Baseado nos artigos publicados da matéria Ginecologia e Obstetrícia da Central de Estudos (fonte principal) e nas diretrizes vigentes — ACOG 2014-2022, OMS/Ministério da Saúde e INCA 2024, ESHRE 2022, NAMS 2022, revisões Lancet/NEJM/JAMA (complemento, sempre com DOI). Resumo de estudo — na conduta real, confira sempre a versão vigente do protocolo.
01
Pré-natal de baixo e alto risco
cronograma de consultas · rastreamentos laboratoriais do 1º ao 3º trimestre · imunizações · suplementação (receita) · toxoplasmose e sífilis · anti-D · critérios de alto risco
Consultas
≥ 6
mínimo do MS; OMS 2016 recomenda 8 contatos
TOTG 75 g
24–28 s
rastreio universal de diabetes gestacional
Anti-D (Rh−)
28 s
300 mcg IM; repetir em 72 h pós-parto se RN Rh+
GBS
36–37 s
swab reto-vaginal (CDC/ACOG)
1. Conceito e cronograma
Pré-natal é acompanhamento programado cujo objetivo é rastrear e prevenir complicações maternas e fetais, datar a gestação com precisão e humanizar a assistência. No SUS, mínimo de 6 consultas (iniciando idealmente no 1º trimestre, até a 12ª semana); a OMS (2016) recomenda 8 contatos (12, 20, 26, 30, 34, 36, 38 e 40 semanas). A datagem correta vem da ultrassonografia do 1º trimestre (CRL entre 8 e 13 semanas e 6 dias, variação de cerca de 5 a 7 dias) — melhor que a data da última menstruação.
2. Rastreamentos por trimestre
Trimestre
Condutas
1º (até 12 s)
Hemograma, tipagem + Coombs, VDRL, HIV (com repetição no 3º tri), HTLV I/II, HBsAg, toxoplasmose IgG/IgM, rubéola IgG, urocultura com antibiograma, glicemia de jejum, citopatológico se indicado
2º (24–28 s)
TOTG 75 g (rastreio universal de DMG); repetir urocultura em gestantes de risco; anti-D em Rh− não sensibilizada na 28ª semana
3º
VDRL e HIV (repetição), swab reto-vaginal para GBS entre 36 0/7 e 37 6/7 semanas (CDC/ACOG — no SUS a estratégia é baseada em fatores de risco: divergência entre protocolos), dosagem de anticorpos anti-D se sensibilizada
3. Imunizações
Indicadas na gestação: dTpa em toda gestação (PNI/MS: a partir da 20ª semana; ACOG/CDC: janela ideal 27–36 s) — protege o recém-nascido de coqueluche por transferência de anticorpos; influenza inativada em qualquer trimestre na campanha; hepatite B se AgHBs negativa; COVID-19.
Contraindicadas: vacinas vivas atenuadas (tríplice viral, varicela, febre amarela) — adiar para o pós-parto; vacinada inadvertidamente não é indicação de interrupção (aconselhamento).
Fluxo da sorologia para toxoplasmose no pré-natal
Sorologia para Toxoplasma no 1º trimestre — qual o padrão?
▼
IgG− IgM− (suscetível)
Repetir IgG/IgM mensalmente ou por trimestre até o parto.
Orientar: carne bem cozida, lavar verduras/legumes, luvas ao jardinar, gato dentro de casa (oocistos esporulam no ambiente).
IgG+ IgM− (imune)
Imunidade prévia: sem risco de infecção congênita, sem repetição necessária.
IgM+ (suspeita de aguda)
Confirmar com avidez de IgG (alta avidez = infecção antiga; baixa = recente).
Aguda confirmada: espiramicina 3.000.000 UI VO 8/8 h; infecção fetal documentada (PCR no líquido amniótico): pirimetamina + sulfadiazina + ácido folínico (esquema triplo contraindicado no 1º trimestre).
4. Ganho de peso e sinais de alarme
IMC pré-gestacional (kg/m²)
Ganho total recomendado (IOM)
< 18,5 (baixo peso)
12,5–18 kg
18,5–24,9 (normal)
11,5–16 kg
25–29,9 (sobrepeso)
7–11,5 kg
≥ 30 (obesidade)
5–9 kg
Sinais de alarme que a gestante deve conhecer: sangramento vaginal, cefaleia intensa com fotopsias, edema de face, dor em hipocôndrio direito, diminuição de movimentos fetais, ruptura prematura de membranas, febre e perda de líquido. Ganho ponderal excessivo e tabagismo (rastreio em toda consulta, com apoio à cessação) compõem a prevenção de desfechos adversos. Critérios de encaminhamento ao pré-natal de alto risco: HAS/diabetes prévios ou gestacionais, cardiopatia, nefropatia, colagenose, epilepsia, tireopatia, isoimunização Rh, gestação múltipla, cicatriz uteriana prévia, histórico de pré-eclâmpsia/abortamento de repetição, idade extrema — maternidades estratificadas por níveis de cuidado materno (ACOG/SMFM níveis 1 a 4).
