Baseado nos artigos publicados da matéria Clínica Médica da Central de Estudos (fonte principal) e nas diretrizes e revisões vigentes — Surviving Sepsis 2021, IDSA, AHA/ACC 2021, ATS 2012, KDIGO 2024, AASLD 2021, EASL, CHEST/ASH, ESC 2019, AGS Beers 2023 e STOPP/START v3 (complemento, sempre com DOI). Resumo de estudo — na conduta real, confira sempre a versão vigente do protocolo.
01
Abordagem do paciente com febre e síndromes constitucionais
fisiopatologia · febre aguda e sepse · febre neutropênica · febre de origem indeterminada · perda de peso · adenomegalia
Febre
≥ 38,0 °C
oral, uma medida (neutropênico: 38,3 única ou 38,0 por 1 h)
FOI clássica
> 38,3 °C
várias medidas, ≥ 3 semanas, sem causa após investigação
Neutropênico
≤ 60 min
hemoculturas e antibiótico antipseudomonas
Choque séptico
lactato > 2
persistente após reposição, com vasopressor p/ PAM ≥ 65
1. Conceito e fisiopatologia
Febre é a elevação da temperatura central por aumento do set point hipotalâmico: pirogênios exógenos (bactérias, vírus) ativam macrófagos que liberam IL-1, IL-6, TNF-alfa e interferons; essas citocinas induzem prostaglandina E2 no órgão vascular da lâmina terminal, que reprograma o termostato. A febre é uma resposta adaptada (melhora da imunidade celular, inibição de replicação microbiana); por isso, na prática, trata-se o desconforto do paciente, não o número do termômetro.
2. Febre aguda: o fluxo inicial decide tudo
Fluxo de decisão da febre
Paciente com febre — há gravidade ou imunossupressão?
▼
Instabilidade / suspeita de sepse
Sinais: PAS ≤ 100, FR ≥ 22, alteração de consciência (qSOFA ≥ 2), hipotensão, lactato elevado, livedo, oligúria.
Bundle da hora 1: lactato + hemoculturas ANTES do antibiótico + antimicrobiano amplo em ≤ 1 h + cristaloide 30 mL/kg se hipotensão/lactato ≥ 4 + vasopressor se PAM < 65 após volume.
Imunossuprimido / neutropênico
Quimioterapia, transplantado, corticoide em dose imunossupressora, HIV avançado.
Febre neutropênica: coletar hemoculturas e iniciar betalactâmico antipseudomonas (cefepima, piperacilina-tazobactam ou meropeném) em ≤ 60 min — não esperar resultado de exame.
Estável e imunocompetente
Procure síndrome localizante no interrogatório por sistemas e no exame focado (garganta, ouvidos, pulmões, abdome, pele e partes moles, meningismo, trajeto urinário, foco endovascular).
Exames só quando mudarem conduta: EAS e urocultura, radiografia de tórax se sintomas respiratórios, hemoculturas se hospitalizado ou risco de bacteremia.
3. Sepse: as definições que a prova cobra
Sepse = infecção + disfunção aguda de órgão (aumento ≥ 2 pontos no SOFA) — não depende mais da palavra SIRS.
Choque séptico = necessidade de vasopressor para manter PAM ≥ 65 mmHg + lactato > 2 mmol/L persistente após reposição volêmica adequada.
qSOFA (triagem à beira do leito): PAS ≤ 100 · FR ≥ 22 · alteração de consciência — 2 ou 3 itens identificam maior risco de morte.
Antibiótico em ≤ 1 h da reconhecimento da sepse/choque — cada hora de atraso em choque aumenta mortalidade.
4. Febre neutropênica
Definição: temperatura única ≥ 38,3 °C ou ≥ 38,0 °C sustentada por 1 hora, com neutrófilos absolutos < 500/mm³ (ou queda esperada para < 500 em 48 h). O foco só é identificado em minoria dos casos e a apresentação é atenuada (sem pus, sem consolidação franca) — a febre pode ser o único sinal de infecção grave. Após colher culturas (inclusive de cateter se houver), iniciar monoterapia IV com betalactâmico antipseudomonas: cefepima 2 g 8/8 h, piperacilina-tazobactam 4,5 g 6/6 h ou meropeném 1 g 8/8 h. Vancomicina NÃO é rotina — soma-se apenas se instabilidade hemodinâmica, suspeita de pele/partes moles, cateter ou mucosite grave.
5. Febre de origem indeterminada (FOI)
Definição clássica (Petersdorf, adaptada): temperatura > 38,3 °C em várias medidas, por ≥ 3 semanas, sem diagnóstico estabelecido após investigação adequada (1 semana de internação ou 3 consultas ambulatoriais/exames dirigidos). A causa muda com o cenário: em séries brasileiras e de referência para doenças infecciosas, as infecções lideram — tuberculose é o diagnóstico a não perder no Brasil, seguida de endocardite e abscessos ocultos; nos centros dos EUA/Europa, causas não infecciosas inflamatórias e neoplasias ganham terreno.
Grupo
Exemplos que a prova cobra
Infecções
tuberculose (miliar e extrapulmonar) · endocardite de cultura negativa · abscessos hepáticos, subfrênico, pélvico · brucelose · osteomielite · HIV primária
Neoplasias
linfoma (Hodgkin e não Hodgkin) · leucemias · carcinoma renal (febre + hematuria microscópica) · hepato e pancreático · febre paraneoplásica
Não infecciosas inflamatórias
doença de Still do adulto · vasculites (arterite de células gigantes no idoso, poliarterite nodosa) · lúpus · doença de Behçet · tromboflebite migratória (síndrome de Trousseau)
Estratégia diagnóstica: anamnese e exame físico SERIADOS (viagens, animais, ocupação, drogas, contato com TB), hemograma, VHS/PCR, 3 pares de hemoculturas, EAS/urocultura, sorologias (HIV, hepatites, EBV), TSH, proteinograma, RX e TC de tórax e abdome — e reavaliar antes de ampliar.
Doença de Still do adulto: febre alta vespertina + artralgia + rash evanescente salmão + faringite + leucocitose + ferritina marcadamente elevada (frequentemente > 4.000 ng/mL) com ANA e FR negativos e culturas negativas.
Regra de ouro: corticoide antes da biópsia de linfonodo suspeito pode lise linfoma e apagar o diagnóstico — investigar antes de tratar.
