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Revisão completa do choque para provas de urgência e emergência: definição, os quatro tipos fisiológicos, fisiopatologia em cadeia, reconhecimento clínico e monitorização com lactato e POCUS. Inclui classes do ATLS, critérios Sepsis-3, doses de vasopressores e as pegadinhas clássicas de prova.
[1] Evans L, Alhazzani W, Levy MM, et al. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock 2021. Intensive Care Med. 2021;47(11):1181-1247. DOI 10.1007/s00134-021-06506-y | [2] Singer M, Deutschman CS, Seymour CW, et al. The Third International Consensus Definitions for Sepsis and Septic Shock (Sepsis-3). JAMA. 2016;315(8):801-810. DOI 10.1001/jama.2016.0287 | [3] Vincent JL, De Backer D. Circulatory shock. N Engl J Med. 2013;369(18):1726-1734. DOI 10.1056/NEJMra1208943 | [4] Cecconi M, De Backer D, Antonelli M, et al. Consensus on circulatory shock and hemodynamic monitoring. Task Force of the European Society of Intensive Care Medicine. Intensive Care Med. 2014;40(12):1795-1815. DOI 10.1007/s00134-014-3525-z | [5] American College of Surgeons Committee on Trauma. Advanced Trauma Life Support (ATLS): Student Course Manual. 10ª ed. Chicago: ACS; 2018. · DOI 10.1007/s00134-021-06506-y
Choque é a emergência fisiopatológica por excelência: uma síndrome de perfusão tecidual inadequada que leva à hipóxia celular, ao metabolismo anaeróbio e, se não revertida, à falência de múltiplos órgãos e à morte. Em provas e na prática, o choque não pode ser reduzido a um número de pressão arterial — adultos jovens mantêm pressão sistólica aparentemente normal até perderem cerca de 30% da volemia. Definir o conceito, classificar fisiologicamente, reconhecer precocemente à beira do leito e tratar com as drogas nas doses corretas são exatamente as competências cobradas em urgência e emergência, e é o que esta revisão cobre de ponta a ponta.
Choque (insuficiência circulatória aguda) é a situação em que o sistema cardiovascular falha em entregar oxigênio suficiente aos tecidos para sustentar o metabolismo aeróbio, instalando hipóxia celular, glicólise anaeróbia com produção de lactato e acidose metabólica. A definição clássica de Vincent e De Backer resume o conceito: choque é hipóxia celular aguda decorrente de oxigenação tecidual inadequada, com ou sem hipotensão arterial. Daí a distinção operatória entre choque compensado (pressão preservada, mas hipoperfusão presente: taquicardia, pele fria, enchimento capilar prolongado, oligúria, lactato elevado) e choque descompensado (hipotensão instalada). A pressão é um marcador tardio; a perfusão é o alvo.
A classificação funcional consagrada (Weil e Shubin, adotada nas revisões modernas e no consenso da ESICM) divide o choque conforme a variável hemodinâmica primariamente comprometida: volume (pré-carga), bomba (contratilidade), obstrução mecânica ao fluxo ou tônus vascular (distributivo). Os perfis típicos podem ser confirmados à beira do leito com ecografia e cateteres:
| Tipo | Mecanismo central | Débito cardíaco | PVC/retorno venoso | Exemplos típicos |
|---|---|---|---|---|
| Hipovolêmico | Perda de volume intravascular absoluto | Diminuído | Diminuída | Hemorragia externa e interna, queimaduras extensas, vômitos e diarreia, terceiro espaço |
| Cardiogênico | Falência de bomba (contratilidade ou arritmia) | Diminuído | Aumentada | IAM extenso, miocardite, valvopatia aguda, taquiarritmia grave |
| Obstrutivo | Barreira mecânica ao enchimento ou à ejeção | Diminuído | Aumentada | Tamponamento cardíaco, TEP maciço, pneumotórax hipertensivo |
| Distributivo | Vasoplegia com distribuição e captação anormais de oxigênio | Aumentado na sepse; variável no neurogênico | Diminuída | Sepse, anafilaxia, choque neurogênico por lesão medular |
Dois detalhes frequentemente cobrados: o choque obstrutivo se comporta hemodinamicamente como o cardiogênico (débito baixo com PVC alta), mas o tratamento é mecânico (drenar, descomprimir, lisar) e não apenas inotrópico; e o choque neurogênico costuma cursar com débito baixo por bradicardia (perda do tônus simpático em lesões acima de T4), fugindo do padrão clássico distributivo. Choques mistos são comuns na prática: o politraumatizado com lesão medular, hipotermia e hemorragia pode somar três mecanismos ao mesmo tempo.