Questões do módulo · 01
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalGestante de 26 anos, primigesta, 8 semanas, sorologias iniciais: Toxoplasma IgG negativo e IgM negativo. Conduta:
2.IntermediárioPuérpera de 2 horas, Rh negativo, teste de Coombs indireto negativo durante a gestação; RN Rh positivo. Conduta para profilaxia da doença hemolítica perinatal em futura gestação:
fases do parto e partograma · Bishop e indução (ARRIVE) · parada de dilatação (fluxo) · assistência humanizada · taxas de cesárea no Brasil · TOLAC/VBAC · puerpério e complicações
1. Fases do parto
Fase
Definição
Limite prático
1ª — dilatação, latente
até ~6 cm, contrações progressivas
pode durar muitas horas; hidratação, analgesia, observação
1ª — dilatação, ativa
≥ 6 cm com progressão esperada (~1 cm/h em média)
parada de dilatação: ≥ 6 cm + membranas rotas + ≥ 4 h sem progressão com ocitocina adequada (ou 6 h sem ocitocina plena)
2ª — expulsiva
dilatação completa até desprendimento
nulípara até 3 h (4 h com peridural); multípara até 2 h (3 h com peridural)
3ª — dequitação
nascimento até saída da placenta
≤ 30 min; além disso = retenção placentária
4ª — Greenberg
1ª–2ª hora pós-parto (hora de ouro)
vigilância ativa de atonia e contato pele a pele/amamentação
2. Maturação e indução
Escore de Bishop (dilatação, apagamento, estação, consistência e posição do colo): ≥ 8 favorável à indução; ≤ 4 desfavorável — maturar primeiro. Métodos: misoprostol 25 mcg vaginal a cada 6 h, dinoprostona intravaginal ou sonda de Foley; com colo favorável, ocitocina IV titulada com monitorização. O ensaio ARRIVE demonstrou que induzir nulíparas de baixo risco na 39ª semana (versus manejo expectante) reduziu cesárea (18,6% vs 22,2%) e distúrbios hipertensivos, sem aumento de desfechos neonatais adversos. Boas práticas de assistência: partograma, presença de acompanhante (Lei 11.108/2005), deambulação, liberdade de posição, uso criterioso de ocitocina, analgesia de parto (peridural é a técnica preferida e não aumenta a taxa de cesárea), episiotomia seletiva (nunca de rotina) e clampeamento tardio do cordão (1–3 min).
Fluxo da parada de progressão do trabalho de parto
Gestante em trabalho de parto ativo para de dilatar — qual o próximo passo?
▼
< 6 cm
Não é distócia: apoiar, hidratar, analgesia, observação — diagnóstico de parada antes de 6 cm é prematuro.
≥ 6 cm, membranas íntegras
Amniotomia e reavaliar a progressão antes de qualquer decisão.
≥ 6 cm, rotas + ≥ 4 h sem progressão com ocitocina plena (ou 6 h sem)
Distócia de dilatação: parto por cesárea.
Na expulsiva sem descida: parto operatório vaginal (fórceps/vácuo) se viável, ou cesárea.
3. Cesárea: quando e por que o Brasil é recordista
Cerca de metade dos partos no Brasil é cesárea, com forte gradiente socioeconômico (no setor suplementar ultrapassa 80%; no SUS fica em torno de 35–45% — pesquisa Nascer no Brasil). A classificação de Robson (10 grupos por paridade, via de parto prévia, início do trabalho, idade gestacional e apresentação) é a ferramenta da OMS para auditar e reduzir taxas inadequadas. Indicações clássicas: sofrimento fetal agudo, distócia de progressão, apresentação pélvica em selecionadas (via vaginal possível em critérios), placenta prévia oclusiva, iteratividade com contraindicação ao parto vaginal, herpes genital em atividade no trabalho de parto, gêmeos com primeiro não cefálico.
4. Puerpério e complicações
Puerpério dura cerca de 6 semanas (42 dias): involução uterina (o útero desce 1–2 cm/dia e sai da pelve em ~2 semanas), lóquios (rubros 3–4 dias, sorosos até ~10 dias, albos até 3 semanas). Amamentação exclusiva por 6 meses. Consultas: na primeira semana (puérpera + RN) e até os 42 dias. Febre puerperal: 38 °C ou mais em duas medidas nas primeiras 24 h a 10 dias do pós-parto.
Complicação puerperal
Reconhecer e tratar
Endometrite (febre puerperal mais comum)
febre + dor uterina + lóquios fétidos + subinvolução; risco muito maior pós-cesárea; clindamicina 900 mg IV 8/8 h + gentamicina até 24–48 h afebril
Mastite (2ª–4ª semanas)
dor, eritema, febre; S. aureus; manter amamentação/esvaziamento; cefalexina 500 mg 6/6 h 7–10 dias; abscesso: drenar
Hemorragia pós-parto tardia
após 24 h até 12 semanas: pensar em restos ovulares e infecção — USG + esvaziamento
baby blues (50–80%, dias 3–5, autolimitado em ≤ 2 semanas) × depressão (10–15%, precisa tratar) × psicose puerperal (1–2/1.000, emergência psiquiátrica)
Síndrome de Sheehan
agalactia + amenorreia após hemorragia pós-parto grave (necrose hipofisária)
Questões do módulo · 02
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioNulípara, 39 semanas, trabalho de parto espontâneo com peridural, dilatação mantida em 7 cm há 4 horas, membranas rotas, ocitocina em infusão máxima há 4 h, cicatrização adequada; BCF reativos. Conduta:
2.FundamentalPuérpera de 5 dias de parto vaginal normal, febre 38,6 °C, dor em hipogástrio, lóquios fétidos, útero mal involuído e sensível. Diagnóstico e tratamento:
abortamento: classificação e condutas · gravidez ectópica: fluxo beta-hCG/USG e metotrexato · doença trofoblástica gestacional (mola e coriocarcinoma) · anti-D
Abortamento
10–15%
das gestações clinicamente reconhecidas
Zona discriminatória
~3.500
mUI/mL de beta-hCG: deve haver saco intrauterino na USG-TV
Metotrexato
50 mg/m²
IM dose única; critérios de elegibilidade abaixo
Pré-eclâmpsia < 20 s
= mola
pensar doença trofoblástica
1. Abortamento
Perda gestacional até 20–22 semanas ou embrião/feto até 500 g. A causa mais frequente do abortamento espontâneo do 1º trimestre é aneuploidia (metade ou mais dos casos). Classificação e conduta:
Forma
Achados
Conduta
Ameaça de abortamento
sangramento + cólicas, colo fechado, embrião vivo
expectante, reavaliar; repouso não altera a evolução
Abortamento inevitável
sangramento, colo aberto, produto ainda retido
esvaziar o útero (misoprostol/AMIU)
Abortamento incompleto
restos ovulares, colo aberto, sangramento variável
misoprostol 800 mcg vaginal/sublingual, expectante 7–14 dias ou AMIU
Abortamento retido (missed)
óvulo morto retido, colo fechado, sem sangramento
expectante limitada, misoprostol ou esvaziamento uterino
Abortamento infectado
febre, dor, lóquios fétidos, risco de sepse
antibióticos endovenosos + esvaziamento uterino sem demora
Abortamento habitual
≥ 3 perdas consecutivas
investigar: antifosfolípides (LA/anticardiolipina), TSH, HbA1c, cariótipo do casal, malformações uterinas
2. Gravidez ectópica
Implantação fora da cavidade uterina (tubária em mais de 95%); ocorre em torno de 2% das gestações. Fatores de risco: doença inflamatória pélvica prévia (o mais importante), cirurgia tubária, ectópica prévia, laqueadura (a falha da laqueadura costuma ser ectópica) e DIU in situ (a gravidez que ocorre com DIU tem chance aumentada de ser ectópica — o DIU previne a gestação intrauterina, não a ectópica). Clínica: atraso menstrual + dor pélvica assimétrica + sangramento vaginal escuro; a rotura tubária leva a instabilidade com dor em ombro e defesa.
