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Revisão das urgências metabólicas com foco na sala de emergência: abordagem da acidose metabólica com gap aniônico elevado, critérios diagnósticos com valores e gravidade da cetoacidose diabética e do estado hiperglicêmico hiperosmolar, protocolo de tratamento com doses de fluidos, insulina, potássio e bicarbonato, cetoacidose euglicêmica por iSGLT2, acidose láctica, cetoacidose alcoólica e tratamento da hipoglicemia com doses.
[1] Umpierrez GE, Dhatariya K, McCoy RG, et al. Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes: A Consensus Report. Diabetes Care. 2024 · DOI 10.2337/dci24-0032 | [2] Kraut JA, Madias NE. Lactic acidosis. N Engl J Med. 2014;371(24):2309-2319 · DOI 10.1056/NEJMra1309483 | [3] Cryer PE, Axelrod L, Grossman AB, et al. Evaluation and Management of Adult Hypoglycemic Disorders: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2009;94(3):709-728 · DOI 10.1210/jc.2008-1410 | [4] Wrenn KD, Slovis CM, Minion GE, Rutkowski R. The syndrome of alcoholic ketoacidosis. Am J Med. 1991;91(2):119-128 · DOI 10.1016/0002-9343(91)90003-G | [5] Kuppermann N, Ghetti S, Schunk JE, et al. Clinical Trial of Fluid Infusion Rates for Pediatric Diabetic Ketoacidosis. N Engl J Med. 2018;379(24):2275-2287 · DOI 10.1056/NEJMoa1716816 | [6] Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretrizes Oficiais da Sociedade Brasileira de Diabetes 2023-2024. São Paulo: SBD · sbd.org.br · DOI 10.2337/dci24-0032
As urgências metabólicas compartilham uma porta de entrada comum: o paciente chega à emergência com respiração alterada, dor abdominal, confusão mental ou rebaixamento de consciência, e a chave do diagnóstico está na gasometria arterial associada à glicemia, eletrólitos e lactato. A cetoacidose diabética (CAD) e o estado hiperglicêmico hiperosmolar (EHH) são as emergências hiperglicêmicas, com mortalidade que varia de menos de 1% na CAD bem tratada em serviços estruturados até 5 a 20% no EHH, majoritariamente em idosos com comorbidades e diagnóstico tardio. Somam-se a elas a acidose láctica, marcador de hipoperfusão e hipóxia tecidual associado à mortalidade hospitalar elevada quando persistente, a cetoacidose alcoólica e a hipoglicemia, urgência que mata em minutos quando não reconhecida. O objetivo desta revisão é padronizar a leitura do gap aniônico, os critérios com valores e o tratamento com doses para cada uma dessas situações.
Diante de pH baixo e bicarbonato reduzido, o primeiro passo é calcular o gap aniônico: sódio menos (cloreto mais bicarbonato), com intervalo normal de 3 a 11 mEq/L, corrigindo 2,5 mEq/L para cada unidade de albumina abaixo de 4 g/dL. Gap normal com acidose metabólica aponta para perda renal ou digestiva de bicarbonato ou acidose tubular; gap elevado obriga a percorrer a memória GOLDMARK: glicois (etileno glicol e propilenoglicol), oxoprolina (paracetamol crônico), lactato L e D, metanol, aspirina e salicicatos, insuficiência renal e cetoacidose (diabética, alcoólica ou de jejum). O delta ratio (variação do gap dividida pela queda do bicarbonato) ajuda a identificar distúrbios mistos: razão menor que 0,4 sugere perda de bicarbonato associada, entre 0,4 e 0,8 cetoacidose ou acidose láctica típicas e maior que 1 sugere acidose láctica grave ou intoxicação por álcoois. A osmolalidade efetiva, calculada como duas vezes o sódio mais glicemia dividida por 18, distingue o EHH e levanta a hipótese de tóxico osmolar quando medida menos calculada excede 10 mOsm/kg.
