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Revisão completa do acompanhamento pré-natal segundo OMS 2016 e Ministério da Saúde: classificação de risco, cronograma de consultas e exames, suplementação com doses, imunização, rastreio de aneuploidias, diabetes gestacional e pré-eclâmpsia, manejo das infecções gestacionais e mapa das condições de alto risco com critérios de encaminhamento.
[1] World Health Organization. WHO recommendations on antenatal care for a positive pregnancy experience. Geneva: WHO; 2016 · https://www.who.int/publications/i/item/9789241549912 | [2] Brasil. Ministério da Saúde. Pré-natal e Puerpério: atenção qualificada e humanizada. Cadernos de Atenção Básica nº 32. Brasília: MS; 2006 (reimpressão 2012) · https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/caderno32_brasil.pdf | [3] Leal MC, Silva AAM, Dias MAB, et al. Birth in Brazil: national survey into labour and birth. Reprod Health. 2012;9:15 · DOI 10.1186/1742-4755-9-15 | [4] American College of Obstetricians and Gynecologists and Society for Maternal-Fetal Medicine. Obstetric Care Consensus No. 9: Levels of Maternal Care. Obstet Gynecol. 2019;134(2):e41-e55 · DOI 10.1097/AOG.0000000000005128 | [5] Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 1.459, de 24 de junho de 2011: institui a Rede Cegonha · http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2011/prt1459_24_06_2011.html · DOI 10.1186/1742-4755-9-15
A atenção pré-natal qualificada é a intervenção isolada de maior impacto sobre a mortalidade materna e perinatal, e é por isso que sua organização cai em prova de três jeitos: números do cronograma (6 consultas mínimas no Brasil, 8 contatos recomendados pela OMS), condutas com dose e hora (ácido acetilsalicílico, imunoglobulina anti-D, penicilina) e critérios de encaminhamento do baixo para o alto risco. O Brasil tem cobertura quase universal, com 98 a 99% das gestantes realizando ao menos uma consulta, mas a cobertura não é qualidade: apenas cerca de dois terços iniciam o pré-natal no primeiro trimestre, a média nacional fica perto de 6 consultas e a taxa de cesárea ultrapassa 55% no país, passando de 80% no setor suplementar. O pré-natal é trabalho de equipe multiprofissional, com enfermagem, odontologia, nutrição, psicologia e serviço social integrados à equipe médica, mas a responsabilidade de classificar o risco, rastrear intercorrências e referenciar a tempo é central na formação médica.
Pré-natal é o conjunto de ações assistenciais sistemáticas à gestante, da confirmação da gravidez ao puerpério, com objetivos de promover saúde, identificar precocemente fatores de risco e planejar o parto em local adequado ao risco. A classificação que organiza a rede é dicotômica e dinâmica: gestação de baixo risco (risco habitual), assistida na atenção básica por médico de família, generalista, ginecologista ou enfermeiro obstetra, e gestação de alto risco, que exige acompanhamento compartilhado ou exclusivo em serviço especializado com obstetra e equipe de apoio. A classificação deve ser refeita a cada consulta, porque o risco muda: uma gestante que inicia saudável pode tornar-se alto risco ao desenvolver pré-eclâmpsia na 30ª semana.
