Baseado nos artigos publicados da matéria Hematologia da Central de Estudos (fonte principal) e nas diretrizes e revisões vigentes — ASH 2018–2020, ELN 2020–2022, OMS 5ª edição (2022), IMWG 2014, WFH 2020, AABB 2023, CHEST 2021 (complemento, sempre com DOI). Resumo de estudo — na conduta real, confira sempre a versão vigente do protocolo.
Anemia é Hb abaixo dos limiares da OMS: < 13 g/dL no homem adulto, < 12 g/dL na mulher não gestante e < 11 g/dL na gestante. Anemia grave, em geral, abaixo de 7–8 g/dL. O sintoma depende menos do valor absoluto e mais da VELOCIDADE de queda e da reserva cardiopulmonar: Hb 6 g/dL crônica pode ser tolerada; Hb 9 g/dL em sangramento agudo pode chocar. Anemia é sinal, não diagnóstico — todo caso termina com uma causa.
Cascata diagnóstica da anemia pelo VCM
Hb baixa confirmada — qual o VCM e a resposta reticulocitária?
▼
MICROCÍTICA (< 80 fL)
Ferropriva (a mais comum no mundo): ferritina < 30 µg/L, ferro sérico baixo, TIBC alto, TSAT baixa.
Talassemia (trait): Mentzer < 13, RDW normal, eritrócitos numerosos e pequenos — confirmar com eletroforese (HbA₂ > 3,5% na beta).
Anemia da inflamação: ferritina normal ou alta, hepcidina elevada, TSAT < 20% — doença crônica de base.
Sideroblástica (rara): ferro normal/alto, sideroblastos em anel na medula — lead, piridoxina, MDS.
3. Terapia transfusional: quando transfundir e com o quê
A estratégia contemporânea é RESTRITIVA: transfundir o paciente estável com Hb < 7 g/dL (TRICC; AABB 2023), e não corrigir números por conforto. Na sepse, o limiar de 7 g/dL não difere do limiar de 9 g/dL em mortalidade (TRISS). Limiares mais altos (Hb < 8) aplicam-se a cirurgia cardíaca e podem ser considerados na síndrome coronariana aguda. O paciente instável com sangramento ativo é a exceção: transfunde conforme a hemorragia, guiado por algoritmo de transfusão maciça.
Componente
Conteúdo e efeito esperado
Indicação-síntese
Concentrado de hemácias (CH)
≈ 300 mL; 1 unidade eleva Hb ≈ 1 g/dL no adulto
anemia sintomática/limiar restritivo; perda aguda
Concentrado de plaquetas (pool 4–6 U ou aférese)
aumento esperado ≈ 20–40 ×10⁹/L
plaquetopenia com sangramento (< 10–20 mil) ou profilaxia de procedimento (20–50 mil; neurocirurgia 100 mil)
Plasma fresco congelado (PFC)
todos os fatores de coagulação; 10–15 mL/kg
sangramento com TAP/TTPa alterados, CIVa, reversão rápida de varfarina
Crioprecipitado
≈ 200–250 mg de fibrinogênio por unidade; meta fibrinogênio > 100–150 mg/dL
hipofibrinogenemia (CIVa, LPA, trauma) — preferível ao PFC para elevar fibrinogênio
4. Reações transfusionais — o diferencial por tempo e sinal
Reação
Quadro
Conduta
Febril não hemolítica (a mais comum)
febre/calafrios durante ou logo após, sem hemólise
hipoxemia + infiltrados bilaterais NÃO cardiogênicos em < 6 h
parar, oxigênio, suporte ventilatório — diurético NÃO é a resposta
TACO (sobrecarga circulatória)
hipertensão, congestão, edema em < 6–12 h (idoso, IC, DRC)
parar/desacelerar, diurético — o oposto da TRALI
Contaminação bacteriana
febre alta (> 39 °C) + choque — sobretudo plaquetas (armazenadas à temperatura ambiente)
parar, hemoculturas do paciente e da bolsa, antibiótico amplo
Hemólise tardia
icterícia e queda de Hb em 3–14 dias (anticorpos anamnésicos, sistema Kidd)
investigar Coombs, suporte
Complicações crônicas: aloimunização, sobrecarga de ferro (talassemia major — cada CH aporta 200–250 mg de ferro) e infecções. No Brasil, o ciclo do sangue é normatizado pela Anvisa (RDC 34/2014) — doação voluntária, testagem obrigatória e rastreabilidade bolsa-a-bolsa.
Questões do módulo · 01
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalMulher, 26 anos, fadiga e menstruação abundante; Hb 9,8 g/dL, VCM 72 fL, RDW 17,8%, eritrócitos 4,1 ×10¹²/L. Qual o próximo exame para fechar a causa?
2.AvançadoHomem, 58 anos, sepse em UTI, estável, sem sangramento, Hb 7,3 g/dL. Conduta transfusional:
ferropriva (diagnóstico e reposição com doses) · megaloblástica (B12 × folato) · anemia da inflamação · tabela laboratorial diferencial
Ferritina
< 30 µg/L
fecha ferropriva (sens ≈ 92%, esp ≈ 98%)
B12
< 200 pg/mL
deficiente; 200–300 = zona cinzenta (MMA)
Resposta ao ferro
+2 g/dL
esperada em 3–4 semanas de reposição
Duração do ferro
3 meses
após normalizar a Hb (repor estoques)
1. Ferropriva — a anemia mais comum do mundo
Cadeia: ingestão insuficiente (dieta, vegetarianismo estrito), má absorção (celíaca, gastrectomia, H. pylori), aumento da demanda (gestação, lactância, adolescência) e perda crônica (menstruação abundante, sangramento gastrointestinal). No homem e na mulher pós-menopausa, anemia ferropriva é sangramento digestivo até prova contrária — e a preocupação é neoplasia de cólon.
Laboratório: ferritina baixa é o marcador-chave — < 30 µg/L na prática (critério de Guyatt); a OMS (2020) define depleção de ferro com ferritina < 15 µg/L em adultos.
Ferro sérico baixo, TIBC ELEVADO (transferrina sobe), TSAT < 16–20% — o único perfil em que a capacidade de ligação sobe junto da deficiência.
