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Exame físico sistemático de cabeça e pescoço para provas de semiologia: crânio e face, olhos, ouvidos com prova de Rinne e Weber, nariz e seios, boca e orofaringe, tireoide, linfonodos cervicais e triagem dos nervos cranianos, com ênfase nos sinais de alerta de câncer de cabeça e pescoço e na abordagem da massa cervical no adulto.
[1] Bickley LS. Bates' Guide to Physical Examination and History Taking. 13ª ed. Filadélfia: Wolters Kluwer; 2021 | [2] Porto AL, Porto CC. Exame Clínico: Anamnese e Propedêutica. 8ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2017 | [3] Pynnonen MA, Gillespie MB, Roman B, et al. Clinical Practice Guideline: Evaluation of the Neck Mass in Adults. Otolaryngol Head Neck Surg. 2017;157(2 Suppl):S1-S30 · DOI 10.1177/0194599817722550 | [4] Johnson DE, Burtness B, Leemans CR, Lui VWY, Bauman JE, Grandis JR. Head and neck squamous cell carcinoma. Nat Rev Dis Primers. 2020;6(1):92 · DOI 10.1038/s41572-020-00224-3 · DOI 10.1177/0194599817722550
A cabeça e o pescoço concentram, em uma pequena região, praticamente todos os sistemas que o médico precisa saber examinar: pele, olhos e anexos, ouvidos, nariz e seios paranasais, boca e faringe, glândulas salivares, tireoide, linfonodos, grandes vasos e os doze pares de nervos cranianos. É também o território dos carcinomas de cabeça e pescoço, grupo com mais de 800 mil novos casos e mais de 400 mil óbitos por ano no mundo, fortemente associados a tabagismo e etilismo e crescentemente ligados ao HPV na orofaringe. O exame físico bem executado dura de 5 a 7 minutos e pode diagnosticar esses tumores em fase precoce, quando a sobrevida supera 80%. Para a prova, o aluno deve dominar a sequência do exame, a técnica correta de palpação da tireoide e dos linfonodos, a interpretação das provas com diapasão e os sinais de alerta que mudam a conduta.
O exame começa na conversa. Sintomas localizados por sítio guiam a inspeção: cefaleia (localização, horário, fatores desencadeantes), dor facial ou de ouvido, disfagia e odinofagia (unilateral e persistente é sinal de alerta), disfonia, obstrução nasal, rinorreia, epistaxe (recorrente e unilateral sugere lesão de nasofaringe), anosmia, zumbido e hipoacusia, xerostomia, trismo, perda de peso e febre com sudorese noturna (sintomas B). O histórico de tabagismo em anos-maço e de etilismo, a exposição ocupacional (poeira de madeira e couro para neoplasias de seios paranasais e nasofaringe, níquel, radiação ionizante cervical prévia), práticas sexuais orais (HPV), uso de anticoagulantes e anti-hipertensivos e história familiar de neoplasia completam o roteiro. Em idosos com cefaleia de início novo, dor de couro cabeludo ao pentear-se e claudicação de mandíbula, palpar as artérias temporais e solicitar VHS: a arterite de células gigantes é emergência por risco de cegueira.
Inspecione o formato e o volume do crânio (macrocrania, microcrania, deformidades ósseas como o alargamento pagético), cicatrizes, lesões cutâneas (o carcinoma basocelular predomina em áreas de exposição solar: pálpebras, nariz e orelhas) e tumorações. Palpe o crânio buscando alterações de contorno e, em lactentes, fontanelas e suturas: a fontanela anterior mede cerca de 2 a 3 cm ao nascer e fecha entre 10 e 18 meses; fontanela tensa e abaulada sugere hipertensão intracraniana, e deprimida, desidratação. Palpe a articulação temporomandibular com os dedos logo à frente do trago, pedindo abertura e fechamento da boca: estalos, crepitação, dor e desvio do queixo caracterizam disfunção; a limitação dolorosa da abertura é o trismo, sinal importante em abscessos perifaríngeos e tumores avançados. Na face, avalie a simetria em repouso e no movimento (pregas nasolabiais, desvio da rima bucal) e procure os facies clássicos: cushingoide (face em lua cheia), acromegálico (prognatismo, macroglossia, espessamento de traços), hipertireoideo (exoftalmia e retração palpebral), mixedematoso (face edemaciada e pálida), parkinsoniano (hipomimia), esclerodérmico (microstomia, rugas peri-orais em pregas, telangiectasias) e a facies mitral (rubor malar com cianose labial).
