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Revisão completa de disfunção erétil: via do óxido nítrico e GMPc, classificação por IIEF-5, estratificação cardiovascular de Princeton, inibidores de PDE5 com doses, alprostadil, dispositivos de vácuo e próteses penianas.
[1] Salonia A, Bettocchi C, Carvalho J, Corona G, Jones TH, Kadioglu A, et al. European Association of Urology Guidelines on Sexual and Reproductive Health - 2021 Update: Male Sexual Dysfunction. Eur Urol. 2021;80(3):333-357 · DOI 10.1016/j.eururo.2021.06.007 | [2] Feldman HA, Goldstein I, Hatzichristou DG, Krane RJ, McKinlay JB. Impotence and its medical and psychosocial correlates: results of the Massachusetts Male Aging Study. J Urol. 1994;151(1):54-61 · PMID 8254833 | [3] Moreira ED Jr, Bestane WJ, Bartolo EB, Fittipaldi JA. Prevalence and correlates of erectile dysfunction: results of the Brazilian study of sexual behavior. Urology. 2001;58(4):583-588 · DOI 10.1016/S0090-4295(01)01274-2 | [4] Nehra A, Jackson G, Miner M, Billups KL, Burnett AL, Bhatt A, et al. The Princeton III Consensus Recommendations for the Management of Erectile Dysfunction and Cardiovascular Disease. Mayo Clin Proc. 2012;87(8):766-778 · PMID 22862865 · DOI 10.1016/j.eururo.2021.06.007
Disfunção erétil (DE) é a incapacidade persistente de obter ou manter ereção com rigidez suficiente para relação sexual satisfatória por ao menos seis meses, segundo a definição operacional das diretrizes da Associação Europeia de Urologia (EAU). Não é um incômodo cosmético: é um potente marcador de risco cardiovascular e um dos principais preditores independentes de eventos coronarianos futuros, porque a artéria peniana é menor que as coronárias e manifesta aterosclerose antes delas. Para a prova de Urologia, o tema se destrincha em quatro habilidades: entender a cascata do óxido nítrico e do GMPc (base farmacológica), aplicar o IIEF-5 e a anamnese dirigida, estratificar o risco cardiovascular antes de liberar atividade sexual (consenso de Princeton) e dominar as doses dos inibidores da fosfodiesterase-5 e das terapias de segunda e terceira linhas.
A ereção normal é um evento hemodinâmico: relaxamento do músculo liso arterial e trabecular dos corpos cavernosos, com aumento abrupto do fluxo arterial e compressão das vênulas subtunicais contra a túnica albugínea (mecanismo corporovenoso-oclusivo), que aprisiona o sangue e gera rigidez. A DE é classificada em orgânica (vascular arterial ou venosa, neurológica, hormonal, farmacológica) e psicogênica (ansiedade de desempenho, depressão, conflitos de relacionamento), sendo a forma mista a mais comum na prática. Também se classifica em primária (nunca teve ereção adequada, rara e fortemente ligada a causas congênitas ou psicogênicas graves) e secundária (perda de função previamente presente, regra geral no adulto). A graduação por gravidade usa o IIEF-5, versão abreviada de cinco questões do Índice Internacional de Função Erétil.
| Escore IIEF-5 (soma de 5 questões) | Classificação da disfunção erétil |
|---|---|
| 22 a 25 | Sem disfunção erétil |
| 17 a 21 | Disfunção erétil leve |
| 12 a 16 | Disfunção erétil leve a moderada |
| 8 a 11 | Disfunção erétil moderada |
| 5 a 7 | Disfunção erétil grave |
O Massachusetts Male Aging Study (MMAS), coorte de base populacional de 1.290 homens de 40 a 70 anos, é a referência clássica: 52% dos participantes tinham algum grau de DE, e a impotência completa subiu de cerca de 5% aos 40 anos para 15% aos 70, dobrando a cada década de vida adulta. No Brasil, o Brazilian Study of Sexual Behavior encontrou prevalência global de 46,2% (leve 31,5%, moderada 12,1%, completa 2,6%), com associação independente com idade, diabetes, hipertensão, cardiopatia, tabagismo e obesidade. Projeções globais da virada do século estimavam mais de 320 milhões de homens com DE até 2025, impulsionadas pelo envelhecimento e pela epidemia de diabetes e obesidade. Entre diabéticos, a prevalência oscila entre 35 e 75% conforme a série, com início cerca de 10 a 15 anos mais cedo que na população geral, e a DE afeta 25 a 75% dos homens após prostatectomia radical, dependendo da técnica de preservação dos feixes neurovasculares.
