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Revisão completa da investigação das anemias pelo algoritmo do VCM: microcítica, normocítica e macrocítica, com tabelas diferenciais do metabolismo do ferro, painel hemolítico, doses de reposição de ferro, B12 e folato, e critérios restritivos de transfusão.
[1] Lopez A, Cacoub P, Macdougall IC, et al. Iron deficiency anaemia. Lancet. 2016;387:907-916 · DOI 10.1016/S0140-6736(15)60865-0 | [2] Weiss G, Goodnough LT. Anemia of chronic disease. N Engl J Med. 2005;352:1011-1023 · DOI 10.1056/NEJMra041809 | [3] Stabler SP. Vitamin B12 deficiency. N Engl J Med. 2013;368:149-160 · DOI 10.1056/NEJMcp1113996 | [4] Holst LB, Haase N, Wetterslev J, et al. Lower versus higher hemoglobin threshold for transfusion in septic shock (TRISS). N Engl J Med. 2014;371:1381-1391 · DOI 10.1056/NEJMoa1406617 | [5] World Health Organization. WHO guideline on use of ferritin concentrations to assess iron status in individuals and populations. Geneva: WHO, 2020 · ISBN 978-92-4-000012-4 | [6] Hebert PC, Wells G, Blajchman MA, et al. Multicenter, randomized, controlled clinical trial of transfusion requirements in critical care (TRICC). N Engl J Med. 1999;340:409-417 · DOI 10.1056/NEJM199902113400601 · DOI 10.1016/S0140-6736(15)60865-0
Anemia não é um diagnóstico final: é um síndrome laboratorial que obriga o médico a responder uma única pergunta: qual a causa? A Organização Mundial de Saúde estima que cerca de um quarto da população mundial tenha anemia, e a deficiência de ferro responde sozinha pela maior parte desse burden, principalmente em mulheres menstruadas, gestantes e crianças de 6 a 24 meses. Para a prova e para a prática, a investigação das anemias se resolve em três movimentos sistemáticos: história dirigida à causa (sangramento, dieta, doenças crônicas, fármacos), classificação morfológica pelo volume corpuscular médio (VCM) e avaliação da resposta medular pelos reticulócitos. Este artigo percorre esse algoritmo do hemograma à conduta, com doses, valores de referência e critérios numéricos de decisão.
Anemia é a redução da concentração de hemoglobina (Hb) abaixo dos valores de referência para sexo e condição fisiológica. Pela OMS: Hb menor que 13 g/dL no homem adulto, menor que 12 g/dL na mulher não gestante e menor que 11 g/dL na gestante. A graduação clássica: anemia leve (Hb entre o limiar e 11 g/dL, aproximadamente), moderada (Hb entre 8 e 10,9 g/dL) e grave (Hb menor que 8 g/dL). Dois ajustes clínicos são cobrados em prova: o paciente com doença cardiopulmonar prévia (coronariopatia, insuficiência cardíaca, DPOC) torna-se sintomático com Hb mais elevada, e o idoso frequentemente tolera mal Hb abaixo de 9-10 g/dL. Os valores de referência para orientar o algoritmo: VCM normal entre 80 e 100 fL; reticulócitos entre 0,5 e 2,5% ou 25.000 a 100.000/mm³ absolutos; ferritina menor que 30 ng/mL define deficiência de ferro com alta especificidade (cerca de 98%), com sensibilidade em torno de 92%.
A gravidade dos sintomas depende mais da velocidade de instalação do que do valor absoluto da Hb. Na anemia crônica, mecanismos compensatórios se instalam gradualmente: aumento da concentração de 2,3-difosfoglicerato (2,3-DPG) no eritrócito, que desloca a curva de dissociação da hemoglobina para a direita liberando mais O2 nos tecidos; aumento do débito cardíaco por taquicardia e hipervolemia; redirecionamento de fluxo; e, a longo prazo, hipertrofia ventricular esquerda. Por isso o paciente com anemia ferropriva de meses pode deambular com Hb de 6-7 g/dL referindo apenas fadiga, enquanto o mesmo valor instalado em horas por hemorragia aguda causa hipovolemia, hipoperfusão e choque.
