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Cirúrgicas
Diagnóstico e conduta na doença arterial oclusiva, nos aneurismas, na trombose venosa e nas urgências vasculares, do exame físico à revascularização.
Baseado nos artigos publicados da matéria Cirurgia Vascular da Central de Estudos (fonte principal) e nas diretrizes vigentes — ESC 2024 aorto-periférica, AHA/ACC 2016, SVS 2018 (AAA), Global Vascular Guidelines 2019, CHEST 2021 e ASH 2020 (TEV), IWGDF 2023 e KDOQI 2019 (complemento, sempre com DOI). Resumo de estudo — na conduta real, confira sempre a versão vigente do protocolo.
epidemiologia e risco cardiovascular · Fontaine/Rutherford · ITB e diagnóstico não invasivo · diferencial da claudicação · tratamento clínico (receita) · quando revascularizar
Doença arterial periférica (DAP) de membros inferiores é a aterosclerose do leito femoropoplíteo, tibial ou aortoilíaco. Estimava-se cerca de 202 milhões de pessoas com 25 anos ou mais acometidas no mundo em 2010, com crescimento pelo envelhecimento e o diabetes. Menos da metade dos pacientes é sintomática — a claudicação intermitente franca é minoria — e a maior parte dos óbitos não vem da perna: a DAP é marcador de doença aterosclerótica sistêmica, com excesso de mortalidade cardiovascular (coronariana e AVC) que justifica tratar o paciente inteiro, não só o membro.
| Apresentação | Fontaine | Rutherford |
|---|---|---|
| Assintomático | I | 0 |
| Claudicação leve (> 200 m) | IIa | 1–2 |
| Claudicação grave (< 200 m) | IIb | 3 |
| Dor em repouso | III | 4 |
| Perda tecidual menor (úlcera não extensa/gangrena digital) | IV | 5 |
| Perda tecidual extensa (envolve o pé) | IV | 6 |
| Padrão da dor | Diagnóstico |
|---|---|
| Panturrilha ao degrau/subida, obriga a PARAR EM PÉ e alivia em 1–2 min | Claudicação arterial (DAP) |
| Dor lombar/irradiada que melhora ao SENTAR ou flexionar o tronco, piora com a deambulação prolongada em pé | Claudicação neurogênica (estenose de canal lombar) |
| Peso/plenitude e dor que piora ao fim do dia e no calor, melhora ao elevar a perna | Claudicação venosa (obstrução venosa crônica) |
| Dor em quadril/nádegas + impotência em homem fumante | DAP aortoilíaca (síndrome de Leriche: claudicação de nádegas + atrofia de MMII + disfunção erétil) |
| Dor em coxa/panturrilha após cirurgia vascular prévia | Oclusão de enxerto ou estenose de reintervenção |
A claudicação tem prognóstico relativamente estável para o membro (apenas uma minoria evolui para isquemia ameaçadora), mas o prognóstico vital é dominado pelo evento coronariano e cerebral — por isso a prescrição de estatina, antiagregante e cessação do tabagismo é obrigatória mesmo no paciente pouco sintomático. Progressão para dor em repouso ou perda tecidual define isquemia crônica ameaçadora do membro (módulo do pé diabético).
1.IntermediárioHomem, 62 anos, tabagista (40 anos-maço), DM2, dor em panturrilha bilateral ao subir lomba que o obriga a parar e cede em 2 minutos parado; pulso pedioso ausente à direita; ITB 0,65. Conduta inicial:
2.Prova difícilMulher, 58 anos, DM2 há 20 anos, úlcera em bordo lateral do pé há 6 semanas, pulsos pediosos não palpáveis, ITB 1,6. Próximo passo para avaliar a perfusão:
na centralDoença Arterial Periférica: da Claudicação à Isquemia Crítica →
definição e epidemiologia · rastreamento com ultrassom · vigilância por diâmetro · rotura e tríade · EVAR × cirurgia aberta · complicações
Aneurisma de aorta abdominal (AAA) é a dilatação focal ≥ 50% do diâmetro esperado — na prática, aorta abdominal ≥ 3,0 cm; a maioria é infrarrenal. É doença do idoso do sexo masculino: homens acometidos várias vezes mais que mulheres, com tabagismo como principal fator de risco modificável (e de expansão e rotura), além de idade, hipertensão, doença aterosclerótica e história familiar (agregação em cerca de 15% dos casos). A ruptura é a complicação que define a doença: risco que cresce exponencialmente com o diâmetro.
