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Revisão completa da abordagem inicial da vítima de trauma pelo protocolo ATLS: avaliação primária ABCDE passo a passo, controle de hemorragia e choque hemorrágico, rastreio de lesão da coluna cervical pelos critérios de NEXUS e Canadian C-Spine Rule, adjuncts, avaliação secundária e cirurgia de controle de danos. Inclui doses, valores-alvo, tabelas comparativas, 10 questões de prova e flashcards.
[1] American College of Surgeons. Advanced Trauma Life Support (ATLS) Student Course Manual. 10ª ed. Chicago: ACS; 2018 | [2] Kortbeek JB, Al Turki SA, Ali J, et al. Advanced Trauma Life Support, 8th edition, the evidence for change. J Trauma. 2008;64(6):1638-1650 · DOI 10.1097/TA.0b013e318174ba3b | [3] Cannon JW. Hemorrhagic Shock. N Engl J Med. 2018;378(4):370-379 · DOI 10.1056/NEJMra1705649 | [4] Hoffman JR, Wolfson AB, Todd K, Mower WR. Validity of a set of clinical criteria to rule out injury to the cervical spine in patients with blunt trauma (NEXUS). N Engl J Med. 2000;343(2):94-99 · DOI 10.1056/NEJM200007133430203 | [5] Stiell IG, Wells GA, Vandemheen KL, et al. The Canadian C-spine rule for radiography in alert and stable trauma patients. JAMA. 2001;286(15):1841-1848 · DOI 10.1001/jama.286.15.1841 | [6] Rossaint R, Afshari A, Bouillon B, et al. The European guideline on management of major bleeding and coagulopathy following trauma: sixth edition. Crit Care. 2023;27(1):80 · DOI 10.1186/s13054-023-07944-1 · DOI 10.1097/TA.0b013e318174ba3b
O trauma mata cerca de 4,4 milhões de pessoas por ano no mundo, o que corresponde a aproximadamente 8% de todos os óbitos, segundo a Organização Mundial da Saúde, e é a principal causa de morte entre 1 e 44 anos em vários países. No Brasil, as causas externas (acidentes de transporte, agressões e quedas) respondem por cerca de 160 a 170 mil óbitos anuais, com enorme impacto em anos de vida perdidos, pois atinge preferencialmente adultos jovens. A distribuição trimodal clássica das mortes por trauma divide os óbitos em três picos: o primeiro nas horas imediatas por lesões incompatíveis com a vida (lesão de tronco encefálico, ruptura cardíaca e de grandes vasos), o segundo em minutos a poucas horas por hemorragia, obstrução de via aérea e pneumotórax hipertensivo, e o terceiro dias a semanas por sepse e falência de órgãos. É exatamente no segundo pico, o das mortes evitáveis, que atua a abordagem inicial padronizada pelo Advanced Trauma Life Support (ATLS), criado após um acidente aéreo em 1976 e adotado pelo American College of Surgeons em 1980, hoje na sua 10ª edição (2018).
O ATLS parte de uma premissa simples: em trauma, a causa mais provável de morte nas primeiras horas é mecânica e tratável (sangramento e via aérea), e a falha em identificá-la decorre de desorganização, não de falta de conhecimento. Por isso a avaliação segue uma sequência fixa e inegociável, na qual as ameaças à vida são tratadas à medida que são encontradas, antes de passar à etapa seguinte, e o diagnóstico anatômico preciso é postergado. A exceção moderna é o sangramento maciço externo compressível: na 10ª edição e nos protocolos táticos (marcha C-ABCDE ou MARCH), o controle imediato da hemorragia exsanguinante com pressão direta e torniquete antecede a manipulação da via aérea. A equipe deve ainda designar um líder, preparar materiais antes da chegada da vítima e usar precauções universais.