Na inflamação concomitante (obesidade, DRC, doença ativa), a ferritina sobe como reator de fase aguda: usar limiares mais altos (< 70–100 µg/L) para não perder o diagnóstico.
2. Anemia megaloblástica — B12 e folato
Defeitos na síntese de DNA → eritropoiese ineficaz: VCM elevado (frequentemente > 110 fL), macro-ovalócitos, neutrófilos hipersegmentados (≥ 5 lóbulos), LDH marcadamente elevada, bilirrubina indireta alta e pancitopenia nos casos avançados. Hipersegmentação é o achado de esfregaço que vale ponto.
3. Anemia da inflamação (doença crônica) — o diferencial que engana
Teste
Ferropriva
Inflamatória
Mista
Ferritina
baixa (< 30)
normal ou ALTA
normal-baixa
TSAT
muito baixa
baixa (< 20%)
baixa
TIBC/transferrina
ALTA
baixa
baixa-normal
RDW
alto
normal
alto
Hepcidina
baixa
elevada (bloqueia exportação de ferro)
elevada
Tratamento da anemia da inflamação é o da doença de base; ferro endovenoso e agentes estimuladores da eritropoese têm papel definido na doença renal crônica e na insuficiência cardíaca com deficiência de ferro associada. Prognóstico das carenciais é excelente quando a causa é identificada e tratada: a ferropriva não tratada na gestação associa-se a parto prematuro e baixo peso; o déficit neurológico do B12 tardio pode ficar definitivo.
Questões do módulo · 02
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioHomem, 67 anos, Hb 10,1 g/dL, VCM 74 fL, ferritina 8 µg/L, TIBC alto. Negou perda de sangue e a história é silenciosa. Após iniciar reposição, qual o passo obrigatório?
2.Prova difícilMulher, 71 anos, pós-gastrectomia total há 3 anos, Hb 9,4 g/dL, VCM 118 fL, parestesias em pés e marcha instável há meses. B12 260 pg/mL, folato normal. Melhor conduta:
marcadores de hemólise · AHAI (Coombs quente × fria) · esferocitose e G6PD · PNH · doença falciforme · talassemias
Hemólise
LDH ↑ · Hapto ↓
bilirrubina indireta ↑ + reticulócitos ↑
AHAI quente
IgG 37 °C
esferócitos · prednisona 1 mg/kg
Hidroxiureia (SCD)
15 → 35 mg/kg
titulada · reduz crises ≈ 50%
Talassemia major
Hb 9–10
g/dL pré-transfusão + quelação de ferro
1. Reconhecer hemólise
Quarteto laboratorial: LDH elevada, haptoglobina baixa (o marcador mais precoce), bilirrubina indireta alta e reticulócitos altos com policromasia no esfregaço. Intravascular soma hematúria/hemoglobinúria e LDH muito elevada (a hemácia estoura na circulação); extravascular (macrófagos esplênicos) soma esplenomegalia. A eritropoiese acelerada explica VCM levemente alto e, em crises, produção de nucleados.
2. Anemia hemolítica autoimune (AHAI)
Quente (70–80%)
Fria
Anticorpo
IgG, ótimo a 37 °C, extravascular (baço)
IgM, fixa complemento, intravascular em parte
Esfregaço
esferócitos
aglutinação, pode haver acrocianose (livedo após exposição ao frio)
Gatilhos
idiopática, SLE, linfoproliferação, fármacos
Mycoplasma pneumoniae, mononucleose (EBV), síndrome de aglutininas frias crônica no idoso (linfoma)
PROTEGER DO FRIO; rituximabe — corticoide tem resposta pobre
Síndrome de Evans = AHAI + PTI (duas citopenias autoimunes no mesmo paciente). Toda AHAI exige busca de causa secundária (lúpus, linfoma, fármacos, imunodeficiência).
3. Hemólises Coombs-negativas hereditárias
Esferocitose hereditária: defeito de membrana (espectrina/ankirina), esferócitos, clínica de anemia + icterícia + esplenomegalia com colecistite lítica precoce; teste de ligação ao EMA na citometria (sensibilidade ≈ 93%); esplenectomia nos casos graves — sempre com vacinação prévia (pneumococo, meningococo, Hib).
Deficiência de G6PD: enzimopatia ligada ao X, a mais comum do mundo; hemólise intravascular episódica após estresse oxidativo — fava, primaquina, dapsona, sulfas, nitrofurantoína, naftalina e RASBURICASE (contraindicada absoluta). Esfregaço: células mordidas e corpos de Heinz (coloração supravital).
Hemoglobinúria paroxística noturna (PNH): mutação do PIGA → perda das proteínas CD55/CD59 → hemólise intravascular COMPLEMENTO-mediada. Tríade: hemoglobinúria matinal, TROMBOSE (inclusive veia hepática) e citopenias/síndrome aplásica. Diagnóstico: citometria com FLAER. Tratamento: eculizumabe (anti-C5) — com vacinação contra meningococo obrigatória (risco de infecção por Neisseria).
4. Doença falciforme (HbSS)
Mutação pontual na β-globina (código 6, ácido glutâmico → valina) → HbS que POLIMERA quando desoxigenada → hemácia em foice, viscosidade e vaso-oclusão + hemólise crônica (Hb típica 6–9 g/dL) + hemólise intravascular crônica com Hb livre (consumo de óxido nítrico → vasculopatia). Brasil: incidência ≈ 1:1.000–1.400 nascimentos, com triagem neonatal obrigatória (PNTN) — HbFS no teste do pezinho. HbF elevada protege (por isso hidroxiureia, que aumenta HbF).
Crise dolorosa vaso-oclusiva: o evento mais frequente — dor ósosa/lombar em múltiplos sítios; tratamento: hidratação, analgesia escalonada com opioide e calor; dactilite (mãos/pés inchados) é a apresentação clássica do lactente.
Síndrome torácica aguda: novo infiltrado + febre/dor torácica/dispneia — principal causa de morte; conduta: oxigênio, antibiótico (atípicos), analgesia, espirometria de incentivo e transfusão se agravamento.