| Dimensão | Baixo risco (atenção básica) | Alto risco (serviço especializado) |
|---|---|---|
| Idade e paridade | 15 a 35 anos, sem intercorrências | Menos de 15 ou mais de 35 anos associados a outro fator; multigesta com mais de 4 partos pode caracterizar risco isolado em alguns protocolos |
| História obstétrica pregressa | Partos a termo sem complicações | Pré-eclâmpsia ou eclâmpsia prévia, parto prematuro espontâneo prévio, restrição de crescimento, natimorto, ≥3 abortamentos, cesáreas iterativas, isoimunização Rh |
| Condições clínicas prévias | Nenhuma doença crônica relevante | Hipertensão crônica, diabetes pré-gestacional, cardiopatia, nefropatia, lúpus e síndrome antifosfolípido, tireopatia não controlada, epilepsia, neoplasias, cirurgia uterina prévia |
| Gestação atual | Crescimento e exames normais | Gestação múltipla, placenta prévia, malformação fetal, restrição de crescimento, polidrâmneo ou oligodrâmneo, pré-eclâmpsia, DMG, prematuridade ameaçada |
| Condições sociais | Apoio familiar adequado | Uso de álcool e outras drogas, violência doméstica, adolescentes em situação de vulnerabilidade, ausência de vínculo com o serviço |
Os números brasileiros estruturam questões de prova e de gestão. A Pesquisa Nascer no Brasil, inquérito nacional com 23.894 puérperas em 266 hospitais, mostrou que praticamente todas as mulheres realizaram pré-natal (98,5% ou mais), com média de aproximadamente 6 consultas, mas com início tardio em um terço delas e realização de exames incompletos em grande parte. A taxa de prematuridade do país gira em torno de 11 a 12% dos nascidos vivos, uma das mais altas da América Latina, e as causas hipertensivas lideram as mortes maternas obstétricas diretas, seguidas de hemorragias, infecções e complicações de aborto. A razão de mortalidade materna brasileira oscilou na faixa de 50 a 70 por 100 mil nascidos vivos na última década, com pico na pandemia de COVID-19, enquanto a meta dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável é inferior a 70 por 100 mil globalmente e a média mundial estimada pela OMS é de cerca de 223 por 100 mil. A sífilis congênita permanece emergência: o Brasil notifica milhares de casos ao ano, com taxa em torno de 6 a 8 casos por mil nascidos vivos, quase todos evitáveis com VDRL bem interpretado e penicilina no prazo certo.
A recomendação de 2016 da OMS substituiu o antigo modelo de 4 visitas focadas por um modelo de 8 contatos, com o primeiro até a 12ª semana e os demais nas semanas 20, 26, 30, 34, 36, 38 e 40, para reduzir mortalidade perinatal e melhorar a experiência da mulher. No Brasil, o Ministério da Saúde mantém como piso o mínimo de 6 consultas, com preferência por início até o 4º mês, e cadência clássica mensal até a 32ª semana, quinzenal da 32ª à 36ª e semanal da 36ª ao parto. Cada consulta deve registrar peso, pressão arterial, altura uterina, batimentos e movimentos fetais, edema e sinais de alarme; a partir da 20ª semana a altura uterina em centímetros deve aproximar-se da idade gestacional, e seu estacionamento é sinal precoce de restrição de crescimento. O puerpério fecha o ciclo: consulta até o 10º dia, obrigatoriamente antes dos 42 dias, para avaliar mamas, involução uterina, saúde mental (rastreio de depressão pós-parto), contracepção e o binômio mãe-filho.
O primeiro trimestre concentra a captação de infecções e a avaliação basal: tipagem ABO e fator Rh com Coombs indireto se Rh negativo, hemograma completo, glicemia de jejum, sorologia para HIV (com consentimento e possibilidade de recusa orientada, nunca obrigatória), VDRL, HBsAg, rubéola (IgG e IgM), toxoplasmose (IgG e IgM), exame de urina tipo 1 e urocultura com antibiograma; HTLV-1/2 e hepatite C são indicados conforme risco epidemiológico e prevalência regional, e a eletroforese de hemoglobina deve ser oferecida em populações com prevalência de hemoglobinopatias. A ultrassonografia obstétrica do primeiro trimestre, entre 11 e 13 semanas e 6 dias, estabelece idade gestacional por comprimento cabeça-nádega, viabilidade, número de fetos e translucência nucal. No segundo trimestre, entre 24 e 28 semanas, todas as gestantes fazem o teste oral de tolerância à glicose com 75 g, e a ultrassonografia morfológica completa-se entre 20 e 24 semanas. No terceiro trimestre repetem-se o VDRL (a recomendação brasileira é repetir no 3º trimestre e na admissão para o parto), o teste de HIV e a urocultura em gestantes de risco, além do Coombs indireto mensal nas Rh negativo.