6. Síndrome constitucional: perda de peso e adenomegalia
Perda de peso involuntária significativa = queda ≥ 5% do peso em 6–12 meses. A abordagem organiza os mecanismos: consumo aumentado (hipertireoidismo, infecção crônica, neoplasia, febre prolongada), ingesta reduzida (depressão, demência, disfagia, pobreza, anorexia nervosa) e má absorção (doença celíaca, doença inflamatória intestinal, insuficiência pancreática). Rastreio básico: hemograma, VHS/PCR, TSH, HIV, sorologias, RX de tórax, ultrassom/TC de abdome, e endoscopia/colonoscopia conforme sinais.
mononucleose (EBV), toxoplasmose, HIV primária, CMV
Sobre antitérmicos: o estudo HEAT (NEJM 2015) randomizou pacientes graves com infecção suspeita para paracetamol 1 g 6/6 h versus placebo e não encontrou benefício em dias livres de UTI — a febre em si não é o inimigo. Trate o paciente desconfortável (dipirona 500–1000 mg VO ou paracetamol 750 mg–1 g VO 6/6 h, máx. 3–4 g/dia de paracetamol), mantenha hidratação e investigue a causa.
Questões do módulo · 01
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioHomem, 58 anos, linfoma em quimioterapia (ciclo há 8 dias), febre única de 38,5 °C, PA 128/76, FC 102, sem foco aparente, estável. Hemograma disponível mostra leucócitos 900 com 8% de neutrófilos. Conduta:
2.Prova difícilMulher, 34 anos, febre vespertina diária há 4 semanas, artralgias, faringite e rash salmão evanescente no tronco; leucócitos 16.000, ferritina 12.000 ng/mL, ANA e fator reumatoide negativos, 3 pares de hemoculturas negativos, TC de tórax e abdome normais. O diagnóstico mais provável:
os diagnósticos que matam · anamnese que classifica · HEART score · fluxo de decisão · tabela de diferenciais · conduta inicial
ECG na porta
≤ 10 min
de toda dor torácica possível isquêmica
HEART 0–3
~1,7%
de eventos em 6 semanas — alta com seguimento
HEART ≥ 7
50%+
risco alto — internação e estratégia invasiva
Troponina hs
0 h / 1 h
regra-in/regra-out na dor suspeita
1. O princípio: excluir primeiro o que mata
A dor torácica é o sintoma mais comum de pronto-socorro e a abordagem é uma triagem invertida: antes de pensar em refluxo e parede, excluir os diagnósticos letais. Os seis que matam: síndrome coronariana aguda, dissecção de aorta, tromboembolismo pulmonar, pneumotórax hipertensivo, tamponamento cardíaco e rotura esofágica (Boerhaave). Doenças cardiovasculares seguem entre as principais causas de morte no Brasil — a dor torácica é de alto valor de decisão.
Fluxo da dor torácica na porta
Dor torácica não traumática — o paciente está estável?
Sala de emergência + monitor + ECG em minutos + acesso venoso.
Pensar rápido nos que matam com hipotensão: dissecção, TEP maciço, tamponamento, pneumotórax hipertensivo, IAM extenso.
Pneumotórax hipertensivo: descompressão com agulha IMEDIATA (2º espaço intercostal hemiclavicular ou 5º espaço na linha axilar anterior), sem esperar radiografia.
ESTÁVEL com suspeita isquêmica
ECG em ≤ 10 min: supra de ST persistente ou BR novo = reperfusão imediata.
Sem supra: troponina de alta sensibilidade 0 h/1 h (regra-in/regra-out) e estratificação de risco.
ESTÁVEL atípica / não isquêmica
Calcule o HEART score e estratifique antes de exames caros.
Procure pistas de alternativos: pleurítica + fator de risco de TEP (Wells + D-dímero), reprodutível à palpação (parede), pós-prandial (refluxo), em zoster (dermátomo).
2. Anamnese que classifica a dor
Elemento
Angina típica
Pistas de alternativos
Qualidade
aperto/queimação retroesternal
rasgamento para as costas = dissecção; pleurítica = TEP/pneumotórax/pericardite/pneumonia
Irradiação
ombros, braços, pescoço, mandíbula
para as costas (dissecção); em faixa (pancreato-biliar)
segundos ou dias contínuos = pouco provável isquêmica
Nota
no diabético, idoso e mulher a apresentação é ATÍPICA (dispneia, sudorese, fadiga, síncope)
febre + dor postural = pericardite; vômito prévio + dor + enfisema subcutâneo = Boerhaave
3. HEART score: a estratificação que fecha a conduta
Componente
0 ponto
1 ponto
2 pontos
History (história)
pouco suspeita
moderadamente suspeita
muito suspeita
ECG
normal
repolarização inespecífica
desvio de ST significativo
Age (idade)
< 45
45–64
≥ 65
Risk factors
nenhum
1–2 fatores
≥ 3 fatores ou doença aterosclerótica conhecida
Troponina
≤ limite normal
1–3× o limite
> 3× o limite
0–3 = baixo risco (validação prospectiva: evento cardíaco maior em ~1,7% em 6 semanas — alta com seguimento em até 72 h e teste ambulatorial); 4–6 = risco intermediário (observação/estratificação adicional, ~16%); ≥ 7 = alto risco (> 50% — internação e estratégia invasiva). O escore vale para a dor SEM SUPRA e SEM instabilidade — não se calcula HEART de STEMI.
4. Diagnóstico diferencial — a tabela que vale a prova
Diagnóstico
Pista clínica
Confirmação
SCA/IAM
dor típica de esforço/repouso > 20 min, sudorese, fatores de risco
ECG + troponina hs (cinética)
Dissecção aórtica
dor de rasgamento para as costas, PA diferencial entre braços (> 20 mmHg), pulso diminuindo, hipertensão prévia, síndrome de Marfan
angio-TC de aorta (ou eco transesofágico)
TEP
dispneia súbita + dor pleurítica + FC alta + hipoxemia + fator de risco (imobilidade, cirurgia, câncer, estrógeno)
Wells → D-dímero (se baixa prob.) → angio-TC de tórax
Pneumotórax
início súbito + dispneia; murmúrio vesículo unilateral abolido; hipotensão com ingurgitamento jugular = hipertensivo
descompressão por agulha se hipertensivo; RX depois, se estável
Pericardite
dor pleurítica que PIORA deitado e melhora sentado inclinado; atrito; supra ST difuso côncavo com infra de PR
queimação pós-prandial, noturna, alívio com antiácido; espasmo pode imitar angina
PPR terapêutico + endoscopia
Musculoesquelética
reprodutível à palpação, pós-esforço físico, sem fator de risco
clínica (diagnóstico de exclusão de causa grave)
Herpes zoster
queimação em dermátomo, precedendo as vesículas; hiperestesia
clínica
Pânico
dor + pavor + parestesias peribucais + hiperventilação, paciente jovem
diagnóstico de exclusão
5. Conduta inicial enquanto estratifica
Monitores, acesso, SpO₂; O₂ apenas se SpO₂ < 90%.