AVC isquêmico: 10% clínico em crianças e 20–30% silencioso; DOPPLER TRANSCRANIANO anual (2–16 anos) — velocidade ≥ 200 cm/s = alto risco → programa de transfusões crônicas (mantém HbS < 30% e Hb ≈ 9–10), que reduz AVC em ≈ 90%.
Sequestro esplênico: criança pequena, queda de Hb ≥ 2 g/dL + esplenomegalia aguda e plaquetopenia — emergência com volume e concentrado de hemácias.
Crise aplásica: parvovírus B19 (aplasia transitória de série vermelha) — Hb cai sem reticulocitose.
Crônicas: litíase biliar pigmentar, necrose asséptica do fêmur, retinopatia proliferativa, priapismo, proteinúria/nefropatia (IECA), úlcera de perna, hipertensão pulmonar.
5. Talassemias
Síntese desequilibrada das globinas: excesso de cadeias não pareadas → apoptose de precursores (eritropoiese ineficaz) e hemólise. Alfa: 4 genes no cromossomo 16 — 1 gene deletado = silencioso; 2 = trait (microcitose leve); 3 = doença HbH (hemólise moderada); 4 = hidropsia fetal (Hb Bart, letal sem manejo intrauterino). Beta: 2 genes no cromossomo 11 — minor (trait), intermedia e major (anemia de Cooley).
Forma
Laboratório/Clínica
Conduta
β-talassemia minor (trait)
microcitose com eritrócitos NUMEROSOS, Mentzer < 13, RDW normal, eletroforese com HbA₂ > 3,5%
não transfunde, NÃO se beneficia de ferro; orientação genética
β-talassemia intermedia
hemólise moderada, início mais tardio, transfusão esporádica
anemia grave a partir de 6–24 meses, falha de crescimento, hepatoesplenomegalia, deformidades faciais
PROGRAMA TRANSFUSIONAL + quelação de ferro; TMO alogênico é curativo
Eletroforese/HPLC na β-major: HbF dominante com HbA ausente ou mínima — o oposto do perfil de falciforme (HbS dominante).
Programa transfusional: manter Hb PRÉ-transfusão entre 9 e 10 g/dL — suprime a eritropoiese ineficaz e o crescimento extramedular.
Cada concentrado de hemácias aporta ≈ 200–250 mg de ferro e não há via fisiológica de excreção → quelação a partir de ferritina ≈ 1.000 µg/L: deferasirox 20–40 mg/kg/dia VO; deferoxamina 40–50 mg/kg/dia SC em 8–12 h, 5–7 dias/semana; deferiprona 75–100 mg/kg/dia VO.
Endocrinopatias (hipogonadismo, diabetes, hipotireoidismo) e cardiomiopatia por sobrecarga de ferro são as grandes complicações do adulto talassêmico.
Questões do módulo · 03
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioJovem, 19 anos, pós-pneumonia atípica por Mycoplasma: Hb 8,9, LDH 900, bilirrubina indireta alta, Coombs positivo com C3, acrocianose nas mãos com frio. Diagnóstico e primeira conduta:
2.AvançadoCriança, 7 anos, com HbSS em acompanhamento: Doppler transcraniano com velocidade média de 212 cm/s na artéria cerebral média (confirmado em 2 exames). Hb 8,4 g/dL, assintomática. Conduta:
triagem TP × TTPa · hemofilia A e B (gravidade e dose de fator) · DDAVP · inibidores e emicizumabe · tipos de vWF
Grave
FVIII/IX < 1%
sangramento espontâneo, hemartrose
FVIII
+2% / IU/kg
cada UI por kg eleva 2 IU/dL
FIX
+1% / IU/kg
eleva 1 IU/dL · meia-vida 18–24 h
DDAVP
0,3 µg/kg
IV/SC — hemofilia A leve e vWD tipo 1
1. A triagem TP × TTPa
Teste alterado
Via/fatores
Causas de prova
TTPa isoladamente alto
intrínseca: VIII, IX, XI, XII
hemofilias, doença de von Willebrand, heparina, anticoagulante lúpico
TAP isoladamente alto
extrínseca: VII
deficiência de vitamina K, hepatopatia, varfarina (fator VII, meia-vida curta)
TAP e TTPa altos
via comum: II, V, X, fibrinogênio
hepatopatia grave, CIVa, transfusão maciça, deficiência de fibrinogênio
2. Hemofilias A e B
Deficiências ligadas ao X (gene no cromossomo X): hemofilia A (fator VIII, ≈ 1:5.000–10.000 nascidos vivos masculinos) e hemofilia B (fator IX, ≈ 1:25.000). Cerca de um terço dos casos surge de mutação nova, sem história familiar — menino sem antecedente com hemartrose continua sendo hemofilia. Gravidade (WFH 2020): grave < 1 IU/dL (sangramento espontâneo), moderada 1–5 (após trauma), leve 5–40 (procedimentos).
Quadro clássico: HEMARTROSES de joelho, cotovelo e tornozelo (dor + calor + impotência — repetidas levam à artropatia destrutiva), hematomas musculares (psoas imita abdome agudo), hematúria.
Sangramento intracraniano: qualquer cefaleia em paciente grave é emergência — fator ANTES da imagem.
Forma leve: sangramento prolongado só após procedimentos (circuncisão, extração dental); TTPa pode ser normal ou limítrofe.
Portadoras femininas podem ser sintomáticas (inativação desigual do X) — menina com sangramento anormal deve ser investigada.
3. Emicizumabe e inibidores
Emicizumabe: anticorpo BIESPECÍFICO que imita o FVIIIa (aproxima IXa e X) — profilaxia SUBCUTÂNEA na hemofilia A, com ou sem inibidores: 3 mg/kg/semana × 4 semanas, depois 1,5 mg/kg/semana (ou 3 mg/kg a cada 2 semanas / 6 mg/kg a cada 4). Reduz as taxas de sangramento em comparação com profilaxia prévia (HAVEN). Pegadinhas: NÃO altera o TTPa nem eleva o nível de FVIII (laboratório segue anormal) e a profilaxia com emicizumabe não dispensa plano para sangramento de escape: FVIII (sem inibidor) ou rFVIIa (com inibidor) — concentrado de complexo protrombínico ativado (aPCC) em associação associa-se a eventos trombóticos e microangiopatia.