| Trimestre | Exames | Ações de saúde pública |
|---|---|---|
| 1º (até 13s6d) | ABO/Rh, Coombs indireto (Rh neg), hemograma, glicemia de jejum, HIV, VDRL, HBsAg, rubéola IgG/IgM, toxoplasmose IgG/IgM, urina tipo 1, urocultura; USG de 1º trimestre com translucência nucal entre 11 e 13s6d | Iniciar ácido fólico e ferro conforme protocolo; rastreio de violência; avaliação bucal; primeira consulta odontológica |
| 2º (14 a 27s6d) | Teste oral de tolerância à glicose (TOTG) com 75 g entre 24 e 28 semanas em todas; USG morfológica entre 20 e 24 semanas; Coombs mensal se Rh negativo | Vacina dTpa entre 20 e 36 semanas (ideal 27 a 36); iniciar AAS se alto risco para pré-eclâmpsia; plano de parto |
| 3º (28 semanas ao parto) | Repetir VDRL, HIV e, conforme risco, HBsAg e urocultura; USG de crescimento se indicado; cervicometria em selecionadas | Imunoglobulina anti-D na 28ª semana nas Rh negativo não sensibilizadas; vigiar movimentos fetais; definir local do parto |
| Admissão ao parto | VDRL e HIV rápidos se sem recente; hemograma e Coombs conforme caso | Reavaliar risco no momento do parto; anti-D até 72 horas pós-parto se RN Rh positivo |
A suplementação é território de questão com número certo. Ácido fólico previne defeitos do tubo neural, que se fecham até a 6ª semana gestacional, quando muitas mulheres ainda não sabem que estão grávidas: a OMS recomenda 400 microgramas ao dia iniciando antes da concepção e mantendo até pelo menos a 12ª semana, e o Ministério da Saúde do Brasil adota a dose de 5 mg ao dia no mesmo período; gestantes com defeito de tubo neural prévio, uso de anticonvulsivantes, diabetes ou obesidade grave devem receber 5 mg ao dia começando pelo menos 3 meses antes da concepção. Ferro: a OMS recomenda suplementação diária preventiva com 30 a 60 mg de ferro elementar associado a 400 microgramas de folato; no Brasil a orientação é profilaxia com 40 mg de ferro elementar ao dia a partir da 20ª semana, e o tratamento da anemia se faz com 120 a 240 mg de ferro elementar ao dia por via oral, com reavaliação do hemograma em cerca de 4 semanas. Cálcio: 1,5 a 2 g ao dia reduz o risco de pré-eclâmpsia em populações com baixa ingestão dietética e é recomendado nessas situações. Vitamina D não é suplementação universal, ficando restrita a deficiência documentada ou grupos de risco.
