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Revisão completa da semiologia abdominal, da anamnese da dor ao toque retal, com os três tipos de dor, manobras peritoneais, semiologia de fígado, baço e ascite, e tabela de sinais clássicos com desempenho diagnóstico baseado em evidência.
[1] Bickley LS. Bates' Guide to Physical Examination and History Taking. 13. ed. Philadelphia: Wolters Kluwer; 2021. ISBN 978-1496398178 | [2] Porto CC, Porto AL. Semiologia Médica. 7. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2014 | [3] McGee S. Evidence-Based Physical Diagnosis. 5. ed. Elsevier; 2025. ISBN 978-0-443-10584-5 | [4] Trowbridge RL, Rutkowski NK, Shojania KG. Does this patient have acute cholecystitis? JAMA. 2003;289(1):80-86. DOI 10.1001/jama.289.1.80 · DOI 10.1001/jama.289.1.80
Dor abdominal e queixas digestivas estão entre os motivos de consulta mais frequentes em ambulatórios e emergências do Brasil e do mundo. Diante desses pacientes, a decisão de operar, internar ou apenas orientar depende, na maior parte dos casos, do que o clínico extrai da anamnese e do exame físico antes de qualquer exame complementar: séries clássicas de pacientes ambulatoriais atribuem à história isolada a hipótese diagnóstica correta em cerca de 70 a 80% dos casos, e o exame físico adiciona localização, gravidade e sinais de irritação peritoneal. A ultrassonografia e a tomografia refinam a hipótese, mas não substituem a sequência inspeção, ausculta, percussão e palpação executada com técnica correta.
Para a prova e para a enfermaria, o estudante precisa dominar três blocos: a caracterização da dor abdominal (visceral, somática e referida), a técnica e a ordem do exame físico e a interpretação dos sinais clássicos com seus valores de desempenho. Este artigo percorre os três blocos com números concretos de sensibilidade e especificidade sempre que a literatura os sustenta, seguindo Bates, Porto e a compilação de evidência de McGee.
Toda dor abdominal deve ser caracterizada em sete atributos: localização nas nove regiões, irradiação, tipo e intensidade (escala numérica de 0 a 10), cronologia (início súbito ou progressivo, duração, padrão em cólica), fatores de melhora e piora (alimentação, posição, defecação, micção, menstruação, antiácidos), sintomas associados (náuseas, vômitos, febre, icterícia, colúria, alterações intestinais e urinárias) e episódios prévios semelhantes. A localização inicial e a migração da dor têm alto valor: a apendicite começa como dor visceral difusa periumbilical (metâmero T10) e migra para o ponto de McBurney quando o processo inflamatório alcança o peritônio parietal e o mesoapêndice.
| Característica | Dor visceral | Dor somática (parietal) | Dor referida |
|---|---|---|---|
| Origem | Tração e distensão de víscera oca, isquemia, fibras tipo C | Irritação do peritônio parietal, fibras A-delta | Órgão doente e território cutâneo que compartilham o mesmo metâmero medular |
| Localização | Difusa, central, epigástrica ou periumbilical | Bem localizada, sobre o órgão doente | Distante do órgão de origem, em dermátomo |
| Padrão | Em cólica: cresce, atinge platô e cede | Contínua, em queimação, exasperante | Contínua e localizada |
| Comportamento do paciente | Agitado, não encontra posição | Imóvel, evita qualquer movimento ou tosse | Variável conforme a causa |
| Modificadores | Micção, defecação e vômito podem aliviar | Piora com tosse, movimento e descompressão brusca | Depende da causa de base |
| Exemplos | Cólica biliar, cólica renal, obstrução intestinal | Apendicite focal, peritonite, infarto mesentérico | Vesícula para ombro e escápula direita; ureter para testículo; baço rompido para ombro esquerdo (sinal de Kehr) |
A cronologia data as síndromes. A cólica biliar típica inicia uma a duas horas após refeição gordurosa, cresce em 15 a 30 minutos, atinge platô em cerca de 1 hora e regride completamente em até 6 horas; dor no hipocôndrio direito que persiste por mais de 6 horas, sobretudo com febre e leucocitose, é colecistite aguda, e não cólica simples. A pancreatite aguda produz dor contínua transfixante de instalação rápida que irradia em barra para as costas e melhora parcialmente com o tronco inclinado para a frente. A úlcera duodenal dói no epigástrio, melhora com alimentação e desperta o paciente de madrugada. Na obstrução intestinal, as cólicas repetem-se em intervalos curtos (poucos minutos) na obstrução do delgado e mais espaçados na do cólon, e a dor da isquemia mesentérica é classicamente desproporcional a um abdome pouco doloroso ao exame.