Inspecione e palpe o pavilhão e a região retroauricular: dor à tração do pavilhão e à pressão do trago sugere otite externa, enquanto edema e eritema retroauriculares com orelha deslocada para frente e para fora sugerem mastoidite. Na otoscopia, puxe o pavilhão para cima e para trás no adulto e para baixo e para trás na criança, para retificar o conduto. Avalie o conduto (cerúmen, secreções, furúnculos, descamação) e a membrana timpânica: cinza-perolácea e translúcida, com o cone de luz ântero-inferior e o cabo do martelo visíveis; procure abaulamento, opacidade, hiperemia vascular, níveis hidroaéreos, perfurações e retrações. As provas com diapasão de 256 a 512 Hz avaliam a audição condutiva e a neurossensorial.
| Achado | Weber (diapasão no vértice) | Rinne (mastoide versus orelha) |
|---|---|---|
| Audição normal | Não lateraliza | Positivo: a condução aérea é maior que a óssea |
| Perda condutiva à direita | Lateraliza para a direita (lado afetado) | Negativo à direita: condução óssea maior que a aérea |
| Perda neurossensorial à direita | Lateraliza para a esquerda (lado são) | Positivo nos dois lados (ou falsamente positivo no afetado) |
| Teste rápido prévio | Sussurro a 60 cm de uma orelha por vez, ocluindo a outra | Mascaramento do ouvido não testado com ruído branco do examinador |
Inspecione o nariz externo (desvios septais, deformidade em sela, lesões) e realize a rinoscopia anterior com o espéculo: examine o septo (desvio, perfuração, ulcerações), os cornetos (hipertrofia, palidez alérgica ou hiperemia) e a presença de secreção (purulenta, aquosa, com crostas), pólipos e sangramento; a epistaxe anterior origina-se quase sempre do plexo de Kiesselbach, na porção anterior do septo. Palpe e percuta os seios paranasais: pressione a parede anterior do seio maxilar (parede óssea abaixo da órbita) e a parede inferior do seio frontal (região supraciliar); dor à palpação e à percussão, associada a dor que piora à inclinação anterior da cabeça, sugere sinusite aguda; a transiluminação em ambiente escurecido é manobra complementar. Nunca esqueça de elevar a língua e inspecionar toda a cavidade oral com boa luz: lábios (queilite, herpes, úlcera), mucosa jugal (linha alba, aftas, leucoplasia), assoalho, gengivas (sangramento, hiperplasia por fenitoína), dentes (cáries, mobilidade, focos infecciosos), dorso e face inferior da língua (peça ao paciente que protuda a língua e depois a levante, inspecionando o assoalho, sítio de alto risco para carcinoma epidermoide), palato duro e mole, tonsilas (tamanho 1 a 4, exsudato, criptas caseosas) e úvula central. Palpe a língua e o assoalho bimanualmente procurando endurações. O reflexo de vômito testa os pares IX e X; úvula desviada para o lado são indica lesão do X par no lado oposto ao desvio.
Sinais de alerta de câncer bucal: úlcera que não cicatriza em 2 a 3 semanas, placa branca (leucoplasia) ou vermelha (eritroplasia, com maior potencial de malignização), enduração ou nódulo indolor, massa na língua ou assoalho, trismo, otalgia referida e adenopatia cervical. Fatores de risco: tabaco de todas as formas (incluindo mascado), álcool, HPV, imunossupressão e má higiene oral. Nas glândulas salivares, palpe as parótidas (região pré e retroauricular) e as submandibulares; tumefação dolorosa com febre sugere sialadenite ou parotidite viral; massa firme e progressiva na parótida, sobretudo com paralisia facial ipsilateral, sugere neoplasia maligna. Inspecione os orifícios: ducto de Stensen abre-se na papila oposta aos molares superiores e os ductos de Wharton, no assoalho anterior; a sialolitíase causa dor intensa à palpação e à estimulação da saliva.