Recebido o hemograma, o VCM divide qualquer anemia em três grandes grupos: microcítica (VCM menor que 80 fL), normocítica (VCM entre 80 e 100 fL) e macrocítica (VCM maior que 100 fL). O RDW (amplitude de distribuição dos eritrócitos) é o coadjuvante mais cobrado: RDW elevado indica anisocitose, típica da ferropriva (população de eritrócitos novos pequenos convivendo com células velhas normais), enquanto RDW normal com microcitose intensa sugere talassemia. VCM maior que 115-120 fL praticamente descaracteriza ferropriva isolada e aponta para megaloblastose, mielodisplasia ou uso de hidroxiureia. O segundo eixo do algoritmo, aplicado sobretudo na normocítica, é a contagem de reticulócitos.
A anemia ferropriva é a anemia mais frequente do mundo e a causa mais comum de microcitose no Brasil. Os mecanismos se resumem a perda aumentada (menstruação abundante, sangramento gastrointestinal oculto por neoplasia, úlcera, angiodisplasia, parasitoses, doação de sangue, hemodiálise), ingesta insuficiente (dieta pobre em carnes, prematuridade, adolescência), má absorção (doença celíaca, gastrite atrógena por H. pylori, gastrectomia, bypass gástrico, doença inflamatória intestinal) e demanda aumentada (gravidez e lactação). Na mulher jovem menstruada a causa costuma ser ginecológica, mas anemia com Hb menor que 10 g/dL, sintomas digestivos, idade acima de 50 anos ou refratariedade ao tratamento obrigam a investigar o trato gastrointestinal.
A anemia de doença crônica (anemia inflamatória) é a segunda microcitose mais comum e decorre da ação da hepcidina: a interleucina-6 produzida no contexto inflamatório (infecções crônicas, doenças autoimunes, neoplasias, insuficiência cardíaca, doença renal crônica) induz hepcidina hepática, que bloqueia a ferroportina, aprisionando o ferro nos macrófagos e enterócitos e gerando sideremia baixa com ferro nos depósitos preservado ou aumentado. Como a ferritina é proteína de fase aguda, valores normais NÃO excluem deficiência de ferro concomitante em paciente inflamatório: nessas situações usa-se limiar mais alto (ferritina menor que 100 ng/mL, ou menor que 200 na doença renal crônica com inflamação) ou dosagem de receptor de transferrina solúvel e PCR. A deficiência de ferro e a inflamação coexistem em 20 a 40% dos casos, motivo pelo qual a tabela diferencial abaixo deve ser interpretada junto ao contexto clínico.
| Parâmetro | Ferropriva | Doença crônica | Talassemia minor |
|---|---|---|---|
| Ferritina | Diminuída (< 30 ng/mL) | Normal ou elevada | Normal |
| Sideremia (ferro sérico) | Diminuída | Diminuída | Normal |
| TIBC / transferrina | Elevada | Diminuída | Normal |
| Saturação da transferrina | < 16% | < 16-20% (com ferritina normal) | Normal |
| RDW | Elevado | Normal ou discreto | Normal |
| VCM e morfologia | Microcitose tardia, anisocitose | Normo ou microcitose leve | Microcitose intensa desde o nascimento |
| Índice de Mentzer (VCM/hemácias) | > 13 | > 13 | < 13 |
| Eletroforese de hemoglobina | Normal | Normal | HbA2 > 3,5% (beta) ou normal (alfa) |
| Resposta ao ferro oral | Retículocitose em 7-10 dias | Ausente ou parcial | Ausente |
O índice de Mentzer é o atalho predileto das provas: divide-se o VCM pelo número de eritrócitos em milhões por mm³. Valor menor que 13 sugere talassemia (microcitose intensa com eritrocitose, pois a eritropoese é estimulada a compensar a hemoglobinização deficiente); valor maior que 13 sugere ferropriva. O traço beta-talassêmico confirma-se por eletroforese com HbA2 maior que 3,5%; o traço alfa (deleção de um ou dois genes alfa) tem eletroforese normal no adulto e exige estudo genético quando necessário. Lembre-se de que talassemia minor não é indicação de reposição de ferro e o paciente habitualmente tem Hb próxima do normal ou apenas levemente reduzida.