O choque acomete aproximadamente um terço dos pacientes internados em unidades de terapia intensiva, e o tipo distributivo (sobretudo o séptico) responde por cerca de dois terços dos casos, seguido do cardiogênico e do hipovolêmico. A mortalidade varia com o tipo e com a velocidade do tratamento: em torno de 30-40% no choque séptico (acima de 40-50% quando o lactato inicial supera 4 mmol/L), 40-50% no cardiogênico por infarto, mais de 50% no TEP maciço com hipotensão persistente, e extremamente variável no hemorrágico, em que o desfecho depende do controle rápido da fonte de sangramento. No Brasil, a sepse é a principal causa de morte em UTIs, o que torna a Surviving Sepsis Campaign e o bundle de 1 hora padrão simultâneo de prova e de rotina hospitalar.
Essa cadeia explica a semiologia do choque frio (vasoconstritor: hipovolêmico, cardiogênico e obstrutivo — pele fria, pegajosa e marmorizada, pulsos finos, enchimento capilar maior que 2 segundos) e do choque quente (vasoplégico: distributivo em fase inicial — pele quente e rosada, pulsos amplos, enchimento capilar curto). A distinção frio versus quente é atalho clássico de prova e de exame físico.
| Achado | Limiar ou característica | Valor semiológico |
|---|---|---|
| Taquicardia | FC maior que 100 bpm | Sinal mais precoce; pode faltar em betabloqueados, idosos e lesão medular alta |
| Hipotensão | PAS menor que 90 mmHg, ou queda maior que 40 mmHg da basal, ou PAM menor que 65 mmHg | Marcador tardio; não é requisito para diagnosticar choque |
| Pressão de pulso | Amplitude menor que 40 mmHg na vasoconstrição; ampla no choque quente | Estreita antes da queda da PAS no hipovolêmico (classe II do ATLS) |
| Enchimento capilar | Maior que 2-3 segundos após compressão ungueal | Marcador simples de hipoperfusão periférica; deve normalizar com a ressuscitação |
| Diurese | Menor que 0,5 mL/kg/h | Hipóxia renal; exige sonda vesical de demora no paciente grave |
| Nível de consciência | Ansiedade, confusão, letargia | Encéfalo hipoperfundido; diferenciar de hipoglicemia e TCE |
| Índice de choque | FC/PAS maior ou igual a 0,9 (normal 0,5-0,7) | Sugere hipoperfusão oculta mesmo com PAS normal; maior que 1,0 indica gravidade |
| Pele | Fria e marmorizada versus quente e rosada | Fria sugere hipovolêmico, cardiogênico ou obstrutivo; quente, distributivo inicial |
O lactato sérico é o biomarcador central: valor maior ou igual a 2 mmol/L indica hipoperfusão ou estresse aeróbio, e maior ou igual a 4 mmol/L aproximadamente dobra a mortalidade na sepse. A reavaliação em 2 a 4 horas com meta de clearance (queda) de pelo menos 10% orienta a adequação da ressuscitação. Registre também as causas de lactato elevado sem hipoperfusão (metformina, etanol, falência hepática grave, deficiência de tiamina, neoplasias avançadas) para não tratar o número sem olhar o paciente.