| Etapa | O que avaliar | Ações-chave |
|---|---|---|
| A - Vias aéreas com controle cervical | Patência da faringe e laringe, corpo estranho, traumatismo facial, queimadura inalatória | Chin lift ou jaw thrust (não hiperextender o pescoço), aspiração, cânula orofaríngea, oxigenação; GCS 8 ou menos indica via aérea definitiva com estabilização manual in-line |
| B - Ventilação | Frequência, amplitude e simetria do tórax, saturação, murmúrio vesicular | Ventilar com bolsa-máscara e avançar para intubação; drenar pneumotórax e hemotórax; vedar ferida penetrante aberta com curativo oclusivo fenestrado com as três bordas fixadas |
| C - Circulação com controle de hemorragia | Nível de consciência, cor da pele, pulso, enchimento capilar, PA | Pressão direta e torniquete, acesso venoso calibroso, cristaloide limitado, desencadear protocolo de transfusão masiva, ácido tranexâmico |
| D - Déficit neurológico | GCS (ocular, verbal, motora), pupilas, sinais de lateralização | Evitar hipoxemia e hipotensão (pioram lesão secundária em TCE), reavaliar GCS antes de sedar, checar glicemia |
| E - Exposição | Despir por completo, inspecionar dorso com log roll, temperatura | Prevenir hipotermia com cobertores, fluidos aquecidos e sala aquecida; hipotermia agrava a coagulopatia |
A via aérea é a primeira prioridade da avaliação primária em quase todas as vítimas: um paciente hipóxico por obstrução morre em minutos, antes de qualquer sangramento intracavitário fazer falta. A avaliação começa perguntando ao paciente: uma resposta verbal normal exclui obstrução iminente. Sinais de via aérea difícil incluem estridor, disfonia, hematoma cervical expansivo, enfisema subcutâneo, queimaduras de face, escamas carbonáceas e deformidades faciais graves. A manobra de escolha no traumatizado é a elevação do ângulo mandibular (jaw thrust), porque a hiperextensão cervical está proibida. A via aérea definitiva (intubação orotraqueal) está indicada quando o GCS é 8 ou menos, quando há incapacidade de manter via aérea ou ventilação adequada, ou hipoxemia refratária; deve ser feita por sequência rápida de intubação (preoxigenação, etomidato 0,3 mg/kg ou cetamina 1-2 mg/kg, succinilcolina 1,5 mg/kg ou rocurônio 1,2 mg/kg), com estabilização manual in-line da coluna e pressão cricoide questionada (não protege e pode piorar a laringoscopia). Colar cervical só é retirado para intubação com o colar aberto e estabilização in-line mantida.
A lesão da coluna cervical ocorre em aproximadamente 2 a 5% das vítimas de trauma contuso alertas, e essa proporção pode chegar a 10% em pacientes com rebaixamento do nível de consciência ou trauma craniencefálico grave. A imagem inicial de escolha é a tomografia computadorizada, com sensibilidade superior a 98% para fraturas; a radiografia em três incidências (anteroposterior, perfil e odontoide) tem sensibilidade modesta, na faixa de 50% (39 a 94% conforme a série), e só é usada quando a TC não está disponível ou na triagem à beira do leito. Duas regras de decisão clínica permitem liberar a coluna sem imagem em pacientes alertas e estáveis: os critérios de NEXUS e a Canadian C-Spine Rule.
| Aspecto | NEXUS | Canadian C-Spine Rule |
|---|---|---|
| População | Todo trauma contuso (inclusive com GCS rebaixado, com desempenho menor) | Somente alertas (GCS 15) e estáveis, mecanismo de trauma presente |
| Critérios de alto risco | 5 critérios de baixo risco que devem estar todos ausentes: ausência de dor à palpação da linha média posterior cervical, ausência de déficit neurológico focal, nível de consciência normal, ausência de intoxicação, ausência de lesão distrativa dolorosa | Idade 65 anos ou mais, mecanismo perigoso (queda de 3 pés ou 5 degraus, carga axial, colisão em alta velocidade acima de 100 km/h, capotamento ou ejeção) ou parestesias em extremidades |
| Teste funcional | Não possui | Se sem alto risco: presença de fator de baixo risco (colisão traseira simples, sentado na emergência, deambulou em algum momento, início tardio da dor, ausência de dor na linha média) permite pedir rotação ativa de 45 graus para ambos os lados; se conseguir, libera sem imagem |
| Desempenho | Sensibilidade 99,6% e especificidade baixa (12,9%) no estudo original | Sensibilidade 99 a 100% para lesão clinicamente importante com especificidade maior (cerca de 40%), mais eficiente que NEXUS no estudo comparativo de Stiell (NEJM 2003) |
Na etapa B, seis condições torácicas ameaçam a vida e devem ser ativamente procuradas na avaliação primária: obstrução de via aérea superior, pneumotórax hipertensivo, hemotórax maciço, pneumotórax aberto (ferida penetrante succtionante), tamponamento cardíaco e volet torácico com contusão pulmonar. O pneumotórax hipertensivo é diagnóstico clínico e não radiológico: hipotensão, ausência de murmúrio vesicular e timpanismo em um hemitórax, distensão das veias jugulares e desvio de traqueia para o lado contrário exigem descompressão imediata por agulha (cateter 14 a 16 G), na 10ª edição preferencialmente no 5º espaço intercostal na linha axilar anterior (o 2º espaço hemiclavicular permanece opção, especialmente em crianças), seguida de toracostomia com dreno. O hemotórax maciço (mais de 1.500 mL de sangue na cavidade pleural ou drenagem contínua) é tratado com dreno torácico calibroso (28 a 32 Fr) no 4º ou 5º espaço intercostal, linha axilar anterior, e reposição volêmica simultânea; a toracostomia está indicada quando há drenagem inicial acima de 1.500 mL ou mais de 200 mL por hora por 2 a 4 horas, sangamento contínuo ou instabilidade persistente.