Fluxo beta-hCG + ultrassonografia transvaginal
Beta-hCG positivo com USG transvaginal sem gestação intrauterina — como conduzir?
▼
beta-hCG > zona discriminatória (~3.500 mUI/mL)
Gestação intrauterina deve ser visível — a ausência levanta ectópica (ou abortamento completo em regressão).
Instável → cirurgia imediata (salpingectomia, em geral por videolaparoscopia).
Estável → confirmar com beta-hCG seriado e/ou laparoscopia; massa anexial com halo ou saco extrauterino + líquido livre reforçam o diagnóstico.
beta-hCG < zona discriminatória e estável
Repetir beta-hCG em 48 h: nas gestações intrauterinas viáveis a curva sobe pelo menos ~50% em 48 h.
Queda lenta, platô ou subida inadequada: ectópica ou abortamento — definir com USG seriada e clínica.
3. Doença trofoblástica gestacional
Mola completa
Mola parcial
Cariótipo
diploide, origem paterna duplicada (46,XX em maioria)
triploide (69,XXX/XXY), material paterno e materno
Tecido fetal
ausente
presente (feto não viável)
Clínica
sangramento em borra de amora, útero maior que a IG, beta-hCG muito elevado (> 100.000), hiperêmese, cistos teca-luteínicos, pré-eclâmpsia antes da 20ª semana, hipertireoidismo (hCG mimetiza TSH)
quadro mais frustre, sangramento leve, beta menos elevado
USG
imagem em flocos de neve/cachos de uva, sem feto
placenta com áreas císticas com feto
Risco de neoplasia posterior
~15–20% evoluem para neoplasia trofoblástica pós-molar
risco menor (< 5%)
Tratamento: esvaziamento uterino por aspiração (preferível a medicamentosos); histerectomia pode ser discutida em mulheres que não desejam mais gestar. Seguimento: beta-hCG semanal até negativação e depois mensal por 6 meses, com contracepção eficaz durante todo o período. Indicações de quimioterapia após a mola: beta em platô ou ascendente, histologia de coriocarcinoma, metástases ou persistência além de 6 meses — esquemas de agente único (metotrexato ou actinomicina D) nos tumores de baixo risco pela pontuação FIGO. O coriocarcinoma dissemina por via hematogênica (pulmão e cérebro) e é altamente curável com quimioterapia, mesmo metastático.
Questões do módulo · 03
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioMulher, 29 anos, 6 semanas de amenorreia, dor pélvica à direita e sangramento escuro em pequena quantidade, estável. Beta-hCG 2.000 mUI/mL; USG transvaginal sem gestação intrauterina, sem massa anexial, sem líquido livre. Conduta:
2.Prova difícilMultigesta, 27 anos, 16 semanas, sangramento vaginal em borra de café há 2 semanas, útero com altura maior que a idade gestacional, náuseas intensas, PA 150/100 mmHg com proteinúria de 400 mg/24 h e TSH suprimido. Conduta investigativa que explica o quadro:
classificação dos distúrbios hipertensivos · pré-eclâmpsia: critérios e características graves · sulfato de magnésio (receita) · CHAP · DMG: rastreio TOTG/IADPSG, metas e conduta obstétrica
Corte HAS
≥ 140/90
após a 20ª semana = hipertensão gestacional
Proteinúria
≥ 300 mg/24 h
ou relação proteína/creatinina ≥ 0,3
MgSO₄
4–6 g → 1–2 g/h
ataque IV + manutenção; antídoto gluconato de cálcio
TOTG 75 g
92/180/153
jejum/1 h/2 h — 1 alterado fecha DMG (IADPSG)
1. Classificação dos distúrbios hipertensivos
Entidade
Definição
Hipertensão crônica
PA ≥ 140/90 antes de 20 s ou persistindo além de 12 semanas pós-parto
Hipertensão gestacional
PA ≥ 140/90 após 20 s, sem proteinúria nem disfunção de órgãos
Pré-eclâmpsia
hipertensão após 20 s + proteinúria (≥ 300 mg/24 h ou P/C ≥ 0,3) e/ou critérios de gravidade
Pré-eclâmpsia sobreposta
crônica com nova proteinúria ou disfunção de órgão após 20 s
Eclâmpsia
convulsão/coma na vigência de pré-eclâmpsia (pode ser o 1º sinal; existe pós-parto)
PA ≥ 160/110 mmHg confirmada (em até 15 min em sintomáticas).
Plaquetas < 100.000/mm³; creatinina > 1,1 mg/dL ou dobrada; TGO/TGP ≥ 2 vezes o limite; edema pulmonar.