| Nutriente | Dose | Indicação e janela | Observação de prova |
|---|---|---|---|
| Ácido fólico (OMS) | 400 mcg/dia | Pré-concepção até a 12ª semana | Prevenção de defeitos do tubo neural na população geral |
| Ácido fólico (MS Brasil) | 5 mg/dia | Idealmente 3 meses antes até o fim do 1º trimestre | Dose adotada rotineiramente no SUS |
| Ácido fólico alto risco | 5 mg/dia | DTN prévio, anticonvulsivantes, diabetes, obesidade; começar 3 meses antes | Reduz recorrência de DTN em até 70% nos casos de histórico |
| Ferro elementar (OMS) | 30 a 60 mg/dia | Prevenção diária de anemia | Associado a folato em tablete combinado |
| Ferro elementar (MS) | 40 mg/dia | A partir da 20ª semana | Tratamento de anemia: 120 a 240 mg/dia VO |
| Cálcio | 1,5 a 2 g/dia | Populações com baixa ingestão dietética | Reduz risco de pré-eclâmpsia, sobretudo em nulíparas com baixa ingesta |
A gestante recebe vacinas inativadas com segurança e é contraindicada para vacinas vivas atenuadas, com duas estrelas absolutas de prova. A dTpa (dupla adulto com pertussis acelular) deve ser aplicada a cada gestação entre 20 e 36 semanas, idealmente entre 27 e 36, para maximizar a transferência transplacentária de anticorpos e proteger o recém-nascido contra coqueluche nos primeiros meses de vida, quando a doença é mais letal. A vacina influenza inativada é indicada em qualquer trimestre durante a sazonalidade, com evidência de redução de hospitalização e morte fetal. As vacinas COVID-19 de plataforma inativada ou mRNA são recomendadas em qualquer idade gestacional, pelo risco aumentado de doença grave na gestante. São contraindicadas as vivas atenuadas: tríplice viral, varicela, BCG e febre amarela, que devem ser administradas no puerpério, com orientação de evitar gestação por cerca de 1 mês após a aplicação; em situações excepcionais de exposição inevitável à febre amarela, a avaliação risco-benefício é individual. A mulher suscetível à rubéola (IgG negativa) deve ser vacinada imediatamente no puerpério.
O rastreio combinado do primeiro trimestre realiza-se entre 11 e 13 semanas e 6 dias, juntando translucência nucal na ultrassonografia, beta-hCG livre ou total e PAPP-A no sangue materno, com detecção de cerca de 85% das trissomias 21 para taxa de falso-positivo de 5%. O teste não invasivo por DNA fetal livre (NIPT) analisa fragmentos placentários na circulação materna a partir de 10 semanas e eleva a detecção de trissomia 21 para mais de 99% com falso-positivo abaixo de 0,5%, mas continua sendo rastreio: resultado alterado exige confirmação por diagnóstico invasivo. A confirmação é por biópsia de vilo corial entre 10 e 13 semanas ou amniocentese a partir de 15 semanas, com risco de perda fetal de aproximadamente 0,5% na amniocentese realizada por serviço experiente. A idade materna avançada isoladamente não é mais indicação de teste invasivo direto: todas as gestantes, independentemente da idade, devem ter opção de rastreio.
Para pré-eclâmpsia, o melhor rastreio atual combina história, pressão arterial, índice de pulsatilidade das artérias uterinas, PlGF e PAPP-A, mas na prática clínica o rastreio por fatores de risco basta para decidir a profilaxia: considera-se alto risco a gestante com pré-eclâmpsia prévia, hipertensão crônica, diabetes pré-gestacional, doença renal crônica ou doença autoimune como lúpus e síndrome antifosfolípido; e risco moderado, a combinação de dois fatores como primiparidade, idade acima de 35-40 anos, obesidade, história familiar de pré-eclâmpsia, gestação múltipla e intervalo intergestacional longo. A profilaxia é ácido acetilsalicílico 100 a 150 mg ao dia, iniciado idealmente até a 16ª semana e mantido até a 36ª, que reduz sobretudo a pré-eclâmpsia pré-termo, exatamente a forma que mais mata.