O estímulo sexual libera óxido nítrico (NO) das terminações nervosas não adrenérgicas não colinérgicas e do endotélio cavernoso. O NO ativa a guanilato ciclase solúvel, que converte GTP em GMP cíclico (GMPc); o GMPc, por meio de proteína quinase dependente de GMPc, fecha canais de cálcio e bomba cálcio para fora do músculo liso, reduzindo o cálcio intracelular e relaxando o músculo liso trabecular e arterial: fluxo entra, vênulas são comprimidas, ereção se instala. A fosfodiesterase-5 (PDE5), abundante no corpo cavernoso, hidrolisa o GMPc e encerra a ereção; por isso, os inibidores de PDE5 não criam ereção, apenas amplificam a resposta ao estímulo sexual, exigindo libido e estímulo intactos. O sinal adrenérgico noradrenalina e a endotelina-1 contratam o músculo liso e mantêm o pênis flácido, e o equilíbrio entre os dois sistemas determina o tônus cavernoso basal.
As causas orgânicas atacam essa cascata em pontos distintos. A DE arteriogênica (diabetes, hipertensão, dislipidemia, tabagismo, sedentarismo) reduz a biodisponibilidade de NO por disfunção endotelial; a DE venogênica falha no mecanismo oclusivo, com fuga venosa: o homem obtém ereção que colapsa antes ou durante a penetração; as causas neurogênicas (neuropatia diabética, lesão medular, cirurgia pélvica, esclerose múltipla) interrompem o estímulo neural; o hipogonadismo reduz libido e a expressão da PDE5 e do NO; e drogas como antidepressivos inibidores de recaptação de serotonina, anti-hipertensivos (tiazídicos e betabloqueadores não vasodilatadores), antiandrogênicos e antipsicóticos interferem em várias etapas. A DE psicogênica preserva ereções noturnas e matinais, sinal clínico que a distingue da orgânica.
O diagnóstico de DE é clínico. A anamnese precisa caracterizar: início (súbito sugere psicogênica ou fármaco-induzida; insidioso sugere vascular), duração, presença de ereções matinais e noturnas, rigidez em masturbação versus relação (ereção situacional sugere componente psicogênico), libido, ejaculação e orgasmo, história de trauma pélvico ou cirurgia, tabagismo, álcool, drogas ilícitas e medicações. Aplicam-se o IIEF-5 para graduar e o questionário de saúde do homem. O exame físico avalia caracteres sexuais secundários, genitália (placas de Peyronie, testículos volumétricos, consistência), pulsos femorais e pediosos e medida de pressão arterial. Sintomas urinários baixos e sintomas depressivos devem ser rastreados, pois se associam de forma independente à DE.