Cefaleia nova persistente que não responde a analgésicos, escotomas/fotopsias, dor em epigástrio/hipocôndrio direito.
Fatores de risco para pré-eclâmpsia: nuliparidade, pré-eclâmpsia prévia, hipertensão crônica, diabetes, gestação múltipla, obesidade, idade > 40 anos, nefropatia, síndrome antifosfolípide.
Hipertensão crônica: o ensaio CHAP demonstrou que tratar hipertensas crônicas leves na gestação com meta < 140/90 mmHg (labetalol, nifedipina de liberação prolongada ou metoprolol; metildopa ainda usada) reduz desfechos adversos graves sem prejudicar o feto. IECA, BRA e diretos da renina são proibidos na gestação (teratogenicidade e nefrotoxicidade fetal). Profilaxia de pré-eclâmpsia em alto risco: AAS em baixa dose (75–162 mg/dia; ACOG 81 mg) do início idealmente ≤ 16 semanas (aceito até 28) até o parto, associado a cálcio quando a ingestão é baixa.
3. Diabetes na gestação
O estudo HAPO demonstrou relação contínua entre glicemia e desfechos adversos, sem limiar seguro. Rastreio universal com TOTG 75 g entre 24–28 semanas; a estratificação de 1 passo (IADPSG) fecha DMG com UM valor alterado; a de 2 passos (ACOG) usa glicemia de 50 g e confirma com TOTG 100 g (Carpenter-Coustan, 2 de 4 alterados). Glicemia de jejum ≥ 126 mg/dL ou HbA1c ≥ 6,5% no rastreio = diabetes pré-gestacional.
Método
Cortes (mg/dL)
TOTG 75 g (IADPSG, 1 passo)
jejum ≥ 92 · 1 h ≥ 180 · 2 h ≥ 153 — 1 alterado = DMG
Rastreio 50 g (não requer jejum)
1 h ≥ 130–140 → TOTG 100 g
TOTG 100 g (Carpenter-Coustan)
jejum ≥ 95 · 1 h ≥ 180 · 2 h ≥ 155 · 3 h ≥ 140 — 2 alterados = DMG
Complicação
Detalhe
Macrossomia e distócia de ombro
hiperinsulinismo fetal; risco de lesão de plexo braquial
borda a ≥ 2 cm do OI permite parto vaginal; acretismo antecipar 34–36 s
risco de coagulação intravascular disseminada e morte fetal
cesárea eletiva 34–36 semanas
Placenta prévia: placenta baixa no 2º trimestre frequentemente migra — repetir USG na 32ª semana; assintomática: parto 36–37 semanas; proibido toque vaginal; orientar abstinência de relações e retorno imediato se sangrar; cesárea obrigatória quando cobre o orifício interno.
DPPNI (~1% das gestações): fatores de risco — hipertensão/pré-eclâmpsia (a associação mais cobrada), cocaína, tabagismo, trauma, polidrâmnio com descompressão abrupta; conduta: instabilidade materna ou sofrimento fetal = interrupção imediata; estável com feto imaturo = expectante em centro terciário com corticoide (na maioria dos protocolos até 34–36 semanas); complicações: Couvelaire, CIVD, atonia por invasão do miométrio, morte fetal.
Rotura uterina: quase sempre em útero cicatricial; o sinal mais precoce usualmente é anormalidade da frequência cardíaca fetal (bradicardia), com dor, perda da estação e sangramento; cesárea imediata.
Prolapso de cordão: elevar a apresentação manualmente, posição de Trendelenburg/knee-chest e parto imediato (cesárea, salvo parto iminente).
Embolia de líquido amniótico: colapso hipoxêmico + hipotensão + CIVD súbitos durante o parto ou imediatamente após; suporte avançado (ventilação, vasopressores, componentes); alta mortalidade — diagnóstico de exclusão.
1. Hemorragia pós-parto (HPP)
Sangramento ≥ 500 mL após parto vaginal ou ≥ 1.000 mL após cesárea nas primeiras 24 horas (ou qualquer sangramento que cause instabilidade). É a principal causa evitável de morte materna no mundo — a análise da OMS atribui à hemorragia cerca de 27% das mortes maternas. Causas pelas 4 Ts: Tônus (atonia, 70–80%), Trauma (lacerações de trajeto, roturas), Tecido (restos ovulares, acretismo) e Trombina (coagulopatias, CIVD). Prevenção: manejo ativo do 3º estágio com ocitocina 10 UI IM/IV lenta após o desprendimento, tração controlada do cordão e massagem uterina.
Fluxo da hemorragia pós-parto
Puérpera sangrando maciçamente — sequência de condutas
▼
IMEDIATO — sempre
Chamar ajuda, acesso venoso calibroso, cristaloide e acionar banco de sangue; massagear o útero e esvaziar a bexiga.
Ocitocina 10 UI IV lenta/infusão (20–40 UI em 1.000 mL) — primeira droga da atonia.
Examinar períneo, vagina e cólo uterino (trauma) e verificar saída completa da placenta (tecido).
PERSISTE a atonia
Ergometrina 0,2 mg IM (proibida em hipertensão/pré-eclâmpsia).
Carboprost 250 mcg IM a cada 15 min (máx 8 doses) — proibido em asma.
Misoprostol 800 mcg sublingual.
Ácido tranexâmico 1 g IV nas primeiras 3 h (WOMAN: reduziu morte por sangramento de 1,9% para 1,5%).
Histerectomia de última ordem — não postergar em instabilidade refratária.