O diagnóstico segue o padrão IADPSG/OMS, adotado na maior parte dos serviços brasileiros: teste oral de tolerância à glicose com 75 g entre 24 e 28 semanas em todas as gestantes sem diabetes conhecido, com glicemias dosadas em jejum e às 1 e 2 horas; basta UM valor alterado para diagnosticar: jejum igual ou maior que 92 mg/dL, 1 hora igual ou maior que 180 mg/dL ou 2 horas igual ou maior que 153 mg/dL. Alguns serviços, sobretudo norte-americanos, ainda usam o protocolo em duas etapas com 100 g de glicose (Carpenter-Coustan), e a prova costuma cobrar os limiares de 75 g. O tratamento começa com plano alimentar individualizado e atividade física de 30 minutos, com metas glicêmicas de jejum abaixo de 95 mg/dL, 1 hora pós-prandial abaixo de 140 mg/dL e 2 horas abaixo de 120 mg/dL. Se as metas não forem atingidas em 1 a 2 semanas, inicia-se insulina (NPH para o jejum, ultrarrápida para as refeições), e a metformina é alternativa aceitável em gestantes selecionadas, com preferência pela insulinoterapia em quadros com macrossemia ou controle ruim. O seguimento inclui ultrassonografia de crescimento para vigiar macrossemia, e o parto na DMG bem controlada por dieta é planejado entre 39 e 40 semanas; em insulinoterapia com controle inadequado ou peso fetal estimado acima de 4.500 g, antecipa-se ou discute-se a via cirúrgica. Todas fazem rastreio de diabetes no puerpério com glicemia de jejum ou TOTG 75 g.
Sífilis: o VDRL é rastreio obrigatório no primeiro trimestre, repetido no terceiro e na admissão ao parto; um VDRL reagente em qualquer diluição exige confirmação com teste treponêmico e tratamento imediato, sem esperar o parto. O esquema é penicilina benzatina 2,4 milhões UI intramuscular em dose única para sífilis primária, secundária ou latente recente (menos de 1 ano), e 2,4 milhões UI semanais por 3 semanas (total 7,2 milhões) para latente tardia ou de duração desconhecida, sempre com tratamento simultâneo do parceiro e seguimento sorológico com queda esperada de 2 diluições (4 vezes) em 6 a 12 meses. Penicilérgicas na gestação fazem dessensibilização e recebem penicilina, porque é o único esquema comprovadamente eficaz para o feto. HIV: toda gestante faz sorologia, e a positiva inicia terapia antirretroviral combinada imediatamente (esquemas atuais baseados em dolutegravir + tenofovir + lamivudina ou emtricitabina), com objetivo de carga viral indetectável no parto, o que permite via vaginal e profilaxia neonatal simplificada; no Brasil a amamentação é contraindicada em gestantes HIV positivo, com fornecimento de fórmula.
Toxoplasmose: gestante IgG negativa é orientada sobre higiene (carne bem cozida, luvas para jardinagem e areia de gatos, lavagem de hortaliças) e re testada mensalmente ou por trimestre; infecção aguda na gestação é tratada com espiramicina 1 g de 8 em 8 horas enquanto não se define infecção fetal, e, após a 18ª semana ou se infecção fetal confirmada, com pirimetamina + sulfadiazina + ácido folínico, esquemas supervisionados em serviço de referência. Rubéola: IgG negativa define suscetível, sem vacina na gestação, apenas conduta de evitação de contato e vacinação no puerpério. Hepatite B: RN de mãe HBsAg reagente recebe imunoglobulina hiperimune e primeira dose da vacina nas primeiras 12 horas de vida. HTLV-1: em áreas endêmicas, a sorologia positiva contraindica a amamentação ao seio, pela transmissão pelo leite. Zika vírus: nas áreas de transmissão, orientação de proteção contra mosquitos e uso de preservativo durante toda a gestação, com ultrassonografias seriadas para rastreio de microcefalia. Bacteriúria assintomática documentada por urocultura é sempre tratada na gestação por risco de pielonefrite e parto prematuro, com nitrofurantoína 100 mg de 12 em 12 horas por 5 a 7 dias entre as opções seguras.