| Variável | CAD | EHH | Cetoacidose alcoólica | Acidose láctica |
|---|---|---|---|---|
| Glicemia | maior que 250 mg/dL | maior que 600 mg/dL | baixa, normal ou levemente alta | normal ou variável |
| pH e bicarbonato | pH menor que 7,30 e HCO3 menor que 18 | pH maior que 7,30 e HCO3 maior ou igual a 18 | pH variável, frequentemente 7,1-7,3 | pH baixo com gap proporcional |
| Cetonas | presentes, beta-hidroxibutirato 3 mmol/L ou mais | ausentes ou vestigiais | presentes, beta-hidroxibutirato predominante | ausentes |
| Osmolalidade efetiva | variável | maior que 320 mOsm/kg | normal ou levemente alta | normal |
| Perfil típico | DM1 jovem, início em horas, 1 a 2 dias | DM2 idoso, início em dias a semanas | Etilismo crônico, jejum, vômitos | Choque, sepse, hipóxia, metformina |
| Prioridade terapêutica | fluidos, insulina venosa e potássio | reposição volêmica agressiva e insulina | soro glicosado, tiamina e eletrólitos | tratar a causa e a perfusão |
A CAD resulta de déficit absoluto ou relativo de insulina combinado ao excesso de hormônios contrarregulatórios (glucagon, cortisol, catecolaminas, hormônio do crescimento). Sem insulina ativa, a hiperglicemia decorre de gluconeogênese e glicogenólise intensas; a glicose ultrapassa o limiar renal de aproximadamente 180 mg/dL, gera diurese osmótica e provoca perda hídrica de cerca de 100 mL/kg (5 a 8 litros no adulto), além de depleção de sódio, potássio, fósforo e magnésio. A lipólise descontrolada fornece ácidos graxos ao fígado, onde a beta-oxidação gera corpos cetônicos: acetoacetato, beta-hidroxibutirato (majoritário, 3 a 10 vezes mais) e acetona. Os corpos cetônicos consomem bicarbonato e instalam acidose metabólica com gap elevado, com respiração de Kussmaul compensatória e hálito cetônico frutado. Os gatilhos clássicos seguem o roteiro I de intercorrência: infecção (30 a 40% dos episódios, com pneumonia e infecção urinária à frente), suspensão ou dose insuficiente de insulina (a causa mais frequente em DM1), infarto agudo do miocárdio silente, AVC, pancreatite, gestação, corticoides, antipsicóticos atípicos e, cada vez mais, os inibidores de SGLT2, que produzem cetoacidose euglicêmica com glicemia inferior a 200 a 250 mg/dL.
O quadro clássico reúne, em ordem de frequência: poliúria e polidipsia, perda ponderal rápida, náuseas e vômitos, dor abdominal difusa que simula abdome agudo cirúrgico (a cetose e a hipocalemia distendem a musculatura lisa gástrica e intestinal), respiração de Kussmaul profunda e cadenciada, hálito cetônico e rebaixamento do nível de consciência proporcional à osmolalidade, e não ao pH. Exames iniciais obrigatórios: glicemia, gasometria arterial, eletrólitos com cálculo do sódio corrigido (somar 1,6 a 2,4 mEq/L para cada 100 mg/dL de glicose acima de 100), ureia e creatinina, cetonas capilares ou beta-hidroxibutirato sérico, hemograma (leucocitose proporcional à cetose, não necessariamente infecção), ECG para avaliar efeitos do potássio e radiografia quando suspeita de foco infeccioso. Paciente em uso de iSGLT2, gestante ou com redução da filtração glomerular pode ter CAD com glicemia normal, a cetoacidose euglicêmica: a glicosúria persistente do fármaco mantém a glicemia mais baixa enquanto a cetogênese avança, e o atraso diagnóstico eleva a mortalidade; nesses casos, dosar cetonas diante de qualquer sintoma compatível, independentemente da glicemia.