Inspecione o pescoço descoberto: cicatrizes cirúrgicas ou de traqueostomia, massas (anote se se movem com a deglutição, sugerindo tireoide ou cisto tireoglosso, ou com a protrusão da língua, típico do cisto tireoglosso), fístulas, desvio da linha mediana, tumescências venosas e pulsações visíveis. A pressão venosa jugular avalia-se com o tronco elevado a 30 a 45 graus: localize a pulsação venosa interna acima da clavícula e meça verticalmente até o ângulo esternal; normal até 3 a 4 cm acima do ângulo esternal, valores maiores indicam sobrecarga de volume ou falência direita; o refluxo hepatojugular confirma falência cardíaca quando a coluna sobe mais que 3 a 4 cm com compressão abdominal sustentada por 15 segundos. Palpe a traqueia com dois dedos na fúrcula esternal verificando sua posição em relação à linha média: desvios indicam massa cervical, bócio, pneumotórax ou atelectasia. Palpe o pulso carotídeo no triângulo cervical anterior, um lado por vez (nunca os dois simultaneamente, pelo risco de síncope), e ausculte sopros carotídeos em pacientes com doença aterosclerótica ou sopro sistólico prévio.
Localize a tireoide: o istmo repousa sobre o segundo e o terceiro anéis traqueais, abaixo da cartilagem cricoide. Na abordagem posterior, mais usada, o examinador fica atrás do paciente, com os polegares fixos na nuca e as quatro pontas dos dedos de cada mão sobre os lobos; na abordagem anterior, com o examinador à frente, uma mão desloca lateralmente a cartilagem tireoidiana enquanto a outra palpa o lobo exposto. Peça ao paciente que engula água: a tireoide sobe sob os dedos durante a deglutição, o que diferencia massas tireoidianas de outras massas cervicais e é a manobra essencial da técnica. Descreva: volume (classificação da OMS de bócio: grau 0, não palpável ou visível; grau 1, palpável mas não visível com o pescoço em posição normal; grau 2, visível à distância), caráter difuso ou nodular, consistência (mole, fibroelástica, dura), sensibilidade (tiroidites dolorosas), presença de nódulos (número, tamanho, fixação a planos profundos e à pele) e sopro à ausculta (hiperfluxo da doença de Graves). Nódulo duro, fixo, com adenopatia cervical associada, crescimento rápido, disfonia por acometimento do nervo laríngeo recorrente, história de irradiação cervical prévia, sexo masculino e extremos de idade aumentam a suspeita de carcinoma tireoidiano; bócio difuso com exoftalmia e sopro remete ao hipertireoidismo por doença de Graves; bócio firme e indolor com anti-TPO positivo, à tireoidite de Hashimoto.
Palpe as cadeias em ordem sistemática, com o pescoço levemente fletido para relaxar os músculos, usando as pontas dos dedos em movimentos circulares suaves: occipital, pré-auricular e retroauricular (mastóidea), parotidiana, cervical anterior superficial (ao longo da veia jugular), cervical posterior, submandibular, submentoniana, pré e traqueoesofágica e supraclavicular. Descreva cada linfonodo pelo número, tamanho em centímetros, consistência (mole nas infecções; elástico e borrachóide no linfoma; pétrea ou duro nas metástases), mobilidade (fixação a planos profundos sugere malignidade), sensibilidade, conglomeração (massas fundidas sugerem tuberculose ou linfoma) e estado da pele adjacente (fístulas cutâneas sugerem tuberculose ganglionar, a escrófula). O linfonodo supraclavicular esquerdo, chamado nó de Virchow ou de Troisier, drena linfa abdominal e seu aumento endurecido é sinal clássico de metástase de neoplasias abdominais, sobretudo gástrica: encontrado, impõe investigação do abdome.