| Ferramenta | O que avalia | Ponto de decisão prática |
|---|---|---|
| Lactato sérico | Equilíbrio entre metabolismo aeróbio e anaeróbio | ≥ 2 mmol/L é anormal; ≥ 4 é alto risco; clearance ≥ 10% em 2 horas |
| Gasometria arterial | Oxigenação, acidose, lactato | pH menor que 7,15-7,20: buffer apenas como ponte para o tratamento causal |
| Delta de CO2 venoso-arterial | Fluxo global suficiente para lavar o CO2 tecidual | Maior que 6 mmHg persistente indica débito ainda insuficiente |
| ScvO2 (saturação venosa central) | Equilíbrio entre entrega e consumo de oxigênio | Menor que 70% sugere extração excessiva: débito insuficiente ou anemia |
| Ecografia à beira do leito (RUSH/FAST) | Bomba (função VE, derrame pericárdico), tanque (VCI, linhas B), tubos (aorta, TEP, pneumotórax) | Diagnóstico etiológico do choque em minutos, sem transportar o paciente |
| Teste de perna passiva com VTI | Responsividade a fluidos | Aumento do VTI maior que 12-15% na via de saída do VE prevê resposta a volume |
No trauma, o sangramento é a causa evitável mais frequente de morte nas primeiras horas. O ATLS organiza o choque hemorrágico em quatro classes conforme a fração de volemia perdida (adulto de 70 kg com volemia de aproximadamente 5 litros):
| Classe | Perda de volemia | Volume aproximado | FC (bpm) | PA sistólica | FR (irpm) | Consciência | Diurese (mL/h) |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| I | Menor que 15% | Menor que 750 mL | Menor que 100 | Normal | 14-20 | Levemente ansioso | Maior que 30 |
| II | 15-30% | 750-1500 mL | 100-120 | Normal (pressão de pulso estreita) | 20-30 | Ansioso | 20-30 |
| III | 30-40% | 1500-2000 mL | 120-140 | Diminuída | 30-40 | Confuso | 5-15 |
| IV | Maior que 40% | Maior que 2000 mL | Maior que 140 | Diminuída | Maior que 35 | Letárgico | Ausente ou desprezível |
Regras de ouro: a classe III é a primeira com hipotensão e a que costuma exigir transfusão; idosos, gestantes, atletas e usuários de betabloqueadores descompensam com perdas menores e sinais mais sutis. A conduta moderna é o controle de danos: compressão direta e torniquete, estabilização pélvica, drenagem de hemotórax, laparotomia ou angioembolização, transfusão maciça com proporção equilibrada de concentrado de hemácias, plasma fresco e plaquetas (aproximadamente 1:1:1) e ácido tranexâmico 1 g IV em 10 minutos seguido de 1 g em 8 horas na hemorragia grave com menos de 3 horas do trauma (protocolo CRASH-2). Cristaloide em quantidade limitada no início e alvo transfusional de hemoglobina de 7 g/dL no paciente estável.
No choque cardiogênico a causa mais frequente é o infarto agudo do miocárdio com perda de mais de 40% da massa ventricular esquerda. O quadro combina hipoperfusão fria e congestão: pressão venosa jugular elevada, estertores crepitantes, terceira bulha e hipocinesia difusa à ecocardiografia. Pilares do tratamento: revascularização precoce (angioplastia primária), noradrenalina para manter PAM de 65 mmHg ou mais (perfil de arritmias menor que dopamina e adrenalina), dobutamina 2,5-20 mcg/kg/min quando o débito está baixo com resistências vasculares adequadas e suporte mecânico apenas em centros selecionados — o estudo IABP-SHOCK II demonstrou que o balão intra-aórtico de contrapulsação não reduz a mortalidade do choque cardiogênico por IAM.
Pela definição Sepsis-3, sepse é disfunção orgânica aguda, potencialmente letal, secundária à resposta desregulada do hospedeiro à infecção, traduzida por aumento agudo de 2 pontos ou mais no escore SOFA. Choque séptico exige vasopressor para manter PAM maior ou igual a 65 mmHg E lactato maior que 2 mmol/L persistente após reposição volêmica adequada, com mortalidade hospitalar acima de 40% na coorte de derivação. O qSOFA (frequência respiratória maior ou igual a 22 irpm, Glasgow menor que 15 e PAS menor ou igual a 100 mmHg) é ferramenta de triagem: 2 ou mais critérios elevam o risco e mandam escalar o cuidado. O bundle de 1 hora determina: medir lactato, colher hemoculturas antes do antibiótico, iniciar antimicrobiano de amplo espectro, infundir 30 mL/kg de cristaloide na hipotensão ou lactato maior ou igual a 4 mmol/L e iniciar vasopressor se a hipotensão persistir durante ou após a reposição.
Na anafilaxia, o tratamento imediato é adrenalina intramuscular na dose de 0,3 a 0,5 mg (0,01 mg/kg em crianças) na face anterolateral da coxa, repetida a cada 5-15 minutos se necessário, com paciente em decúbito dorsal e pernas elevadas, oxigênio de alto fluxo e reposição agressiva com cristaloide (1 a 2 L) pela vasoplegia e extravasamento plasmático. Antihistamínicos e corticoides são coadjuvantes e jamais substituem a adrenalina, cujo atraso é o principal fator associado a óbitos. No choque neurogênico (lesão medular acima de T4-T6), a perda do tônus simpático gera hipotensão com bradicardia paradoxal e pele quente e seca abaixo da lesão: trata-se com noradrenalina (predomínio alfa) e atropina se bradicardia significativa, com reposição volêmica criteriosa, pois a vasoplegia não é hipovolemia.
