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Da anamnese à ausculta: roteiro completo da semiologia respiratória com padrões respiratórios, notas de percussão, ruídos adventícios, manobras vocais e a tabela-síntese das síndromes de consolidação, derrame pleural, pneumotórax e hiperinsuflação. Inclui a precisão diagnóstica dos sinais segundo a literatura de exame físico baseado em evidências.
[1] Porto CC, Porto AL. Exame Clínico: Propedêutica Médica. 7ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2012 | [2] Bickley LS. Bates' Guide to Physical Examination and History Taking. 13ª ed. Philadelphia: Wolters Kluwer; 2021 | [3] McGee S. Evidence-Based Physical Diagnosis. 4ª ed. Philadelphia: Elsevier; 2017 | [4] Metlay JP, Kapoor WN, Fine MJ. Does this patient have community-acquired pneumonia? Diagnosing pneumonia by history and physical examination. JAMA. 1997;278(17):1440-1445. PMID 9356004
Antes de qualquer radiografia, é a anamnese e o exame físico do tórax que definem a hipótese diagnóstica, a gravidade e a velocidade da conduta. A evidência clássica é a da série Rational Clinical Examination: nenhum sintoma ou sinal isolado confirma ou exclui pneumonia, mas conjunto de sinais vitais alterados com exame pulmonar anormal muda substancialmente a probabilidade — e um exame normal com vitais normais a reduz de forma importante. Para a prova, a semiologia pulmonar se organiza em quatro tempos (inspeção, palpação, percussão e ausculta) e desagua em um único quadro: a tabela dos padrões sindrômicos, que traduz cada combinação de achados em uma síndrome — consolidação, derrame, pneumotórax, atelectasia ou hiperinsuflação. Esta revisão percorre os quatro tempos com valores, técnicas e a acurácia real de cada sinal.
A anamnese respiratória segue a sequência sintomatológica clássica — tosse, expectoração, hemoptise, dispneia, dor torácica, sibilos e estridor — com características que funcionam como assinaturas. Tosse seca noturna sugere asma ou congestão; produtiva matinal com expectoração mucopurulida sugere bronquite crônica e DPOC; expectoração ferruginosa (cor de ferrugem) é tradicional da pneumonia pneumocócica; hemoptise obriga a investigar tuberculose, bronquiectasia, neoplasia e tromboembolismo. A dispneia deve ser quantificada por escala (mMRC 0 a 4 ou Borg 0 a 10) e caracterizada por tempo de início, posição (ortopneia, dispneia paroxística noturna) e esforço. A dor torácica pleurítica (agravada pela respiração profunda e tosse, localizada) aponta pleura; já a retroesternal em aperto sugere origem cardíaca, e a que piora com decúbito pode ser pericárdica (atrito).
A inspeção começa antes de tocar o paciente: conte a frequência respiratória em 30 a 60 segundos com o paciente distraído (o momento de medir a pressão é ideal) e observe o padrão, o trabalho respiratório e o formato do tórax. Os padrões respiratórios têm nome próprio e dono clínico — pegadinha recorrente de prova.
| Padrão | Característica | Associação clínica típica |
|---|---|---|
| Taquipneia | FR maior que 20 irpm no adulto | Pneumonia, sepse (≥ 22 é qSOFA), acidose metabólica, embolia pulmonar, dor |
| Bradipneia | FR menor que 12 irpm | Depressão por opioides e sedativos, hipertensão intracraniana, hipotireoidismo |
| Kussmaul | Respiração profunda e rápida, suspirosa, sem pausas | Acidose metabólica (cetoacidose diabética, uremia, intoxicação por salicilatos) |
| Cheyne-Stokes | Crescendo-decrescendo com pausas de apneia em ciclo | Insuficiência cardíaca avançada, lesões neurológicas, altitude; comum no idoso durante o sono |
| Biot | Respiração rápida e superficial com pausas abruptas e irregulares | Lesão bulbar, meningite grave, hipertensão intracraniana iminente |
| Lábios franzidos | Expiração contra lábios semicerrados, posição trípode | DPOC avançado (a franzadura cria pressão positiva que evita o colapso expiratório) |
Sinais de aumento do trabalho respiratório: tiragem intercostal, subesternal e supraesternal (retração dos espaços intercostais e da foice xifoidea), batimento das asas do nasais, uso dos músculos acessórios (esternocleidomastóideo e escalenos) e respiração paradoxal. Na inspeção estática, avalie a simetria da expansão (uma base imóvel sugere derrame ou atelectasia), o formato do tórax (tórax em barril com aumento do diâmetro anteroposterior no enfisema; peito escavado e peito de pombo, geralmente sem repercussão funcional significativa; cifoescoliose, que causa restrição), a traqueia (desvio: puxada para o lado de atelectasia ou retração, empurrada para o lado oposto no pneumotórax e derrame volumosos), cicatrizes cirúrgicas, feridas e deformidades. Estigmas periféricos: cianose central (lábios e língua, exige cerca de 5 g/dL de hemoglobina reduzida, em geral com saturação abaixo de 85%) e baqueteamento digital dos dedos (sinal de Schamroth: desaparecimento do losango normal entre as unhas de dois dedos opostos) — no contexto respiratório, associado a bronquiectasias, abscesso pulmonar, cáncer e fibrose; na semiologia brasileira clássica, até 80% dos casos de hipocratismo digital têm causa cardiopulmonar.
