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Guia técnico completo dos procedimentos básicos: punção venosa periférica com escolha de calibre e técnica asséptica, complicações da terapia intravenosa (flebite, infiltração, extravasamento), ordem dos tubos na coleta de sangue, sondagem nasogástrica com verificação segura de posição e sondagem vesical de alívio e demora com prevenção de infecção associada a cateter.
[1] Roberts JR, Custalow CB, Thomsen TW, Hedges JR (eds.). Roberts and Hedges Clinical Procedures in Emergency Medicine. 7ª ed. Filadélfia: Elsevier; 2018 | [2] Nickel B, Gorski L, Kleidon T, et al. Infusion Therapy Standards of Practice. 9ª ed. J Infus Nurs. 2024;47(1S):S1-S285 · DOI 10.1097/NAN.0000000000000532 | [3] Gould CV, Umscheid CA, Agarwal RK, et al. Guideline for prevention of catheter-associated urinary tract infections 2009. Infect Control Hosp Epidemiol. 2010;31(4):319-326 · DOI 10.1086/651091 | [4] Anvisa. Protocolo para a Prevenção de Infecção do Trato Urinário Relacionada ao Uso de Cateter Vesical de Demora. Brasília: Anvisa · https://www.gov.br/anvisa | [5] National Patient Safety Agency. Reducing the harm caused by misplaced nasogastric feeding tubes in adults, children and infants. Patient Safety Alert NPSA/2011/PSA002. Londres: NPSA; 2011 · DOI 10.1097/NAN.0000000000000532
Venóclise, coleta de sangue e sondagens são os primeiros procedimentos que o estudante executa e, proporcionalmente à sua banalização, estão entre as maiores fontes de dano evitável do hospital: cateter venoso periférico é o dispositivo invasivo mais utilizado do mundo, e a infecção do trato urinário associada ao cateter vesical é uma das infecções relacionadas à assistência à saúde mais frequentes, com parcela grande de indicações consideradas evitáveis. Cada um desses procedimentos tem técnica padronizada, erro típico e complicação catastrófica possível: inflar o balão de sonda vesical dentro da uretra rasga o esfíncter, instilar dieta por sonda nasogástrica posicionada em brônquio mata, e extravasamento de vasoconstritor não reconhecido causa necrose de tecido subcutâneo. Esta revisão organiza indicações, técnica passo a passo, complicações e verificação de segurança segundo os padrões internacionais da Infusion Nurses Society (9ª edição, 2024), as diretrizes de prevenção de infecção urinária associada a cateter e os alertas de segurança sobre sondas nasogástricas.
A venóclise (cateter venoso periférico de curta permanência) está indicada para administração de fluids, drogas, hemocomponentes e contraste, e para coleta de sangue em emergência. A escolha do calibre segue o uso previsto: calibres maiores (número menor em gauge) permitem fluxos muito maiores e são obrigatórios em reanimação e transfusão maciça, enquanto calibres finos bastam para antibioticoterapia e hidratação de manutenção, com menos trauma vascular. O sítio de primeira escolha é o terço distal dos membros superiores (veias cefálica e basílica do antebraço), no membro não dominante quando possível, evitando flexões; a fossa cubital fica reservada à punção para exames e à emergência, pois tem maior taxa de deslocamento e infiltração por ser área de dobra. Membros inferiores em adultos só com justificativa (risco de tromboflebite e embolia), e deve-se evitar o braço com fístula arteriovenosa, membro com linfedema pós-mastectomia ou pós-linfadenectomia, braço paralisado, veias esclerosadas ou com sinais de flebite e áreas de queimadura ou infecção local.