No politraumatizado, choque significa hemorragia até que se prove o contrário. As classes clássicas de choque hemorrágico do ATLS (baseadas no adulto de 70 kg) orientam a conduta, embora a 10ª edição enfatize que a resposta individual é variável e que taquicardia pode faltar em pacientes beta-bloqueados, atletas e idosos. Cristaloides ficaram limitados a bolus iniciais de até 1 a 2 L (Ringer lactado preferido ao salina 0,9%); a partir daí, o paciente que continua instável precisa de hemoderivados, e não de mais cristaloide, que piora dilucionalmente a coagulopatia, a acidose e a hipotermia.
| Classe | Perda de volemia | Freq. cardíaca | Pressão arterial | Conduta principal |
|---|---|---|---|---|
| I | Até 15% (até 750 mL) | Menos de 100 bpm | Normal | Via venosa e observação; geralmente não transfunde |
| II | 15 a 30% (750 a 1.500 mL) | 100 a 120 bpm | Normal (pressão de pulso estreitada) | Cristaloide até 1-2 L; transfundir se não responde |
| III | 30 a 40% (1.500 a 2.000 mL) | 120 a 140 bpm | Reduzida, ansiedade, pele fria | Transfusão de hemácias e controle do sangramento |
| IV | Mais de 40% (mais de 2.000 mL) | Acima de 140 bpm | Criticamente reduzida, letargia | Transfusão masiva imediata e operação de emergência |
O controle da hemorragia segue hierarquia: pressão direta na ferida, torniquete pneumático em membros (anotar o horário; seguro por até cerca de 2 horas com pouca lesão, revisar no hospital), tamponamento de feridas em junções (virilha, axila, pescoço) e, na cavidade, laparotomia, toracotomia ou angiografia. A ressuscitação de controle de danos prioriza hemoderivados na proporção balanceada 1:1:1 (plasma:concentrado de plaquetas:hemácias) conforme o estudo PROPPR, ou estratégia guiada por viscoelasticidade (TEG/ROTEM). O ácido tranexâmico reduz mortalidade quando iniciado até 3 horas do trauma na dose de 1 g IV em bolus de 10 minutos seguido de 1 g IV em infusão de 8 horas (CRASH-2), com benefício também em TCE leve a moderado na janela de 3 horas (CRASH-3). A hipotensão permissiva (PAS alvo de 80 a 90 mmHg até o controle cirúrgico do sangramento) é aceita no adulto sem traumatismo craniano, mas é proibida no TCE, em que cada episódio de PAS menor que 90 mmHg dobra a mortalidade: alvo PAS de pelo menos 90 a 100 mmHg.
A etapa D quantifica a Escala de Coma de Glasgow (abertura ocular de 1 a 4, resposta verbal de 1 a 5 e resposta motora de 1 a 6, total de 3 a 15) e procura sinais de lateralização: anisocoria maior que 1 mm em paciente com TCE sugere herniação uncal comprimindo o terceiro nervo craniano ipsilateral, e deve ser tratada com manobras de redução de pressão intracraniana (elevação da cabeça a 30 graus, sedação, hiperventilação temporária com meta de PCO2 de 30-35 mmHg apenas em herniação, manitol 0,25-1 g/kg ou solução salina hipertônica) enquanto a tomografia é obtida. Déficit motor assimétrico, resposta em flexão ou extensão decorticada e decerebrada localizam a lesão e mudam a prioridade cirúrgica. Em suspeita de lesão medular, documentar nível sensorial e tônus esfincteriano. Glicemia sempre: hipoglicemia imita e agrava o quadro neurológico do TCE. Registre o GCS antes de sedar e paralisar o paciente, e reavalie pupilas e motricidade a cada reavaliação do ABCDE.
O paciente precisa ser totalmente despido e girado em bloco (log roll com 3 a 4 pessoas, coluna alinhada) para inspecionar dorso, glúteos e sulcos, onde se escondem feridas penetrantes e queimaduras. Imediatamente após, começa a guerra contra a hipotermia: a tríade da morte do trauma (hipotermia central abaixo de 35 graus, acidose metabólica com pH abaixo de 7,2 e coagulopatia) é autofágica, pois cada elemento piora os outros. Use cobertor térmico, fluidos aquecidos a 37-40 graus e ambiente aquecido. Terminada a primária, inserem-se os adjuncts: monitorização cardíaca e de saturação, gasometria arterial com lactato e déficit de base, sonda vesical (com ressalvas), sonda gástrica, teste de gravidez em mulheres em idade fértil, radiografia de tórax e pelve, eFAST e desencadeamento do protocolo de transfusão masiva quando indicado.