O abdome é a única região em que a ausculta precede a percussão e a palpação. A justificativa é que a manipulação pode alterar a motilidade intestinal, criar ruídos artefatuais ou abolir os existentes, falseando a interpretação dos ruídos hidroaéreos. A sequência obrigatória é inspeção, ausculta, percussão e palpação, com as manobras dolorosas e o toque retal reservados para o final. Esquecer essa inversão em relação à sequência geral do exame é o erro mais penalizado em provas e avaliações práticas.
A inspeção começa antes de expor o paciente: facies, cor, sudorese, posição antálgica e grau de conforto. O paciente com peritonite permanece imóvel no leito, recusando-se a mover-se ou a tossir; o paciente com cólica renal ou intestinal agita-se continuamente sem encontrar alívio. Exposto o abdome, avalie sistematicamente forma e volume (plano, globoso ou escavado), simetria, cicatrizes cirúrgicas, estrias, linha alba, veias superficiais e seu sentido de fluxo, umbigo, hérnias, movimentos respiratórios, peristaltismo visível e pulsações.
Os ruídos hidroaéreos resultam da mistura de líquido e gás impulsionada pelo peristaltismo e normalmente ocorrem em frequência de cerca de 5 a 35 por minuto. A interpretação exige tempo: ruídos ausentes por pelo menos 2 minutos de ausculta contínua definem íleo paralítico, enquanto ruídos altos, metálicos, em estalido, alternando com silêncio, e borborigmos intensos sugerem obstrução mecânica com líquido e gás em alça tensa. Em fases avançadas de obstrução, com isquemia ou peritonite, instala-se o íleo paralítico secundário e os ruídos desaparecem: abdome silencioso com distensão é sinal de gravidade.
A percussão compara som timpânico (gás), submacicez e macicez (líquido ou órgão sólido) entre regiões simétricas. Para o fígado, percuta de cima para baixo na linha medioclavicular direita, do timpanismo pulmonar até a macicez hepática (borda superior), e combine com a palpação da borda inferior na inspiração: o span hepático normal mede 6 a 12 cm; acima de 12 cm configura hepatomegalia de espaço, enquanto borda palpável com span normal indica fígado descido (enfisema, ptose). Para o baço, o espaço de Traube, delimitado pela sexta costela, a linha axilar média e a borda costal esquerda, é normalmente timpânico por interposição de estômago e cólon; a macidez persistente, sobretudo no decúbito lateral direito (sinal de Castell), sugere esplenomegalia. O baço normal não é palpável: baço palpável indica órgão aumentado cerca de duas a três vezes.
Na palpação superficial, com as polpas dos dedos e mãos aquecidas, percorra os quatro quadrantes avaliando tônus, dor e defesa. Defesa voluntária (o paciente contrai a parede por ansiedade ou medo) cede com distração, conversa e flexão dos joelhos; defesa involuntária (rigidez) persiste a qualquer estímulo e, quando generalizada, configura o abdome em tábua da peritonite difusa. Observe sempre a face do paciente enquanto palpa: a resposta facial precede a queixa verbal e localiza a dor verdadeira. A palpação profunda, uni ou bimanual, pesquisa massas, pontos dolorosos e órgãos.