Questões do módulo · 05
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalGestante, 34 semanas, sangramento vaginal vermelho vivo, indolor, de início súbito, útero relaxado, BCF reativos, sem contrações. Conduta inicial:
2.AvançadoPuérpera de 20 minutos de parto vaginal, útero flácido, sangramento abundante. Recebeu massagem, esvaziamento vesical, ocitocina IV e 500 mL de cristaloide; o sangramento persiste intensamente. Próxima sequência:
eficácia dos métodos · critérios de elegibilidade (MEC-OMS) · contracepção de emergência (receita) · laqueadura e vasectomia (leis brasileiras) · infertilidade: investigação e RHA
Método
Falha no 1º ano — uso típico (%)
Implante subdérmico / SIU-LNG / DIU de cobre
≈ 0,2–0,8
Esterilização feminina
≈ 0,5
Injetável trimestral (AMPD)
≈ 6
Pílula combinada / adesivo / anel / pílula de progestogênio
≈ 9
Preservativo masculino
≈ 18
Coito interrompido
≈ 22
Espermicidas isolados
≈ 28
1. Esterilização cirúrgica no Brasil (leis que a prova cobra)
Lei 9.263/1996 (planejamento familiar): laqueadura e vasectomia para pessoas com capacidade civil plena e 21 anos ou mais, ou com pelo menos 2 filhos vivos.
Consentimento livre e esclarecido por escrito, com intervalo mínimo de 60 dias entre a manifestação de vontade e o ato cirúrgico (período com aconselhamento multidisciplinar).
Lei 14.443/2022: revogou a exigência de concordância do cônjuge e garantiu a realização da laqueadura no período do parto (inclusive cesárea) quando observado o prazo de 60 dias — acabou com a prática de laquear apenas em condições restritas.
Vedadas histerectomia e ooforectomia como métodos contraceptivos. FEBRASGO/ACOG recomendam a salpingectomia total oportunista na esterilização (remove todo a trompa), reduzindo o risco de câncer epitelial de ovário (origem tubária dos tumores serosos de alto grau).
Falha acumulada da esterilização tubária em 10 anos ≈ 1–2% (CREST), maior em mulheres jovens; gestação após falha tem risco aumentado de ectópica. Vasectomia: anestesia local, eficácia > 99% com confirmação de azoospermia (~3 meses/20 ejaculações após o procedimento).
2. Infertilidade e reprodução humana assistida
Infertilidade: ausência de gestação após 12 meses de relações regulares sem contracepção (6 meses se idade ≥ 35 anos); afeta cerca de 15% dos casais. A idade feminina é o principal determinante do sucesso terapêutico. Distribuição aproximada (séries variam): fator feminino 40–50% (tuboperitoneal e ovulatório lideram), masculino isolado 20–30%, fatores combinados e inexplicado completam o quadro.
Etapa da investigação
Ferramentas
Homem (sempre primeiro)
espermograma (2 amostras); varicocele e história reprodutiva
Ovulação
progesterona na fase lútea (dia 21 do ciclo de 28 dias), ciclos menstruais, eco ovariana
Reserva ovariana
AMH + contagem de folículos antrais (predizem resposta à estimulação, não gestação espontânea)
Tubas e cavidade
histerossalpingografia; videolaparoscopia em selecionadas
Tratamento causal: anovulação (SOP): letrozol 2,5–7,5 mg do 3º ao 7º dia do ciclo (superior ao clomifeno em SOP); corrigir hipotireoidismo e hiperprolactinemia; fator tubário grave e endometriose avançada: FIV.
Fertilização in vitro (FIV): estimulação ovariana, captação de oócitos, fertilização in vitro (ICSI no fator masculino grave), transferência de embriões; nascidos vivos por transferência ~20–40% abaixo dos 35 anos, caindo para < 10% após os 40.
Riscos da RHA: síndrome de hiperestimulação ovariana, gestação múltipla (e prematuridade) e gravidez ectópica.
Preservação de fertilidade em oncologia: criopreservação de oócitos/embriões antes da quimioterapia.
Causa da infertilidade
Peso aproximado
Técnica de eleição
Por quê
Fator masculino
~30–40%
FIV com ICSI
a ICSI injeta um único espermatozoide no oócito — contornam-se contagens < 5 milhões/mL e microdeleções do Y
soma de fatores — ex.: baixa reserva + espermograma alterado
Idade materna avançada (> 40)
—
FIV com DOAÇÃO de oócitos
a reserva e a qualidade oocitárias caem acentuadamente; a doação eleva as chances de forma marcante
Idiopática
~10–15%
IUI ou FIV
sem causa após investigação completa — disfunções subtis/multifatoriais
Questões do módulo · 06
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioMulher, 36 anos, fumante de 20 cigarros/dia, enxaqueca com aura, menstruações abundantes e deseja contracepção eficaz. Melhor método:
2.AvançadoCasal, ela 30 anos com SOP e ciclos oligomenorreicos; ele com espermograma normal; tubas pérvias. Desejam gestação. Primeira linha terapêutica:
síndrome da vaginite (tabela) · DIP: critérios e tratamento · DST bacterianas e herpes (receitas) · HPV e vacina · rastreamento do colo (INCA 2024) · conduta nas alterações citológicas
Vaginose bacteriana
Candidíase
Tricomoníase
Corrimento
homogêneo, cinza-esbranquiçado, malodoroso
branco, em grumos (leite talhado)
espumoso, esverdeado, malodoroso; trofozoítos ao exame a fresco
pH vaginal
> 4,5
< 4,5 (normal)
> 4,5
Exames
células-guia ao fresco, whiff test positivo (KOH — odor de peixe)
pseudohifas/blastoconídios
trofozoítos móveis ao fresco; colo em morango
Tratamento
metronidazol 500 mg VO 12/12 h por 7 dias (ou gel); não tratar parceiro de rotina
fluconazol 150 mg VO dose única ou azólicos tópicos 3–7 dias; na gestação preferir tópicos
metronidazol 2 g VO dose única — tratar o parceiro sempre
1. Doença inflamatória pélvica (DIP)
Infecção ascendente do trato genital superior (endométrio, trompas, ovários e peritônio), na maioria das vezes polimicrobiana: Neisseria gonorrhoeae e Chlamydia trachomatis somadas a bactérias vaginais anaeróbias e, cada vez mais reconhecida, Mycoplasma genitalium. Diagnóstico eminentemente clínico: o critério mínimo do CDC é dor em hipogástrio com sensibilidade à mobilização cervical ou dolorimento anexial, somando-se febre, corimento mucopurulento, leucorreia, sangramento e/ou prova inflamatória. A USG é normal na maioria dos casos; o abcesso tubo-ovariano é a complicação imageológica.