Inibidores: aloanticorpos neutralizantes contra o fator exógeno, que surgem em ≈ 30% dos pacientes graves com hemofilia A (muito menos na B). Dosagem de Bethesda: ≥ 0,6 UB define positivo; ≥ 5 UB = alto título (anamnésico). Hemorragia com inibidor de alto título: agentes que contornam o fator — rFVIIa 90 µg/kg a cada 2–3 h ou aPCC. Erradicação por indução de tolerância imune (ITI) com exposição regular ao FVIII.
4. Doença de von Willebrand
A diátese hereditária mais comum (até 1% da população com sintomas leves): defeito QUANTITATIVO ou qualitativo do vWF — adesão plaquetária (alta shear) e carreador do FVIII. Sangramento de MUCOSA (epistaxe, menorrhagia), TTPa pode estar alto pelo FVIII baixo.
Tipo
Defeito
Tratamento
1 (70–80%)
quantitativo parcial
DDAVP na maioria
2A / 2M
qualitativo (multímeros / adesão)
concentrado de vWF (DDAVP se resposta comprovada)
2B
afinidade AUMENTADA às plaquetas — PLAQUETOPENIA
concentrado de vWF — DDAVP contraindicado (piora a plaquetopenia)
2N
ligação deficiente ao FVIII — mimetiza hemofilia A
concentrado com FVIII
3 (raro, grave)
ausência quase completa
concentrado de vWF + suporte; DDAVP inútil
Questões do módulo · 04
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalMenino, 4 anos, hemartroses de joelho recorrentes espontâneas. TTPa prolongado, TAP normal, plaquetas 280 ×10⁹/L, teste de mistura corrige. Dosagem de fatores mostra FVIII 0,8%. Diagnóstico e base do tratamento:
2.Prova difícilAdolescente com hemofilia A grave e inibidor de alto título em profilaxia com emicizumabe apresenta hemartrose aguda de tornozelo. Conduta:
graduação e mecanismos · PTI (ASH 2019, a campeã) · púrpura trombocitopênica trombótica · SHU × TTP · trombocitopenia induzida por heparina
Grave
< 50 ×10⁹/L
sangramento espontâneo relevante < 10–20 mil
PTI: tratar
< 30 ×10⁹/L
critério ASH 2019 (adulto)
TTP
ADAMTS13 < 10%
plasmaférese imediata
HIT
queda > 50%
dias 5–10 de heparina — TROMBOSE paradoxal
1. Graduação e o racional diagnóstico
Plaquetopenia leve 100–150 ×10⁹/L, moderada 50–100, grave < 50. O risco de sangramento espontâneo relevante aparece tipicamente abaixo de 10–20 ×10⁹/L. Antes de tudo: conferir o ESFREGAÇO — aglomeração por EDTA (pseudo-plaquetopenia) resolve-se com citrato e é achado benigno.
Onde está o problema?
Plaquetopenia verdadeira — qual o mecanismo?
▼
PRODUÇÃO ↓
Outras citopenias, reticulócitos baixos, esfregaço com neutrofilos hipogranulares/displásicos ou blastos.
Não imune: CIVa, microangiopatias (TTP/SHU), HELLP, queimadura, válvula.
Cenário plaquetopenia ISOLADA com plaquetas grandes e restante normal: PTI até prova contrária.
SEQUESTRO / DILUIÇÃO
Esplenomegalia (cirrose, hipertensão portal, linfoma) — plaquetas 50–100 mil típicas.
Transfusão maciça sem plaquetas.
2. Púrpura trombocitopênica imune (PTI) — a campeã
Investigação mínima: hemograma completo + esfregaço; sorologias HIV e hepatites; teste de gravidez na mulher em idade fértil. MIELGRAMA não é obrigatório no caso típico (ASH 2019) — reserva-se ao atípico.
ASH 2019 (adulto): TRATAR quando plaquetas < 30 ×10⁹/L (com ou sem sangramento); OBSERVAR acima disso sem sangramento; internar apenas quem sangra ativamente.
Criança sem sangramento ou sangramento leve (pele): conduta expectante na maioria — a doença é autolimitada.
3. Púrpura trombocitopênica trombótica (TTP)
Deficiência severa da ADAMTS13 (autoimune no adulto; congênita na síndrome de Upshaw-Schulman) → multímeros ultragrandes de vWF → microtromboses. Pentade clássica: anemia hemolítica microangiopática (esquistócitos) + plaquetopenia + sintomas NEUROLÓGICOS FLUTUANTES + disfunção renal leve-moderada + febre — completa em minoria dos casos: a dúvida já justifica tratar. Mortalidade sem tratamento > 90%; com plasmaférese cai para 10–20%.
diarreia SANGUINOLENTA prévia, crianças < 5 anos, afebril
cause de base evidente; TAP/TTPa alterados, fibrinogênio baixo
Teste-chave
ADAMTS13 < 10%
toxina Shiga (STEC O157:H7)
consumo de fatores e plaquetas
Tratamento
plasmaférese + corticoide (+ caplacizumabe)
SUPORTE + diálise — antibiótico NÃO está indicado (pode aumentar liberação de toxina)
tratar a causa + suporte hemostático (plaquetas só após correção/ sem sangramento ativo em certos contextos)
SHU atípica (mediada por complemento, sem diarreia) tem indicação de eculizumabe — e sobrevida renal melhor com tratamento precoce.
5. Trombocitopenia induzida por heparina (HIT)
Imunoglobulina contra o complexo heparina-PF4 → ativação plaquetária e do ENDOTÉLIO: a trombocitopenia vem com TROMBOSE paradoxal (arterial e venosa; risco ≈ 25–50% sem anticoagulação). Quadro: queda > 50% das plaquetas entre os dias 5–10 de heparina (ou súbita, < 24 h, se exposição recente nos últimos 30 dias), sem outra causa — o escore 4Ts gradua a probabilidade.
Confirmação: ELISA anti-PF4 (rastreio) e teste de liberação de serotonina (confirmação) — pedir apenas com 4Ts intermediário/alto; score baixo afasta e nem se dosa.
Conduta: SUSPENDER toda heparina (inclusive flushes e selos de cateter) e anticoagular com agente NÃO heparínico: argatroban 2 µg/kg/min IV (ajuste hepático), bivalirudina, fondaparinux ou DOAC.