O pré-natal de alto risco é compartilhado entre atenção básica e serviço de referência e se organiza por condição-guia, cada uma com conduta própria que a prova adora cobrar em tabela. O princípio geral é o da Rede Cegonha, instituída pela Portaria 1.459/2011: garantir à mulher e à criança acesso a uma rede de cuidados que vai do rastreio na atenção básica ao atendimento em maternidades de risco progressivo, conforme a classificação vigente.
| Condição | Risco principal | Conduta de referência |
|---|---|---|
| Hipertensão crônica | Pré-eclâmpsia sobreposta, restrição de crescimento, descolamento | AAS profilático, anti-hipertensivo seguro (metildopa, nifedipina, labetalol), vigilância fetal com Doppler e morfológica precoce |
| Diabetes pré-gestacional | Malformações (cardíacas), macrossemia, morte fetal | HbA1c pré-concepção abaixo de 6,5% para reduzir malformações, ecocardiografia fetal entre 20 e 24 semanas, ajuste de insulina |
| Pré-eclâmpsia prévia ou alto risco | Recorrência, prematuridade, eclâmpsia | AAS 100 a 150 mg à noite até 16 a 36 semanas, cálcio se ingesta baixa, vigilância pressórica e de proteinúria |
| Lúpus e síndrome antifosfolípido | Pré-eclâmpsia, perda fetal, atividade de doença | Hidroxicloroquina mantida, AAS + heparina profilática na SAF com perdas prévias, acompanhamento em serviço de alto risco |
| Parto prematuro espontâneo prévio | Recorrência de prematuridade | Cervicometria a cada 2 semanas de 16 a 24 semanas; progesterona vaginal 200 mg/dia; cerclage se colo menor que 25 mm |
| Gestação múltipla | Prematuridade, restrição de crescimento, síndrome de transfusão | Pré-natal em serviço especializado, USG serial, referência para eventual manejo fetal |
| Placenta prévia ou acretismo | Hemorragia maciça, histerectomia | Definir via cirúrgica e local com hemoderivados e equipe multidisciplinar; morfológica e Doppler especializados |
| Cardiopatia materna | Descompensação e morte materna | Classificação de risco cardiovascular (mWHO), pré-natal com cardiologista em maternidade de nível adequado, profilaxia de endocardite quando indicada |
| Isoimunização Rh | Anemia fetal grave, hidropsia | Coombs indireto mensal, anti-D profilático, referência para Doppler da cerebral média e eventual transfusão intrauterina |
| Epilepsia | Malformações por anticonvulsivantes, crises na gestação | Monoterapia na menor dose, ácido fólico 5 mg pré-concepção, evitar valproato, acompanhar níveis de fármaco |
A prevenção da prematuridade é feita em três ferramentas com números definidos. Primeira, identificar o histórico: parto prematuro espontâneo prévio é o maior preditor de recorrência. Segunda, medir o colo: a cervicometria por via transvaginal entre 20 e 24 semanas em gestantes assintomáticas de alto risco classifica o risco, com limiar clássico de 25 mm. Terceira, intervir conforme o achado: progesterona natural 200 mg por via vaginal todas as noites, da 16ª à 36ª semana, para gestantes com histórico de parto prematuro e colo normal ou encurtado; e cerclage (cerclagem cervical) para gestantes com histórico de parto prematuro ou perda gestacional de segundo trimestre cujo colo mediu menos de 25 mm antes de 24 semanas. A incompetência istmocervical clássica, com dilatação cervical indolor e perdas recorrentes no segundo trimestre, é indicação histórica de cerclage por histórico. Em sintomáticas com trabalho de parto prematuro entre 24 e 34 semanas, corticoide para maturação fetal (betametasona 12 mg intramuscular de 24 em 24 horas, 2 doses) e sulfato de magnésio para neuroproteção completam o manejo hospitalar, além da tocólise para completar o corticoide.