| Diâmetro do AAA | Risco anual de rotura (estimativas clássicas) | Conduta |
|---|---|---|
| < 3,0 cm | — | sem AAA; sem novo rastreio de rotina |
| 3,0–4,4 cm | baixo (< 1%) | US a cada 12 meses + controle de fatores e cessar tabagismo |
| 4,5–5,4 cm | intermediário — sobe com o diâmetro (clássico: ~0,5–5%/ano em 4,0–4,9 e ~3–15% em 5,0–5,9) | US a cada 6 meses; avaliar correção na mulher de bom risco cirúrgico |
| ≥ 5,5 cm | ~10–20% ou mais | correção eletiva |
| Expansão ≥ 1 cm/ano ou sintomático | elevado | corrigir, qualquer diâmetro |
Ultrassom uma única vez em homens de 65 a 75 anos que fumaram em algum momento da vida (recomendação consolidada de diretrizes e serviços de saúde); considerar mais precocemente (a partir dos 55) o fumante com história familiar. Mulheres não têm rastreio de rotina — prevalência menor — exceto se fumantes com história familiar ou fatores de risco. O US é sensível, barato e sem radiação: é o exame de rastreio e de vigilância.
| EVAR (endoprótese) | Cirurgia aberta | |
|---|---|---|
| Mortalidade perioperatória | menor nos primeiros 30 dias (séries e ensaios: em torno de 1–2% × 3–5%) | maior no perioperatório, durabilidade consagrada |
| Requisitos | anatomia favorável (colo proximal e acessos ilíacos adequados) | qualquer anatomia; melhor no jovem com longa expectativa |
| Vigilância | vitalícia (US/TC): endoleak, migração, crescimento | menos intensa após o pós-operatório |
| Complicações típicas | endoleak (tipo II o mais comum), ruptura tardia rara | morbidade de laparotomia, sangramento, lesão de estruturas |
A mortalidade hospitalar da rotura tratada permanece elevada (em torno de 30–50% dos que chegam vivos ao hospital), contra mortalidade eletiva de poucos por cento — toda a lógica do rastreio é operar antes de sangrar. Na EVAR, a vigilância com imagem é obrigatória e vitalícia. No seguimento de qualquer AAA, cessação do tabagismo e controle pressórico reduzem a expansão.
1.FundamentalHomem, 68 anos, ex-tabagista, hipertenso, assintomático; US de abdome incidental mostra AAA infrarrenal de 4,2 cm. Conduta:
2.AvançadoHomem, 72 anos, tabagista, chega com dor lombar súbita em rasgo, PA 76/46, abdome com massa pulsátil. Hospital com equipe vascular e estoque de hemocomponentes. Conduta:
embolia × trombose · os 6 P · Rutherford I–III · heparina e janela · embolectomia de Fogarty × trombólise · fasciotomia · síndrome de reperfusão
Isquemia aguda de membro é a queda súbita da perfusão com ameaça à viabilidade — emergência de horas. Duas origens dominam: embolia (a fibrilação atrial é a causa mais frequente; também infarto do miocárdio com mural trombo, valvopatias, endocardite) e trombose local (sobre placa aterosclerótica, em enxerto ou endoprótese). O embolo obstrui artéria normal, sem colaterais: quadro dramático; a trombose ocorre em vaso já doente, com circulação colateral: quadro menos exuberante, mas paciente com história prévia de claudicação ou cirurgia.
| Embolia | Trombose | |
|---|---|---|
| Território | artéria previamente normal | placa/enxerto pré-existentes |
| História | FA, IAM recente, valvopatia | claudicação prévia, procedimento vascular |
| Início | súbito, dramático, sem claudicação prévia | mais gradual, sintomas preexistentes |
| Colaterais | ausentes — pior tolerância | presentes — piora de quadro crônico |
| Tratamento típico | embolectomia com cateter de Fogarty | endovascular/trombólise ou bypass |
Dor (primeiro e mais constante), palidez, ausência de pulso, parestesia, paralisia e poiquilotermia (membro frio). A sensibilidade e a força definem a urgência: déficit sensitivo-motor significa músculo e nervo em sofrimento — o relógio da amputação passou a correr.