Varfarina somente após recuperação das plaquetas (≥ 150 ×10⁹/L), com sobreposição — começada isolada no HIT agudo causa gangrena de membro e necrose cutânea.
NÃO transfundir plaquetas (efeito pró-trombótico), exceto sangramento grave.
Questões do módulo · 05
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalMulher, 28 anos, petéquias e gengivorragia há 1 semana após virose. Hb 13,1, leucócitos 6.400, plaquetas 12 ×10⁹/L, esfregaço com plaquetas grandes isoladas, sem esplenomegalia. Conduta:
2.Prova difícilHomem, 62 anos, pós-operatório de revascularização, em heparina por 6 dias: plaquetas caem de 220 para 88 ×10⁹/L e ele evolui com TVP aguda. Escore 4Ts alto. Conduta:
ou genética definidora (PML-RARA, t(8;21), inv 16)
LPA
t(15;17)
coagulopatia + ATRA imediato
LLA infantil
cura ≈ 90%
adulto ≈ 35–40%
Esquema padrão
7 + 3
citarabina 7 dias + antraciclina 3
1. Leucemia mieloide aguda (LMA)
Neoplasia de precursores mieloides com bloqueio de maturação: acúmulo de blastos (≥ 20% na medula/sangue) e insuficiência medular — fadiga (anemia), infecção (neutropenia) e sangramento (plaquetopenia). Doença do adulto (mediana ≈ 68–70 anos). Mieloperoxidase positiva, bastão de Auer e imunofenótipo mieloide (CD13/CD33/MPO) confirmam a linhagem; o rastreio de citogenética/mutações (NPM1, FLT3, CEBPA, TP53, IDH1/2) define grupo e terapia — hoje é exame OBRIGATÓRIO antes de tratar.
OMS 5ª edição (2022): prioriza a genética — t(8;21), inv(16) e PML-RARA definem LMA independentemente do percentual de blastos; NPM1 e CEBPA bialélico definem com blastos ≥ 10%.
Tratamento intensivo (elegível): 7 + 3 — citarabina 100–200 mg/m²/dia em infusão contínua por 7 dias + daunorrubicina 60–90 mg/m² (ou idarrubicina) nos dias 1–3 — seguida de consolidação (altas doses de citarabina ou transplante conforme risco); midostaurina acrescenta-se ao FLT3 mutado.
Não elegível à quimioterapia intensiva (idoso/comorbidade): azacitidina + venetoclax.
2. Leucemia promielocítica aguda (LPA / M3)
Subtipo mais letal nas primeiras 48 h e o mais curável a longo prazo: t(15;17) com fusão PML-RARA bloqueia a maturação no promielócito. Apresentação: pancitopenia + COAGULAÇÃO INTRAVASCULAR DISSEMINADA de instalação rápida (fibrinogênio baixo, D-dímero alto) — promielócitos hipergranulares com bastões de Auer em feixes. Pacientes mais jovens, mediana ≈ 40 anos.
3. Leucemia linfoblástica aguda (LLA)
Neoplasia de precursores B (≈ 85%) ou T com TdT positivo. Na criança é o câncer mais comum (pico 2–5 anos); no adulto o prognóstico é pior (cura ≈ 35–40% vs ≈ 90% na criança). Quadro: dor óssea (quadro que se confunde com artrite/osteomielite), febre, palidez, hepatoesplenomegalia, linfadenopatia e massa mediastinal (LLA-T, sobretudo no adolescente masculino). Cromossomo Philadelphia (BCR-ABL): raro na criança (3–5%), presente em ≈ 25% dos adultos — adiciona TKI ao esquema.
Fases do tratamento: indução (vincristina + corticoide — dexametasona superior na criança — + L-asparaginase peguilada ± antraciclina), consolidação, profilaxia do SNC (quimioterapia intratecal) e MANUTENÇÃO (6-mercaptopurina + metotrexato) por 2–3 anos.
Doença mínima residual (MRD) orienta intensificação — o melhor preditor de recaída.
TMO alogênico: recaída, LLA-T de alto risco, Ph+ com resposta subótima.
4. Transplante de medula óssea (TMO)
Autólogo
Alogênico
Fonte
células do próprio paciente
doador HLA compatível (irmão 10/10 ou não aparentado); fontes: medula, sangue periférico (pegada mais rápida, mais DHC), sangue de cordão
LMA de risco adverso/intermediário, LLA de alto risco, aplasia grave jovem, falha de TKI na LMC, talassemia major e falciforme grave, MDS de alto risco
Complicações típicas
toxicidade do condicionamento, mucosite, infecção
DOENÇA DO ENXERTO CONTRA O HOSPEDEIRO (GVHD) aguda e crônica, imunossupressão prolongada
GVHD aguda (primeiros 100 dias): pele (rash difuso), trato gastrointestinal (diarreia) e fígado (bilirrubina) — profilaxia com inibidor de calcineurina + metotrexato ou ciclofosfamida pós-transplante; tratamento com corticoide ± inibidores de calcineurina/biológicos.
GVHD crônica: esclerodermiforme, síndrome sicca, hepática — principal causa de morbidade tardia.
Síndrome de obstrução sinusoidal (SOS/VOD): ganho de peso, hepatomegalia dolorosa e hiperbilirrubinemia pós-condicionamento — defibrotida.
Condicionamento de intensidade reduzida amplia a indicação em idosos/selecionados, trocando toxicidade por maior risco de recaída.
Esquemas que a prova cita: mieloablativo clássico = busulfana (alvo ~800–900 mcg/min, monitorar) + ciclofosfamida 120 mg/kg ou TBI 12 Gy; RIC = fludarabina + busulfana em dose reduzida ou melfalano — para idosos/comorbidades e doenças linfoproliferativas.
Fontes de enxerto e profilaxia: HLA-idêntico → calcineurina + micofenolato/metotrexato; HAPLOIDÊNTICO (quem não tem doador — 'todo mundo tem um haplo') → CICLOFOSFAMIDA PÓS-TRANSPLANTE (PTCy) deleta os T aloreativos; cordão umbilical → calcineurina + sirolimo, com reconstituição imunológica lenta.