A percussão compara áreas simétricas de ápice a base, dedo plessímetro firmemente aplicado entre os espaços intercostais e percussão com o dedo plessor sobre a falange distal. O som claro pulmonar (ressonante) é o normal; dele partem as cinco notas clássicas que mapeiam a densidade do tecido subjacente.
| Nota de percussão | Qualidade do som | Exemplos clássicos |
|---|---|---|
| Som claro pulmonar | Ressonante, grave, longo | Parênquima pulmonar normal |
| Macicez | Grave, curto, seco | Consolidação (pneumonia), derrame pleural, atelectasia, parede torácica espessa |
| Submacicez | Intermediária | Consolidação parcial, pequenas atelectasias, espessamento pleural |
| Hiper-ressonância ou hipersonoridade | Mais ressonante que o normal | Hiperinsuflação do enfisema, bolhas enfisematosas |
| Timpânica | Timbrada, musical | Pneumotórax, grande cavidade comunicante com o brônquio; área gástrica normal |
Delimitações que caem em prova: o istmo de Kroenig (faixa de som claro sobre os ápices, estreitada na fibrose apical e na tuberculose), os espaços de Traube (timpânicos pelo fundo gástrico, no hipocôndrio esquerdo anterior — a macicez ali sugere derrame pleural esquerdo ou esplenomegalia), a matidez hepática (altura hepática à percussão na linha hemiclavicular direita, de aproximadamente 6 a 12 cm no adulto, rebaixada na hiperinsuflação) e a linha horizontal de macicez do derrame pleural, que se desloca com a mudança de decúbito (macicez móvel, sinal clássico do derrame livre). A regra prática: sempre percuta os dois hemitórax de forma comparativa, de cima para baixo, em posições simétricas.
Ausculte da forma sistemática: compare áreas simétricas, das ápices às bases, anterior e posteriormente, com o paciente respirando pela boca, com inspirações profundas, e avise-o para descansar se tonturar (hiperventilação). O murmúrio vesicular (também chamado murmúrio vésico-pulmonar) é o som normal do parênquima: fase inspiratória mais longa e contínua que a expiratória (relação aproximada de 3:1), sem intervalo entre elas, gerado pela turbulência nos brônquios e filtrado pelo pulmão normal. O sopro brônquico (respiração brônquica, ou tubária) tem expiração mais longa e sonoridade mais grave e oca — normal sobre a traqueia e a bifurcação brônquica (região pré-esternal e interescapular), mas patológico sobre o parênquima quando há consolidação que transmite o som brônquico à periferia. O sopro broncovesicular é intermediário, normal nos ápices e próximo ao esterno. Sons globalmente abafados sugerem interfase de ar (derrame, pneumotórax, obesidade, enfisema).
| Ruído | Características acústicas | Significado clínico |
|---|---|---|
| Crepitantes finos | Finais de inspiração, em sequência, não mudam com a tosse (som de Velcro) | Fibrose intersticial, edema alveolar (insuficiência cardíaca), fase inicial de consolidação |
| Crepitantes grossos | Bolhosos, mais precoces, mudam de timbre com a tosse e a drenagem postural | Secreções em brônquios de calibre maior (bronquites, bronquiectasias, pneumonia em idosos) |
| Sibilos polifônicos | Musical, expiratório, em múltiplos timbres, difuso | Asma e DPOC (broncoespasmo difuso); melhoram com broncodilatador |
| Sibilo monofônico fixo | Um único timbre, localizado, não desaparece com tosse | Obstrução localizada: tumor, corpo estranho, compressão extrínseca |
| Estridor | Musical alto, inspiratório (ou bifásico), audível a distância | Obstrução da via aérea CENTRAL (laringe, traqueia): emergência — edema, corpo estranho, epiglotite, angioedema |
| Atrito pleural | Raspante, superficial, em duas fases, doloroso à respiração profunda | Pleurite inflamatória (o atrito pericárdico, o diferencial, não se modifica com a respiração) |
As manobras vocais exploram a mesma física do frêmito — a consolidação transmite melhor as vibrações sonoras, e as interfaces de ar as abafam. Peça ao paciente que diga a palavra e (como em escola) ou repita frases: na pectorilóquia vocal (voz pectorilóqua), as palavras são percebidas nitidamente através do tórax sobre área de consolidação densa; na egofonia, o e falado é ouvido como a (timbre nasal, afrancesado), assinatura clássica da pneumonia; no sussurro pectorilóquo, sussurros quase inaudíveis chegam nítidos ao fonendo sobre pulmão consolidado — considerado entre os achados de maior especificidade para consolidação no exame físico. Todas abafam-se sobre derrame e pneumotórax, exatamente como o murmúrio vesicular.