Suspeita de SCA: AAS 150–300 mg VO mastigado (se não houver contraindicação), nitrato sublingual para dor se PA adequada — NUNCA com inibidor de PDE5 nas últimas 24–48 h nem em suspeita de infarto de ventrículo direito.
Dissecção: controlar PA e FC (betabloqueador IV primeiro, depois vasodilatador) e imagem imediata — cirurgia/vascular.
TEP com hipotensão: alto risco — trombólise ou embolectomia; estável: anticoagulação plena.
Tamponamento: eco à beira do leito e pericardiocentese guiada.
Questões do módulo · 02
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioMulher, 56 anos, dor precordial pleurítica de início em repouso há 3 h, sem iradiação, não relacionada a esforço. HAS, DM2 e tabagismo (3 fatores de risco). ECG normal e troponina hs normal em 0 h e 1 h. HEART score e conduta:
2.AvançadoHomem, 64 anos, hipertenso, dor precordial de rasgamento há 1 h, irradia para as costas, PA 182/96 no braço direito e 138/82 no esquerdo, pulso radial esquerdo diminuído. Primeira conduta:
pg/mL: limiar clássico de acurácia ~83% (Breathing Not Properly)
DPOC
FEV₁/FVC < 0,70
pós-broncodilatador fecha o diagnóstico
O₂ na DPOC
88–92%
meta de SpO₂ para não agravar hipercapnia
1. Classificação temporal — o primeiro filtro
Início
Causas principais
Agudo (minutos a horas)
edema agudo de pulmão · pneumotórax · TEP · anafilaxia · obstrução por corpo estranho · pneumonia de início abrupto · anemia aguda (sangramento) · cetoacidose (respiração de Kussmaul) · ansiedade/hiperventilação
Subagudo (dias a semanas)
pneumonia · exacerbação de asma/DPOC · derrame pleural · pericardite/tamponamento · anemia em instalação · tromboembolismo subagudo
obstrução de via aérea superior (corpo estranho, angioedema, tumor)
3. Exames: a sequência que a prova espera
Todo dispneico: SpO₂, FR, padrão da respiração, ausculta e expandibilidade (a clínica classifica antes do exame).
Peptídeos natriuréticos na dispneia AGUDA: BNP/NT-proBNP — NT-proBNP < 300 pg/mL (ou BNP < 100) torna insuficiência cardíaca aguda muito improvável; valores altos não fecham sozinhos (IDADE, obesidade, sepse, FA elevam). O estudo BNP na emergência (Breathing Not Properly/Maisel) mostrou acurácia de ~83% com corte de 100 pg/mL para BNP.
ECG (isquemia, HVE, arritmia), radiografia de tórax (congestão, consolidação, pneumotórax, derrame), hemograma (anemia), glicemia/cetonas, gasometria se gravidade.
Dispneia CRÔNICA: espirometria com prova broncodilatadora é o eixo — obstrutiva irreversível define DPOC (FEV₁/FVC < 0,70 pós-broncodilatador); resposta significativa ao broncodilatador sugere asma; padrão restritivo pede volumes pulmonares, DLCO e TC de alta resolução (intersticiais); espirometria normal redireciona para anemia, causa cardíaca precoce, obesidade e doença vascular pulmonar.
Ecocardiograma quando BNP/NT-proBNP elevado, sopro, ou suspeita de hipertensão pulmonar; ultrassom à beira do leito (linhas B) ajuda a separar cardiogênico de pulmonar na urgência.
Fluxo da dispneia crônica
Espirometria com prova broncodilatadora — qual o padrão?
▼
OBSTRUTIVO (FEV₁/FVC < 0,70)
Pós-BD irreversível + tabagista = DPOC — graduar por GOLD (FEV₁), mMRC e exacerbações.
Epidemiologia que aparece em prova: o estudo PLATINO mediu DPOC em cinco metrópoles latino-americanas e encontrou prevalência de 15,8% em São Paulo — a DPOC é causa comum e subdiagnosticada de dispneia crônica no Brasil, e o subdiagnóstico começa por não pedir espirometria.
Questões do módulo · 03
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioHomem, 70 anos, ex-tabagista (40 pacotes-ano), dispneia progressiva há 2 anos, tosse produtiva matinal, sibilo expiratório difuso. Espirometria pós-broncodilatador: FEV₁/FVC 0,55, FEV₁ 58% do previsto, sem resposta significativa ao broncodilatador. Interpretação e próximo passo:
2.AvançadoMesmo paciente chega com exacerbação: dispneia intensa, FR 32, SpO₂ 86% em ar ambiente, e gasometria com pH 7,28, PaCO₂ 68 mmHg, PaO₂ 52 mmHg, consciente e colaborativo. Conduta ventilatória:
hiponatremia (fluxo por volemia) · hipernatremia · potássio (ECG e escada terapêutica) · magnésio · cálcio
Na⁺ normal
135–145
mEq/L — hipoNa é o distúrbio mais comum em internados
Correção da hipoNa
≤ 8
mEq/L em 24 h — acima disso, desmielinização osmótica
K⁺ grave/ECG
> 6,5
mEq/L com alterações ECG = emergência
Ca corrigido
+ 0,8
por g/dL de albumina abaixo de 4,0
1. Hiponatremia — a análise em 3 passos
Sintomas dependem da gravidade e da velocidade: Na 130–135 geralmente assintomático; 120–129 náusea, cefaleia, confusão; < 120 (ou queda rápida) convulsões e coma — emergência. Primeiro confirme hiposmolaridade (osmolalidade sérica < 275 mOsm/kg; se osmolaridade normal/alta, pense pseudohiponatremia e hiperglicemia). Depois classifique pela volemia com sódio e osmolalidade URINÁRIOS.
Tipo
Exame-chave
Causas
Hipovolêmico
Na urinário < 20–30 mEq/L (perda extrarrenal)
vômitos, diarreia, terceiro espaço, queimaduras
Hipovolêmico
Na urinário > 30 mEq/L (perda renal)
diuréticos (tiazídico é o clássico), nefropatia perdedora de sal, insuficiência adrenal
Euvolêmico
Urina concentrada (osm > 100) + Na urinário > 30
SIADH (a mais cobrada), hipotireoidismo, insuficiência adrenal, potomania psicogênica (urina DILUÍDA, osm < 100)
Hipervolêmico
Na urinário baixo (sem diurético)
insuficiência cardíaca, cirrose com ascite, síndrome nefrótica
Fluxo da hiponatremia
Na < 135 mEq/L — há sintomas graves (convulsão, coma)?