Cervicite/uretrite por clamídia: doxiciclina 100 mg 12/12 h por 7 dias (azitromicina 1 g VO dose única na gestação ou má adesão).
Gonorreia não complicada: ceftriaxona 500 mg IM dose única.
Herpes genital: primeiro episódio — aciclovir 400 mg VO 8/8 h por 7–10 dias; supressão a partir da 36ª semana na gestante com história de herpes (aciclovir 400 mg 12/12 h) reduz recorrência no parto; lesões ou pródromo no momento do parto = cesárea.
Sífilis: penicilina benzatada 2,4 milhões UI IM (dose única na precoce; 3 doses semanais na latente tardia/ignorada); gestante alérgica: dessensibilizar.
2. HPV, cervicopatias e rastreamento do colo do útero
O HPV é a infecção viral sexualmente transmissível mais comum; a maioria das infecções (na ordem de 90%) é transitória e clareia em 1–2 anos pela imunidade celular. A persistência dos tipos oncogênicos — HPV 16 e 18 respondem por cerca de 70% dos cânceres de colo — é o que leva à neoplasia intraepitelial (NIC) e ao carcinoma escamoso; os tipos 6 e 11 causam condilomas e papilomatose respiratórica.
Rastreamento (INCA 2024 — mulheres de 25 a 64 anos que já iniciaram vida sexual)
Estratégia
Teste de DNA-HPV (estratégia preferencial)
a cada 5 anos; após teste positivo: HPV 16/18 → colposcopia direta; outros tipos oncogênicos → citologia para triagem
Citopatológico (Papanicolau)
a cada 3 anos, após 2 exames anuais consecutivos normais
Saída do rastreamento
aos 64 anos com histórico adequado de exames negativos
Fora do rastreamento rotineiro
menores de 25 anos, histerectomizadas por causa benigna com rastreio prévio adequado
Fluxo simplificado da citologia alterada
Resultado do rastreamento citológico — para onde encaminhar?
▼
ASC-US (escamosas atípicas de significado indeterminado)
Triagem por teste de HPV (ou repetir citologia em 6–12 meses); HPV negativo = retorno ao rastreio.
LSIL / NIC de baixo grau
Encaminhar à colposcopia; lesão visível de baixo grau pode ser acompanhada em selecionadas.
HSIL / NIC 2–3 (e AGC)
Colposcopia com biópsia dirigida.
Confirmada NIC 2–3: excisão (alça/LEEP ou conização) — a histerectomia nunca é tratamento de primeira linha da NIC.
Pós-tratamento: teste de cura (HPV e citologia em 6–12 meses).
Vacina: no PNI brasileiro, quadrivalente (6, 11, 16, 18) para meninas e meninos de 9 a 14 anos em esquema de dose única (Nota Técnica 2025); grupos especiais (imunossuprimidos, oncológicos, pessoas vivendo com HIV, vítimas de abuso sexual, usuários de PrEP) recebem 3 doses até os 45 anos; a vacina nonavalente (6, 11, 16, 18, 31, 33, 45, 52, 58) está disponível na rede privada até 45 anos.
A vacina é profilática (não trata lesão nem infecção estabelecida) e funciona melhor antes do início da vida sexual.
Adenocarcinoma de colo: minoria dos tumores; a variante tipo gástrico é rara, não associada ao HPV, de prognóstico pobre — a Central publicou revisão sobre a testagem de Claudin 18.2 como alvo terapêutico emergente nesse subtipo.
Questões do módulo · 07
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalMulher, 24 anos, corrimento cinza homogêneo com odor fétido, prurido leve, pH vaginal 5,2; fresco com células-guia e whiff test positivo. Corrimento e tratamento:
2.IntermediárioMulher, 31 anos, dor pélvica há 4 dias, temperatura 38,2 °C, corimento mucopurulento; dor intensa à mobilização cervical e dolorimento anexial à direita; beta-hCG negativo. Conduta:
Sintomas cardeais: dismenorreia progressiva que não responde a AINH, dispareunia profunda, dor pélvica crônica, infertilidade e sintomas cíclicos intestinais/urinários (disquezia, disúria, hematoquezia/hematúria cíclica). Exame: útero retrovertido fixo, nodularidade no fundo de saco posterior e dor à mobilização. A ESHRE 2022 recomenda tratar clinicamente a suspeita (diagnóstico empírico), sem exigir laparoscopia para iniciar terapia: USG transvaginal por examinador experiente é o exame de primeira linha; ressonância avalia doença profunda; CA-125 pode elevar-se mas não serve para diagnóstico nem rastreio; a laparoscopia com biópsia permanece padrão de referência. A estadiamento ASRM (I–IV) correlaciona-se mal com a intensidade da dor.
análogos de GnRH com terapia add-back; antagonistas orais de GnRH — elagolixo 150 mg/dia ou 200 mg 12/12 h (com perda de densidade óssea dose-dependente, usar add-back)
Cirúrgica
exérese de implantes e cistectomia de endometrioma (drenagem/aspiração isoladas têm alta recorrência); doença profunda: equipe multidisciplinar (reto/bexiga/ureter)
Infertilidade
cirurgia de exérese melhora gestação espontânea nos estágios I–II; doença avançada, idade avançada ou falha: FIV — não postergar
2. Sangramento uterino anormal (PALM-COEIN)
O sistema FIGO 2018 define menstruação normal: frequência de 24 a 38 dias, duração até 8 dias, volume percebido como normal pela paciente e variação cíclica regular (± 7 a 9 dias). O sangramento uterino anormal se classifica em 9 causas: PALM (estruturais — Pólipo, Adenomiose, Leiomioma, Malignidade/hyperplasia) e COEIN (não estruturais — Coagulopatia, disfunção Ovulatória, distúrbio Endometrial, Iatrogênico, Não classificado). Em adolescentes, a causa mais comum é anovulatória (imaturidade do eixo) — e sangramento abundante desde a menarca pede rastreio de doença de von Willebrand.