| Síndrome | Inspeção e palpação | Frêmito | Percussão | Ausculta |
|---|---|---|---|---|
| Consolidação (pneumonia) | Expansão localmente reduzida | Aumentado | Macicez ou submacicez | Sopro brônquico/tubário, crepitantes, egofonia e pectorilóquia |
| Derrame pleural | Expansão da base reduzida, traqueia pode desviar para o lado oposto se volumoso | Diminuído ou abolido na base | Macicez com nível horizontal (linha de macicez móvel) | Murmúrio vesicular abafado ou abolido; atrito pleural se derrame pequeno; hiper-ressonância de Skoda imediatamente acima do derrame |
| Pneumotórax | Hemitórax imóvel, aumentado; traqueia desviada para o lado oposto no hipertensivo | Abolido | Hiper-ressonância ou timpanismo | Murmúrio vesicular abolido; voz anfórica (sopro anfórico) sobre grande cavidade |
| Atelectasia (obstrutiva) | Retração do hemitórax, traqueia desviada PARA o lado da lesão, espaço intercostal reapertado | Diminuído | Macicez | Murmúrio vesicular abolido ou muito abafado (brônquio obstruído: sem sopro brônquico, sem egofonia) |
| Hiperinsuflação (enfisema/DPOC) | Tórax em barril, diâmetro AP aumentado, expansibilidade global reduzida | Diminuído difusamente | Hiper-ressonância difusa, matidez hepática rebaixada | Murmúrio vesicular difusamente abafado, expiração prolongada, sibilos na exacerbação |
| Síndrome intersticial (fibrose/edema) | Taquipneia, tiragem, respiração rápida e superficial | Normal ou pouco aumentado | Normal | Crepitantes finos basais difusos em inspiração final (Velcro), sem sopro brônquico |
A revisão de Metlay e colegas (JAMA, série Rational Clinical Examination) sistematizou a acurácia dos achados para pneumonia adquirida na comunidade: nenhum achado isolado é suficiente para confirmar ou excluir o diagnóstico; febre, taquipneia, macicez à percussão, aumento do frêmito e egofonia aumentam a probabilidade da doença; a macicez à percussão é altamente específica (razão de verossimilhança positiva em torno de 8), porém de baixa sensibilidade, aparecendo apenas em minoria dos casos confirmados; e a combinação de sinais vitais normais com exame pulmonar normal reduz substancialmente a probabilidade, embora não a exclua em paciente com suspeita alta. Em números práticos: tosse e febre têm sensibilidades na faixa de 70-90%, mas especificidades modestas, e a radiografia de tórax permanece o exame confirmatório de rotina. A tradução clínica: use o exame físico para estratificar e localizar a síndrome, e a imagem para confirmar.
Dois exemplos rápidos de aplicação. Primeiro: idoso com febre, tosse produtiva e, na ausculta, sopro brônquico na base direita com egofonia e frêmito aumentado — síndrome de consolidação; conduta: radiografia de tórax, cultura e antibioticoterapia conforme gravidade. Segundo: jovem alto e magro com dor pleurítica súbita à direita, hemitórax imóvel com timpanismo, frêmito e murmúrio abolidos — síndrome de pneumotórax; se houver desvio de traqueia e hipotensão, trate o pneumotórax hipertensivo clinicamente, com descompressão imediata, antes de qualquer imagem.
1.Paciente com febre e tosse apresenta frêmito vocal aumentado na base direita, macicez à percussão, sopro brônquico e egofonia. Qual a síndrome diagnóstica?
2.Idoso com DPOC chega com tórax em barril, diâmetro anteroposterior aumentado, expansibilidade globalmente reduzida e percussão com hiper-ressonância difusa. O achado auscultatório esperado é:
3.Sobre os crepitantes (estertores), qual afirmação é correta?
4.Paciente em cetoacidose diabética apresenta respiração profunda, rápida e suspirosa, com pausas regulares. Qual o padrão e seu mecanismo?
5.Jovem com dor pleurítica súbita à esquerda: frêmito abolido, timpanismo à percussão e ausência de murmúrio vesicular no hemitórax esquerdo. Qual a síndrome e a prioridade?
6.A egofonia (o som e falado percebido como a) é evidência semiológica de:
7.Sobre o derrame pleural, qual conjunto de achados é o esperado?
8.Criança chega com estridor inspiratório, voz abafada e sialorreia, sentada em posição de tripé. Qual a interpretação correta?
9.Ao examinar um paciente com suspeita de pneumonia, você percuta macicez na base direita. Segundo a evidência (Metlay, JAMA 1997), esse achado é:
10.A escala de dispneia mMRC e o cálculo de anos-maço são, respectivamente:
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