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Método completo de avaliação do aparelho locomotor: anamnese da dor musculoesquelética com diferenciação entre dor inflamatória e mecânica, exame físico segmentado em inspeção, palpação, amplitude de movimento, força pela escala MRC, avaliação de derrame articular e principais testes provocativos de ombro, joelho, coluna, quadril e punho com desempenho diagnóstico.
[1] Bickley LS. Bates Guia de Exame Físico e História Clínica. 13ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2022 | [2] Hoppenfeld S. Physical Examination of the Spine and the Extremities. Nova York: Appleton-Century-Crofts; 1976 | [3] Hebert S, Barros Filho TEP, Xavier R, Pardini Jr AG. Ortopedia e Traumatologia: Princípios e Prática. 5ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2017 | [4] Rudwaleit M, van der Heijde D, Khan MA, Braun J, Sieper J. How to diagnose axial spondyloarthritis early. Ann Rheum Dis. 2004;63(5):535-43 · DOI 10.1136/ard.2003.011247 | [5] Solomon DH, Simel DL, Bates DW, Katz JN, Schaffer JL. Does this patient have a torn meniscus or ligament of the knee? Value of the physical examination. JAMA. 2001;286(13):1610-20 · DOI 10.1001/jama.286.13.1610 | [6] Aids to the Examination of the Peripheral Nervous System. 5ª ed. Edimburgo: Saunders Elsevier; 2010 · DOI 10.1001/jama.286.13.1610
As queixas musculoesqueléticas figuram entre os três motivos mais frequentes de demanda ambulatorial no mundo e no Brasil, abrangendo desde lombalgias mecânicas banais até monoartrites sépticas que ameaçam a articulação em horas. A semiologia osteomuscular bem executada resolve a grande maioria desses casos sem qualquer exame complementar, porque a anamnese separa dor inflamatória de dor mecânica e o exame físico localiza a estrutura doente: osso, articulação, inserção tendínea, músculo ou nervo. O método deve ser sempre o mesmo e nesta ordem: inspeção, palpação, amplitude de movimento, força muscular, testes provocativos específicos e, quando indicado, avaliação neurovascular. Para a prova, os pontos de maior rendimento são a tabela de dor inflamatória versus mecânica, a escala MRC de força, os sinais de derrame articular, o teste de Schober modificado, o Lasègue e seu cruzado, e os limiares de normalidade das amplitudes articulares.
A anamnese deve caracterizar a dor em sete dimensões: localização e irradiação, modo de início, intensidade, qualidade, cronologia, fatores de melhora e piora e manifestações associadas. Pergunte se a dor piora com o movimento e melhora com o repouso, se desperta o paciente à noite, quanto tempo dura a rigidez matinal, se há alteração de peso, febre, astenia, fenômeno de Raynaud, olho seco, feridas orais, uretrite ou diarreia prévia, psoríase, antecedente familiar de doença autoimune e uso recente de medicamentos. Dois dados epidemiológicos fecham o raciocínio: idade e sexo, porque artrite séptica e osteoartrite polarizam idades opostas da vida, e lombalgia inflamatória de homem jovem pede espondiloartrite axial.
| Característica | Dor inflamatória | Dor mecânica | Dor neuropática |
|---|---|---|---|
| Início e ritmo | Insidiosa, pior ao repouso e de madrugada | Aguda ou gradual, pior com o uso e ao fim do dia | Queimação, choque, fisgada |
| Rigidez matinal | Maior que 30 a 60 minutos, melhora com a atividade | Menor que 30 minutos | Não é sintoma dominante |
| Dor noturna | Comum e desperta o paciente | Ocasional e muda com a posição | Típica, em queimação |
| Sintomas sistêmicos | Febre baixa, fadiga, perda de peso | Ausentes | Ausentes |
| Resposta a anti-inflamatórios | Boa resposta | Resposta parcial | Pobre, melhora com gabapentinoides |
| Exemplos | Artrite reumatoide, espondiloartrites | Osteoartrite, tendinopatias, lombalgia mecânica | Radiculopatia, neuropatia diabética, túnel do carpo |
A inspeção começa com o paciente em pé, deambulando e descoberto: analisa-se simetria, alinhamento dos eixos (genovalgo e genuvaro, escoliose, desnivelamento de escápulas), deformidades (auge, cifose, antecurvato), aumento de volume, hiperemia, cicatrizes, fístulas, atrofias e postura antálgica. A marcha completa a inspeção: marcha antálgica encurta a fase de apoio do lado doloroso, a marcha de Trendelenburg abdute o tronco sobre o quadril deficitário por fraqueza do glúteo médio, e a marcha em degrau ou steppage denuncia paresia dos extensores do pé. A palpação segue uma ordem fixa por segmento: primeiro as estruturas ósseas e os acidentes anatômicos, depois as interlinhas articulares, e por último as inserções tendíneas e bolsas, sempre comparando com o lado contralateral. Dor à palpação pontual de uma interlinha sugere doença articular; dor em ponto único extra-articular, em inserção tendínea ou bursa, sugere doença periarticular, que é a causa mais comum de dor articular mal localizada.
