosol | Gota e síndromes autoinflamatórias; alvo de anakinra e canakinumabe |
| RIG-I e MDA5 | RNA viral citosólico | Citosol | Defesa antiviral precoce |
| cGAS-STING | DNA citosólico | Citosol | Doença de Aicardi-Goutières (interferonopatia) |
O inflamassoma é um complexo multiproteico citosólico formado por um sensor (classicamente NLRP3), o adaptador ASC e a procaspase-1; sua ativação converte caspase-1, que cliva pro-interleucina 1 beta e pro-interleucina 18 em suas formas ativas e induz piroptose por gasdermina D. É a base biológica da gota (cristais de urato ativam NLRP3 e a interleucina 1 media a inflamação articular) e das síndromes autoinflamatórias hereditárias, como a criopirinopatia (FCAS e síndrome de CINCA), tratadas com inibidores da interleucina 1 (anakinra e canakinumabe). Este conceito conecta imunidade inata a reumatologia e é cada vez mais cobrado.
A fagocitose segue passos ordenados: quimiotaxia (atração por C5a, interleucina 8 e leucotrieno B4), reconhecimento e opsonização (anticorpo, C3b e iC3b ligam os receptores Fc, CR1 e CR3), ingestão com formação do fagossoma, fusão com lisossomos (fagolisossoma) e morte do microrganismo por mecanismos dependentes e independentes de oxigênio. O bursting respiratório é a etapa que a prova cobra: a NADPH oxidase (complexo de flavocitocromo b558 com subunidades gp91phox e p22phox mais as proteínas citosólicas p47, p67, p40 e Rac) reduz oxigênio a superóxido, que se converte em peróxido e, pela mieloperoxidase, em ácido hipocloroso; o óxido nítrico induzido pela iNOS e os peptídeos defensinas e lactoferricina completam a morte microbiana. Neutrófilos ativados também liberam armadilhas extracelulares de neutrófilos (NETs), malhas de DNA e histonas com proteases que capturam e matam patógenos, mas que, em excesso, expõem antígenos nucleares e participam da fisiopatologia do lúpus e da trombose inflamatória.
O dogma da célula NK merece memorização: vírus e tumores frequentemente reduzem a expressão de MHC-I para escapar dos linfócitos T citotóxicos; a célula NK, ao contrário, interpreta a ausência de MHC-I como sinal de alarme (hipótese do self faltante, de Karre e Ljunggren) e mata a célula que perdeu os sinais inibitórios. A decisão de matar depende do balanço entre sinais ativadores e inibitórios, e o interferon gama produzido pelas NK ativa macrófagos dias antes de qualquer linfócito T ter sido sensibilizado.
O sistema complemento é uma cascata de mais de 30 proteínas plasmáticas e de membrana que opera como amplificador enzimático: cada enzima ativa milhares de moléculas do passo seguinte, o que explica sua potência e o fato de precisar de reguladores potentes. As três vias de ativação convergem para a convertase de C3 e depois para a via terminal comum, formando o complexo de ataque à membrana (C5b-6-7-8-9), que faz lise osmótica de bactérias gram-negativas. A via clássica é ativada por imunocomplexos (C1q liga IgM ou duas IgG próximas), corpos apoptóticos e proteína C-reativa; a via das lectinas, pela lectina ligadora de manose (MBL) e ficolinas que reconhecem carboidratos microbianos, com as proteases MASP-1 e MASP-2; e a via alternativa está sempre ligada em baixa rotação por hidrólise espontânea de C3 (tick-over) e funciona como amplificadora de todas as outras, responsável por cerca de 80 a 90% da ativação total, mesmo quando o gatilho foi a via clássica.
| Via | Gatilho | Convertase de C3 | Ponto de prova |
|---|---|---|---|
| Clássica | Imunocomplexos (C1q), apoptose, CRP | C4b2a | Deficiências de C1q, C2 e C4 associam-se a lúpus; C2 é a mais comum |
| Lectinas (MBL) | Resíduos de manana de microrganismos via MBL e ficolinas | C4b2a | Deficiência de MBL: infecções recorrentes na primeira infância |
| Alternativa | Hidrólise espontânea de C3 (tick-over) em superfícies sem regulação | C3bBb (fator B + fator D; properdina estabiliza) | É a via amplificadora; deficiências de properdina e fator D predispõem a Neisseria |
| Terminal comum | Convertase de C5 (C4b2a3b ou C3bBb3b) cliva C5 | C5b-6-7-8-9 (MAC) | Deficiências de C5 a C9: meningococcemia invasiva recorrente |
Os produtos da cascata têm efeitos biológicos que vão além da lise: C3b e iC3b opsonizam bactérias para os receptores CR1 e CR3 dos fagócitos (a opsonização é a função mais importante in vivo); C3a e C5a são anafilotoxinas que desgranulam mastócitos, aumentam a permeabilidade vascular e recrutam neutrófilos (C5a é o mais potente quimiotático); os imunocomplexos cobertos por C3b são depurados por eritrócitos via CR1 e levados ao baço e fígado; e C3d ligado ao antígeno engage o CR2 (CD21) dos linfócitos B, reduzindo em centenas de vezes o limiar de ativação do linfócito B (por isso deficiências precoces da via clássica causam tanto imunodeficiência quanto autoimunidade).