progestogênio (SIU-LNG) com reavaliação; atípica persistente ou sem desejo reprodutivo: histerectomia
Disfunção ovulatória (SOP, perimenopausa)
progestogênios cíclicos ou combinado contínuo; proteger o endométrio
Coagulopatia (adolescente)
ácido tranexâmico + tratar a doença de base
Sangramento pós-menopausa é o tema do próximo módulo (câncer de endométrio até prova contrária). Miomas: tumor pélvico mais comum, estrogênio-dependente, regride após a menopausa; degeneração vermelha na gestação cursa com dor aguda e febre baixa; crescimento rápido pós-menopausa levanta suspeita de leiomiossarcoma (raro).
Questões do módulo · 08
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioMulher, 27 anos, dismenorreia progressiva há 6 anos refratária a AINH, dispareunia profunda, disquezia cíclica e infertilidade há 2 anos; exame com útero fixo em retroversão e nodularidade no fundo de saco posterior. Conduta inicial:
2.FundamentalAdolescente de 15 anos, ciclos irregulares desde a menarca, sangramento menstrual profuso que a obriga a trocar absorvente a cada 1–2 horas há 7 dias, hemodinamicamente estável, sem atividade sexual. Primeira linha de investigação além de hemograma e beta-hCG:
Climatério, terapia hormonal e câncer ginecológico e de mama
menopausa e janela de oportunidade (ELITE/WHI) · prescrição da THM e alternativas · osteoporose · câncer de endométrio (sangramento pós-menopausa) · colo (FIGO/condutas) · ovário (marcadores, BRCA, mirvetuximabe) · mama (rastreio e tratamento)
Menopausa
12 meses
de amenorreia; idade média ~51 anos
THM — janela
< 60 a / < 10 a
da menopausa (ELITE) — menor risco
Endométrio pós-menopausa
≤ 4 mm
espessura com alto valor preditivo negativo
Mamografia (SUS)
50–69 anos
bienal (ACOG: oferecer 40–74)
1. Climatério e terapia hormonal da menopausa (THM)
Climatério é a transição fisiológica (tipicamente na 5ª década) do período reprodutivo para o não reprodutivo; menopausa é a última menstruação, diagnosticada retrospectivamente após 12 meses de amenorreia (idade média ~51 anos); antes dos 40 anos = insuficiência ovariana prematura. O diagnóstico é CLÍNICO — fogachos (vasomotores, afetam a maioria) com amenorreia não exige FSH; os sintomas duram em média ~7 anos. Consequências: sintomas vasomotores, síndrome geniturinária da menopausa (secura, dispareunia, urgência), perda óssea acelerada e piora do risco cardiovascular (queda do estrogênio desloca o perfil lipídico e a gordura visceral — diretriz brasileira de saúde cardiovascular na menopausa 2024).
2. Câncer de endométrio — o câncer que sangra
Tipo I (endometrioide, ~80%): estrogênio-dependente, a partir de hiperplasia atípica, em obesas/diabéticas/anovulatórias (SOP), com bom prognóstico. Tipo II (seroso e de células claras): p53-mutado, em idosas com endométrio atrófico, agressivo. Apresenta-se como sangramento pós-menopausa em cerca de 90% dos casos — todo sangramento pós-menopausa é câncer de endométrio até prova contrária. Estadiamento FIGO (revisão 2023, com classificação molecular: POLEmut, MMRd, p53abn, NSMP). Tratamento: histerectomia total com anexectomia e estadiamento cirúrgico; adjuvância (radioterapia/quimioterapia) conforme estágio e risco; desejo reprodutivo em doença inicial bem selecionada: progestogênio (SIU-LNG) com seguimento rigoroso. Sobrevida em 5 anos elevada na doença localizada.
Fluxo do sangramento pós-menopausa
Sangramento vaginal após a menopausa — como investigar?
▼
USG com endométrio ≤ 4 mm
Alto valor preditivo negativo para câncer: seguimento; repetir investigação se o sangramento persistir ou recorrer.
Estadiamento cirúrgico (histerectomia + anexectomia ± linfadenectomia) e adjuvância por estágio/risco.
Hiperplasia com atipia persistente ou sem desejo reprodutivo: histerectomia.
3. Câncer de colo do útero invasivo
Estádio (FIGO resumido)
Tratamento
IA1 sem invasão linfovascular
conização (fertilidade preservada)
IA2–IB1 (lesões iniciais)
histerectomia radical (Wertheim) + linfadenectomia pélvica, ou radioterapia; traquelectomia radical em selecionadas com desejo reprodutivo
≥ IB3 / IIB–IVA (localmente avançado)
quimiorradioterapia com cisplatina semanal (≈ 40 mg/m²) + braquiterapia — cirurgia não tem papel
IVB / recidiva
quimioterapia com platina/paclitaxel ± bevacizumabe (melhora sobrevida); pembrolizumabe em tumores PD-L1 positivos
A vaccinação contra HPV e o rastreamento organizado são as estratégias que efetivamente reduzem incidência e mortalidade — o câncer de colo é praticamente uma doença evitável. A variante adenocarcinoma tipo gástrico do colo é rara, NÃO associada ao HPV, com padrão metastático incomum e prognóstico pobre; a expressão de Claudin 18.2 surge como alvo terapêutico em estudo (o zolbetuximabe já demonstrou benefício em adenocarcinomas gástricos CLDN18.2-positivos no ensaio SPOTLIGHT).