Fígado: palpe durante a inspiração profunda, deslizando as mãos de baixo para cima no hipocôndrio direito, ou use a manobra do gancho (hooking), com os dedos curvados por trás do rebordo costal; caracterize borda (macia ou endurecida), superfície (lisa ou nodular), sensibilidade e pulsatilidade (insuficiência tricúspide). Baço: melhor palpado no decúbito lateral direito, com a mão esquerda do examinador elevando as costelas inferiores e a direita palpando o hipocôndrio esquerdo na inspiração; o polo inferior com a escavação (notch) esplênica característica confirma. Rins: manobra bimanual com elevação lombar e ballottement na expiração; o rim direito, mais baixo, pode ser palpável em magros sem doença. Aorta: delimite a pulsação epigástrica com os indicadores paralelos e estime a largura; largura maior que 3 a 4 cm ou massa pulsátil em paciente idoso levanta suspeita de aneurisma de aorta abdominal e indica imagem, lembrando que a sensibilidade da palpação cai muito no obeso.
| Sinal | Técnica | Interpretação | Contexto clínico típico |
|---|---|---|---|
| McBurney | Palpação do ponto a um terço externo da linha entre a espinha ilíaca anterossuperior direita e o umbigo | Dor máxima localizada; sensibilidade de 50 a 94% e especificidade de 57 a 79% entre estudos | Apendicite aguda |
| Blumberg | Compressão lenta seguida de descompressão brusca | Dor à descompressão indica irritação peritoneal; preditor isolado modesto | Apendicite, peritonite |
| Rovsing | Compressão do espaço ilíaco esquerdo | Dor referida no quadrante direito por deslocamento de gás | Apendicite aguda |
| Psoas | Extensão passiva da coxa direita contra resistência | Dor por irritação do músculo psoas; sensibilidade baixa (13 a 42%) e especificidade alta | Apendicite retrocecal, abscesso do psoas |
| Obturador | Rotação interna e externa do quadril fletido | Dor por irritação do obturador interno | Apendicite pélvica |
| Murphy | Palpação sob o rebordo costal direito na inspiração profunda | Pausa inspiratória dolorosa; sensibilidade 65% e especificidade 87% | Colecistite aguda |
| Carnett | Paciente eleva a cabeça e o tronco, contraindo a parede abdominal | Dor que aumenta indica síndrome da parede; dor que diminui sugere origem visceral | Diferenciar dor parietal de visceral |
| Giordano | Golpe suave com o punho na região lombar (punho-percussão) | Dor por distensão da cápsula renal ou do ureter | Pielonefrite, uropatia obstrutiva |
| Markle | Abalo do calcâneo com o paciente de pé ou em decúbito | Dor abdominal difusa ao impacto, indicando peritônio irritado | Peritonite |
| Kehr | Interrogar sobre dor no ombro esquerdo | Sangue ou irritante sob o diafragma, via nervo frênico | Rotura esplênica, gravidez ectópica rota |
A região da dor orienta a hipótese diagnóstica e a lista de exames. Nenhuma tabela substitui a anamnese, mas o mapa regional organiza o raciocínio antes do exame complementar. Lembre dos clássicos que cruzam regiões: o infarto agudo do miocárdio de parede inferior e a embolia pulmonar podem simular abdome agudo alto; a pneumonia basal direita pode simular colecistite; e a gravidez ectópica rota é causa de choque com abdome agudo em mulher em idade fértil.
| Região | Causas frequentes a considerar |
|---|---|
| Epigástrio | Úlcera péptica, pancreatite aguda, doença do refluxo, infarto de parede inferior, aneurisma de aorta |
| Hipocôndrio direito | Colelitíase e colecistite, hepatopatia aguda, pneumonia basal direita, abscesso subfrênico |
| Hipocôndrio esquerdo | Esplenomegalia e infarto esplênico, úlcera gástrica, pancreas caudal, pneumonia esquerda |
| Flanco direito | Cólica renal, pielonefrite, apendicite retrocecal, colelitíase |
| Flanco esquerdo | Cólica renal, pielonefrite, diverticulite de sigmoide, rotura esplênica |
| Fossa ilíaca direita | Apendicite aguda, doença inflamatória pélvica, gravidez ectópica, adenite mesentérica, torção anexial |
| Fossa ilíaca esquerda | Diverticulite de sigmoide, isquemia intestinal, síndrome do intestino irritável, torção anexial |
| Hipogástrio | Cistite, retenção urinária, patologia uterina e anexial, prostatite |
| Difusa | Peritonite, obstrução intestinal, gastroenterite, isquemia mesentérica, cetoacidose diabética, porfiria |
Entre as síndromes, três merecem síntese. Síndrome peritoneal: dor contínua e intensa, abdome em tábua, imobilidade, Blumberg positivo, febre e íleo paralítico secundário. Síndrome ictérica-obstrutiva: icterícia com colúria, fezes hipocólicas ou acólicas e prurido, com vesícula possivelmente palpável (Courvoisier) e febre associada na tríade de Charcot (dor, febre e icterícia da colangite aguda; a adição de hipotensão e confusão configura a pentade de Reynolds, emergência com drenagem biliar urgente). Síndrome oclusiva: dor, vômitos, distensão e obstipação, com diferenças entre delgado e cólon resumidas a seguir.