▼
SIM → EMERGÊNCIA
Salina hipertônica 3% em bólus de 100–150 mL IV em 10–20 min, repetindo até melhora clínca ou incremento de 4–6 mEq/L nas primeiras horas.
Meta: estabilizar — nunca corrigir além de 8 mEq/L em 24 h.
NÃO — hipovolêmico
Salina isotônica 0,9% para repor volume; suspender diurético.
Insuficiência adrenal: hidrocortisona repõe e corrige.
NÃO — euvolêmico (SIADH) ou hipervolêmico
SIADH: tratar a causa (tumor, fármacos, pneumonia, TCE), restringir líquidos (< 1–1,5 L/dia); ureia/sal + furosemida ou tolvaptana (iniciar 15 mg/dia) se refratária.
Hipervolêmico: tratar a doença de base (IC, cirrose) + restrição hídrica e sódica.
2. Hipernatremia
Na > 145 mEq/L é sempre déficit de água livre relativo (ou, raramente, ganho de sódio): acontece em quem não sente sede ou não tem acesso à água — idoso, acamado, desidratado, paciente em ventilação, diabetes insipidus — e no hiperaldosteronismo (leve). Sede intensa é o sintoma dominante; no idoso, confusão e hipoatividade. Corrija calculando o déficit de água livre [0,6 × peso × (Na/140 − 1)] e repõe pela via oral/sonda quando possível, ao longo de 48–72 h, com queda máxima de ~10 mEq/L por dia — rápido demais causa edema cerebral e convulsão.
1.IntermediárioMulher, 68 anos, com carcinoma de pequenas células de pulmão em investigação: Na 121 mEq/L, sem edema, euvolêmica, osmolalidade sérica 246 mOsm/kg, sódio urinário 48 mEq/L, osmolalidade urinária 420 mOsm/kg, TSH e cortisol normais, creatinina normal, sem uso de diurético. Diagnóstico e conduta inicial:
2.Prova difícilHomem, 72 anos, DRC avançada (TFGe 14), em enalapril e espironolactona, chega com fraqueza; K⁺ 7,1 mEq/L e ECG com T apiculadas e QRS alargado. Primeira conduta:
definição e graduação · abordagem pelo VCM · microcíticas (ferropriva × talassemia × inflamação) · normocíticas e hemólise · macrocíticas (B12 e folato) · ferro e transfusão
OMS
Hb < 13/12
g/dL — homem/mulher (gestante < 11)
Ferropriva
ferritina < 15–30
ng/mL (sobe o corte na inflamação/DRC)
VCM
< 80 / > 100
microcitose × macrocitose (fL)
Transfusão estável
Hb < 7
g/dL — estratégia restritiva (TRICC/TRISS)
1. Definição e a lógica da abordagem
Anemia é a redução da hemoglobina (OMS: < 13 g/dL no homem adulto, < 12 na mulher, < 11 na gestante) — e é um SINTOMA laboratorial, não um diagnóstico. A gravidade funcional depende menos do número e mais da velocidade de instalação e da reserva cardiovascular: Hb de 7 crônica pode ser tolerada; Hb de 10 em sangramento agudo pode congestar. A porta de entrada da investigação é morfológica: VCM (tamanho) + reticulócitos (medula respondendo?).
Fluxo da anemia
Qual o VCM?
▼
MICROCÍTICA (< 80 fL)
Ferropriva (ferritina baixa) · talassemia (índice de Mentzer < 11, RDW normal) · anemia de inflamação/doença crônica (ferritina normal/alta) · sideroblástica (ferro e ferritina altos).
Homem ou pós-menopausa com ferropriva SEM causa evidente = endoscopia/colonoscopia (sangramento oculto até prova contrária).
NORMOCÍTICA (80–100 fL)
Reticulócitos ALTOS: hemólise (LDH ↑, haptoglobina ↓, bili indireta ↑) ou sangramento agudo.
Megaloblástica: B12/folato — neutrofilos hipersegmentados, pancitopenia, sinais neurológicos na B12.
Não megaloblástica: álcool, hepatopatia, hipotireoidismo, MDS — e reticulocitose alta (reticulócito é GRANDE e finge macrocitose).
2. Microcíticas — a tabela que decide
Ferropriva
Talassemia (traço)
Inflamação/DC
Sideroblástica
Ferritina
baixa (< 15–30)
normal/alta
normal/alta
alta
Ferro sérico
baixo
normal
baixo
alto
TIBC/transferrina
alta
normal
baixa
normal
Saturação de transferrina
baixa (< 16–20%)
normal
baixa
alta
RDW
alta (anisocitose)
NORMAL
normal/alta
alta
Marcador extra
Mentzer > 11
Mentzer < 11 (VCM ÷ n° de hemácias); eletroforese com HbA₂ ↑ no traço beta
VHS/PCR elevados
sideroblastos em anel, chumbo/MDS
3. Normocíticas e a suspeita de hemólise
Painel de hemólise: reticulócitos altos + LDH elevada + haptoglobina baixa + bilirrubina indireta alta. Intravascular soma hemoglobinemia, hemoglobinúria e hemosiderinúria; extravascular cursa com esplenomegalia. O esfregaço aponta a causa: esferócitos (anemia hemolítica autoimune — Coombs direto positivo — e esferocitose hereditária), esquizócitos (microangiopática: PTT/HUS, pré-eclâmpsia/HELLP, válvulas, hipertensão maligna — emergência), células em mordida (G6PD, oxidantes), drepanócitos (falciforme). Anemia de doença crônica: inflamação bloqueia ferro (hepcidina), ferritina normal/alta, VCM normal ou levemente micro — a segunda causa mais comum.
4. Macrocíticas: B12 antes do folato
Deficiência de B12: dieta vegana sem suplemento, anemia perniciosa (gastrite atrófica autoimune, anticorpo anti-fator intrínseco), gastrectomia/bypass, doença ileal, metformina crônica. Quadro: anemia macrocítica com neutrófilos hipersegmentados, pancitopenia possível, glossite e — o diferencial de prova — sintomas NEUROLÓGICOS: parestesias simétricas, perda de propriocepção (colunas posteriores), ataxia, demência. B12 < 200 pg/mL é deficiência; 200–300 é zona cinzenta (MMA e homocisteína decidem). Folato: álcool, gestação, metotrexato/trimetoprima-sulfametoxazol; mesma macrocitose sem neurológico.
5. Transfusão: a estratégia restritiva venceu
TRICC (NEJM 1999): em pacientes críticos ESTÁVEIS, transfundir com Hb < 7 g/dL não foi inferior a limiar liberal (< 10) em mortalidade — e menos complicações.