| Categoria | Achados | Viabilidade e conduta |
|---|---|---|
| I | isquemia funcional, dor leve, sem déficit | viável — heparina e revascularização eletiva-urgente |
| IIa | dor em repouso, sensibilidade preservada ou mínima alteração | marginal — revascularização urgente (não imediata) |
| IIb | déficit sensitivo-motor (déficit motor leve/constante) | salvável com revascularização IMEDIATA + fasciotomia a considerar |
| III | paralisia completa, anestesia profunda, rigidez, cianose fixa | irreversível — amputação primária; revascularizar agrava |
| Cenário | Diagnóstico |
|---|---|
| Dedo/hálux cianótico e doloroso, pulsos PRESENTES, livedo | Microembolia (ateroma aórtico/síndrome do dedo azul) |
| Dor + palidez + sem pulso em paciente com FA | Embolia arterial aguda |
| Piora súbita da claudicação em paciente com bypass | Trombose de enxerto |
| Membro gigantesco, cianótico e doloroso, phlegmasia | Trombose venosa iliofemoral massiva (cerulea dolens) com hipoperfusão |
Mortalidade hospitalar da isquemia aguda permanece alta (comorbidades cardíacas dominam o desfecho). Complicações: síndrome compartimental, síndrome de reperfusão (hipercalemia, acidose, mioglobinúria), amputação, disfunção renal e morte. Membro com déficit motor pré-operatório tem pior prognóstico funcional — mais um motivo para a categoria IIb não esperar.
1.IntermediárioMulher, 74 anos, FA sem anticoagulação, há 3 h com dor intensa no pé esquerdo, pálido e frio, sem pulsos pedioso e tibial posterior, sensibilidade preservada, sem déficit motor, Doppler contínuo com fluxo audível muito reduzido. Conduta:
2.Prova difícilMesma paciente, 12 h após embolectomia bem-sucedida (pulso pedioso reapareceu), passa a referir dor desproporcional na panturrilha, pior à dorsiflexão passiva dos dedos; perna tensa e edemaciada; pé ainda perfundido. Conduta:
tríade de Virchow · escore de Wells e D-dímero · ultrassom com compressão · DOAC × varfarina (receita) · duração por cenário · filtro de VCI · síndrome pós-trombótica
Trombose venosa profunda (TVP) é a formação de trombo nas veias profundas, mais comum nas panturrilhas (TVP distal) — ao acometer veia poplítea e acima é proximal, com maior risco embólico. A tríade de Virchow organiza os fatores: estase (imobilização, cirurgia, insuficiência cardíaca), lesão endotelial (trauma, cirurgia, cateteres) e hipercoagulabilidade (câncer, gestação/estrogênio, trombofilias, TVP prévia).
| Escore de Wells (soma) | Pontos |
|---|---|
| Câncer ativo (tratamento nos últimos 6 meses ou paliativo) | +1 |
| Paralisia/imobilização de membro inferior recente | +1 |
| Acamado > 3 dias ou cirurgia de grande porte nas últimas 12 semanas | +1 |
| Dolorimento ao longo do trajeto venoso profundo | +1 |
| Tumefação de toda a perna | +1 |
| Panturrilha > 3 cm mais grossa que a contralateral (medida 10 cm abaixo da tuberosidade) | +1 |
| Edema com godet restrito ao membro sintomático | +1 |
| Circulação venosa colateral superficial (não varicosa) | +1 |
| TVP previamente documentada | +1 |
| Diagnóstico alternativo pelo menos tão provável | −2 |
| Total: ≤ 0 baixo · 1–2 moderado · ≥ 3 alto | — |
| Cenário | Duração |
|---|---|
| TVP provocada por fator transitório maior (cirurgia, imobilização) | 3 meses |
| TVP distal sintomática | 3 meses (alternativa: vigilância com US, se baixo risco) |
| TVP proximal NÃO provocada, 1º episódio, baixo risco de sangramento | anticoagulação estendida (reavaliar anualmente) |
| TVP recorrente não provocada ou trombofilia de alto risco | estendida/indefinida |
| Trombose superficial de membro ≥ 5 cm (especialmente perto da safena) | fondaparinux 2,5 mg SC/dia por 45 dias (CALISTO) |
1.FundamentalMulher, 38 anos, 5º dia de pós-operatório de colecistectomia, dor e edema de panturrilha direita, sem hipoxemia; Wells = 2. Próximo passo:
2.AvançadoHomem, 55 anos, TVP femoropoplítea à direita, 1º episódio, não provocada, sem fatores transitórios, tumorais ou trombofilia conhecida; sangramento de baixo risco; completou 3 meses de apixabana sem intercorrências. Conduta:
na centralTrombose Venosa Profunda e Doença Venosa Crônica →
fisiopatologia do refluxo · classificação CEAP · úlcera venosa × arterial × neuropática · duplex mapping · compressão · ablação térmica e escleroterapia
Doença venosa crônica é o espectro de sinais e sintomas causados por HIPERTENSÃO VENOSA: refluxo por incompetência valvular (safena magna e parva, perfurantes) e/ou obstrução (pós-trombótica). A falha das válvulas faz o sangue poolar no segmento superficial; a bomba da panturrilha, que deveria esvaziar a perna ao andar, torna-se ineficaz. A pressão venosa sustentada produz edema, dermatite ocre, lipodermatoesclerose e, por fim, úlcera. Primária é a mais comum (degeneração valvular idiopática, hereditariedade, gravidez, ortostatismo prolongado); secundária tipicamente pós-trombótica.