Toda terapia do choque persegue as mesmas metas: PAM maior ou igual a 65 mmHg, diurese maior ou igual a 0,5 mL/kg/h, lactato em queda e nível de consciência preservado, sem esquecer que congestão e balanço hídrico muito positivo pioram o prognóstico. Escolha do fluido: cristaloides balanceados são preferidos ao salino 0,9% na sepse (recomendação da Surviving Sepsis 2021); amidos (HES) são evitados por nefrotoxicidade; albumina 4-5% é opção em selecionados, evitada em trauma craniano. Vasopressores idealmente por acesso central, mas a noradrenalina nunca deve ser atrasada por falta de acesso central no hipotenso que não responde a volume — via periférica é aceitável na emergência.
| Droga | Dose usual IV contínua | Ação predominante | Indicação de destaque |
|---|---|---|---|
| Noradrenalina | 0,01-1,0 mcg/kg/min (iniciar por volta de 0,05) | Alfa-1 maior que beta-1 | Primeira linha no choque séptico, no neurogênico e na maioria dos choques vasoplégicos |
| Adrenalina | 0,01-0,5 mcg/kg/min | Beta em doses baixas; alfa em doses altas | Choque séptico refratário; anafilaxia (IM 0,3-0,5 mg); bradicardia com choque |
| Vasopressina | 0,03 U/min em dose fixa | Receptor V1, não adrenérgico | Poupadora de noradrenalina no choque séptico; não se titula de rotina |
| Dobutamina | 2,5-20 mcg/kg/min | Beta-1 maior que beta-2 | Débito baixo com resistências vasculares adequadas (choque cardiogênico) |
| Fenilefrina | 0,5-6 mcg/kg/min | Alfa-1 puro | Taquiarritmias refratárias; não é droga de rotina |
| Hidrocortisona | 200 mg/dia (50 mg a cada 6 horas) | Glicocorticoide | Choque séptico dependente de vasopressor em doses crescentes |
Suporte geral que vale ponto de prova: antibioticoterapia nas primeiras 3 horas (idealmente 1 hora no choque séptico), sem atrasar indevidamente as culturas; controle do foco infeccioso (drenagem, desbridamento, retirada de dispositivo) nas primeiras 6-12 horas; ventilação protetora com volume corrente de 6 mL/kg de peso previsto se houver SDRA; transfusão com alvo de hemoglobina de 7 g/dL no paciente clínico estável; venotromboprofilaxia assim que o risco permita.
O choque não revertido evolui com falência de órgãos: lesão renal aguda (30-40% dos choques sépticos), SDRA, disfunção hepática, coagulopatias (incluindo a coagulopatia traumática do choque hemorrágico), encefalopatia, miopatia adquirida da UTI e imunossupressão tardia. Fatores de pior prognóstico: idade avançada, imunossupressão, neoplasia ativa, lactato inicial alto com clearance lento, demora para antibiótico e para controle de fonte e dependência progressiva de vasopressores. O seguimento imediato é a reavaliação da perfusão a cada 1-2 horas (lactato, diurese, enchimento capilar, consciência) e o desmame do vasopressor assim que a PAM se sustentar acima de 65 mmHg com perfusão adequada.
1.Em termos fisiopatológicos, choque é melhor definido como:
2.Mulher de 62 anos, 5º dia de pós-operatório, apresenta dispneia súbita, PAS 78 mmHg, FC 120 bpm, jugulares ingurgitadas e ecografia à beira do leito mostrando ventrículo direito dilatado e hipocinético. Qual o mecanismo do choque?
3.Homem de 25 anos, vítima de colisão de motocicleta, chega com FC 132 bpm, PAS 84 mmHg, FR 34 irpm, confuso e com diurese de 10 mL/h. Segundo a classificação do ATLS, trata-se de choque hemorrágico de classe:
4.Segundo as definições Sepsis-3, choque séptico é caracterizado por:
5.Qual vasopressor deve ser escolhido em primeira linha para o choque séptico?
6.Homem vítima de trauma com lesão medular cervical chega com PAS 70 mmHg, FC 48 bpm e pele quente e seca abaixo da lesão. Qual a interpretação e a conduta mais adequada?
7.Paciente com linfoma apresenta dispneia, PAS 76 mmHg, jugulares ingurgitadas, pulsus paradoxus de 14 mmHg e abafamento das bulhas cardíacas. Qual a conduta imediata?
8.Sobre o lactato no choque séptico, qual afirmação é correta?
9.Adulto com anafilaxia por veneno de abelha, hipotenso e com sibilos difusos. Qual a conduta imediata?
10.Politraumatizado chega hipotenso, com jugulares ingurgitadas, ausência de murmúrio vesicular e timpanismo à direita e desvio de traqueia à esquerda. Qual a primeira conduta?
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