A movimentação ativa é solicitada primeiro e avalia em conjunto força, controle neurológico e tolerância à dor; a movimentação passiva, executada pelo examinador, exclui a participação do paciente. A interpretação do par é um clássico de prova: quando a amplitude ativa e a passiva estão reduzidas na mesma proporção, a restrição é intrínseca à articulação, como na artrite, na artrose e na capsulite adesiva; quando a ativa está limitada mas a passiva se mantém integral, o problema é periarticular ou neuromuscular, como tendinopatias, rupturas tendíneas e dor inibitória. O padrão de restrição em cápsula também informa: a capsulite adesiva do ombro reduz classicamente rotação externa e abdução, e a osteoartrite de quadril reduz primeiro rotação interna e abdução. Os valores de normalidade a memorizar estão na tabela a seguir, medidos com goniômetro ou estimados com referências anatômicas.
| Articulação | Movimento | Valor normal aproximado |
|---|---|---|
| Ombro | Flexão / abdução | 180 graus / 180 graus |
| Ombro | Rotação externa / interna | 60 a 90 graus / 60 a 90 graus |
| Cotovelo | Flexão / extensão | 135 a 150 graus / 0 grau |
| Antebraço | Pronação / supinação | 80 a 90 graus / 80 a 90 graus |
| Quadril | Flexão com joelho fletido | 120 graus |
| Joelho | Flexão / extensão | 135 a 150 graus / 0 grau |
| Tornozelo | Dorsiflexão / flexão plantar | 20 graus / 45 a 50 graus |
| Coluna cervical | Rotação para cada lado | 60 a 80 graus |
A força é testada contra resistência manual aplicada no fim do arco do movimento, músculo a músculo ou grupo a grupo, e graduada pela escala do Medical Research Council, que vai de 0 a 5 e é a linguagem universal da documentação neuromuscular. Graus intermediários 4 menos, 4 e 4 mais subdividem a faixa contra resistência, e a assimetria entre os lados tem tanto valor quanto o valor absoluto. Dois sinais adicionam semiologia muscular importante: o sinal de Gowers, quando a criança se levanta do chão apoiando as mãos nas próprias pernas, indica fraqueza proximal de cintura pélvica, típica da distrofia muscular de Duchenne, acompanhada de pseudo-hipertrofia de panturrilhas; e a manobra de Froment, em que o polegar se flexiona na falange distal ao segurar um papel entre polegar e indicador, denuncia paralisia do nervo ulnar pelo comprometimento do adutor do polegar.
| Grau MRC | Definição |
|---|---|
| 0 | Nenhuma contração visível ou palpável |
| 1 | Contração visível ou palpável sem movimento |
| 2 | Movimento completo com eliminação da gravidade |
| 3 | Movimento completo contra a gravidade, sem resistência |
| 4 | Movimento completo contra a gravidade e resistência parcial |
| 5 | Força normal |
O joelho é o laboratório de semiologia de derrames, e a técnica começa com o paciente em decúbito dorsal e o joelho em extensão ou leve flexão de 15 a 30 graus, relaxado. O sinal da escovinha ou baloteio detecta derrames pequenos, na ordem de 5 a 15 mililitros: com a mão esquerda o examinador esvazia o fundo de saco suprapatelar comprimindo a região acima da patela e, com o dedo indicador direito, pressiona o ligamento patelar em direção ao côndilo externo; o liquido deslocado reaparece criando uma saliência medial, sinal positivo. O sinal da tecla, ou ballottement patelar, detecta derrames moderados a grandes, tipicamente acima de 20 a 30 mililitros: comprime-se o reaparecimento do líquido empurrando o líquido das fossas parapatelares com uma mão e, com a outra, pressiona-se a patela, que afunda e volta a tocar o sulco troclear com estalido perceptível. Dor à palpação da interlinha, calor difuso e aumento de volume com perda dos contornos definem sinovite clínica e devem ser medidos em perímetro e documentados.
A inspeção da coluna inclui o teste de Adams: paciente em flexão anterior do tronco, em que a gibosidade costal indica rotação vertebral da escoliose estrutural, ao contrário da escoliose postural que desaparece na flexão. O teste de Schober modificado quantifica a flexão lombar: marca-se o ponto médio entre as espinhas ilíacas postero-superiores e, a partir dele, 5 cm para baixo e 10 cm para cima; na flexão máxima, o ganho da distância entre as marcas externas deve ser de pelo menos 5 cm, e ganhos menores indicam limitação axial, típica de espondiloartrite axial. A expansibilidade torácica medida no quarto espaço intercostal é tipicamente de 4 a 7 centímetros no adulto; abaixo de 2,5 centímetros é critério de Nova York modificada para espondilite ancilosante. A percussão das apófises espinhosas dolorosa e localizada levanta suspeita de fratura, infecção ou metástase e, em lombalgia, dor à percussão sacroilíaca direcionada completa a pesquisa axial.