A avaliação primária não é um evento único: reexecuta-se o ABCDE após cada intervenção maior e a cada transferência do paciente, porque intubações deslocam, drenos obstruem e sangramentos recomeçam. A avaliação secundária começa só depois da estabilização e consiste na história AMPLE (Alergias, Medicamentos, Passado médico e gravidez, Última alimentação, Ambiente e eventos relacionados ao trauma), seguida de exame físico cefalocaudal completo, reinspeção de orifícios, revisão de exames e exames complementares dirigidos (TC de segmentos conforme mecanismo, cistografia, uretrografia). A história colateral com familiares e equipes pré-hospitalares define mecanismo, tempo de permanência, uso de anticoagulantes (que alteram conduta em TCE e sangramento) e imunização antitetânica.
Quando o paciente chega frio, coagulopático e acidótico, a operação longa e reparadora mata: indica-se a cirurgia de controle de danos, em três tempos. O primeiro tempo é uma operação curta (tipicamente 60-90 minutos) que apenas estanca sangramentos com suturas, packing e ligaduras, controla contaminação intestinal e fecha provisoriamente o abdome com sistemas a vácuo. Segue-se ressuscitação na UTI com correção da tríade da morte (aquecimento, correção de acidose com reposição volêmica e produtos de sangue guiados por TEG/ROTEM, correção de cálcio que despenca com cada bolsa transfundida), e o terceiro tempo é a reoperação programada em 24 a 48 horas para reparos definitivos. Recursos modernos de controle de sangramento incluem a angioembolização (fraturas instáveis de pelve, lesões hepáticas e esplênicas em pacientes estáveis) e a REBOA (balão intraórtico oclusivo, zona 1 para trauma abdominal e zona 3 para pelve) como ponte para a cirurgia em centros com estrutura endovascular.
Quem sobrevive às primeiras horas enfrenta o terceiro pico da mortalidade: síndrome da resposta inflamatória sistêmica, sepse, síndrome da angústia respiratória aguda, falência de órgãos, tromboembolismo (profilaxia iniciada assim que o sangramento é controlado) e úlcera de estresse. O prognóstico depende da gravidade anatômica (ISS), do estado fisiológico na chegada (lactato, déficit de base, tempo até transfusão e até operação), da idade e das comorbidades. Em TCE, o GCS inicial motor, a pupila e a hipotensão/hipoxemia pré-hospitalar são os preditores mais fortes; em choque hemorrágico, cada atraso de hora na transfusão e no controle do sangramento aumenta a mortalidade, o que justifica transferir o paciente diretamente a um centro de trauma (trauma center) quando a lesão for grave. Marcadores de ressuscitação bem-sucedida: lactato menor que 2,5 mmol/L e déficit de base normalizados em 24 horas, diurese maior que 0,5 mL/kg/h e normotermia.
1.Um paciente chega à emergência vítima de colisão motociclística, GCS 6, com respiração estridulosa. Qual a primeira conduta após oxigenação?
2.Qual das alternativas NÃO faz parte dos critérios de baixo risco do NEXUS para liberar a coluna cervical sem imagem?
3.Mulher de 72 anos, alerta e estável, caiu da própria altura e apresenta dor cervical leve, sem déficit e sem outros critérios. Pela Canadian C-Spine Rule, qual a conduta?
4.Jovem vítima de ferimento por arma branca no hemitórax direito está com PA 70/40 mmHg, jugulares ingurgitadas, ausência de murmúrio vesicular à direita e desvio de traqueia para a esquerda. Conduta imediata:
5.Sobre o ácido tranexâmico no trauma (CRASH-2), assinale a correta:
6.Paciente com PA 78/40 mmHg, FC 128 bpm, ansioso, pele fria e pálida após queda de altura. Estimativa de perda sanguínea e classe de choque:
7.Qual achado contraindica a passagem imediata de sonda vesical em vítima de trauma de pelve?
8.A tríade da morte do trauma, que fundamenta a cirurgia de controle de danos, é composta por:
9.Sobre a hipotensão permissiva no choque hemorrágico, assinale a correta:
10.Vítima contusa chega com GCS 15, sem dor cervical, sem déficit, sem intoxicação e sem outras lesões distrativas. Pelos critérios de NEXUS, qual a conduta?
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