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Revisão completa de hematúria para provas de Urologia: definição, causas glomerulares versus urológicas, avaliação inicial, estratificação de risco da diretriz AUA/SUFU 2020 com critérios numéricos, condutas por causa com doses e manejo da hematuria macroscópica com retenção de coágulos.
[1] Barocas DA, Boorjian SA, Alvarez RD, et al. Microhematuria: AUA/SUFU Guideline. J Urol. 2020;204(4):778-786 · DOI 10.1097/JU.0000000000001297 | [2] American Urological Association. Updates to Microhematuria: AUA/SUFU Guideline. J Urol. 2025 · DOI 10.1097/JU.0000000000004490 | [3] Cohen RA, Brown RS. Microscopic hematuria. N Engl J Med. 2003;348(23):2330-2338 · DOI 10.1056/NEJMcp012694 | [4] INCA. Estimativa 2023: incidência de câncer no Brasil. Instituto Nacional de Câncer, 2023 · inca.gov.br | [5] NICE. Suspected cancer: recognition and referral (NG12). National Institute for Health and Care Excellence, 2015 (atualizada) · nice.org.uk/guidance/ng12 · DOI 10.1097/JU.0000000000001297
Hematúria é o achado urinário que mais gera investigação oncológica na urologia e um dos temas mais frequentes em provas. A microhematúria assintomática afeta de 2 a 31% da população adulta conforme o cenário e esconde neoplasia do trato urinário em cerca de 2 a 5% dos casos; na hematúria macroscópica (grossa) o risco de malignidade sobe para 10 a 28%, sendo o câncer de bexiga a causa mais comum. No Brasil, o INCA estimou 11.370 casos novos de câncer de bexiga por ano no triênio 2023-2025 (7.870 homens e 3.500 mulheres), com predomínio masculino de mais de 2 para 1. A mensagem central para a prova é uma só: hematúria, mesmo microscópica, em paciente com fatores de risco exige investigação estratificada, e hematúria macroscópica indolor em paciente acima de 40 anos tabagista é câncer de bexiga até que se prove o contrário.
Microhematúria é a presença de 3 ou mais eritrócitos por campo de maior aumento no exame microscópico do sedimento urinário, em amostra adequadamente coletada (jato médio, fora da menstruação e sem exercício vigoroso recente); a diretriz AUA/SUFU 2020 aceita uma única amostra confirmada para definir o caso. Hematúria macroscópica (ou grossa) é a urina visivelmente avermelhada, cor de Coca-Cola, rosada ou com coágulos. Importante para a prova: urina vermelha sem eritrócitos ao microscópio não é hematúria, é pseudohematúria, e a conduta é identificar o pigmento ou o fármaco responsável. A classificação clínica útil divide ainda a hematúria em glomerular (de origem renal parenquimatosa, com dismorfismo eritrocitário e proteinúria) e não glomerular ou urológica (trato urinário: bexiga, próstata, ureteres e rins por causa tumoral, litiásica, infecciosa ou traumática), e em sintomática (com disúria, dor, sintomas de armazenamento) e assintomática.
| Causa de urina avermelhada sem eritrócitos | Como reconhecer |
|---|---|
| Mioglobinúria (rabdomiólise) | Dipstick positivo para sangue, microscopia sem eritrócitos; CPK elevada; contexto de trauma, esforço extremo, imobilidade prolongada |
| Hemoglobinúria (hemólise intravascular) | Dipstick positivo, sem eritrócitos; LDH elevada, haptoglobina baixa |
| Alimentos (beterraba, rabanete, ruibarbo) | História alimentar, dipstick negativo |
| Fármacos (rifampicina, fenazopiridina, fenitoína, nitrofurantoína) | História medicamentosa, dipstick negativo |
| Porfirias e uratos (fralda do RN) | Dipstick negativo; testes específicos quando indicados |
A prevalência de microhematúria varia de 2 a 31% dependendo da população estudada, e a maioria dos casos não tem causa neoplásica. O risco de malignidade, porém, multiplica-se com os fatores de risco clássicos: tabagismo (risco 2 a 4 vezes maior, atribuível a cerca de metade dos cânceres de bexiga; contagem de maços-ano é o eixo da estratificação AUA), exposição ocupacional a aminas aromáticas (benzidina e 2-naftilamina nas indústrias de borracha, couro, tintas e corantes), sexo masculino (2 a 4 vezes mais câncer de bexiga), idade acima de 50 a 60 anos, irritação vesical crônica (cateter de demora, cistite crônica, litíase de longa data), tratamento prévio com ciclofosfamida, radioterapia pélvica, esquistossomose por Schistosoma haematobium (carcinoma epidermoide de bexiga), exposição ao ácido aristolóquico (neoplasias uroteliais do trato superior) e história familiar de câncer urotelial. Sérias de referência em hematúria macroscópica detectam câncer do trato urinário em 10 a 28% dos pacientes, o que justifica investigação completa em praticamente todos os casos de hematúria macroscópica não explicada.