| Classe C | Achado |
|---|---|
| C0 | sem sinais visíveis de doença venosa |
| C1 | telangiectasias ou veias reticulares |
| C2 | varizes tronculares |
| C3 | edema |
| C4a | pigmentação ocre / eczema venoso |
| C4b | lipodermatoesclerose / atrofia branca |
| C5 | úlcera cicatrizada |
| C6 | úlcera ativa |
| Venosa | Arterial | Neuropática (diabético) | |
|---|---|---|---|
| Local típica | supramaleolar medial | distal — dedos, dorso do pé, pontos de pressão | plantar, sob cabeças metatarsais |
| Borda/leito | rasa, bordas irregulares, exsudativa | perfurada em soco, necrótica/seca | calo/hiperqueratose ao redor, base calcanhar |
| Dor | moderada, melhora ao elevar | intensa, piora à noite/elevação, melhora pendurando o pé | Ausente ou mínima (neuropatia) |
| Pulsos/ITB | presentes, ITB normal | ausentes, ITB ≤ 0,90 | podem estar presentes (pé quente) ou ausentes |
| Pele perilesional | ocre, eczema, edema | fina, seca, sem pelos, brilhante | pele seca, fissuras, deformidades |
O duplex venoso (mapa de refluxo) é o exame de escolha: identifica veias incompetentes, o tempo de refluxo (fluxo reverso > 0,5 s em safenas e femoropoplítea, > 0,35 s em perfurantes) e obstrução residual pós-trombótica. Sempre confirmar perfusão arterial (pulsos/ITB) antes de indicar compressão.
Úlcera venosa é crônica e recidivante: cicatriza em meses com compressão adequada, mas volta enquanto o refluxo persistir — a ablação reduz recorrência. Tromboflebite pode se estender ao sistema profundo; sangramento de variz é emergência compressiva local (elevação + compressão, não garrote). A doença venosa crônica pós-trombótica conecta este módulo ao de TVP.
1.IntermediárioMulher, 66 anos, úlcera de 3 cm supramaleolar medial na perna direita há 4 meses, exsudativa, com hiperpigmentação e edema; pulsos presentes, ITB 1,0; duplex: refluxo da safena magna. Conduta:
2.FundamentalHomem, 48 anos, peso e ardência nas pernas ao fim do dia que melhoram ao deitar com as pernas elevadas; varizes no trajeto da safena magna à direita; duplex com refluxo de 1,2 s na safena magna, sem obstrução. Tratamento de primeira linha do refluxo troncular:
na centralTrombose Venosa Profunda e Doença Venosa Crônica →
neuropatia + DAP + infecção · Wagner e IWGDF · avaliação da perfusão (hálux/WIfI) · descarga e desbridamento · osteomielite · CLTI e a decisão de revascularizar
Pé diabético é a úlcera/lesão do pé do diabético resultante da combinação de NEUROPATIA, DOENÇA ARTERIAL PERIFÉRICA e INFEÇÃO em graus variáveis. O risco de úlcera ao longo da vida varia de 19 a 34%, e a maior parte das amputações de membro inferior (até cerca de 85%) é precedida por uma úlcera — por isso a estratificação anual do pé (monofilamento + pulsos + deformidades) é intervenção de maior impacto.