4. Câncer de ovário
O mais letal dos ginecológicos: a maioria (cerca de 75%) se diagnostica em estádios III–IV com sintomas inespecíficos (distensão abdominal, saciedade precoce, urgência urinária, dor).
O carcinoma seroso de alto grau origina-se nas fimbrias tubárias (lesões STIC) — daí a salpingectomia oportunista na esterilização e nas histerectomias benignas reduzir risco.
Investigação da massa/pelve: CA-125 + USG transvaginal (escore de risco); rastreamento populacional NÃO é recomendado — não reduz mortalidade de forma justificada.
Hereditariedade: mutações BRCA1/BRCA2 elevam muito o risco acumulado (séries amplas: até ~60–70% no BRCA1 e ~20–40% no BRCA2) — salpingo-ooforectomia redutora de risco após completar a reprodução (BRCA1 ~35–40 anos; BRCA2 ~40–45).
Tratamento: citorredução cirúrgica (idealmente ótima) + quimioterapia com carboplatina/paclitaxel; manutenção com inibidores de PARP (olaparibe) em BRCA-mutadas/recidiva platino-sensível; bevacizumabe.
Platino-resistente com expressão alta de FRα: mirvetuximabe soravtansina (conjugado anticorpo-fármaco anti-receptor de folato alfa) melhorou respostas e sobrevida nos ensaios SORAYA e MIRASOL — a testagem de FRα por imuno-histoquímica entra na prática.
Macete dos marcadores: disgerminoma = LDH; tumor do saco vitelino = AFP; coriocarcinoma = beta-hCG; tumor de células da granulosa = inibina/estradiol; epitelial = CA-125.
5. Câncer de mama
O câncer mais incidente em mulheres no Brasil (excluindo pele não melanoma — ~74 mil casos novos/ano na estimativa do INCA). Rastreamento no SUS: mamografia bienal dos 50 aos 69 anos; sociedades norte-americanas (ACOG) oferecem a partir dos 40 anos, anual ou bienal, até os 74. Fatores de risco: idade, histórico familiar e mutações BRCA1/2 (5–10% herdadas), nuliparidade, menarca precoce/menopausa tardia, THM combinada prolongada, álcool, obesidade pós-menopausa e radioterapia torácica prévia. Diagnóstico pela tríplice prova (exame clínico + imagem + biópsia com agulha grossa); nódulo dominante em mulher de risco: conduta pela BI-RADS, jamais concluir sem histologia. Tratamento: cirurgia (tumorectomia + radioterapia vs mastectomia; linfonodo sentinela axilar) e terapia sistêmica por subtipo: receptor hormonal positivo → hormonioterapia (tamoxifeno 20 mg/dia na pré-menopausa; inibidores de aromatase na pós) por 5–10 anos; HER2-positivo → trastuzumab com quimioterapia (1 ano); triplo negativo → quimioterapia. Neoadjuvância nos localmente avançados e nos HER2-positivos/triplo negativos. Carcinoma inflamatório (edema e eritema difusos, pele em casca de laranja) é doença avançada — biópsia imediata, não antibiótico.
Questões do módulo · 09
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioMulher, 53 anos, menopausa há 2 anos, fogachos intensos com insônia, útero presente, sem comorbidades, MAMografia normal. Deseja alívio sintomático máximo. Conduta:
2.Prova difícilMulher, 58 anos, portadora de mutação BRCA1, câncer de ovário seroso de alto grau platino-resistente em terceira linha, com forte expressão de FRα na imuno-histoquímica. Opção terapêutica alvo-específica apoiada pelos ensaios SORAYA/MIRASOL:
Sangramento abundante desde a menarca em adolescente
AUB-O anovulatório + rastrear von Willebrand
Sangramento pós-menopausa
Câncer de endométrio até prova contrária
Prova final — bateria geral
7 questões cobrindo todos os módulos proporcionalmente + gabarito
1.FundamentalPrimigesta, 12 semanas, VDRL reagente 1:8, sem lesões cutâneas, parceiro com VDRL reagente. Conduta:
2.IntermediárioNulípara de baixo risco com 39 semanas completas, colo desfavorável (Bishop 3), questiona indução eletiva. A evidência do ensaio ARRIVE aponta que:
3.AvançadoGestante de 32 semanas com pré-eclâmpsia grave estável sob MgSO₄ e anti-hipertensivo, placenta íntegra, BCF reativos, dilatação fechada. Recebe betametasona há 24 h. Conduta:
4.Prova difícilDurante parto vaginal de 40 semanas, minutos após a amniotomia, a enfermagem palpa laço de cordão na vagina com BCF em bradicardia. Conduta:
5.IntermediárioCasal usa camisinha de forma inconsistente; relação desprotegida há 30 horas; mulher sem contraindicações, IMC 32, sem medicações de uso contínuo. Contracepção de emergência preferida pelo balanço eficácia/praticidade:
6.AvançadoMulher, 62 anos, sangramento vaginal escasso há 2 semanas, 8 anos de menopausa; USG transvaginal com endométrio de 7 mm difusamente heterogêneo. Conduta:
7.IntermediárioMulher, 44 anos, G3P2A1, útero aumentado, dismenorreia intensa e menstruações abundantes; USG com zona de junção espessada difusamente, sem miomas dominantes; deseja manter o útero. Tratamento clínico de primeira linha:
Gabarito rápido
1-A · 2-B · 3-B · 4-B · 5-A · 6-B · 7-A
Referencial teórico
30 fontes reais · DOI verificado
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notaResumo didático elaborado a partir das diretrizes e revisões acima (verificáveis pelo DOI) e dos artigos publicados desta matéria na Central de Estudos (fonte principal). Nenhuma referência inventada; em caso de divergência entre fontes, vale a versão vigente do protocolo oficial — confira sempre antes da conduta real.
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