A origem glomerular produz hematúria dismórfica: os eritrócitos se deformam ao atravessar a membrana basal glomerular lesionada, aparecendo no sedimento com blebs e irregularidades (acantócitos); a lesão glomerular também libera proteinúria significativa (razão albumina/creatinina elevada ou fita com traços de proteína de 1 a 2 ou mais) e cilindros hemáticos, praticamente patognomônicos de glomerulopatia. A origem urológica decorre de sangramento direto da mucosa ou de tumores vascularizados: o carcinoma urotelial é frágil e friável, sangrando com mínima tração; litos abrasam a mucosa ureteral ou vesical; a hiperplasia prostática benigna tem congestão microvascular que sangra de forma recorrente; infecções e cistites causam hiperemia difusa. A hematúria com coágulos é, na prática, sempre de origem não glomerular (trato urinário) e exige investigação urológica completa, mesmo em pacientes anticoagulados.
| Achado | Hematúria glomerular | Hematúria não glomerular (urológica) |
|---|---|---|
| Aspecto da urina | Marrom, cor de Coca-Cola, sem coágulos | Vermelha viva, com coágulos frequentes |
| Eritrócitos ao microscópio | Dismórficos, acantócitos em 5% ou mais dos eritrócitos | Isomórficos, morfologia preservada |
| Proteinuria | Presente e significativa (razão albumina/creatinina elevada) | Ausente ou proporcional ao sangue |
| Cilindros hemáticos | Presentes (patognomônicos) | Ausentes |
| Causas típicas | Nefropatia por IgA, GN pós-estreptocócica, membrana basal fina, Alport, lúpus, vasculites | Câncer urotelial, litíase, infecção, HPB, trauma, exercício, endometriose urinária |
O primeiro passo é confirmar a hematúria e excluir causas transitórias: repetir a urina tipo I com sedimento em 2 a 4 semanas (ou em até 6 meses, conforme o risco), afastar menstruação, exercício vigoroso nas 48 a 72 horas anteriores, trauma, instrumentação urológica recente e infecção. A fita de imersão (dipstick) tem sensibilidade de cerca de 90% ou mais, mas especificidade limitada (falsos positivos por mioglobina, hemoglobina, povidona e ácido ascórbico em altas doses), por isso todo dipstick positivo exige confirmação microscópica. A avaliação inicial inclui anamnese dirigida a fatores de risco (maços-ano, ocupação, fármacos como ciclofosfamida, anticoagulação, história familiar), exame físico com pressão arterial (hipertensão e edema sugerem doença glomerular ou renal), palpação abdominal e toque retal, exames laboratoriais de função renal (creatinina), razão albumina/creatinina ou proteinúria de 24 horas, hemograma (anemia, plaquetopenia), coagulograma quando indicado e urocultura se piúria ou sintomas. Achados glomerulares (dismorfismo significativo, cilindros hemáticos, proteinúria relevante, insuficiência renal, hipertensão) desviam a investigação para a nefrologia, com dosagem de complemento, sorologias (HBV, HCV, HIV, FAN) e eventual biópsia renal; hematúria glomerular isolada sem proteinúria nem disfunção pode ser acompanhada.