TRISS (NEJM 2014): o mesmo vale no choque séptico — limiar de 7 g/dL é seguro.
Regra prática: estável = transfundir unitário a unitário (1 concentrado, reavaliar sintomas/Hb); transfusão não é para corrigir número, é para sintoma/isquemia.
Exceções clássicas: síndrome coronariana aguda (limiares mais liberais em sintomáticos), sangramento ativo, intolerância clínica.
Questões do módulo · 05
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioHomem, 26 anos, assintomático, hemograma de rotina: Hb 11,9 g/dL, VCM 68 fL, hemácias 6,3 milhões/mm³, RDW normal, ferro sérico e ferritina normais. Próxima conduta:
2.AvançadoHomem, 78 anos, Hb 8,2 g/dL, VCM 104 fL, neutrófilos hipersegmentados no esfregaço, parestesias em ambos os pés e perda de sensibilidade vibratória. Sem sintomas cardiovasculares. Conduta:
definição KDIGO · estadiamento G × A · progressão · nefroproteção (IECA/BRA, iSGLT2) · anemia e CKD-MBD · preparo para terapia renal substitutiva
DRC
TFGe < 60
mL/min/1,73 m² por ≥ 3 meses (ou marcadores de dano)
Albuminúria
ACR ≥ 30
mg/g — marcador de dano e prognóstico
iSGLT2 (KDIGO 2024)
TFGe ≥ 20
com albuminúria: iniciar; continuar até diálise
Encaminhar ao nefrologista
TFGe < 30
ou ACR > 300, ou queda rápida (> 5/ano)
1. Definição — o “≥ 3 meses” é a prova
DRC é anormalidade estrutural ou funcional do rim por mais de 3 meses: TFGe < 60 mL/min/1,73 m² OU marcadores de dano — albuminúria (relação albumina/creatinina ≥ 30 mg/g), sedimento alterado, distúrbios eletrolíticos de origem renal, anormalidades estruturais na imagem, malformações, transplante. TFGe baixa isolada há 2 semanas não é DRC — é lesão/agressão renal aguda ou não classificada. Causas principais no Brasil e no mundo: nefropatia diabética e nefroesclerose hipertensiva lideram, seguidas de glomerulopatias, doença policística e uropatia obstrutiva.
Albuminúria em 3 faixas: A1 < 30 mg/g (normal-leve) · A2 30–300 (moderada) · A3 > 300 (grave). O prognóstico vem da COMBINAÇÃO: G3b/A3 (TFGe 30–44 com ACR > 300) é risco muito alto — e é a combinação que manda encaminhar e intensificar, não o número isolado da creatinina. TFGe e albuminúria são os melhores preditores de progressão.
3. Nefroproteção — as cinco frentes
1. Pressão arterial e albuminúria: IECA ou BRA são a base quando há albuminúria (efeito antiproteinúrico além do controle pressórico); meta de PAS < 120 mmHg (medida padronizada em consultório, KDIGO 2024) se tolerada.
2. iSGLT2 (dapagliflozina 10 mg, empagliflozina 10 mg): indicado na DRC com TFGe ≥ 20 e albuminúria significativa, COM OU SEM diabetes — reduz queda da TFGe, hospitalização e morte; iniciar cedo e manter até o início da diálise.
3. Evitar os três inimigos: AINEs contínuos, contraste iodado sem preparo/hidratação e hipotensão prolongada — nas intercorrências, hidratação e doses reduzidas.
4. Estatina por risco cardiovascular na DRC (a morte nesta população é cardiovascular antes que renal).
5. Bicarbonato se HCO₃ < 22 mEq/L (acidose crônica acelera perda de função e catabolismo muscular).
4. Complicações e alvos
Complicação
Alvo/conduta
Anemia
investigar ferro primeiro (ferritina/TSAT); ferro se deficiente; ESA (eritropoetina) se Hb < 10 g/dL, alvo ~10–11,5 — nunca normalizar com ESA (mais eventos)
CKD-MBD
fósforo: dieta + quelantes a partir do G3b/G4 quando elevado; vitamina D ativa se PTH elevado no dialítico; evitar hipercalemia e calcificação com sais de cálcio em excesso; PTH alvo no dialítico ~2–9× o limite
Acidose
bicarbonato para manter ≥ 22 mEq/L
Hiperpotassemia
dieta, diurético, ajuste de IECA/iSGLT2 — e as novas resinas (ver módulo de eletrólitos)
Desnutrição
não restringir proteína a esmo: ~0,55–0,6 g/kg/d no não dialítico conservador, e 1,0–1,2 g/kg/d NO DIALÍTICO (perda na hemodiálise)
5. Preparo para terapia renal substitutiva (TRS)
Educação sobre modalidades desde o G4: hemodiálise, diálise peritoneal, transplante (melhor sobrevida e qualidade de vida nos elegíveis) e tratamento conservador quando a TRS não agregará.
Fístula arteriovenosa: planejar quando TFGe 15–20 com progressão previsível — maturação típica de 6 semanas a 3 meses; cateter tunelizado é a última opção (infecção).
Vacinas em dia (hepatite B antes da diálise, influenza, pneumocócicas), acesso vascular mapeado, anemia e MBD controladas.
Cuidado perioperatório: estratificar risco renal, hidratação, evitar AINEs e ajustar doses de fármacos ao filtrado — a DRC multiplica risco cirúrgico e de contraste.
Questões do módulo · 06
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalMulher, 62 anos, DM2 e HAS há 15 anos: TFGe 41 mL/min/1,73 m² há 3 meses e 43 agora; ACR 120 mg/g; Hb 11,5; K 4,5. Conduta:
2.AvançadoHomem, 66 anos, DRC com albuminúria A3, em losartana 50 mg/dia; após titulação para 100 mg, creatinina sobe de 1,6 para 1,9 mg/dL (variação de ~19%) e K⁺ 4,8 mEq/L. Conduta:
compensada × descompensada · varizes e sangramento · ascite e SAAG · SBP · encefalopatia · síndrome hepatorenal · nutrição e prognóstico
HP porta clínica
HVPG ≥ 10
mmHg — varizes; ≥ 12 risco de sangramento
Ascite portal
SAAG ≥ 1,1
g/dL diferencia causa portal de não portal
SBP
PMN ≥ 250
células/mm³ no líquido ascítico — sem esperar cultura
Albumina na SBP
1,5 + 1 g/kg
dia 1 e dia 3 — reduz HRS e mortalidade
1. O conceito que organiza: duas cabeças e uma virada
Cirrose é o estágio final das hepatopatias crônicas: fibrose com nódulos de regeneração e shunts portossistêmicos. Ela opera por dois eixos — insuficiência hepatocelular (coagulopatia, hipoalbuminemia, icterícia, encefalopatia) e hipertensão porta (ascite, varizes, esplenomegalia). A virada clínica é a DESCOMPENSAÇÃO: ascite, encefalopatia, sangramento por varizes ou icterícia — a sobrevida mediana cai de mais de 10 anos na cirrose compensada para cerca de 2 anos na descompensada. Etiologias: esteatose hepática metabólica (MASLD, crescente), álcool, HBV/HCV, colangites autoimunes (CBP/CES), hepatite autoimune, hemocromatose, Wilson (jovem), Budd-Chiari.