As deficiências hereditárias do complemento são raras, mas são o mapa mental mais eficiente da cascata e estão organizadas na classificação internacional de erros inatos da imunidade (IUIS 2022, que reconhece cerca de 485 doenças). A regra geral para a prova divide a cascata em três territórios com fenótipos próprios: deficiências das componentes precoces da via clássica (C1q, C1r, C1s, C2, C4) associam-se fortemente a doença autoimune lúpica e a infecções por germes encapsulados, porque falham a depuração de imunocomplexos e apoptóticos; deficiência de C3, o centro da cascata, causa infecções piogênicas graves recorrentes e glomerulonefrites; e deficiências da via terminal (C5 a C9) e da via alternativa (properdina, fator D) predispõem especificamente a infecção invasiva por Neisseria (meningococo e gonococo), com risco relativo milhares de vezes maior que o da população geral e, curiosamente, com letalidade menor da doença meningocócica quando ela ocorre.
| Deficiência | Via afetada | Fenótipo clínico característico |
|---|---|---|
| C1q, C1r, C1s | Clássica precoce | Lúpus de início precoce, infecções encapsuladas |
| C2 (a mais comum da via clássica, cerca de 1:10.000 a 1:20.000) | Clássica precoce | Lúpus-like em 10 a 30% dos homozigotos; infecções pneumocócicas |
| C4 | Clássica precoce | Lúpus (quanto menor o número de cópias funcionais, maior o risco) |
| C3 | Central | Infecções piogênicas graves (pneumococo, H. influenzae), glomerulonefrite |
| C5, C6, C7, C8 (e C9) | Terminal | Meningococcemia invasiva recorrente; C9 relativamente frequente no Japão |
| Properdina (ligada ao X) | Alternativa | Meningococo, sobretudo em meninos da mesma família |
| Fator D e fator B | Alternativa | Neisseria e infecções piogênicas |
| Fator H e fator I | Regulação da alternativa | Síndrome hemolítico-urêmica atípica, glomerulopatia C3, consumo de C3 |
| C1-INH | Regulação da clássica e das lectinas | Angioedema hereditário tipos I e II |
| MBL | Lectinas | Infecções recorrentes na primeira infância e em imunossuprimidos; polimorfismos em 5 a 10% da população |
O angioedema hereditário por deficiência de C1-INH merece capítulo à parte porque é a deficiência de complemento com tratamento específico. A herança é autossômica dominante: o tipo I (cerca de 85% dos casos) tem níveis antigênicos e funcionais baixos de C1-INH; o tipo II tem nível antigênico normal ou alto com função deficiente; e o tipo III, raro, tem C1-INH normal, relação com estrogênio e mutações no fator XII. Sem o inibidor, a calicreína ativa bradicinina em excesso, e a bradicinina, não a histamina, produz o edema: crises de edema cutâneo e intestinal (cólicas abdominais intensas por edema da parede) e edema de laringe com risco de asfixia (mortalidade histórica de cerca de 30% sem tratamento), sem urticária e sem responder a anti-histamínicos, corticoides ou adrenalina. O marcador laboratorial que desvenda: C4 baixo durante e entre as crises, com C1q normal (o C1q baixo sugere a forma adquirida, associada a linfoproliferações e autoimunidade).
A doença crônica granulomatosa (DCG) é o defeito do bursting respiratório: mutações em gp91phox (CYBB, ligada ao X, cerca de dois terços dos casos) ou nas subunidades autossômicas (p47phox é a mais comum, cerca de 25%) abolem a produção de radicais superóxido. O fenótipo clássico: infecções por catalase-positivas (Staphylococcus aureus, Serratia marcescens, Burkholderia cepacia, Nocardia, Aspergillus, Candida) e adversão a micobactérias (BCGite), com linfadenite supurativa, abcessos hepáticos, osteomielite e pneumonia, além de granulomas com obstrução intestinal e das vias geniturinárias; o teste padrão-ouro atual é o DHR (dihidrorodamina) por citometria de fluxo, que substituiu o antigo NBT. Tratamento: profilaxia com sulfametoxazol-trimetoprima (5 mg/kg/dia de trimetoprima), itraconazol (200 mg/dia em adultos; 100 mg se abaixo de 50 kg), interferon gama (50 microgramas/m2 subcutâneo três vezes por semana) e, para cura, transplante de células-tronco hematopoiéticas ou terapia gênica.