A diretriz AUA/SUFU 2020 substituiu a investigação uniforme de todos os pacientes com microhematúria por uma estratificação em baixo, intermediário e alto risco para neoplasia do trato urinário, baseada em sexo, idade, exposição tabágica em maços-ano e grau de hematúria em eritrócitos por campo. Em 2025, a diretriz foi atualizada, refinando a estratificação e incorporando biomarcadores urinários como opção em situações selecionadas, sem substituir a cistoscopia nos grupos de maior risco. A cistoscopia é o exame de referência para a bexiga (sensibilidade em torno de 90 a 95% para tumores papilares; o carcinoma in situ pode ser sutil à luz branca e exigir biópsia), a uro-TC (tomografia com contraste em fases excretoras) é o melhor exame para o trato superior (sensibilidade acima de 90% para lesões uroteliais significativas, limitada na insuficiência renal e na alergia ao contraste) e a ultrassonografia renal detecta bem massas renais acima de 2 a 3 cm, mas é insensível para tumores uroteliais ureterais e pequenos tumores de pelve. A citologia urinária tem alta especificidade (superior a 95%) para tumores de alto grau e carcinoma in situ, com sensibilidade limitada no baixo grau; é coadjuvante nos casos de risco alto e nas cistoscopias suspeitas.
| Categoria de risco (AUA 2020) | Critérios | Investigação recomendada |
|---|---|---|
| Baixo risco | Mulheres com menos de 50 anos ou homens com menos de 40; menos de 10 maços-ano; 3 a 25 eritrócitos por campo; sem outros fatores de risco | Repetir urina tipo I em até 6 meses (decisão compartilhada) ou cistoscopia opcional; sem imagem imediata |
| Risco intermediário | Mulheres de 50 a 59 ou homens de 40 a 59 anos; 10 a 30 maços-ano; 25 a 75 eritrócitos por campo; ou presença de outros fatores de risco | Cistoscopia e ultrassonografia renal |
| Alto risco | Mulheres com 60 anos ou mais ou homens com 60 anos ou mais; mais de 30 maços-ano; mais de 75 eritrócitos por campo; história de hematúria macroscópica ou outros fatores de risco | Cistoscopia e uro-TC (urografia por tomografia) |
| Hematúria macroscópica (qualquer paciente) | Sangramento visível não explicado, fora de infecção, trauma ou menstruação | Investigação completa: cistoscopia e uro-TC, independentemente da idade |
Tratar a causa identificada é a regra. No câncer de bexiga não musculo-invasivo, a ressecção transuretral (RTU) é diagnóstica e terapêutica; uma instilação única de mitomicina C 40 mg intravesical nas primeiras 24 horas pós-RTU reduz a recorrência em cerca de 35 a 40% em tumores de baixo risco; tumores de risco intermediário a alto recebem BCG intravesical (indução com uma instilação semanal por 6 semanas, tipicamente uma ampola reconstituída em 50 mL de soro fisiológico mantida por 2 horas na bexiga, seguida de manutenção por até 1 a 3 anos), e a falha ao BCG (BCG-unresponsive) indica cistectomia radical. No câncer musculo-invasivo, quimioterapia neoadjuvante à base de cisplatina seguida de cistectomia radical com linfadenectomia pélvica e derivação urinária (conduíte ileal ou neobexiga), ou preservação vesical trimodal (RTU máxima com quimiorradioterapia) em selecionados. Carcinomas de células renais são tratados com nefrectomia parcial (tumores até 7 cm, sempre que tecnicamente possível) ou radical. Litíase ureteral menor que 5 mm com hematúria pode ser manejada com expulsão clínica (tamsulosina 0,4 mg por via oral à noite, analgesia e hidratação), com litotripsia extracorpórea ou ureteroscopia a laser nas indicações clássicas. Infecções do trato urinário recebem antibiótico guiado pela urocultura (por exemplo, nitrofurantoína 100 mg por via oral de 12 em 12 horas por 5 dias ou fosfomicina 3 g em dose única na cistite não complicada), repetindo a urina após a cura. Na hiperplasia prostática benigna com hematúria recorrente, os inibidores da 5-alfa-redutase (finasterida 5 mg/dia ou dutasterida 0,5 mg/dia) reduzem significativamente a recorrência do sangramento. Pacientes em uso de anticoagulantes mantêm a investigação completa e, quando a causa é controlada, seguem o anticoagulante conforme a indicação original.