2. Varizes e sangramento
Screening de varizes com endoscopia no diagnóstico de cirrose com hipertensão porta clínica.
Profilaxia primária: betabloqueador não seletivo (propranolol titulado até FC de repouso ~55–60 bpm, ou carvedilol) ou ligadura endoscópica conforme gradiente e tamanho.
Sangramento agudo: proteção de via aérea + vasoativo (octreotida 50 µg em bólus + infusão, ou terlipressina) + ANTIBIÓTICO PROFILÁTICO (ceftriaxona 1 g/dia por até 7 dias — reduz infecção e mortalidade) + ligadura endoscópica nas primeiras 12 h após estabilização.
Transfusão restritiva: alvo de Hb 7–8 g/dL — transfundir demais eleva a pressão porta e ressangra.
Profilaxia secundária: betabloqueador não seletivo + série de ligaduras.
3. Ascite — o gradiente (SAAG) manda
Toda PRIMEIRA ascite em cirrótico é paracentese diagnóstica (contagem de células + cultura em frasco à beira do leito + proteína/albúmina para o gradiente). SAAG = albumina sérica − albumina ascítica: ≥ 1,1 g/dL = hipertensão porta (cirrose, insuficiência cardíaca, síndrome de Budd-Chiari); < 1,1 = peritoniopatia (carcinomatose, tuberculosa, pancreatogênica).
4. SBP — peritonite bacteriana espontânea
PMN ≥ 250 células/mm³ no líquido ascítico fecha o diagnóstico — cultura pode demorar ou negativar e NÃO se espera por ela. Monomicrobial, tipicamente E. coli, Klebsiella e pneumococo (translocação intestinal). Tratamento: cefotaxima 2 g 8/8 h ou ceftriaxona 2 g/dia por 5–7 dias + ALBUMINA 1,5 g/kg no dia 1 e 1 g/kg no dia 3 nos pacientes com risco (creatinina elevada, bilirrubina alta, ureia alta) — reduz insuficiência renal e mortalidade. Após um episódio: profilaxia secundária contínua com norfloxacino 400 mg/dia (ou ciprofloxacino). Na ascite hemorrágica, corrigir o PMN: descontar 1 PMN para cada 250 hemácias.
5. Encefalopatia hepática
Grau (West-Haven)
Achado
I
transtorno do sono, atenção e fino cálculo; euforia/depressão
somnolência a semicomatosa, desorientação espacial, resposta a estímulos preservada
IV
coma, sem resposta a estímulos dolorosos
Sempre procurar o PRECIPITANTE: infecção (incluindo SBP), sangramento digestivo, constipação, distúrbio eletrolítico (hipopotassemia/alcalose), sedativos, desidratação/diuréticos excessivos, TIPS, azotemia, proteína exagerada.
Amônia pode estar alta, mas correlação imprecisa com gravidade — o diagnóstico é clínico.
Lactulose 25 mL VO 1-2/1-2 h até evacuar, então titular para 2–3 evacuações pastosas/dia (ou por sonda/enema em graus avançados).
Rifaximina 550 mg 12/12 h como adjuvante na recorrente (reduz recaídas e hospitalizações).
NÃO RESTRINGIR PROTEÍNA: alvo 1,2–1,5 g/kg/dia — restrição proteica piora sarcopenia e a própria encefalopatia.
6. Síndrome hepatorenal (HRS-AKI) e falência hepática aguda sobre crônica
Critérios de HRS-AKI (AASLD 2021): cirrose com ascites + critério de LRA (elevação de creatinina ≥ 0,3 mg/dL em 48 h ou ≥ 50% do basal em até 7 dias) SEM resposta a albumina 1 g/kg/dia por 2 dias, sem choque, sem drogas nefrotóxicas e sem evidência de doença estrutural (proteinúria significativa, hematuria microscópica, USG anômala). Tratamento: terlipressina + albumina (ou noradrenalina em UTI), em paralelo à avaliação para transplante. A falência hepática aguda sobre crônica (ACLF) é síndrome distinta: descompensação aguda com disfunções de órgãos extra-hepáticas e mortalidade em 28 dias que cresce com o número de órgãos.
7. Nutrição e prognóstico
Desnutrição/sarcopenia é quase universal na cirrose e reduz sobrevida independentemente (estudo PINC) — rastrear em toda visita.
Prescrição: 30–35 kcal/kg/dia e 1,2–1,5 g/kg/dia de proteína, fracionada, com LANCHE NOTURNO TARDIO (quebra o jejum noturno catabólico e preserva massa magra).
Child-Pugh (bilirrubina, albumina, INR/RN, ascite, encefalopatia → A 5–6, B 7–9, C 10–15) estratifica prognóstico; MELD-Na (bilirrubina, INR, creatinina, sódio) ordena a fila de transplante.
O transplante muda a história natural — todo descompensado é potencial candidato: parar álcool, vacinar, tratar etiologia e preparar.
Questões do módulo · 07
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioHomem, 58 anos, cirrótico (Child-Pugh B), primeira ascite: SAAG 1,9 g/dL, proteína total do líquido 1,1 g/dL, PMN 15 células/mm³, culture pendente. Conduta:
2.Prova difícilMesmo paciente retorna com febre e desconforto abdominal: paracentese com PMN 480 células/mm³, creatinina 1,6 mg/dL, bilirrubina total 5,8 mg/dL. Tratamento correto:
tríade de Virchow · TVP (Wells) · TEP (probabilidade e imagem) · estratificação de risco · DOAC e duração · profilaxia
1. TVP: probabilidade clínica e imagem
Clínica: edema unilateral (diferença > 3 cm na panturrilha, 10 cm abaixo da tuberosidade tibial), dor à palpação da massa muscular, edema com deixa (godet), dilatação de veias superficiais. Sinal de Homans é pouco confiável. Wells de TVP: câncer ativo (+1), paralisia/imobilização de membro (+1), acamado > 3 dias ou cirurgia grande < 12 semanas (+1), dor ao longo do sistema venoso profundo (+1), edema de toda perna (+1), diferença de panturrilha > 3 cm (+1), edema com godet (+1), circulação colateral superficial (+1), TVP prévia (+1), diagnóstico alternativo mais provável (−2). Escore ≤ 0 (pouco provável): D-dímero — negativo exclui. Escore ≥ 1 (provável): Doppler venoso diretamente.