As deficiências de adesão leucocitária (LAD) unem imunologia e pediatria: na LAD tipo I, mutações em CD18 (integrina beta 2) impedem a adesão e a diapedese dos neutrófilos, com a tríade clássica de retardo na queda do coto umbilical (mais de 3 semanas), omfalite, gengivite grave e infecções bacterianas de pele sem pus (os neutrófilos ficam presos no sangue, com leucocitose intensa); a LAD II (transportador de fucosilação, SLC35C1) soma atraso de desenvolvimento e grupo sanguíneo Bombay; a LAD III (FERMT3, kindlin 3) adiciona sangramento por defeito plaquetário. Na síndrome de Chédiak-Higashi (LYST), há albinismo parcial, grânulos gigantes citoplasmáticos, infecções piogênicas e fase acelerada linfo-histiocitária; na deficiência de mieloperoxidase (relativamente comum, cerca de 1 em 2.000 a 4.000 pessoas), o portador é geralmente assintomático, com risco de candidíase apenas em diabéticos. Nos defeitos da sinalização TLR, a deficiência de IRAK4 ou MyD88 produz o paradoxo didático: infecções invasivas graves por pneumococo e estafilococo na primeira infância, com poucos sinais inflamatórios (febre baixa, PCR discretamente elevada), que melhoram com a idade.
O rastreio das deficiências do complemento é logicamente simples e muito cobrado. O CH50 (dose hemolítica total do complemento) avalia a integridade funcional da via clássica mais a terminal: qualquer deficiência de C1 a C8 (e consumo por doença ativa) reduz drasticamente o título. O AH50 avalia a via alternativa (fator D, fator B, properdina, C3 e componentes terminais). Como os valores de referência variam entre laboratórios (por exemplo, 30 a 60 U/mL ou 60 a 140% conforme o método), o que importa é o padrão: CH50 praticamente ausente sugere deficiência herdada de uma componente; CH50 baixo a moderado sugere consumo (lúpus ativo, crioglobulinemia, endocardite); C3 e C4 dosados isoladamente avaliam consumo. A combinação CH50 com AH50 localiza o defeito.
| CH50 | AH50 | Interpretação |
|---|---|---|
| Baixo ou ausente | Normal | Deficiência da via clássica (C1q, C1r, C1s, C2, C4) |
| Normal | Baixo ou ausente | Deficiência da via alternativa (properdina, fator D, fator B) |
| Baixo ou ausente | Baixo ou ausente | Deficiência de C3 ou de componente terminal (C5 a C9), ou consumo intenso |
| Normal | Normal | Complemento íntegro; se a suspeita persiste, dosar C1-INH antigênico e funcional, MBL e fator H |
Aplicações clínicas diretas: no lúpus em atividade, C3 e C4 caem por consumo e seus títulos acompanham a atividade da doença; no angioedema hereditário, C4 é baixo entre crises com C1q normal, e o diagnóstico se confirma com dosagem antigênica e funcional de C1-INH; na hemoglobinúria paroxística noturna, a citometria de fluxo com FLAER demonstra a perda das âncoras GPI (com perda de CD55 e CD59) nos granulócitos; e na suspeita de DCG, o teste de DHR com citometria de fluxo confirma o defeito oxidativo e ainda distingue a herança ligada ao X (ausência total de deslocamento) da autossômica (deslocamento parcial).
O tratamento das deficiências do complemento começa pela prevenção: vacinação antimeningocócica conjugada ACWY e vacina contra o meningococo B, pneumocócica e contra Haemophilus influenzae tipo b, com reforços em intervalos mais curtos que os do calendário padrão (comumente a cada 3 a 5 anos para o meningococo nessas condições, conforme as recomendações nacionais e internacionais), antibioticoprofilaxia com penicilina em casos selecionados e orientação escrita para procurar atendimento imediato diante de febre, pois a bacteriemia pode evoluir em horas. A imunoglobulina não tem papel na deficiência isolada de complemento, pois os anticorpos do paciente são normais; o que falta é a opsonização por C3b e a lise bacteriana.