| Causa | Tratamento de primeira linha | Observação |
|---|---|---|
| Câncer de bexiga não musculo-invasivo de baixo risco | RTU + mitomicina C 40 mg intravesical única nas primeiras 24 h | Cistoscopia de controle em 3 meses; recorrência global de 30 a 60% em 5 anos |
| Câncer de bexiga não musculo-invasivo de risco alto | RTU + BCG intravesical (indução 6 semanas semanais + manutenção até 1-3 anos) | BCG-unresponsive: cistectomia radical |
| Câncer de bexiga musculo-invasivo | Quimioterapia neoadjuvante à base de cisplatina + cistectomia radical com linfadenectomia | Alternativa selecionada: trimodal com RTU máxima e quimiorradioterapia |
| Litíase ureteral com hematúria | Expulsão clínica (tamsulosina 0,4 mg/dia), ESWL ou ureteroscopia a laser | Litíase maior que 5 a 6 mm ou com complicações: intervenção |
| Hiperplasia prostática benigna sangrante | Finasterida 5 mg/dia ou dutasterida 0,5 mg/dia | Reduzem recorrência do sangramento prostático em mais de metade dos casos |
| Infecção do trato urinário | Antibiótico conforme urocultura, com urina de controle após o tratamento | Hematúria persistente após cura da infecção reinicia a investigação |
A hematúria macroscópica com formação de coágulos pode obstruir a uretra e provocar retenção urinária aguda, além de sangramento com risco de choque em pacientes anticoagulados ou com tumores avançados. O manejo segue uma sequência fixa que cai em prova: sondagem vesical com sonda de três vias de calibre alto (20 a 24 Fr), irrigação manual com soro fisiológico até desobstruir a bexiga e eliminar coágulos, irrigação vesical contínua para prevenir reformação, correção de coagulopatia (reverter anticoagulação com o paciente em sangramento maciço, transfusão se necessário) e, se o sangramento persistir, cistoscopia de urgência para evacuação de coágulos e cauterização do ponto sangrante. O ácido tranexâmico (1 g por via intravenosa ou oral, até 3 vezes ao dia) pode ser considerado no sangramento refratário, com cautela pelo risco trombótico descrito em pacientes com neoplasias vesicais. Causas específicas: cistite hemorrágica por ciclofosfamida impõe hidratação intensa e mesna na profilaxia; cistite actínica (radioterapia pélvica prévia) pode responder ao tratamento com oxigênio hiperbárico.
As complicações da hematúria em si são anemia ferropriva crônica (hematúria microscópica persistente por anos), retenção urinária por coágulos, urosepse em hematúria de origem infecciosa e progressão de doença glomerular não diagnosticada. O prognóstico depende da causa: o câncer de bexiga não musculo-invasivo de baixo grau tem sobrevida em 5 anos superior a 90%, porém com taxas de recorrência de 30 a 60% que impõem cistoscopia de vigilância em 3 meses e depois conforme o risco; o musculo-invasivo tratado com neoadjuvância e cistectomia tem sobrevida em 5 anos em torno de 50 a 70% quando os linfonodos são negativos, caindo para menos de 20 a 30% com doença ganglionar. Nefropatias glomerulares como a doença por IgA podem evoluir com proteinúria crescente e insuficiência renal crônica, exigindo seguimento nefrológico. Microhematúria persistente sem causa identificada após investigação completa (microhematúria essencial) tem prognóstico excelente, mas recomenda-se reavaliar periodicamente, sobretudo se surgirem novos fatores de risco, como o tabagismo, ou episódios de hematúria macroscópica, que reabrem a investigação.
1.Segundo a diretriz AUA/SUFU 2020, microhematúria é definida como:
2.Paciente de 68 anos, hipertenso, apresenta hematúria macroscópica indolor há 3 dias, sem infecção urinária. Fumou 1 maço/dia por 40 anos. Qual a conduta?
3.Qual combinação de achados aponta fortemente para origem glomerular da hematúria?
4.Urina vermelha, dipstick positivo para sangue, microscopia sem eritrócitos e CPK de 30.000 U/L em paciente após trauma. O diagnóstico é:
5.Na estratificação AUA/SUFU 2020, paciente de risco INTERMEDIÁRIO para neoplasia do trato urinário deve realizar:
6.Homem de 22 anos com episódios de hematúria macroscópica concomitantes a faringites, função renal normal, sem proteinúria significativa. Diagnóstico mais provável:
7.Qual o papel da citologia urinária na investigação da hematúria?
8.Paciente em uso de varfarina apresenta hematúria macroscópica. Qual afirmativa correta?
9.Paciente com hematúria macroscópica abundante e retenção urinária por coágulos. Primeira conduta:
10.Qual fármaco reduz a recorrência do sangramento na hiperplasia prostática benigna?
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