| Gravidade | pH | Bicarbonato (mEq/L) | Gap aniônico | Nível de consciência |
|---|---|---|---|---|
| Leve | 7,25 a 7,30 | 15 a 18 | maior que 10 | alerta |
| Moderada | 7,00 a 7,24 | 10 a 15 | maior que 12 | alerta ou sonolento |
| Grave | menor que 7,00 | menor que 10 | maior que 12 | obnubilado, torporoso ou comatoso |
O EHH instala-se ao longo de dias a semanas: há insulina residual suficiente para frear a lipólise e a cetogênese, mas insuficiente para controlar a glicemia, que supera 600 mg/dL e gera diurese osmótica persistente, desidratação devastadora de 100 a 200 mL/kg (8 a 12 litros) e osmolalidade efetiva maior que 320 mOsm/kg. O paciente típico é idoso com DM2, muitas vezes sem diagnóstico prévio ou com acesso limitado à água, residindo em instituição de longa permanência. O quadro é dominado por desidratação mucocutânea, olhos fundos, taquicardia, hipotensão e sintomas neurológicos proporcionais à osmolalidade: letargia, desorientação, mutismo, convulsões focais e coma. Complicações características: eventos trombóticos arteriais e venosos (a anticoagulação profilática está indicada na ausência de contraindicação), rabdomiólise, lesão renal aguda e síndrome compartimental por reposição tardia. Critérios: glicemia maior que 600 mg/dL, osmolalidade efetiva maior que 320, pH maior que 7,30, bicarbonato maior ou igual a 18, cetonas ausentes ou vestigiais e gap aniônico menor que 12.
O lactato é o produto final da glicólise anaeróbia; valores normais situam-se entre 0,5 e 2 mmol/L, e níveis de 4 mmol/L ou mais marcam hipoperfusão significativa e elevam de forma independente o risco de morte, mortalidade da ordem de 25 a 30% nas coortes de sepse. A classificação clássica de Cohen e Woods separa o tipo A, com hipóxia tecidual manifesta (choque de qualquer causa, hipoxemia grave, anemia intensa, exercício extenuante, convulsão), do tipo B, sem choque evidente: tipo B2 por drogas e toxinas (metformina, sobretudo com insuficiência renal, antirretrovirais inibidores da transcriptase reversa, propofol, catecolaminas exógenas, alcohóis, salicilatos), B3 por doenças associadas (sepse, neoplasias, insuficiência hepática, diabetes descompensado, deficiência de tiamina) e B1 por erros inatos do metabolismo. Na prática da emergência, a conduta é tratar a causa: expandir volume e controlar a fonte infecciosa na sepse, interromper a metformina e considerar diálise na acidose grave com falência renal, administrar tiamina 100 a 200 mg intravenosa no alcoolismo e na desnutrição e corrigir hipoxemia. Não há benefício demonstrado do bicarbonato na acidose láctica, exceto como medida de resgate transitória em pH menor que 7,1 com instabilidade.
A cetoacidose alcoólica acomete o bebedor crônico que reduz a ingestão alimentar e de álcool após dias de vômitos e dor abdominal: o estado de jejum e o excesso de cortisol e glucagon mantêm cetogênese hepática intensa, com beta-hidroxibutirato predominante, gap elevado e glicemia baixa, normal ou moderadamente alta. No estudo clássico de Wrenn, a série de 74 pacientes mostrou náuseas em cerca de 75% dos casos, vômitos e dor abdominal frequentes e dor abdominal como queixa principal em grande parte. O tratamento é salina com glicose 5% (a glicose interrompe a cetogênese e poupa proteólise), tiamina 100 mg intravenosa antes ou junto da glicose, reposição de potássio, magnésio e fosfato e afastar causas associadas, incluindo pancreatite, gastrite e sepse; insulina só se houver CAD verdadeira associada. A hipoglicemia define-se pela tríade de Whipple: sintomas compatíveis, glicemia baixa medida e alívio com a correção. Classifica-se em nível 1 (inferior a 70 mg/dL), nível 2 (inferior a 54 mg/dL, clinicamente significativo) e nível 3 (grave, rebaixamento que impede o autocuidado). Paciente consciente recebe 15 a 20 g de carboidrato de rápida absorção com reavaliação em 15 minutos; paciente inconsciente com acesso venoso recebe glicose 50% 25 g (50 mL) intravenosa, com alternativa crescente de glicose 10% 250 mL em infusão, mais segura para as veias; sem acesso venoso, glucagon 1 mg intramuscular ou subcutânea (0,5 mg se peso inferior a 25 kg). Hipoglicemia por sulfonilureia tem risco de recorrência horas depois e trata-se com octreotida 50 a 100 microgramas subcutâneas a cada 8 horas após a correção inicial; no etilista e no desnutrido, administrar tiamina 100 a 200 mg intravenosa junto com a glicose para prevenir encefalopatia de Wernicke.