O plano de parto inclui a escolha informada da via de parto. A tentativa de parto vaginal após cesárea (VBAC) é segura nas candidatas adequadas: uma cesárea prévia com incisão transversa baixa, pelve adequada e sem contraindicação ao parto vaginal, com taxas de sucesso de 60 a 80% e risco de ruptura uterina abaixo de 1%. A decisão pela via de parto em gestação de termo com apresentação cefálica e binômio saudável é compartilhada e não deve ser tomada antes do termo. Para organizar onde cada mulher deve parir, o Obstetric Care Consensus da ACOG e SMFM de 2019 define níveis progressivos de atenção materna, replicados no Brasil pela Rede Cegonha.
| Nível | Capacidade da unidade | Exemplo de gestante adequada ao nível |
|---|---|---|
| Centro de parto normal ou nível I (básico) | Partos de baixo risco esperados, capacidade de primeira resposta a emergências | Gestante saudável, termo, feto único cefálico, sem cicatriz uterina |
| Nível II (especialidade) | Morbidades moderadas, capacidade de cesárea emergencial e anestesia obstétrica | Gestante com pré-eclâmpsia leve compensada ou tentativa de VBAC selecionada |
| Nível III (subespecialidade) | Condições maternas complexas, UTI, medicina fetal disponível | Pré-eclâmpsia com sinais de gravidade, gestação múltipla complicada, prematuro extremo esperado |
| Nível IV (regional) | Centro perinatal regional, medicina fetal dirigindo o cuidado, cirurgia cardíaca e equipes multiespecialistas | Cardiopatia grave (hipertensão pulmonar, insuficiência cardíaca avançada), acretismo placentário complexo |
O desfecho do pré-natal depende da precocidade da captação e da adequação do encaminhamento. Pré-eclâmpsia permanece a grande causadora de morte materna no país, e sua detecção tardia converte casos tratáveis em eclâmpsia, HELLP e descolamento; o diagnóstico é pressão igual ou maior que 140 por 90 após 20 semanas em duas medidas, com proteinúria de 300 mg em 24 horas, relação proteína/creatinina igual ou maior que 0,3 ou dipstick 1 positivo quando os métodos quantitativos estiverem indisponíveis, e sinais de gravidade incluem pressão igual ou maior que 160 por 110, plaquetas abaixo de 100 mil, creatinina acima de 1,1 mg/dL ou dobrada, transaminases duas vezes o limite, dor epigástrica, cefaleia com escotomas, edema pulmonar e restrição fetal. O diabetes gestacional mal controlado gera macrossemia, hipoglicemia neonatal e distócia, e aumenta o risco materno de diabetes tipo 2 em cerca de 7 a 10 vezes ao longo da vida. A sífilis não tratada transmite-se verticalmente em até 70 a 100% na sífilis primária e secundária, com morte fetal e sífilis congênita precoce; e a prematuridade responde pela maior parte da mortalidade neonatal. Pré-natal completo, com 6 ou mais consultas, exames em dia, vacinas atualizadas e plano de parto definido, reduz de forma consistente mortalidade materna e neonatal, e é a métrica de qualidade que os serviços devem perseguir.
1.Segundo as recomendações da OMS de 2016, quantos contatos de pré-natal são recomendados durante a gestação?
2.No TOTG com 75 g entre 24 e 28 semanas, qual conjunto de limiares diagnósticos de diabetes gestacional está correto?
3.Gestante primípara, 32 semanas, pré-eclâmpsia leve. A irmã teve pré-eclâmpsia. Na gestação seguinte, quando e como iniciar a profilaxia com AAS?
4.Gestante Rh negativo, Coombs indireto negativo, companheiro Rh positivo. Qual conduta profilática correta?
5.Gestante com VDRL reagente 1:8 no 3º trimestre, sem lesões e sem tratamento prévio conhecido (duração desconhecida). Esquema correto?
6.Qual vacina é contraindicada durante a gestação?
7.Gestante que teve filho prévio com defeito de tubo neural planeja nova gestação. Qual prescrição de ácido fólico?
8.Gestante com parto prematuro espontâneo prévio faz cervicometria às 22 semanas: 18 mm. Qual conduta?
9.Entre os sinais abaixo, qual NÃO é sinal de alarme que exige avaliação imediata na gestação?
10.Sobre o teste não invasivo (NIPT) de DNA fetal livre para trissomia 21, marque a correta:
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