Doença falciforme adulta: protocolos haplo com ATG + fludarabina + tiotepa alcançaram ~88% de sobrevida livre de eventos em 2 anos (BMT CTN 1507) — curabilidade além das leucemias.
Questões do módulo · 06
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioHomem, 45 anos, fadiga e gengivorragia: Hb 7,8, plaquetas 22 ×10⁹/L, 40% de blastos com mieloperoxidase positiva e bastões de Auer; cariótipo t(8;21). Diagnóstico e prognóstico ELN 2022:
2.Prova difícilMulher, 32 anos, sangramento gengival intenso e equimoses; Hb 7,2, plaquetas 14 ×10⁹/L, esfregaço com promielócitos hipergranulares; fibrinogênio 90 mg/dL, D-dímero muito elevado, TAP/TTPa prolongados. Conduta imediata:
risco de progressão — smoldering 10%/ano (5 primeiros anos)
1. Linfoma de Hodgkin
Bimodal (15–30 anos e > 55): linfonodo cervical/supraclavicular endurecido e INDOLOR que cresce ao longo de semanas, com disseminação CONTÍGUA (prevível pelo padrão de drenagem — por isso o estadiamento dirigiu o campo de radioterapia por décadas). Célula de Reed-Sternberg (CD30+ e CD15+, CD20− em geral) em fundo reativo. Sintomas B — feber, sudoreses noturnas ENCHARCANTES e perda > 10% do peso em 6 meses — mudam o estádio (sufixo B) e a estratégia.
Doença inicial favorável: ABVD (doxorrubicina, bleomicina, vinblastina, dacarbazina) 2–4 ciclos + radioterapia de campo envolvido.
Doença avançada: ABVD × 6 ciclos, com reavaliação PET intermediária (estratégia adaptada — desescalonamento quando PET negativo após 2 ciclos).
Sobrevida > 90% nos estádios iniciais e ≈ 65–80% nos avançados.
Sequelas do tratamento: hipotireoidismo, hipogonadismo, segundo câncer (mama em mulheres irradiadas jovens, pulmão), cardiotoxicidade — seguimento longo obrigatório.
2. Linfomas não-Hodgkin (LNH)
Grupo heterogêneo (≈ 90% de linhagem B). A pergunta prática da prova: AGRESSIVO (crescimento em semanas — DLBCL, Burkitt, manto) × INDOLENTE (meses–anos — folicular, linfocítico/LLC, MALT). Diagnóstico por BIÓPSIA EXCISIONAL (a arquitetura do linfonodo orienta subtipo — punção aspirativa não basta).
indolente — watch and wait aceitável no assintomático; anti-CD20 + quimio na progressão
Manto
ciclina D1, t(11;14), CD5+
agressivo, média idade; intensificação/TMO discutida
Burkitt
t(8;14) c-MYC; céu estrelado
o tumor de crescimento mais rápido (duplicação 24–48 h) — lise tumoral espontânea; quimio intensiva curta; forma africana endêmica (EBV, mandíbula)
MALT gástrico
lesão de baixo grau gástrica
localizado com H. pylori positivo: ERRADICAÇÃO do H. pylori é a primeira terapia
3. Estadiamento — Lugano (adaptado de Ann Arbor)
Estádio
Extensão
I
uma região linfonodal ou massa única extralinfonodal
II
≥ 2 regiões linfonodais do MESMO lado do diafragma
III
regiões dos DOIS lados do diafragma
IV
difusão extralinfonodal (fígado, medula, pulmão)
A / B
B = sintomas: febre, sudoreses, perda de peso > 10%/6 meses
Lugano substituiu a tomografia por PET-TC na reavaliação dos linfomas FDG-ávidos (escala de Deauville 1–2 = resposta metabólica completa) e encurtou o estadiamento — biópsia de medula deixa de ser universal. O IPI estratifica o DLBCL (idade, estádio, LDH, performance, número de sítios extranodais).
4. Mieloma múltiplo
Proliferação clonal de plasmócitos na medula → proteína M (IgG mais comum) + lesão óssea lítica (ativação osteoclástica) e supressão da hematopoiese. Idoso (mediana 65–70 anos). Síndrome CRAB: Cálcio elevado, insuficiência Renal, Anemia e lesões ósseas (Bone disease) — dor lombar persistente no idoso com anemia e cálcio alto é o enunciado clássico.
Entidade
Critérios
Conduta
MGUS
M < 30 g/L · plasmócitos < 10% · SEM CRAB
observação (risco ≈ 1%/ano)
Mieloma indolente (smoldering)
M ≥ 30 g/L ou plasmócitos ≥ 10%, SEM CRAB nem biomarcador
acompanhamento estreito (≈ 10%/ano nos primeiros 5 anos)
Mieloma múltiplo ATIVO (IMWG)
plasmócitos clonais ≥ 10% (ou plasmocitoma) + CRAB OU biomarcador definidor: plasmócitos ≥ 60%, razão de cadeias leves livres ≥ 100 (com componente envolvido ≥ 100 mg/L) ou > 1 lesão focal na ressonância
tratar
Investigação: eletroforese de proteínas + imunofixação (soro e urina), cadeias leves livres, beta-2-microglobulina, cálcio, creatinina, hemograma, mielograma/biópsia com citogenética, e imagem óssea (RM de corpo inteiro ou PET-TC — mais sensíveis que o raio-x simples).
Elegível a transplante (fitness): indução VRd (bortezomibe + lenalidomida + dexametasona) × 3–4 → TMO AUTOLOGO → manutenção com lenalidomida.
Não elegível: esquemas com daratumumabe (DRd) ou VRd reduzido — a combinação tríplice/quadrupla virou padrão, com dexametasona semanal (bortezomibe SUBCUTÂNEO reduz neurotoxicidade).
Suporte: zoledronato 4 mg (osso), hidratação e evitar AINEs (renal), radioterapia paliativa/alívio de compressão medular (emergência — dexametasona + imagem urgente), profilaxia de TEV com lenalidomida (AAS ou heparina), vacinas SEM componentes vivos.
Prognóstico transformado na era dos novos fármacos e do TMO autólogo — sobrevida mediana acima de 5–6 anos nos elegíveis.