As complicações da CAD e do EHH dividem-se entre as da doença e as do tratamento: edema cerebral (sobretudo pediátrico), hipopotassemia e arritmias, hipoglicemia iatrogênica, acidose de rebote, broncoaspiração no paciente com vômitos e rebaixamento, lesão renal aguda, trombose venosa e arterial no EHH, síndrome compartimental e, na CAD pediátrica, lesão neurológica persistente nos casos de edema cerebral. O prognóstico depende do reconhecimento precoce: a mortalidade da CAD em adultos fica abaixo de 1% em serviços estruturados, mas sobe em idosos com doenças associadas e no EHH, em que chega a 5 a 20%. A alta exige: gap aniônico normalizado, pH maior que 7,30, paciente alimentado, esquema basal-bolus instalado com sobreposição correta da insulina venosa, gatilho identificado e tratado e, fundamentalmente, educação em diabetes revisitada, pois a causa mais comum de CAD recorrente é a suspensão da insulina, seja por custo, seja por falta de compreensão de que a insulina basal não deve ser interrompida em nenhum dia de doença intercorrente.
1.Homem de 28 anos com DM1 chega com dispneia de Kussmaul, hálito cetônico, glicemia 480 mg/dL, pH 7,10, bicarbonato 9 mEq/L e potássio 3,0 mEq/L. Antes de iniciar a insulina venosa, a conduta obrigatória é:
2.A respeito do tratamento da CAD com insulina venosa contínua, o esquema padrão em adultos é:
3.Durante o tratamento da CAD, a glicemia atinge 180 mg/dL, mas o gap aniônico continua em 22 e o pH é 7,28. A conduta correta é:
4.Idosa de 76 anos, DM2, há 5 dias de sonolência progressiva e recusa hídrica: glicemia 940 mg/dL, sódio 158 mEq/L, osmolalidade efetiva 354 mOsm/kg, pH 7,34, bicarbonato 21 mEq/L, cetonas negativas. O diagnóstico e a prioridade são:
5.Paciente com DM2 em uso de dapagliflozina apresenta náuseas e dispneia com glicemia 190 mg/dL, pH 7,18, bicarbonato 12 mEq/L e beta-hidroxibutirato 4,8 mmol/L. A explicação fisiopatológica é:
6.Sobre o uso de bicarbonato de sódio na CAD, a indicação atual restringe-se a:
7.O lactato de 5,2 mmol/L em paciente com sepse urinária e hipotensão classifica-se e orienta-se como:
8.Bebedor crônico chega com vômitos há 2 dias, abdome difusamente doloroso, glicemia 140 mg/dL, pH 7,22, gap 19 e beta-hidroxibutirato elevado, sem leucocitose desproporcional. O tratamento de primeira linha é:
9.Paciente encontrada inconsciente em casa, sem acesso venoso palpável, com glicemia capilar de 32 mg/dL por tira refletiva. A conduta imediata é:
10.Após correção de hipoglicemia de 38 mg/dL em usuário de glibenclamida, a medida que previne a recidiva é:
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