| Teste | Técnica | Interpretação |
|---|---|---|
| Lasègue | Elevação passiva da perna estendida até 30 a 70 graus | Dor irradiada em metâmero lombar sugere radiculopatia; sensibilidade alta em torno de 90%, especificidade baixa em torno de 25% |
| Lasègue cruzado | Elevação da perna assintomática | Dor na perna oposta; especificidade alta, em torno de 90%, com sensibilidade baixa, em torno de 30% |
| Schober modificado | Marcas de 5 cm abaixo e 10 cm acima das espinhas ilíacas | Ganho menor que 5 cm indica limitação da flexão lombar |
| Expansibilidade torácica | Diferença de perímetro torácico em inspiração e expiração | Menor que 2,5 cm no quarto espaço intercostal é critério de Nova York modificada |
| Spurling | Extensão e rotação cervical com compressão axial | Dor irradiada ao braço sugere radiculopatia cervical |
| Teste de Adams | Flexão anterior do tronco observada por trás | Gibosidade costal indica escoliose estrutural |
Os testes provocativos, também chamados manobras de estresse funcional, só têm valor quando correlacionados com a anamnese, porque isoladamente apresentam sensibilidades e especificidades modestas e variáveis entre estudos. Os valores a seguir são aproximações de médias das revisões de literatura de racional exame clínico e servem para hierarquizar, não para substituir o julgamento. No ombro, o sinal do arco doloroso entre 60 e 120 graus de abdução sugere síndrome do impacto ou lesão do manguito rotador; no joelho, o Lachman é o melhor teste para lesão do ligamento cruzado anterior; e no punho, Phalen e Tinel constroem o diagnóstico clínico de síndrome do túnel do carpo.
| Segmento | Teste | Avalia | Desempenho aproximado |
|---|---|---|---|
| Ombro | Neer | Impacto subacromial | Sensibilidade em torno de 75 a 85%, especificidade em torno de 50% |
| Ombro | Jobe ou can vazio | Tendão supraespinal | Sensibilidade moderada, queda do braço sugere ruptura extensa |
| Ombro | Apreensão e realocação | Instabilidade anterior | Especificidade alta quando positiva |
| Quadril | FABER ou Patrick | Coxartrose e articulação sacroilíaca | Inespecífico, útil como triagem combinada |
| Joelho | Lachman | Ligamento cruzado anterior | Sensibilidade em torno de 85%, especificidade em torno de 90% |
| Joelho | Gaveta anterior | Ligamento cruzado anterior | Sensibilidade menor que o Lachman, em torno de 60 a 70% |
| Joelho | McMurray | Lesão meniscal | Sensibilidade em torno de 55%, especificidade em torno de 70 a 75% |
| Punho | Phalen | Túnel do carpo | Sensibilidade em torno de 70%, especificidade em torno de 70% |
| Punho | Finkelstein | Tenossinovite de De Quervain | Dor no compartimento radial ao desviar o punho em ulnar com o polegar fechado |
| Mão | Froment | Nervo ulnar | Flexão compensatória do polegar ao segurar papel |
O objetivo final da semiologia osteomuscular é converter achados em síndromes com conduta própria. Padrões que devem sair automáticos: monoartrite aguda febril de joelho pede punção imediata e tratamento empírico para artrite séptica; poliartrite simétrica de pequenas articulações com rigidez matinal maior que uma hora em mulher de meia-idade pede investigação de artrite reumatoide com fator reumatoide e anti-CCP; dor lombar inflamatória em paciente menor de 45 anos com início insidioso, rigidez matinal maior que 30 minutos, melhora com exercício e não melhora com repouso define lombalgia inflamatória e levanta espondiloartrite axial, cujo diagnóstico precoce se apoia nos critérios de Berlim de dor inflamatória e na ressonância de articulações sacroilíacas; dor de ombro com arco doloroso e força conservada aponta impacto subacromial; e dor de quadril referida ao joelho em criança com manqueira exige imagem de quadril para afastar epifisiólise e doença de Perthes.
1.Paciente de 55 anos com dor há 3 meses nos joelhos: rigidez matinal de 10 minutos, piora ao subir escadas e ao fim do dia, sem sintomas sistêmicos. O padrão da dor é:
2.Ao examinar o ombro, você nota limitação idêntica da abdução e da rotação externa nos movimentos ativos e passivos, com dor ao fim de ambos os arcos. A limitação é:
3.Criança de 5 anos levanta-se do chão apoiando as mãos nas pernas e apresenta panturrilhas aumentadas e firmes. O sinal descrito e a doença sugerida são:
4.Na escala MRC, movimento completo do segmento contra a gravidade, mas sem vencer qualquer resistência, corresponde ao grau:
5.Qual manobra detecta derrame articular pequeno no joelho, na ordem de 5 a 15 mililitros?
6.O ganho da distância entre as marcas do Schober modificado na flexão lombar máxima que caracteriza limitação axial é:
7.Sobre o Lasègue e o Lasègue cruzado na suspeita de hérnia de disco lombar, é correto afirmar:
8.Melhor teste físico isolado para lesão do ligamento cruzado anterior do joelho:
9.O sinal de Froment avalia:
10.Articulação do joelho quente, inchada, extremamente dolorosa, com febre de 38,5 graus em paciente usuário de drogas injetáveis. A conduta imediata é:
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