| Etiologia | Padrão típico da massa ou linfonodo | Pistas associadas |
|---|---|---|
| Inflamatória ou infecciosa aguda | Doloroso, móvel, amolecido, crescimento em dias | Febre, odinofagia, foco dentário ou cutâneo; regressa em 2 a 3 semanas |
| Tuberculose ganglionar (escrófula) | Cadeia posterior, caseificação, conglomeração, fístulas | Febre vespertina, sudorese noturna, emagrecimento; PPD e IGRA |
| Linfoma | Linfonodos elásticos, indolores, crescimento progressivo, múltiplas cadeias | Sintomas B (febre, sudorese, perda de mais de 10% do peso), hepatoesplenomegalia |
| Metástase de carcinoma | Endurecido, fixo, indolor, maior que 2 cm, frequentemente supraclavicular | Tabagismo e etilismo, lesão primária em boca, laringe, faringe, tireoide ou pulmão |
| Congênita (adultos jovens) | Cisto tireoglosso na linha média que sobe com a protrusão da língua; cisto branquial lateral; higroma cístico | Presente desde a juventude, flutuante, sem sintomas B |
A diretriz da Academia Americana de Otorrinolaringologia (AAO-HNS 2017) estabelece o raciocínio para a massa cervical no adulto: massa persistente por mais de 2 semanas sem sinais infecciosos, ou associada a sintomas de alerta, deve ser considerada neoplásica até prova contrária. Evita-se antibioticoterapia ou corticoterapia empírica prolongada (mascaramento de linfoma), e a investigação inclui exame otorrinolaringológico completo com laringoscopia (buscar o primário), tomografia com contraste (e não apenas ultrassonografia isolada, que pode subestimar extensão profunda) e punção aspirativa por agulha fina guiada, preferida à biópsia excisional aberta de entrada, que dificulta o estadiamento do linfoma e dissemina possíveis neoplasias. Encaminhamento ao especialista em até 2 semanas quando houver suspeita.
| Par craniano | Teste rápido | Achados anormais e significado |
|---|---|---|
| I - Olfatório | Aromas familiares (café, baunilha) com cada narina ocluída | Anosmia: pós-traumática, pós-viral, meningioma do sulco olfatório |
| II - Óptico | Acuidade com tabela de Snellen, campos por confrontação, fundoscopia | Amaurose, escotoma, papiledema (hipertensão intracraniana) |
| III, IV e VI - Oculomotores | Movimentos nos seis campos, ptose, pupilas | Ptose com midríase (III), diplopia vertical ao ler e descer escada (IV), estrabismo convergente (VI) |
| V - Trigêmeo | Sensibilidade nos três ramos, reflexo corneano, palpar masseteres | Hipoestesia facial em território de ramo, arreflexia corneana, atrofia da mastigação |
| VII - Facial | Franzir a testa, fechar os olhos com resistência, sorriso, assoprar | Paralisia periférica atinge a fronte; paralisia central poupa a fronte |
| VIII - Vestibulococlear | Sussurro a 60 cm, Weber e Rinne com diapasão de 256 a 512 Hz | Hipoacusia condutiva ou neurossensorial, lateralização à prova de Weber |
| IX e X - Glossofaríngeo e vago | Reflexo de vômito, mobilidade do véu pedindo para dizer a | Úvula desviada para o lado são na lesão do X; disfagia e tosse |
| XI - Acessório | Elevar os ombros contra resistência (trapézio) e girar a cabeça (esternocleidomastóideo) | Fraqueza e atrofia do trapézio, ombro caído, torticólios espásticos |
| XII - Hipoglosso | Protusão da língua | Língua desviada para o lado da lesão, atrofia e fasciculações (ELA) |
1.Paciente refere hipoacusia à direita. O Weber lateraliza para a direita e o Rinne é negativo à direita (condução óssea maior que a aérea). Qual o tipo de perda auditiva?
2.Homem de 54 anos, tabagista (40 anos-maço) e etilista, apresenta massa cervical lateral direita endurecida e indolor há 6 semanas, sem febre. Qual a conduta inicial correta segundo a diretriz AAO-HNS 2017?
3.O linfonodo supraclavicular esquerdo endurecido e indolor (nó de Virchow) classicamente levanta a suspeita de:
4.Jovem de 20 anos tem massa na linha média cervical que sobe quando ele protrui a língua. Qual o diagnóstico provável?
5.Paciente apresenta incapacidade de franzir a testa e fechar o olho à direita, além de desvio da rima bucal. Qual a localização da lesão?
6.Ao pedir que o paciente protuda a língua, você observa desvio da língua para a esquerda, com atrofia e fasciculações do lado esquerdo. Qual o nervo acometido?
7.Qual a manobra correta para retificar o conduto auditivo externo na otoscopia de um adulto?
8.Durante a palpação da tireoide, qual manobra é essencial para diferenciar massas tireoidianas de outras massas cervicais?
9.Dentre as lesões da cavidade oral, qual tem MAIOR potencial de malignização, exigindo sempre biópsia?
10.Com o tronco do paciente elevado a 45 graus, a pulsação venosa jugular é identificada 7 cm acima do ângulo esternal. Como interpretar?
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