2. TEP: o fluxo diagnóstico
Wells de TEP (resumido)
Pontos
Sinais clínicos de TVP
+3
TEP como diagnóstico mais provável
+3
FC > 100 bpm
+1,5
Imobilização/cirurgia nas últimas 4 semanas
+1,5
TVP/TEP prévia
+1,5
Hemoptise
+1
Neoplasia ativa
+1
≤ 4 pontos = pouco provável: D-dímero (ajustado à idade acima de 50 anos: limite = idade × 10 µg/L) — negativo encerra a investigação. > 4 pontos = provável: angio-TC de tórax direto, sem D-dímero. Achados clássicos: dispneia súbita, dor pleurítica, taquicardia, hipoxemia, síncope (TEP maciço); o padrão S1Q3T3 é raro e inespecífico; ECG e RX servem para diferenciais, não para fechar.
Fluxo do TEP confirmado
TEP confirmado — qual a estabilidade?
▼
HIPOTENSÃO (PAS < 90 ou queda ≥ 40)
TEP de alto risco: reperfusão — trombólise sistêmica (alteplase 100 mg em 2 h) ou embolectomia cirúrgica/percutânea.
Suporte com vasopressor e anticoagulação plena em paralelo.
NORMOTENSO com disfunção de VD ou troponina elevada
Risco intermediário: internar, anticoagulação plena e MONITORIZAR — trombólise de rotina NÃO (reservar à deterioração hemodinâmica).
NORMOTENSO sem disfunção de VD/troponina (ou PESI baixo)
Risco baixo: anticoagulação e possibilidade de alta precoce com DOAC.
3. Tratamento — DOAC em primeira linha
Fármaco
Esquema
Apixabana
10 mg 12/12 h por 7 dias → 5 mg 12/12 h
Rivaroxabana
15 mg 12/12 h por 21 dias → 20 mg/dia com alimento
Dabigatrana / edoxabana
após ≥ 5 dias de heparina (LMWH) inicial
Varfarina
reservada: gestação, antifosfolípide com tríplice positividade, intolerência/custo — sobreposição com heparina até INR 2–3
Heparinas
enoxaparina 1 mg/kg 12/12 h (ou 1,5 mg/kg/dia) — primeira linha na GESTAÇÃO e opção no câncer com alto risco de sangramento digestivo
4. Profilaxia e complicações
Paciente clínico internado com mobilidade reduzida: enoxaparina 40 mg SC/dia (ou heparina não fracionada 5.000 UI 8/8 h se clearance reduzido) — profilaxia mecânica se contraindicação de sangramento.
Sintomas pós-trombóticos (dor, edema, hiperpigmentação): mais frequente após TVP proximal — compressão e exercício orientados.
Dispneia progressiva meses após TEP: suspeitar doença tromboembólica crônica com hipertensão pulmonar (cintilografia V/Q é o exame de escolha).
Sangramento é a complicação do tratamento — DOAC com menor taxa de sangramento grave e intracraniano que varfarina.
Questões do módulo · 08
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioMulher, 58 anos, 10 dias de artroplastia de joelho, retorna com edema e dor na panturrilha direita (diferença de 4 cm) — Wells de TVP ≥ 2. Próximo passo:
2.AvançadoHomem, 63 anos, TEP confirmado na angio-TC: PA 108/64 (basal 140/85), FC 104, lactato normal, troponina elevada e dilatação de ventrículo direito na TC. Conduta:
Paciente idoso, multimorbidade e cuidados paliativos
fragilidade e síndromes geriátricas · avaliação geriátrica ampla · prescrição segura (Beers, STOPP/START) · desprescrição · cuidados paliativos precoces · SPIKES · fim da vida
Multimorbidade
≥ 2 doenças
regra, não exceção, no idoso
Polifarmácia
≥ 5 fármacos
preditor de quedas, internação e iatrogenia
Fragilidade (Fried)
≥ 3 de 5
critérios — 1–2 = pré-frágil
Cuidado paliativo
desde o diagnóstico
concomitante ao tratamento modificador (Temel)
1. Multimorbidade: quando as diretrizes brigam entre si
Diretrizes são construídas para uma doença por vez, em pacientes elegíveis e exclusos de multimorbidade; no idoso real, segui-las todas produz polifarmácia, efeitos adversos em cascata e metas incompatíveis. A abordagem correta é centrada em METAS: discutir preferências, estimar expectativa de vida, ponderar o tempo até o benefício de cada intervenção (estatina em prevenção primária demora anos para beneficiar) e aceitar que um alvo mais frouxo pode ser o melhor cuidado. A cascata de prescrição — o efeito adverso de um fármaco tratado com outro fármaco — é o mecanismo iatrogênico clássico.
2. Fragilidade e síndromes geriátricas
Síndrome
Definição/checagem
Fragilidade (fenótipo de Fried)
5 critérios: perda de peso involuntária (≥ 4,5 kg/ano) · exaustão autorreferida · fraqueza (força de preensão palmar no quintil inferior) · lentidão da marcha · baixo gasto calórico semanal — 3+ = frágil; 1–2 = pré-frágil
Sarcopenia
perda de massa e força muscular — mede-se força (dinamômetro/desempenho) e velocidade de marcha; proteína e exercício de resistência são a base do tratamento
perda de AVD — medir antes e depois de qualquer internação
Iatrogenia
delirium, infecções por cateter, retenção urinária por anticolinérgicos, sangramento por anticoagulação sem indicação
3. Avaliação geriátrica ampla (AGA)
Funcional: AVD/Katz (banho, vestir-se, toileting, transferência, continência, alimentação) e AIVD/Lawton (telefone, compras, preparo de refeições, casa, roupa, transporte, medicamentos, finanças).
Cognição: rastreio com Minicog ou MEEM; humor (GDS); nutrição (MNA —circunferência da panturrilha entra no rastreio); marcha e equilíbrio; rede social e cuidador.
A AGA com intervenções reduz declínio funcional e institucionalização — é a ferramenta terapêutica, não só diagnóstica.