| Neuropática | Neuroisquêmica | |
|---|---|---|
| Local | plantar, sob cabeças metatarsais/calcanhar | bordos do pé, dedos, pontos de pressão |
| Dor | indolor ou mínima (monofilamento alterado) | podem doer, embora a neuropatia atenue |
| Pé | quente, pele seca, pulsos presentes | frio, sem pelos, pulsos ausentes ou muito reduzidos |
| Perfusão | normal | reduzida — pressão do hálux baixa |
| Prioridade terapêutica | descarga (offloading) + desbridamento | revascularização antes de esperar cicatrizar |
| Wagner | Definição |
|---|---|
| 0 | pele íntegra com risco (deformidade, calo, neuropatia) |
| 1 | úlcera superficial, sem tendão/cápsula/osso |
| 2 | úlcera profunda até tendão/cápsula, sem abscesso/osteomielite |
| 3 | úlcera profunda com abscesso/osteomielite |
| 4 | gangrena limitada (digitos/porção do pé) |
| 5 | gangrena extensa do pé |
Infecção (IWGDF/IDSA): grau 1 — local, apenas eritema < 2 cm ao redor da úlcera; grau 2 — moderada (acometimento mais profundo ou eritema > 2 cm); grau 3 — grave, com sinais sistêmicos/SIRS. Toda classificação de gravidade de infecção pressupõe avaliar e tratar a perfusão em paralelo.
Do úlcera à amputação: infecção não tratada, osteomielite e isquemia não revascularizada são os determinantes de perda do membro; após uma amputação menor, o risco de nova lesão e de amputação maior (e no pé contralateral) é alto. A sobrevida após amputação maior no diabético é reduzida — a estratégia é sempre prevenção (estratificação anual, calçado adequado, controle glicêmico) e salvamento de membro em equipe.
1.IntermediárioHomem, 60 anos, DM2 há 15 anos, úlcera de 2 cm sob a cabeça do 2º metatarso há 6 semanas, indolor; pé quente e com pulsos presentes; monofilamento de Semmes-Weinstein alterado em ambos os pés; sem sinais de infecção. Conduta prioritária:
2.Prova difícilHomem, 63 anos, DM2, úlcera digital com necrose seca estável do 1º artelho, sem exsudato nem sinais sistêmicos; pressão do hálux 25 mmHg; angio-TC com oclusão tibial. Conduta:
hierarquia FAV > prótese > cateter · Brescia-Cimino e sítios · maturação e regra dos 6 · monitoramento de fluxo · síndrome do roubo · complicações
O acesso vascular é a “linha de vida” do paciente em hemodiálise — e a ordem de preferência do KDOQI é FÍSTULA ARTERIOVENOSA (FAV) > PRÓTESE (enxerto) > CATETER túnelado. A FAV autóloga tem mais durabilidade e muito menos infecção; o cateter é a última escolha: mais bacteremia, estenose venosa central e mortalidade. O planejamento é precoce na DRC avançada: mapear veias (proteger de punções e cateteres o braço candidato), referir ao cirurgião vascular e criar a FAV com antecedência suficiente para maturar antes do início previsto da diálise.
| Acesso | Prós | Contras |
|---|---|---|
| FAV rádio-cefálica (punho — Brescia-Cimino) | a 1ª escolha: mais distal, preserva sítios proximais, melhor duração, menos infecção | taxa de falha de maturação maior; exige veia e artéria adequadas |
| FAV braquiocefálica (cotovelo) | matura mais facilmente, fluxo alto | mais risco de síndrome do roubo (sobretudo diabético/idoso) |
| Prótese (enxerto de PTFE) | pode ser usada mais cedo (≈ 2 semanas), quando não há veia | menor durabilidade, trombose e infecção mais comuns |
| Cateter túnelado | uso imediato, sem punção de agulha | bacteremia, estenose venosa central, maior mortalidade — último recurso |
Todo acesso é monitorado por exame físico em cada diálise e por medidas de fluxo (medidos na máquina): FAV com fluxo < 500 mL/min ou prótese < 600 mL/min, queda progressiva do fluxo, recirculação aumentada ou pressão venosa dinâmica elevada pedem investigação de estenose (duplex/ fistulografia) ANTES da trombose — a intervenção sobre a estenose salva o acesso. Punção em escada (rotacionar os pontos) evita aneurismas por punção repetida em área única; nunca puncionar FAV antes de 2 semanas da confecção (idealmente ≥ 6).