| Achado | Sugere DE psicogênica | Sugere DE orgânica |
|---|---|---|
| Início | Súbito, relacionado a evento ou estresse | Insidioso e progressivo |
| Ereções matinais e noturnas | Preservadas e rígidas | Ausentes ou flácidas |
| Ereção em masturbação | Preservada | Comprometida |
| Variação situacional | Sim (só falha com a parceira ou em situações específicas) | Não (falha em todas as situações) |
| Ansiedade antecipatória | Marcada | Presente como consequência, não como gatilho |
| Fatores de risco cardiovascular | Ausentes ou poucos | Presentes (diabetes, tabagismo, dislipidemia, HAS) |
A avaliação laboratorial de rotina de todo homem com DE inclui glicemia de jejum ou hemoglobina glicada, perfil lipídico e testosterona total colhida pela manhã (entre 8 e 11 h), pois a testosterona segue ritmo circadiano com pico matinal e queda vespertina; testosterona baixa pede repetição com LH e FSH, e prolactina se houver libido reduzida, galactorreia ou cefaleia. A ultrassonografia com Doppler dos corpos cavernosos, realizada com estímulo farmacológico intracavernoso, quantifica a velocidade sistólica máxima (PSV): valores abaixo de 25 cm/s indicam insuficiência arterial, e índice de resistência menor que 0,75 com velocidade diastólica persistente acima de 5 cm/s sugere fuga venosa. A monitorização da tumescência peniana noturna distingue psicogênica (ereções rígidas preservadas) de orgânica, e a cavernometria e cavernografia reservam-se à investigação de fuga venosa antes de cirurgia de revascularização ou laqueadura venosa, procedimentos de indicação excepcional.
O endotélio cavernoso adoece antes do coronário porque as artérias penianas são de menor calibre: por isso a DE vascular precede em média de 2 a 5 anos o primeiro evento coronariano agudo, janela descrita no Princeton III. Todo homem com DE e sem doença cardiovascular conhecida deve ter fatores de risco rastreados e corrigidos, e a DE deve ser tratada como oportunidade de prevenção. Antes de liberar a atividade sexual (que consome em média 3 a 5 equivalentes metabólicos, menos que subir dois lances de escada) e prescrever iPDE5, estratifica-se o risco cardiovascular em três categorias.
| Categoria de risco (Princeton III) | Exemplos clínicos | Conduta |
|---|---|---|
| Baixo risco | Assintomático com menos de 3 fatores de risco, HAS controlada, angina estável leve, revascularização bem-sucedida, IAM antigo sem sintomas | Pode retomar atividade sexual e receber iPDE5 sem avaliação cardiológica extensa |
| Risco intermediário | 3 ou mais fatores de risco, angina estável moderada, IAM entre 2 e 6 semanas, insuficiência cardíaca classe II | Avaliação cardiológica com teste ergométrico antes de liberar atividade sexual e iPDE5 |
| Alto risco | Angina instável, HAS não controlada, arritmia não controlada, insuficiência cardíaca descompensada, estenose aórtica severa sintomática, IAM em menos de 2 semanas | Postergar atividade sexual e tratamento da DE até estabilização cardiológica |
O tratamento começa pelas causas corrigíveis: suspensão do tabagismo, perda de peso, exercício aeróbico regular (150 minutos semanais), controle glicêmico e pressórico, troca de medicamentos impeditivos quando possível (substituir betabloqueador não vasodilatador ou tiazídico), e terapia sexual ou psicoterapia nos casos psicogênicos, com ou sem parceiro. A primeira linha farmacológica em qualquer causa de DE (exceto contraindicações) são os inibidores orais de PDE5, eficazes em cerca de 60 a 70% dos episódios de relação, com taxas menores em diabéticos de longa data e pós-prostatectomia radical sem preservação neural. Todos exigem estímulo sexual e são igualmente contraindicados com nitratos em qualquer forma.