Na anemia normocítica a pergunta central é: a medula está respondendo? Reticulócitos absolutos maiores que 100.000/mm³ (ou reticulócito corrigido maior que 2-3%, calculado como reticulócitos percentuais x hematócrito do paciente / 45) indicam produção preservada e apontam para hemólise ou perda aguda. Reticulócitos menores que 100.000/mm³ indicam falha de produção e direcionam para insuficiência renal (deficiência de eritropoetina), hipotireoidismo, anemia inflamatória em fase inicial, infiltrado medular (linfoma, metástases, mieloma, tuberculose), aplasia de eritróide (parvovírus B19, que causa crise aplástica nas hemólises crônicas como esferocitose e falciforme), mielodisplasia e drogas supressoras.
Confirmada a suspeita de hemólise, solicita-se o painel hemolítico: desidrogenase lática (LDH) elevada, haptoglobina reduzida (marcador mais precocemente consumido), bilirrubina indireta elevada e reticulocitose. O teste de Coombs direto (DAT) é o divisor de águas: positivo com IgG define anemia hemolítica autoimune a quente (doença do anticorpo quente, lúpica, linfoproliferativa, por drogas como metildopa e penicilinas), positivo com complemento C3 sugere aglutininas frias (Mycoplasma, mononucleose, síndrome de aglutininas frias), e negativo conduz às hemólises não imunes: esferócitos no esfregaço indicam esferocitose hereditária; esquistócitos (fragmentócitos) indicam hemólise microangiopática (púrpura trombocitopênica trombótica, SHU, pré-eclâmpsia grave, válvulas cardíacas, coagulação intravascular disseminada); drepanócitos indicam anemia falciforme; e hemoglobinúria com LDH muito elevada sugere hemólise intravascular (favismo, hemoglobinúria paroxística noturna).
Macrocitose (VCM maior que 100 fL, frequentemente 110-130 fL na megaloblastose) exige diferenciar eritropoese megaloblástica das macrocytoses não megaloblásticas. A megaloblastose por deficiência de vitamina B12 (cobalamina) ou folato causa defeito da síntese de DNA: eritrócitos ovais e grandes (macro-ovalócitos), neutrófilos hipersegmentados (5 ou mais lóbulos em mais de 5% dos neutrófilos, ou um único neutrófilo com 6 ou mais lóbulos), eritropoese ineficaz com destruição medular (LDH marcadamente elevada, bilirrubina indireta alta, reticulócitos baixos) e, com frequência, pancitopenia associada.
Na dosagem, B12 sérica menor que 200 pg/mL (148 pmol/L) define deficiência; valores entre 200 e 300 pg/mL são limítrofes e exigem confirmação com ácido metilmalônico (MMA) e homocisteína: na deficiência de B12 AMBOS estão elevados (a cobalamina é cofator da metilmalonil-CoA mutase e da metionina sintase), enquanto na deficiência de folato o MMA é NORMAL e apenas a homocisteína sobe (o folato participa só da metionina sintase). Essa dissociação é o par de números mais cobrado do tema. Dosar também TSH, função hepática e revisar fármacos antes de rotular macrocitose como nutricional.
| Achado | Deficiência de B12 | Deficiência de folato |
|---|---|---|
| Ácido metilmalônico | Elevado | Normal |
| Homocisteína | Elevada | Elevada |
| Manifestação neurológica | Comum (degeneração combinada subaguda) | Rara e inespecífica |
| Causas mais cobradas | Perniciosa, gastrectomia, Crohn ileal, veganismo, metformina | Álcool, gestação, metotrexato, fenitoína |
| Tratamento | Cianocobalamina 1.000 mcg IM (ou 1-2 mg/dia VO) | Ácido fólico 1 mg/dia VO por 1 a 4 meses |
O esquema padrão no Brasil é o sulfato ferroso oral: comprimido de 324 mg corresponde a cerca de 65 mg de ferro elemental. A dose adulta é de 65 mg de ferro elemental (1 comprimido) uma a três vezes ao dia, de preferência em jejum ou 1 hora antes das refeições, associado a vitamina C (suco de laranja) para favorecer a absorção; esquemas em dias alternados aumentam a absorção fracionada (menor pico de hepcidina induzido pelo ferro) e a tolerância digestiva, sendo opção válida quando há intolerância. Orientar que leite, chá preto/mate, café, antiácidos, omeprazol e cálcio reduzem a absorção e devem ficar distantes da dose. Efeitos adversos: epigastralgia, náusea, constipação ou diarreia e fezes enegrecidas (avisar o paciente).