| Complicação | Reconhecer | Conduta |
|---|---|---|
| Falha de maturação / estenose | FAV que não engrossa, frêmito fraco, fluxo < 600 | duplex/fistulografia + angioplastia da estenose |
| Trombose | ausência de frêmito/pulso — mais comum na prótese | trombectomia/trombólise + tratar a causa (estenose) |
| Síndrome do roubo (isquemia distal) | dor, dormência e palidez da mão durante/pós-diálise; piora com o uso; úlceras digitais; risco maior no diabético e na braquiocefálica | avaliação vascular: graves → revisão do acesso (DRIL, banding, ligadura) |
| Aneurisma / pseudoaneurisma | dilatação no trajeto por punção repetida em área única | punção em escada; avaliar cirurgicamente se risco de rotura/sobre infecção |
| Infecção | rara na FAV autóloga; eritema/coleção na prótese | antibióticos cobrindo estafilococos; exérese do enxerto infectado |
| Insuficiência cardíaca de alto débito | FAV com fluxo muito alto (na casa de 1,5–2 L/min ou mais) e IC | avaliar redução/ligadura do acesso |
| Hipertensão venosa do braço | edema, cianose, circulação colateral (sobretudo pós-cateter central) | investigar estenose venosa central (fistulografia/venografia) + angioplastia |
A FAV autóloga madura é o acesso com melhor sobrevida e menor morbidade — e sua criação planejada (antes do início da diálise, em veia não lesada por cateteres) é o que determina o sucesso. Falha precoce da rádio-cefálica ocorre sobretudo por estenose juxta-anastomótica em pacientes com artérias calcificadas (diabéticos, idosos); a revisão endovascular precoce recupera boa parte dos acessos.
1.FundamentalHomem, 58 anos, DRC estágio 5 por nefropatia diabética, elegível a transplante futuro, previsão de iniciar hemodiálise em 3–4 meses; veias e artérias do punho adequadas ao exame. Primeiro acesso de escolha:
2.AvançadoMulher, 66 anos, diabética, com FAV braquiocefálica há 4 meses, refere dor e formigamento na mão durante as sessões de diálise, com palidez dos dedos ao final; frêmito presente e fluxo de 900 mL/min. Diagnóstico e conduta:
primário × secundário · fases ISL 0–III · sinal de Stemmer · linfocintilografia · terapia descongestiva completa · erisipela de repetição · lipoedema
Linfedema é o edema por falência do sistema linfático — acúmulo de líquido RICO EM PROTEÍNAS no interstício, com tempo evoluindo para fibrose e hipertrofia da pele. Primário: alteração congênita/idiopática do desenvolvimento linfático (linfedema congênito; praecox, o mais comum, antes dos 35 anos, com predomínio feminino; tarda). Secundário: obstrução linfática adquirida — no mundo, a filariose é a causa mais frequente; nos serviços oncológicos, a cirurgia com esvaziamento ganglionar e a radioterapia (mama, ginecológicos, melanoma), além de obesidade e erisipelas de repetição.
| Fase | Achado |
|---|---|
| 0 (latente) | sem edema aparente; transporte linfático já comprometido |
| I | edema depressível que reduz com elevação — proteico, precoce |
| II | II precoce ainda depressível; II tardio não depressível, com fibrose e endurecimento |
| III (elefantíase) | pele espessada, hiperqueratose, papilomatose, deformidade volumétrica do membro |
O exame marca a matéria: edema que costuma ser unilateral (membro ou braço), indolor, de progressão lenta, com sinal de Stemmer positivo, pele espessada e, nas fases avançadas, hiperqueratose e papilomatose. Infecções recorrentes (erisipela/celulite) são ao mesmo tempo causa agravante e complicação: cada episódio lesa mais os linfáticos.
Linfedema não tem cura médica/farmacológica — tem controle: a TCDI reduz volume e previne progressão para elefantíase. Complicações: erisipela/celulite recorrente (piora em espiral a função linfática), limitação funcional, e raramente linfangiossarcoma (Stewart-Treves) sobre linfedema crônico grave de longa data, sobretudo pós-mastectomia irradiada — qualquer lesão nodular ou violácea em membro linfedematoso merece investigação.
