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Revisão completa dos tumores urológicos: classificação histológica e TNM, epidemiologia e fatores de risco, vias moleculares (VHL, FGFR3, TP53), apresentação clínica e síndromes paraneoplásicas, diagnóstico com critérios de Boskiak e estratificação de risco NMIBC, e tratamento com doses de quimioterapia, BCG, cistectomia, inibidores de tirosinoquinase e imunoterapia.
[1] Ljungberg B, Albiges L, Abu-Ghanem Y, et al. European Association of Urology Guidelines on Renal Cell Carcinoma: The 2022 Update. Eur Urol. 2022;82(4):399-410 · DOI 10.1016/j.eururo.2022.03.006 | [2] Babjuk M, Burger M, Capoun O, et al. European Association of Urology Guidelines on Non-muscle-invasive Bladder Cancer (Ta, T1, and Carcinoma in Situ). Eur Urol. 2022;81(1):75-94 · DOI 10.1016/j.eururo.2021.09.006 | [3] Chang SS, Boorjian SA, Chou R, et al. Diagnosis and Treatment of Non-Metastatic Muscle-Invasive Bladder Cancer: AUA/SUO Guideline. J Urol. 2017;198(3):552-559 · DOI 10.1016/j.juro.2017.04.087 · PMID 28601803 | [4] Choueiri TK, Tomczak P, Park SH, et al. Adjuvant Pembrolizumab versus Placebo for Renal Cell Carcinoma (KEYNOTE-564). N Engl J Med. 2021;385(8):683-694 · DOI 10.1056/NEJMoa2102127 | [5] Powles T, Valderrama BP, Gupta S, et al. Enfortumab Vedotin and Pembrolizumab in Untreated Advanced Urothelial Cancer (EV-302). N Engl J Med. 2024;390(10):875-888 · DOI 10.1056/NEJMoa2312117 | [6] Motzer RJ, Tannir NM, McDermott DF, et al. Nivolumab plus Ipilimumab versus Sunitinib in Advanced Renal-Cell Carcinoma (CheckMate 214). N Engl J Med. 2018;378(14):1277-1290 · DOI 10.1056/NEJMoa1712126 | [7] INCA. Estimativas de incidência de câncer no Brasil · https://www.inca.gov.br/numeros-de-cancer · DOI 10.1016/j.eururo.2022.03.006
O carcinoma renal de células claras e o carcinoma urotelial da bexiga são os dois grandes tumores urológicos sólidos cobrados em prova, e cada um ilustra uma era da oncologia: o câncer renal foi o tumor que revelou a biologia antiangiogênica (VHL, HIF, VEGF) e depois o poder da imunoterapia com checkpoint inhibitors, enquanto o câncer de bexiga é o exemplo clássico de tumor ligado a carcinógenos ambientais (tabaco e aminas aromáticas) e de doença em que o estadiamento endoscópico define tudo. Globalmente, o câncer de rim responde por cerca de 3% das neoplasias adultas, com aproximadamente 430 mil novos casos por ano, e o de bexiga soma cerca de 570 mil novos casos anuais, com predomínio masculino de 3:1. No Brasil, as estimativas do INCA apontam algo em torno de 7 mil novos casos anuais para cada um deles. O ponto que muda provas e condutas: a maioria dos tumores renais hoje é achado incidental em exames de imagem, enquanto a bexiga continua a se anunciar com hematúria macroscópica indolor, sintoma que jamais pode ser atribuído a infecção urinária sem investigação.