| Contexto | Fármaco | Esquema típico |
|---|---|---|
| Crise de angioedema hereditário | Icatibanto (antagonista do receptor B2 da bradicinina) | 30 mg subcutâneo; pode repetir 1 dose após 6 h; máximo de 3 doses em 24 h |
| Crise de angioedema hereditário | Concentrado plasmático de C1-INH | 20 U/kg intravenoso, com repetição em 1 h se resposta insuficiente |
| Profilaxia de angioedema hereditário | Lanadelumabe (anticorpo anti-calicreína) | 300 mg subcutâneo a cada 2 semanas (intervalo amplável para 4 semanas se controle estável) |
| Profilaxia de angioedema hereditário | Berotralstate (inibidor oral de calicreína) | 150 mg por via oral uma vez ao dia |
| Profilaxia clássica (alternativa) | Andrógenos atenuados (danazol) | Dose mínima eficaz, comumente 200 mg/dia; evitar em crianças e gestação |
| Hemoglobinúria paroxística noturna e SHUa | Eculizumabe (anti-C5) | 900 mg intravenoso semanal por 4 semanas, depois 1.200 mg a cada 2 semanas |
| Hemoglobinúria paroxística noturna e SHUa | Ravulizumabe (anti-C5 de meia-vida longa) | A cada 8 semanas, após dose inicial conforme peso |
| DCG (profilaxia) | Sulfametoxazol-trimetoprima | 5 mg/kg/dia da fração trimetoprima, em 1 a 2 doses |
| DCG (profilaxia fúngica) | Itraconazol | 200 mg/dia (100 mg se peso abaixo de 50 kg ou em crianças) |
| DCG (imunomodulação) | Interferon gama | 50 microgramas/m2 subcutâneo, 3 vezes por semana |
Dois avisos de segurança que viram questão: todo paciente que iniciar anti-C5 (eculizumabe ou ravulizumabe) precisa estar vacinado contra meningococo ACWY e B antes da primeira dose, com antibioticoprofilaxia cobrindo a janela vacinal, porque o bloqueio da via terminal recria iatrogenicamente a deficiência de C5 a C9; e na DCG, o transplante de medula óssea e a terapia gênica são as únicas opções curativas, com o transplante indicado precocemente na forma ligada ao X com doador compatível. Nas síndromes autoinflamatórias por ativação do inflamassoma NLRP3, os inibidores da interleucina 1 (anakinra e canakinumabe) transformaram o prognóstico.
O prognóstico das doenças da imunidade inata é ditado pela precocidade do diagnóstico. Na deficiência da via terminal, a primeira infecção meningocócica pode ser fatal, mas, com vacinação, antibioticoprofilaxia e educação, a sobrevida se aproxima da população geral, e o risco de doença invasiva recorrente cai acentuadamente. No angioedema hereditário, sem profilaxia, o edema de laringe historicamente matava cerca de 30% dos pacientes por asfixia; com terapia dirigida para crises (icatibanto ou C1-INH) e profilaxia moderna, a mortalidade cai a praticamente zero e a qualidade de vida é o desfecho a perseguir. Na DCG, a sobrevida até a vida adulta supera 90% com profilaxia trimetoprima, itraconazol e interferon gama, e o transplante ou a terapia gênica oferecem cura. Nas deficiências de IRAK4 e MyD88, a gravidade concentra-se nos primeiros anos e melhora com a maturação das respostas adaptativas. Complicações crônicas a monitorar: glomerulopatia C3 e doença renal terminal nas deficiências de fator H e I, lúpus nas deficiências precoces da via clássica (seguimento reumatológico), e doença tromboembólica na hemoglobinúria paroxística noturna não tratada.
1.Adolescente com dois episódios prévios de meningococcemia invasiva por sorogrupo Y apresenta novo episódio. Qual deficiência deve ser investigada primeiro?
2.Mulher de 24 anos tem crises de edema não púpura em face e mãos desde a adolescência, cólicas abdominais e um episódio de edema de laringe, sem urticária. C4 baixo, C1q normal, C1-INH com dosagem antigênica normal e atividade funcional reduzida. Diagnóstico:
3.Tratamento de primeira linha para crise moderada a grave de angioedema hereditário no pronto-socorro:
4.Criança com infecções recorrentes tem CH50 ausente e AH50 normal. O defeito mais provável está em qual via?
5.Menino de 3 anos com linfadenite supurativa por Staphylococcus aureus, abcesso hepático e pneumonia por Aspergillus. Qual microrganismo NÃO está associado à doença suspeitada?
6.O exame atual padrão-ouro para confirmar doença crônica granulomatosa é:
7.O receptor TLR4, com seus co-receptores CD14 e MD-2, reconhece qual ligante?
8.A via do complemento responsável pela maior parte da amplificação da ativação total de C3, mesmo quando o gatilho foi um imunocomplexo, é:
9.Lactente com pneumonia pneumocócica invasiva grave, mas sem febre alta e com PCR discretamente elevada; episódios recorrentes com pouca resposta inflamatória. Qual defeito explica o paradoxo de infecção grave com inflamação pobre?
10.Sobre o eculizumabe, assinale a afirmativa correta:
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