1.IntermediárioMulher, 58 anos, 2 anos de mastectomia radical esquerda com esvaziamento axilar e radioterapia; edema progressivo do braço esquerdo, não depressível, com pele espessada e sinal de Stemmer positivo no 2º dedo da mão. Conduta de primeira linha:
2.FundamentalMulher, 35 anos, obesa, “inchaço das pernas” há 5 anos, bilateral e simétrico dos quadris aos tornozelos, POUPANDO os pés, doloroso à palpação e com equimoses fáceis; sinal de Stemmer negativo. Diagnóstico mais provável:
Para a véspera: o essencial, os números, os macetes e as pegadinhas que decidem a prova
| Módulo | A essência | Maior incidência |
|---|---|---|
| 01 DAP e claudicação | Aterosclerose dos MMII com risco cardiovascular sistêmico: ITB ≤ 0,90 fecha, > 1,40 engana (calcificação do diabético). | ITB e TBI; Fontaine/Rutherford; claudicação × pseudoclaudicação |
| 02 AAA | Homem idoso tabagista: rastrear com US; corrigir em ≥ 5,5 cm, sintomático ou expansão ≥ 1 cm/ano; rotura não espera exame. | Diâmetros de vigilância e correção; tríade da rotura; EVAR × aberta |
| 03 Isquemia aguda | Súbita e embólica (FA): heparina de entrada + categoria de Rutherford manda — IIb é revascularização imediata, III é amputação. | 6 P; Rutherford I–III; heparina antes da imagem; fasciotomia |
| 04 TVP | Wells → D-dímero/US; DOAC de primeira linha; provocada 3 meses, não provocada estendida; meias não previnem SPT. | Wells; esquemas DOAC; duração; filtro só se contraindicação |
| 05 Doença venosa crônica | Hipertensão venosa por refluxo: CEAP organiza; úlcera supramaleolar medial melhora com compressão (se ITB ok) e ablação do refluxo. | CEAP; diferenciais de úlcera de perna; ablação térmica 1ª linha |
| 06 Pé diabético | Neuropatia + DAP + infecção: úlcera neuropática é indolor com pulsos; isquêmica pede hálux e revascularização (CLTI/WIfI). | Wagner; IWGDF; pressão do hálux; offloading; osteomielite |
| 07 FAV | Hierarquia FAV > prótese > cateter; rádio-cefálica distal de eleição; regra dos 6 e fluxo < 500–600 investiga; roubo isquemia a mão. | Regra dos 6; fluxos de alerta; síndrome do roubo |
| 08 Linfedema | Edema proteico por falência linfática: Stemmer positivo, fases ISL; TCDI é o tratamento; diurético não tem papel. | Stemmer; fases 0–III; TCDI; lipoedema poupa os pés |
| Tema | Número |
|---|---|
| ITB | ≤ 0,90 = DAP · 0,91–1,40 normal · > 1,40 não compressível (usar hálux) |
| Hálux | TBI < 0,70 anormal · pressão ≤ 30 mmHg = isquemia grave (WIfI 3) |
| Fontaine/Rutherford | III/4 = dor de repouso · IV/5–6 = perda tecidual |
| AAA — conduta | ≥ 3,0 cm define · 3,0–4,4 US anual · 4,5–5,4 US 6/6 meses · ≥ 5,5 corrigir (mulher: considerar 5,0) · expansão ≥ 1 cm/ano corrigir |
| Rastreio AAA | US 1× em homens 65–75 que fumaram |
| Isquemia aguda — heparina | bolus ≈ 5.000 UI (70–100 UI/kg) → 15–20 UI/kg/h |
| Rutherford agudo | IIa urgente · IIb imediata + sem trombólise · III amputação primária |
| Wells TVP | ≤ 0 baixo · 1–2 moderado · ≥ 3 alto · diagnóstico alternativo −2 |
| DOAC na TVP | apixabana 10 mg 12/12 h × 7 d → 5 mg 12/12 h · rivaroxabana 15 mg 12/12 h × 21 d → 20 mg/d |
| Duração TVP | provocada 3 meses · não provocada proximal estendida · câncer/gestação HBPM |
| Tromboflebite | fondaparinux 2,5 mg SC/dia × 45 dias (≥ 5 cm ou a 3 cm da junção) |
| Refluxo venoso (duplex) | > 0,5 s safena/femoropoplítea · > 0,35 s perfurantes |
| Compressão × ITB | ≥ 0,9 plena 30–40 mmHg · 0,5–0,8 modificada · < 0,5 contraindicada |
| Pé diabético | risco de úlcera 19–34% na vida · ~85% das amputações precedidas por úlcera · osteomielite 6 semanas |
| FAV | maturação 6–8 semanas · regra dos 6 (6 mm, 6 mm, 600 mL/min) · fluxo < 500 (FAV) / < 600 (prótese) investiga |