No rim, o carcinoma de células renais (CCR) representa cerca de 90% das neoplasias renais malignas, sendo 70-80% de fenótipo células claras, 10-15% papilífero (tipos 1 e 2) e 4-5% cromófobo; oncocitoma e angiomiolipoma são as contrapartes benignas que aparecem como diferencial de massa renal. Na bexiga, o carcinoma urotelial (transicional) responde por mais de 90% dos casos, seguido do carcinoma escamoso (fortemente associado à esquistossomose e à cateterização crônica) e do adenocarcinoma. A divisão mais importante da oncologia vesical é funcional: tumor não músculo-invasivo (NMIBC), que engloba Ta (confinado ao epitélio), T1 (invasão da lâmina própria) e o carcinoma in situ (CIS, lesão plana de alto grau), versus tumor músculo-invasivo (MIBC), a partir de T2 (invasão da muscular própria da parede). No rim, T1a é tumor de até 4 cm, T1b entre 4 e 7 cm, T2 acima de 7 cm confinado ao rim, T3 com invasão de veia renal ou gordura perirrenal e T4 com invasão além da fáscia de Gerota ou de órgãos adjacentes, incluindo o trombo tumoral de veia cava como cenário marcante.
| Tumor | Fatores de risco | Ponto de prova |
|---|---|---|
| CCR esporádico | Tabagismo (risco relativo 1,5-2), obesidade, hipertensão arterial, doença renal crônica, terapia de reposição hormonal prévia | A tríade clássica (hematúria, dor lombar e massa) está presente em menos de 10% dos casos atuais |
| CCR hereditário | Von Hippel-Lindau (gene VHL em 3p25, tumores múltiplos e bilaterais), Birt-Hogg-Dubé (FLCN), leiomiomatose hereditária (FH) | VHL é a síndrome canônica: rastreio precoce com imagem abdominal |
| Bexiga urotelial | Tabagismo (2 a 4 vezes o risco; causa meta de 30-50% dos casos em homens), aminas aromáticas (benzidina e 2-naftilamina em indústrias de tintas, borracha, couro e corantes), ciclofosfamida, radioterapia pélvica | Acetiladores lentos (NAT2) e nulidade de GSTM1 aumentam a susceptibilidade individual |
| Bexiga escamoso | Esquistossomose por Schistosoma haematobium (ovos na parede vesical), cateter vesical crônico, cistite crônica | Endemias de esquistossomose aumentam a proporção de escamosos |
| Trato urotelial superior | Síndrome de Lynch (mismatch repair), analgésicos com fenacetina, ácido aristolóquico | Tumor do urotélio superior exige avaliação de todo o trato urinário |
Entre 50 e 70% dos CCR são hoje achados incidentais em ultrassonografia ou tomografia solicitadas por outros motivos. Quando sintomático, o quadro clássico é hematúria com dor lombar e massa palpável, presente em menos de 10% dos pacientes; varicocele esquerda de início recente e que não se esvazia em decúbito sugere trombo tumoral obstruindo a veia renal esquerda. As síndromes paraneoplásicas são tema recorrente de prova: febre, anemia e perda de peso em 20-30% dos casos; eritrocitose por produção ectópica de eritropoietina em 2-5%; hipercalcemia por PTHrP e por osteólise; hipertensão por renina; amiloidose AA; e a síndrome de Stauffer, disfunção hepática bioquímica com colestase e hipoprotrombinemia na ausência de metástases hepáticas, presente em 3-20% e que regride após nefrectomia.
A hematúria macroscópica indolor, intermitente e total está presente em 80 a 90% dos casos no diagnóstico; por desaparecer espontaneamente, costuma ser erroneamente atribuída a infecção urinária ou hiperplasia prostática, atrasando o diagnóstico em meses, e esse é o erro mais cobrado. Sintomas irritativos (polaciúria, urgência e noctúria) sem infecção ocorrem em 20-30%, sendo típicos do carcinoma in situ; dor pélvica, massa palpável e hidronefrose por tumor de colo ou de meato ureteral marcam doença avançada. Toda hematúria macroscópica em adulto acima de 40 anos, sobretudo tabagista ou com exposição ocupacional, exige cistoscopia e urografia por tomografia, mesmo que a hematúria tenha cessado.