Na deficiência de B12 com causa de má absorção (anemia perniciosa, gastrectomia, ileíte), o esquema clássico é cianocobalamina 1.000 mcg intramuscular diariamente por 1 a 2 semanas, depois semanalmente por 4 semanas e, então, mensalmente por toda a vida. Estudos resumidos no NEJM mostram que a via oral em alta dose (1.000 a 2.000 mcg/dia) é tão eficaz quanto a intramuscular inclusive na perniciosa, por difusão passiva independente do fator intrínseco, sendo alternativa quando o paciente prefere ou não pode usar injeções. Monitorar hipocalemia nas primeiras 48-72 horas de reposição vigorosa (captação maciça de potássio pela eritropoese acelerada) e avisar que a melhora neurológica é lenta (3 a 6 meses ou mais) e nem sempre completa. O folato se repõe com ácido fólico 1 mg/dia por via oral por 1 a 4 meses, corrigindo a causa de base; profilaticamente, toda gestante deve receber 400 mcg/dia iniciando idealmente antes da concepção para reduzir defeitos de tubo neural. O chamado teste terapêutico (reticulocitose evidente entre os dias 7 e 10 de reposição) confirma a deficiência nutricional quando os exames são limítrofes.
Na anemia aguda o tratamento é da causa (hemostasia do sangramento, reposição volêmica com cristaloides, suporte transfusional se necessário), e não da anemia em si. Paciente instável: dois acessos venosos calibrosos, oxigenoterapia, reposição volêmica e transfusão de concentrado de hemácias sem aguardar exames. A decisão transfusional em pacientes estáveis, entretanto, mudou definitivamente com os estudos que estabeleceram a estratégia restritiva: o TRICC (NEJM, 1999) randomizou pacientes críticos para transfundir com Hb menor que 7 g/dL versus menor que 9 g/dL e mostrou mortalidade em 30 dias semelhante ou menor no grupo restritivo; o TRISS (NEJM, 2014) confirmou o limiar de 7 g/dL em choque séptico, sem excesso de eventos isquêmicos. Síntese prática dos alvos: Hb 7 g/dL como gatilho em pacientes hospitalizados estáveis; 8 g/dL em pacientes com doença cardiovascular prévia significativa, no perioperatório de cirurgia ortopédica maior e cardíaca, e no idoso frágil com sintomas; limiares liberais (9-10 g/dL) ficaram restritos a cenários específicos como isquemia miocárdica aguda instável. Cada concentrado de hemácias (aproximadamente 450 mL no padrão internacional) eleva a Hb em cerca de 1 g/dL (hematócrito em 3 pontos) em adulto sem sangramento ativo.
1.Mulher de 62 anos, pós-menopausa, com fadiga e Hb 9,8 g/dL, VCM 72 fL, ferritina 6 ng/mL. Qual a próxima conduta mais adequada?
2.Paciente com Hb 10,5 g/dL, VCM 68 fL, hemácias 6,2 milhões/mm³, RDW normal. Qual o diagnóstico mais provável e o índice que sustenta essa suspeita?
3.Sobre o metabolismo do ferro na anemia de doença crônica, marque a correta:
4.Homem com anemia normocítica, reticulócitos 180.000/mm³, LDH 900 U/L, haptoglobina indetectável, bilirrubina indireta 2,8 mg/dL e Coombs direto positivo com IgG. Qual o diagnóstico?
5.Qual par laboratorial diferencia deficiência de vitamina B12 de deficiência de folato?
6.O maior risco de tratar anemia megaloblástica apenas com ácido fólico, sem investigar B12, é:
7.Sobre a reposição de ferro oral no adulto, marque a correta:
8.Paciente clínico estável, sem dor torácica, Hb 6,8 g/dL, hipovolêmico já corrigido, sem sangramento ativo. Conduta transfusional mais adequada segundo os ensaios TRICC/TRISS:
9.Jovem com anemia falciforme em crise dolorosa apresenta queda abrupta da Hb de 8 para 4 g/dL e reticulócitos de 200.000 para 2.000/mm³. Qual o agente etiológico mais provável dessa complicação?
10.Idoso de 78 anos com VCM 112 fL, Hb 9 g/dL, plaquetas 110.000/mm³, leucócitos 3.200/mm³, sem hipersegmentação neutrofílica e sem deficiência de B12 ou folato. Qual a hipótese a investigar?
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