| Linfedema | fases ISL 0–III · meias 30–40 mmHg · penicilina benzatina 1,2 milhão UI IM a cada 2–4 semanas se erisipela recorrente |
| Macete | Regra |
|---|---|
| A dor que conta a história | para de andar e alivia PARADO EM PÉ = arterial; alivia SENTANDO/flexionando = lombar; piora no fim do dia e melhora ELEVANDO = venosa. |
| Os 6 P da isquemia aguda | dor, palidez, ausência de pulso, parestesia, paralisia, poiquilotermia — o déficit motor é o divisor IIa/IIb. |
| 5,5 do AAA | ≥ 5,5 cm corrige; sintoma ou crescimento ≥ 1 cm/ano corrigem em qualquer diâmetro. |
| Regra dos 6 da FAV | 6 mm de diâmetro, 6 mm de profundidade, 600 mL/min de fluxo, em ~6 semanas — FAV madura. |
| Wells com sinal negativo | só uma pontuação é negativa: diagnóstico alternativo tão provável (−2) — a banca cobra o escore todo. |
| Distal primeiro no acesso | rádio-cefálica no punho do braço não dominante: preserva os sítios proximais e tem menos infecção. |
| Diabético com ITB alto | calcificação medial: ITB falseia para cima — a resposta é pressão do hálux, nunca descartar isquemia. |
| Se a questão diz… | Pense em… |
|---|---|
| Dor em panturrilha ao degrau que cede parado em pé + ITB 0,6 | Doença arterial periférica — claudicação intermitente |
| Diabético com úlcera e ITB 1,6 | Calcificação medial — pressão do hálux/TBI |
| Dor lombar súbita + hipotensão + massa pulsátil | AAA roto — sala de operação imediata |
| FA + pé branco e frio com déficit motor leve | Embolia arterial — Rutherford IIb, heparina + embolectomia |
| Pós-embolectomia com dor à dorsiflexão passiva | Síndrome compartimental — fasciotomia |
| Acamado com panturrilha edemaciada e Wells 1 | TVP — D-dímero primeiro (US se positivo) |
| Úlcera supramaleolar medial exsudativa com dermatite ocre | Úlcera venosa — compressão + ablação do refluxo |
| Úlcera plantar indolor sob metatarso com pé quente | Úlcera neuropática — gesso de contato total |
| Mão pálida e dolorosa durante a hemodiálise | Síndrome do roubo da FAV |
| Braço edemaciado pós-mastectomia com Stemmer positivo | Linfedema secundário — TCDI |
| Pernas simétricas dolorosas poupando os pés | Lipoedema |
1.IntermediárioHomem, 60 anos, DAP com claudicação de 300 m (Rutherford 2), ITB 0,70, tabagista. Qual medida isolada mais reduz mortalidade e eventos cardiovasculares neste paciente?
2.IntermediárioHomem, 70 anos, ex-tabagista, AAA infrarrenal de 4,8 cm, assintomático. Conduta de vigilância:
3.Prova difícilMulher, 69 anos, FA sem anticoagulante, há 4 h com dor intensa, pé esquerdo pálido e frio, parestesias no hálux e redução da força de flexão dos dedos; sem pulsos distais. Categoria de Rutherford e conduta:
4.IntermediárioHomem, 54 anos, câncer de pâncreas em quimioterapia, edema e dor de panturrilha direita; Wells = 4. Próximo passo diagnóstico:
5.Prova difícilMulher, 72 anos, úlcera supramaleolar medial exsudativa há 5 meses com edema e dermatite ocre; ITB 0,65. Sobre a compressão terapêutica:
6.FundamentalHomem, 58 anos, DM2, úlcera plantar sob a cabeça do 1º metatarso, indolor, pé quente, pulsos presentes, monofilamento alterado, sem sinais de infecção. Pilar do tratamento:
7.AvançadoPaciente em hemodiálise há 2 anos por FAV rádio-cefálica; fluxo medido na máquina caiu de 850 para 420 mL/min em 3 meses, com recirculação aumentada; frêmito ainda presente. Conduta:
8.IntermediárioMulher, 62 anos, linfedema de perna direita (fase II) com 4 episódios de erisipela no mesmo membro no último ano e intertrigo interdigital macerado. Além da terapia desconjestiva, a conduta que muda a história natural:
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