| Exame | Papel no diagnóstico | Números e critérios |
|---|---|---|
| Cistoscopia | Padrão para detecção e localização de tumores vesicais | Combina com biópsia e ressecção; detecta lesões papilares e CIS (com auxílio de fotodinâmica) |
| Citologia urinária | Detecção de alto grau e carcinoma in situ | Especificidade superior a 90%; sensibilidade baixa para tumores de baixo grau (20-30%) |
| Tomografia de urografia | Estadiamento e avaliação do trato urinário superior | Fase excretora avalia todo o urotélio; obrigatória na hematúria micro ou macroscópica |
| RTU de bexiga (TURBT) | Diagnóstico, estadiamento e tratamento do NMIBC | Presença de músculo na amostra é obrigatória; ressecção incompleta subestadia T1 |
| Tomografia com contraste (rim) | Caracterização de massa renal | Realce maior que 20 unidades Hounsfield após contraste sugere neoplasia vascularizada |
| Biópsia de massa renal | Cenários selecionados | Suspeita de linfoma, metástase ou sarcoma, ou antes de terapia sistêmica; não é rotina antes de cirurgia |
| Ressonância com contraste | Alternativa à TC e ao estudo de trombo de veia cava | Útil em alérgicos a iodo e na caracterização de trombo tumoral (níveis I a IV) |
Para massas císticas renais, a classificação de Bosniak traduz o risco de malignidade e a conduta em uma só escala, e é cobrada com frequência: categoria I é cisto simples com risco virtualmente nulo; II apresenta poucos septos finos com calcificações e risco aproximado de 5%; IIF tem septos mais complexos e risco de 10 a 25%, com seguimento por imagem; III mostra septos espessos ou porções nodulares com risco de 50 a 75%, indicando cirurgia; e IV é a massa cística com componente sólido vascularizado, com risco em torno de 85 a 95%, também cirúrgica. O limiar entre observar e operar cai exatamente entre IIF e III.
| Esquema | Doses típicas | Base de evidência |
|---|---|---|
| Nivolumabe + ipilimumabe | Nivolumabe 3 mg/kg + ipilimumabe 1 mg/kg IV a cada 3 semanas por 4 ciclos, seguidos de nivolumabe 3 mg/kg a cada 2 semanas | CheckMate 214, primeira linha em risco IMDC intermediário e desfavorável |
| Pembrolizumab + axitinibe | Pembrolizumab 200 mg IV a cada 3 semanas + axitinibe 5 mg VO 12/12 h com titulação | KEYNOTE-426 |
| Pembrolizumab + lenvatinibe | Pembrolizumab 200 mg a cada 3 semanas + lenvatinibe 20 mg VO ao dia | Estudo CLEAR |
| Cabozantinibe + nivolumabe | Nivolumabe 240 mg IV a cada 2 semanas + cabozantinibe 60 mg VO ao dia | CheckMate 9ER |
| TKI em monoterapia | Pazopanibe 800 mg VO em jejum ao dia; sunitinibe 50 mg ao dia por 4 semanas com 2 de intervalo; cabozantinibe 60 mg ao dia | Opções em pacientes selecionados, inclusive em boa discriminação de risco e após falha de imunoterapia |
O carcinoma renal é classicamente resistente à quimioterapia citotóxica e à radioterapia convencional, o que torna a combinação de imunoterapia com inibidores de tirosinoquinase antiangiogênica o alicerce do tratamento sistêmico. As combinações listadas elevaram a sobrevida global mediana na doença metastática para mais de 3 anos em vários estudos, e a sequência terapêutica após progressão inclui cabozantinibe, lenvatinibe mais everolimo e nivolumabe isolado. A estratificação de risco IMDC (intervalo diagnóstico-terapia, hemoglobina, cálcio, neutrófilos, plaquetas e Karnofsky) orienta a escolha entre dupla imune e combinações com TKI.