4. Prescrição segura: Beers 2023 e STOPP/START v3
Evitar no idoso (exemplos Beers/STOPP)
Por quê
Benzodiazepínicos e hipnóticos (incl. zolpidem)
queda, fratura, cognição — sem evidência de benefício crônico
Anticolinérgicos (amitriptilina, anti-histamínicos de 1ª geração, oxibutinina)
Sulfoniluréias de longa ação (gliburida/glimepirida)
hipoglicemia prolongada — preferir agentes de menor risco
Insulina em esquema deslizante isolado
hipoglicemia sem controle basal
IBP por tempo indefinido sem indicação
fraturas, hipomagnesemia, enterococo resistente
Digoxina > 0,125 mg/dia e metformina com TFGe muito baixa
toxicidade dose-dependente/acidose láctica
5. Cuidados paliativos: definição e timing
A OMS define cuidados paliativos como a abordagem que melhora a qualidade de vida de pacientes e famílias que enfrentam doença ameaçadora da vida, pela prevenção e alívio do sofrimento, com identificação precoce e tratamento impecável da dor e de outros problemas físicos, psicossociais e espirituais. Não é fim de vida, não é só câncer, e não substitui o tratamento modificador — soma-se a ele desde o diagnóstico. O ensaio de Temel (NEJM 2010) randomizou pacientes com câncer de pulmão metastático para cuidado paliativo PRECOCE associado à oncologia padrão: melhor qualidade de vida, menos depressão e sobrevida mediana MAIOR (11,6 vs 8,9 meses) — menor depressão e menos quimioterapia agressiva no fim da vida.
6. Comunicação: SPIKES
Passo
O que fazer
S — Setting
ambiente privado, sentado, sem pressa, silenciar aparelhos, garantir quem o paciente quer presente
P — Perception
perguntar o que o paciente entende da própria situação antes de informar
I — Invitation
perguntar quanto e o que ele quer saber
K — Knowledge
comunicar em linguagem simples, em blocos curtos, sem jargão — pausa após cada bloco
E — Emotions/Empatia
acolher a reação (silêncio, choro, raiva) com escuta antes de continuar
S — Strategy/Summary
resumir, combinar próximos passos e garantir continuidade
7. Sintomas e fim da vida
ESAS: 9 sintomas auto-avaliados de 0–10 (dor, cansaço, náusea, depressão, ansiedade, sonolência, apetite, bem-estar, dispneia) — medir para tratar.
Dor: escada da OMS com opioides desde a dor moderada; morfina de liberação imediata 2,5–5 mg VO a cada 4 h como início no opioide-ingênuo, titulando, com profilaxia de constipação SEMPRE (laxante desde a primeira dose); a dose de resgate é ~10–15% da dose diária total.
Dispneia refratária no fim da vida: opioide em dose baixa é a intervenção com melhor evidência; O₂ só se hipoxemia sintomática.
Delirium terminal/agitação: haloperidol em doses fracas; sedação paliativa (midazolam) apenas para sintomas refratários nos últimos dias, com consentimento e documentação.
Sinais de morte iminente: recusa de ingestão, secreções respiratórias (death rattle — reduzir/parar hidratação, posição, escopolamina), respiração de Cheyne-Stokes, livedo/marinhagem de extremidades, retração da consciência — comunicar à família e desprescrever o que não agrega.
Aspectos legais no Brasil: diretivas antecipadas de vontade (Resolução CFM 1.995/2012), Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003) e Política Nacional de Cuidados Paliativos (Portaria GM/MS 3.681/2024); a ortotanásia (não iniciar/ não manter tratamento fútil) é ética; a eutanásia (provocar a morte) é proibida.
Questões do módulo · 09
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioMulher, 84 anos, hipertensa e diabética, vive sozinha, caiu 3 vezes em 2 meses. Usa gliburida 5 mg/dia, amitriptilina 25 mg/dia (para insônia), lorazepam 2 mg/dia, ibuprofeno 400 mg contínuo (dor nos joelhos) e omeprazol há 5 anos. HbA1c 7,4%. Conduta mais apropriada:
2.FundamentalHomem, 67 anos, recém-diagnosticado com câncer de pulmão metastático, ainda assintomático, iniciará quimioterapia. Sobre cuidados paliativos:
Idoso com quedas + benzodiazepínico + amitriptilina + gliburida
Desprescrever (Beers/STOPP)
Prova final — bateria geral
8 questões cobrindo todos os módulos proporcionalmente + gabarito
1.FundamentalHomem, 70 anos, chega com febre 38,8 °C, FR 26, PAS 96, confusão mental há 6 h, além de tosse produtiva. Após 30 mL/kg de cristaloide, mantém PAS 78 e lactato 4,2 mmol/L. Diagnóstico e medida terapêutica central:
2.AvançadoJovem alto e magro, DPOC avançado, chega com dispneia súbita à direita; exame: ausência de murmúrio vesículo direito, ingurgitamento jugular, PA 76/50, FC 128, SpO₂ 84%. Conduta IMEDIATA:
3.IntermediárioIdosa, 82 anos, com dispneia aguda, sem dor: crepitantes basais, turgência jugular, FC 110 irregular. NT-proBNP 6.400 pg/mL. O papel do peptídeo natriurético neste caso:
4.IntermediárioSenhora, 75 anos, internada, em tiazídico, Na 123 mEq/L sem convulsão nem coma, hipovolêmica (mucosas secas, FC 110). Correção mais segura:
5.AvançadoHomem, 58 anos, DRC G3b com albuminúria A3, TFGe 34, sem diabetes, PA controlada com IECA. Qual intervenção adicional tem evidência de proteção renal e redução de desfechos duros para este paciente:
6.Prova difícilCirrótico, 61 anos, com encefalopatia hepática grau II após constipação de 5 dias; Hb 9,8, sem sangramento; medicações atuais incluem restrição proteica a 0,5 g/kg/dia prescrita na última internação. Conduta corta:
7.IntermediárioMulher, 45 anos, TVP proximal de membro inferior 5 dias após colecistectomia (cirurgia programada, sem complicações). Após 3 meses de anticoagulação com rivaroxabana, qual a conduta de duração:
8.IntermediárioMédico precisa comunicar um diagnóstico de doença metastática. Segundo o protocolo SPIKES, o primeiro passo é:
Gabarito rápido
1-B · 2-B · 3-B · 4-B · 5-A · 6-B · 7-B · 8-A
Referencial teórico
34 fontes reais · DOI verificado
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notaResumo didático elaborado a partir das diretrizes e revisões acima (verificáveis pelo DOI) e dos artigos publicados desta matéria na Central de Estudos (fonte principal). Nenhuma referência inventada; em caso de divergência entre fontes, vale a versão vigente do protocolo oficial — confira sempre antes da conduta real.
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