| Inibidor de PDE5 | Doses sob demanda | Particularidades |
|---|---|---|
| Sildenafila | 25, 50 ou 100 mg, 1 h antes da relação; máximo 1 dose ao dia | Pico em 30 a 120 min; duração de até 4 a 6 h; refeição gordurosa retarda a absorção; efeitos visuais (cianopsia, visão azulada) por inibição da PDE6 retiniana |
| Tadalafila | 10 ou 20 mg, de 30 min a 2 h antes; ou 2,5 a 5 mg em toma diária contínua | Meia-vida de 17,5 h e janela de eficácia de até 36 h; não sofre influência relevante da dieta; mialgia e dor lombar mais frequentes por inibição da PDE11; útil quando se deseja espontaneidade ou uso diário (inclusive para sintomas urinários baixos) |
| Vardenafila | 5, 10 ou 20 mg, cerca de 1 h antes; máximo 1 dose ao dia | Perfil semelhante ao da sildenafila, sem efeito visual; dose reduzida com inibidores potentes de CYP3A4 |
| Avanafila | 100 ou 200 mg, 15 a 30 min antes | Início mais rápido e maior seletividade pela PDE5; útil quando se busca menor latência |
Segunda linha: alprostadil (prostaglandina E1 sintética) intracavernoso, iniciando com 2,5 microgramas e titulando até a dose eficaz, no máximo 40 microgramas por aplicação, com limite de 1 aplicação ao dia e 3 por semana; atua diretamente no músculo liso por via AMPc, independente de NO, e alcança ereção satisfatória em cerca de 70% dos casos, ao custo de dor peniana (efeito adverso mais comum), risco de priapismo em torno de 1% e fibrose cavernosa com uso crônico. A via intrauretral (MUSE, 125 a 1.000 microgramas) é menos eficaz e causa mais dor uretral. O dispositivo de vácuo (vacuum) cria ereção por pressão negativa mantida por anel constritor na base do pênis (máximo 30 minutos), opção não farmacológica eficaz em 60 a 90% dos pacientes, com queixa de frialdade e rigidez parcial. Terceira linha: prótese peniana inflável de três componentes, reservada a falha das anteriores ou DE grave com causa irreversível, com satisfação de 80 a 90% e taxas de infecção de 1 a 3% (maiores em diabéticos). Reposição de testosterona só está indicada em hipogonadismo confirmado, com dois valores baixos de testosterona total matinal; não melhora a DE de homem eugonádico e é contraindicada em câncer de próstata e PSA elevado sem investigação.
O prognóstico da DE é fortemente dependente da causa e da adesão. A resposta aos iPDE5 pode melhorar meses após otimização do estilo de vida e do controle metabólico, e cerca de um terço dos pacientes primariamente não respondedores passa a responder com reavaliação e ajuste de dose, orientação de uso (estímulo, tempo de latência, ausência de refeição pesada) e correção de hipogonadismo. O abandono do tratamento é alto nos primeiros dois anos, por expectativas irreais e falta de orientação de uso, e o seguimento médico estruturado melhora a persistência. Complicações específicas: priapismo (ereção maior que 4 h, urgência urológica) com alprostadil e, raramente, com iPDE5; fibrose peniana no ponto de aplicação; e perda súbita da visão por neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, evento raro relatado com iPDE5, que exige orientação de interrupção e avaliação oftalmológica urgente. No plano cardiovascular, o seguimento do homem com DE deve incluir controle agressivo dos fatores de risco, pois a rigidez erétil é, na prática, um teste de função endotelial de baixo custo disponível em toda consulta.
1.Qual cascata molecular medeia o relaxamento do músculo liso cavernoso que os inibidores de PDE5 potencializam?
2.No IIEF-5 (SHIM), o escore que define presença de disfunção erétil é:
3.A associação absolutamente contraindicada com qualquer inibidor de PDE5 é:
4.Paciente em uso de tadalafila 20 mg procura o pronto-socorro com dor torácica 20 horas depois da dose. Qual a conduta correta em relação ao nitrato?
5.Homem de 62 anos, diabetes tipo 2 e DE de início progressivo, com ereções matinais rígidas preservadas e falha apenas nas relações com a esposa. O padrão sugere:
6.Qual achado da ultrassonografia com Doppler farmacoerétil define insuficiência arterial cavernosa?
7.Segundo o consenso de Princeton III, qual paciente pertence à categoria de alto risco, devendo postergar a atividade sexual?
8.A dose inicial e o limite superior do alprostadil intracavernoso são, respectivamente:
9.Qual é a utilidade cardiovascular fundamental, em prova, da disfunção erétil vascular?
10.Paciente eugonádico (testosterona normal) com DE vascular leve pede reposição de testosterona para melhorar a ereção. Qual a resposta correta?
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