| Risco | Definição típica | Tratamento após TURBT completa |
|---|---|---|
| Baixo | Ta único, baixo grau, menor que 3 cm | Instilação única de quimioterapia intravesical em até 24 horas (gemicitabina 2 g ou mitomicina C 40 mg) |
| Intermediário | Ta recidivado ou múltiplo, maior que 3 cm, ou T1 de baixo grau | Instilação única pós-operatória seguida de indução intravesical com BCG ou quimioterapia, com manutenção por até 1 ano |
| Alto | T1 de alto grau, carcinoma in situ, T1 múltiplo ou volumoso, variante histológica agressiva | Revisão da TURBT em 2 a 6 semanas, BCG com indução (6 aplicações semanais) e manutenção por 1 a 3 anos; cistectomia precoce em falha do BCG ou em alto risco extremo |
A instilação única pós-operatória reduz recidivas em torno de 35% e é contraindicada quando há perfuração ou ressecção extensa. O BCG intravesical (um frasco reconstituído em 50 mL de soro fisiológico, retenção de 1 a 2 horas, 6 aplicações semanais de indução seguidas de manutenção em ciclos trimestrais por até 3 anos, esquema derivado do SWOG) é o único tratamento que reduz não só a recidiva como também a progressão do NMIBC de alto risco. Falha do BCG define indicação de cistectomia radical precoce: persistência de tumor de alto grau apesar de tratamento adequado. A mitomicina C 40 mg em 20 a 40 mL é a alternativa quimioterápica intravesical quando o BCG não está disponível ou é contraindicado.
A sobrevida em 5 anos do carcinoma renal é de aproximadamente 93% na doença localizada, 71% na regional e apenas 15% na metastática (dados SEER), o que explica o valor do diagnóstico incidental e da adjuvância. No câncer de bexiga, tumores de baixo risco superam 95% de sobrevida em 5 anos com vigilância endoscópica, enquanto o MIBC tratado com neoadjuvância e cistectomia situa-se entre 50 e 60%, e a doença metastática tratada apenas com quimioterapia historicamente ficava abaixo de 10%, cenário transformado pelo enfortumabe vedotina com pembrolizumab. Complicações que caem em prova: hematúria maciça com retenção de coágulos, tratada com sondagem vesical de trípla via e lavagem contínua; hidronefrose obstrutiva, manejada com cateter duplo J ou nefrostomia; infecção disseminada pelo BCG (BCGíase), tratada com isoniazida e rifampicina por 3 a 6 meses e corticoide nas formas graves; e as complicações da cistectomia radical, que incluem fístulas urinárias e intestinais, infecções e tromboembolismo, com mortalidade operatória inferior a 3% em centros de referência.
1.Homem de 68 anos, tabagista de 45 anos de maço-dia, apresenta um episódio de hematúria macroscópica total indolor, com urocultura negativa e hematúria que cessou espontaneamente. Qual a conduta correta?
2.Após TURBT completa de tumor Ta único, de baixo grau, com 2 cm, em parede lateral da bexiga, qual a conduta adjuvante padrão?
3.Paciente com T1 de alto grau associado a carcinoma in situ vesical. Após a segunda TURBT confirmando o mesmo estádio, qual o tratamento de eleição?
4.Paciente de alto risco permanece com carcinoma in situ de alto grau após BCG adequado (indução mais manutenção). Qual a conduta?
5.Qual a importância da quimioterapia neoadjuvante à base de cisplatina no carcinoma urotelial músculo-invasivo elegível?
6.Massa renal sólida de 3 cm com realce de 45 unidades Hounsfield em paciente com rim contralateral normal e TFG de 80 mL/min. Qual a cirurgia de escolha?
7.Paciente com carcinoma renal de células claras apresenta elevação de transaminases, fosfatase alcalina e tempo de protrombina, sem lesões hepáticas à tomografia. Após a nefrectomia, os exames normalizam. Qual a síndrome descrita?
8.Paciente com carcinoma renal de alto risco (pT3, grau 3) nefrectomizado sem doença residual. Qual a terapia adjuvante estabelecida?
9.Qual achado do estudo EV-302 mudou a primeira linha do carcinoma urotelial metastático?
10.Sobre a citologia urinária no diagnóstico de câncer de bexiga, é correto afirmar:
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