| Achado | Obstrução de intestino delgado | Obstrução de intestino grosso |
|---|---|---|
| Dor | Cólica periumbilical intensa, intervalos de poucos minutos | Cólica hipogástrica, intervalos mais longos |
| Vômitos | Precoces, abundantes e biliosos | Tardios, podem ser fecaloides |
| Distensão | Central, moderada | Acentuada e precoce, com flancos cheios |
| Obstipação | Tardia | Precoce e predominante |
| Ruídos hidroaéreos | Metálicos e hiperativos no início; ausentes se isquemia | Hiperativos tardiamente; íleo se complicar |
| Radiografia simples | Alças de delgado centrais com válvulas coniventes e níveis hidroaéreos | Cólon periférico dilatado com haustras; ausência de gás distal à obstrução |
O exame físico abdominal é insubstituível, porém imperfeito: a sensibilidade de sinais isolados raramente supera 80% e cai em idosos, obesos, gestantes, imunossuprimidos e pacientes em uso de corticoides ou analgésicos, nos quais a resposta inflamatória clássica está atenuada. Por isso, o exame sustenta a hipótese e define prioridade, mas a confirmação pede método de imagem: ultrassonografia para patologia biliar (primeira linha), radiografia simples de abdome para obstrução e perfuração (pneumoperitônio), tomografia computadorizada para abdome agudo indefinido, trauma e apendicite em adultos, além de lipase, bilirrubinas, transaminases e hemograma conforme a hipótese. Repita o exame físico em intervalos curtos no paciente com dor indefinida: a evolução temporal é o melhor examinador complementar.
Treine a sequência completa em todo paciente, mesmo quando a queixa não for abdominal: a fluência da técnica nas provas práticas e nos plantões vem da repetição deliberada, e a literatura de evidência mostra que sinais bem executados alteram a probabilidade pós-teste de forma relevante. Combine anamnese estruturada em sete atributos, exame na ordem correta e interpretação consciente dos limites de cada sinal.
1.Qual é a sequência correta do exame físico abdominal?
2.Durante a inspiração profunda, a palpação abaixo do rebordo costal direito interrompe a respiração do paciente por dor. O sinal e sua principal associação são:
3.Ao solicitar que o paciente eleve a cabeça contraindo a parede abdominal, a dor aumenta. O teste positivo (sinal de Carnett) sugere:
4.Paciente cirrótico apresenta veias dilatadas radiando do umbigo (caput medusae). Na hipertensão portal, o sentido do fluxo venoso é:
5.Considera-se íleo paralítico quando os ruídos hidroaéreos estão ausentes por ausculta contínua de pelo menos:
6.O span hepático normal à percussão na linha medioclavicular é de aproximadamente:
7.Paciente ictérico, afebril, com vesícula palpável e indolor. A interpretação correta é:
8.Dor no hipocôndrio direito iniciada após refeição gordurosa, que cresce em cerca de 30 minutos, atinge platô em 1 hora e cede por completo em 4 horas, sem febre. O quadro é típico de:
9.Homem de 70 anos, hipertenso e tabagista, apresenta massa pulsátil epigástrica com bordas laterais estimadas em 5 cm. A conduta imediata correta é:
10.A tríade de Charcot (dor no hipocôndrio direito, febre e icterícia) caracteriza:
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