Questões do módulo · 07
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioHomem, 62 anos, massa cervical de crescimento rápido há 3 semanas; biópsia: DLBCL CD20+, estádio II, LDH normal. Tratamento:
2.FundamentalHomem, 68 anos, dor lombar persistente, Hb 8,9 g/dL, cálcio 11,9 mg/dL, creatinina 2,1 mg/dL; proteinograma com pico monoclonal IgG kappa 38 g/L; medula com 40% de plasmócitos clonais. Diagnóstico e conduta:
LMC (BCR-ABL, TKI) · LLC (Rai/Binet, quando tratar) · MDS (IPSS-R) · policitemia vera, trombocitemia essencial e mielofibrose
LMC
t(9;22)
BCR-ABL · imatinibe 400 mg/dia
LLC
CD5+ · CD23+
smudge cells · assintomático se observa
PV
Ht meta < 45%
flebotomia + AAS (CYTO-PV)
TE
plaquetas ≥ 450 mil
citoredução se alto risco
1. Leucemia mieloide crônica (LMC)
Neoplasia mieloproliferativa com BCR-ABL1 (cromossomo Philadelphia, t(9;22)) — tirosinaquinase constitutivamente ativa. Adulto (mediana 50–60 anos): leucocitose importante com ESCALA completa de maturação (mielócitos, metamielócitos, bastões), BASOFILIA (a marca da prova) e esplenomegalia; plaquetas normais ou altas. Fases: crônica (≈ 85% no diagnóstico) → acelerada → blástica. Fosfatase alcalina leucocitária BAIXA (diferencia da reação leucemoide, que é alta).
Tratamento: inibidores de tirosinaquinase ORAIS — imatinibe 400 mg/dia (sobrevida em 10 anos ≈ 80–85%, próxima da população geral); dasatinibe 100 mg/dia e nilotinibe 300 mg 12/12 h na 2ª linha — nilotinibe prolonga QT e dasatinibe causa derrame pleural.
Monitoramento: PCR para BCR-ABL1 (resposta molecular maior = BCR-ABL ≤ 0,1%); falha de resposta orienta troca de TKI.
Interrupção do TKI (remissão livre de tratamento): considerada na fase crônica com resposta molecular profunda (MR4) sustentada ≥ 2 anos e ≥ 3 anos de TKI, SEMPRE com monitoração molecular rigorosa — cerca de metade mantém remissão.
Crise blástica: tratar como leucemia aguda + TKI e encaminhar a TMO alogênico (o único curativo).
2. Leucemia linfocítica crônica (LLC)
Leucemia mais comum do mundo ocidental, idosos. Linfocitose com linfócitos maduros e SMUDGE CELLS; imunofenótipo CD5+ CD19/CD20 dim CD23+ (e CD200+), imunoglobulina de superfície fraca. Corresponde à forma leucêmica do linfoma linfocítico pequeno (mesma doença, apresentações).
Rai
Definição
Conduta
0
linfocitose isolada
OBSERVAR (sobrevida > 10 anos, próxima ao normal em muitos)
I–II
linfocitose + linfonodos e/ou esplenomegalia
observar se assintomático
III
anemia (Hb < 11 g/dL)
considerar tratamento
IV
plaquetopenia (< 100 ×10⁹/L)
tratar
Indicações de tratamento (IWCLL): sintomas constitucionais (febre, sudorese, perda de peso), adenomegalia/esplenomegalia maciça ou sintomática, falência medular progressiva (Hb < 10 ou plaquetas < 100 mil), citopenias autoimnes refratárias, progressão rápida, transformação de Richter.
Esquemas atuais: ibrutinibe (inibidor de BTK) ± obinutuzumabe; venetoclax + obinutuzumabe; nos fitos, quimioimunoterapia (FCR, BR).
Pior prognóstico: del(17p)/TP53, del(11q) e IGHV não mutado.
Complicações: hipogamaglobulinemia com infecções (herpes zoster, encapsulados), citopenias autoimunes (AHAI, PTI) e transformação de RICHTER (→ DLBCL agressivo, prognóstico sombrio).
3. Síndromes mielodisplásicas (MDS)
Neoplasia de célula-tronco com hematopoiese INEFICAZ e displásica no idoso: citopenias crônicas refratárias + displasia (neutrófilo hipogranular, pseudo-Pelger, macroplaquetas, sideroblastos em anel) com blastos < 20%. Risco de transformação para LMA.
Estratificação: IPSS-R (gravidade das citopenias, % de blastos, citogenética) — muito baixo a muito alto risco.
Baixo risco: suporte transfusional, agentes estimuladores da eritropoese (melhor resposta com EPO sérica baixa), lenalidomida na del(5q) (respostas citogenéticas), luspatercepte nos sideroblásticos em anel.
Alto risco: azacitidina (melhora sobrevida) ou TMO alogênico (única cura) em selecionados.
Citopenias crônicas com transfusões repetidas → sobrecarga de ferro e ferritina milhares — considerar quelação.
4. Neoplasias mieloproliferativas (PV, TE, MF)
Proliferação clonal mieloide com mutações JAK2 (V617F), CALR ou MPL. Compartilham risco trombótico-hemorrágico e evolução para fibrose/leucemia.
AAS se sintomático/risco; citoredução (hidroxiureia; anagrelida) no alto risco; interferon na jovem/gestante
ruxolitinibe (reduz baço e sintomas); TMO alogênico em selecionados
Questões do módulo · 08
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioHomem, 74 anos, linfocitose 28 ×10⁹/L estável há 1 ano, smudge cells, CD5+ CD23+, Hb 12,8, plaquetas 180 mil, sem sintomas, sem adenomegalia relevante. Conduta:
2.AvançadoHomem, 58 anos, cefaleia e prurido intenso após banho; Hb 19,5 g/dL, Ht 58%, plaquetas 520 mil, leucócitos 13 mil, JAK2 V617F positivo; SpO₂ normal, sem cardiopatia. Conduta inicial:
09
Trombose venosa e trombofilias
fatores de risco e rastreio · trombofilias hereditárias × SAF (critérios de Sydney) · anticoagulação: escolha e duração · profilaxia
TEV provocada
3 meses
fator transitório maior — depois suspende
Fator V Leiden
a + comum
RR ≈ 3–5× (heterozigoto) — não muda duração
SAF
LA + aCL/β2GP1
2 dosagens com ≥ 12 semanas — AVK por tempo indefinido
1ª linha
DOAC
CHEST 2021 — na maioria dos TEV
1. Visão geral
Trombose venosa é doença MULTIFATORIAL (genética + fatores adquiridos): cirurgia, imobilização, câncer, gestação/puerpério, contracepção hormonal, obesidade, infecção, viagem prolongada, cateter central, idade. TVP: dor e edema unilateral de panturrilha (sinal de Homans inconstante); TEP: dispneia súbita, taquicardia, hipoxemia, dor pleurítica. Estratificação com escore de Wells; D-dímero EXCLUI na baixa probabilidade (ajustado à idade em muitos serviços); angio-TC confirma.
2. Trombofilias: o que rastrear e o que não rastrear
Trombofilia
Nota de prova
Fator V de Leiden (resistência à proteína C ativada)
a MAIS COMUM das hereditárias; RR ≈ 3–5× no heterozigoto — risco absoluto pequeno; rastreio NÃO muda a duração da anticoagulação do primeiro TEV provocado
Mutação G20210A da protrombina
2ª mais comum; mesmo raciocínio do Fator V Leiden
Deficiências de proteína C, proteína S e antitrombina
raras e mais fortes (RR ≈ 10×); TEV jovem, recorrente, sítios incomuns — NÃO dosar na fase aguda (consumo) nem durante varfarina (falso baixo)
Síndrome do anticorpo antifosfolípide (SAF)
a trombofilia ADQUIRIDA mais importante — muda droga (AVK) e duração (indefinida)
Homocistinúria / níveis elevados de homocisteína
fator modesto; suplementação não reduz TEV
3. SAF — critérios revisados de Sydney
Critério CLÍNICO (1 basta): trombose vascular (qualquer vaso) OU morbidade gestacional — ≥ 3 perdas fetais precoces (< 10 semanas), ≥ 1 morte fetal (≥ 10 semanas) com morfologia normal, ou parto prematuro < 34 semanas por pré-eclâmpsia grave/insuficiência placentária.
Critério LABORATORIAL: anticoagulante lúpico, anticardiolipina IgG/IgM em título médio-alto, ou anti-β2-glicoproteína I IgG/IgM — presente em 2 ocasiões com intervalo ≥ 12 semanas.
Definição: ≥ 1 clínico + ≥ 1 laboratorial. O anticoagulante lúpico é o teste com maior valor preditivo para trombose.
Tratamento: TEV por SAF → anticoagulação com VARFARINA (INR 2–3) por tempo INDEFINIDO; DOAC (sobretudo rivaroxabana) mostrou mais eventos na SAF com LA positivo — não é a escolha. Gestante com SAF: heparina de baixo peso molecular + AAS.
4. Tratamento do tromboembolismo venoso
5. Profilaxia e situações especiais
Profilaxia farmacológica: enoxaparina 40 mg SC 1×/dia (ou fondaparinux 2,5 mg) em cirúrgicos de risco e clínicos imobilizados — fundamental em ortopedia maior e neurocirurgia.
Tromboflebite superficial de veia safena > 5 cm próxima da junção: fondaparinux 2,5 mg/dia × 30–45 dias (CALISTO) ou AAS/profilaxia conforme extensão.
Síndrome pós-trombótica: meia de compressão elástica reduz edema; dor persistente após TVP exige reavaliação.
Contraindicações absolutas à anticoagulação: sangramento ativo grave, plaquetas < 25–50 mil, neurocirurgia/hemorragia intracraniana recente — discutir filtro de veia cava como exceção pontual.
Questões do módulo · 09
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioMulher, 45 anos, primeiro episódio de TVP proximal após artroplastia de joelho (cirurgia há 3 semanas), sem trombofilia conhecida. Duração da anticoagulação:
2.Prova difícilMulher, 38 anos, 3 perdas fetais precoces e um episódio de TVP; anticoagulante lúpico positivo em duas dosagens com 14 semanas de intervalo e anticardiolipina IgG em título alto. Anticoagulação:
2.IntermediárioHomem, 70 anos, gastrectomia total há 4 anos; Hb 9,0 g/dL, VCM 116 fL, parestesias em membros inferiores e marcha atáxica; B12 240 pg/mL. Conduta:
3.IntermediárioCriança, 6 anos, HbSS: Doppler transcraniano 205 cm/s na cerebral média (confirmado), assintomática. Conduta que reduz o risco de AVC em ≈ 90%:
4.IntermediárioMenino, 8 anos, hemofilia A leve (FVIII 18%), programado para extração dental. Profilaxia periprocedimento:
5.Prova difícilMulher, 34 anos, Hb 7,8 g/dL com esquistócitos, plaquetas 15 ×10⁹/L, LDH elevada, creatinina 1,4 mg/dL, confusão mental flutuante, febre. ADAMTS13 solicitado, resultado em 3 dias. Conduta:
6.AvançadoHomem, 55 anos, pós-cirurgia, em uso de heparina: plaquetas caem de 240 para 95 ×10⁹/L no 7º dia e surge trombose arterial aguda. 4Ts alto. Laboratório anti-PF4 pendente. Conduta:
7.AvançadoHomem, 52 anos, recém-admitido com pancitopenia e 35% de blastos MPO+; esfregaço com promielócitos hipergranulares, bastões de Auer em feixes, fibrinogênio 80 mg/dL, D-dímero muito alto. Conduta imediata:
8.IntermediárioHomem, 48 anos, leucócitos 68 ×10⁹/L com maturação granulocítica completa e 12% de basófilos, esplenomegalia, Hb e plaquetas normais. Melhor conduta inicial:
Gabarito rápido
1-C · 2-B · 3-B · 4-B · 5-B · 6-B · 7-B · 8-B
Referencial teórico
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notaResumo didático elaborado a partir das diretrizes e revisões acima (verificáveis pelo DOI) e dos artigos publicados desta matéria na Central de Estudos (fonte principal). Nenhuma referência inventada; em caso de divergência entre fontes, vale a versão vigente do protocolo oficial — confira sempre antes da conduta real.
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