| Calibre (gauge) | Uso típico | Observações práticas |
|---|---|---|
| 24 a 26 G | Recém-nascidos, prematuros e veias muito finas | Fluxo baixo; maior risco de hemólise se usado para coleta vigorosa |
| 22 G | Crianças maiores, idosos e terapia de manutenção | Aceita a maioria dos medicamentos comuns |
| 20 G | Infusões habituais em adultos | Calibre padrão para antibioticoterapia e soluções isotônicas |
| 18 G | Transfusão de hemocomponentes e urgências moderadas | Permite reposição veloz e coleta de sangue adequada |
| 14 a 16 G | Trauma, reanimação, transfusão maciça e contraste | Fluxo pode superar 150 a 200 mL por minuto; punção mais dolorosa |
O padrão internacional recomenda higiene das mãos, luvas de procedimento, antissepsia da pele com clorexidina alcoólica 2% (ou álcool 70% quando a primeira não estiver disponível) com fricção e espera da secagem completa, sem repalpar o sítio após a assepsia, ou repalpando apenas com luva estéril. A inspeção e a palpação escolhem a veia mais distal adequada, o garrote é aplicado 10 a 15 cm acima do sítio por tempo curto, a agulha é introduzida com bisel voltado para cima em ângulo de 15 a 30 graus, o refluxo de sangue na câmara confirma o lúmen, o ângulo é reduzido e o cateter avançado sobre a agulha, que então é retirada com descarte imediato em recipiente rígido. Antes de fixar: soltar o garrote, ocluir a veia a montante, conectar o equipo ou tampa, checar refluxo e perviedade com flush de solução fisiológica 0,9% (5 a 10 mL no adulto, técnica de empurrar e pausar). A fixação usa curativo transparente semitransmissível, que permite inspeção diária do sítio, com etiqueta registrando data, horário, calibre e iniciais do executor.
A troca do cateter periférico deixou de ser cronológica: ensaios randomizados e o padrão internacional de 2024 recomendam substituir o cateter apenas quando houver indicação clínica (sinais de flebite, infiltração, obstrução ou suspeita de infecção), e não mais rotineiramente a cada 72-96 horas, em adultos; em crianças, a manutenção até complicação é padrão consolidado. Equipes devem inspecionar o sítio diariamente e documentar a avaliação com escala padronizada, e o equipo de infusão simples é trocado conforme protocolo (no máximo a cada 96 horas para soluções cristaloides, imediatamente após sangue, hemocomponentes ou lipídios).
A flebite é a complicação mais frequente do cateter periférico e se define por dor, enduração, eritema, edema e, nos graus maiores, cordão venoso palpável; o tratamento é retirar o cateter, aplicar compressa morna, analgesia se necessária e reinstalar em outro sítio. A infiltração é a passagem de solução não vesicante para o tecido perivascular (edema frio, dor, fluxo preservado apenas parcialmente); o extravasamento é o mesmo fenômeno com droga vesicante, capaz de causar necrose e ulcerações, como adrenalina, noradrenalina, dopamina, potássio concentrado, quimioterápicos e contrastes hiperosmolares. Conduta no extravasamento: parar a infusão, desconectar e aspirar o resíduo pela via do cateter antes de removê-lo, elevar o membro, marcar os limites e usar antídoto quando existir; para vasopressores, a fentolamina 5 a 10 mg diluída em 10 mL de salina é infiltrada de forma subcutânea ao redor do sítio (na criança 0,1 a 0,2 mg/kg até 10 mg), alternando com compressa morna que favorece vasodilatação local. Outras complicações: hematoma (compressão direta por 5 a 10 minutos), lesão de nervo com dor em choque irradiada (retirar imediatamente), embolia gasosa, fragmento de cateter com embolia pulmonar e infecção local ou bacteremia associada ao cateter.
| Grau (escala de flebite) | Achados | Conduta |
|---|---|---|
| Grau 0 | Sem sinais ou sintomas no sítio | Manter vigilância diária |
| Grau 1 | Dor local, sem eritema nem edema | Reavaliar em 24 h; retirar se persistir |
| Grau 2 | Dor com eritema e/ou edema | Retirar o cateter e reinstalar em outro sítio |
| Grau 3 | Dor, eritema, edema e cordão venoso palpável | Retirar, compressa morna e analgesia |
| Grau 4 | Tudo do grau 3 com cordão maior que 5 cm e/ou secreção purulenta ou febre | Retirar, culturas quando indicado e notificar |
A maioria dos erros laboratoriais ocorre antes da análise, na fase pré-analítica: hemólise por agulha fina com aspiração vigorosa ou tubo agitado, hemoconcentração por garrote prolongado (mais de 1 minuto), diluição por coleta do braço com infusão em curso e troca de aditivos por ordem incorreta de enchimento dos tubos. A ordem de coleta padronizada existe para evitar que o aditivo de um tubo contamine o seguinte pela agulha: primeiro hemoculturas com antissepsia rigorosa da pele e do topo do frasco; segundo o tubo de citrato de sódio 3,2% (tampa azul), que exige relação exata de 9 partes de sangue para 1 de anticoagulante e enchimento completo, sob pena de INR falsamente aumentado; em seguida os tubos de soro com ou sem ativador de coágulo e gel (tampa vermelha ou dourada) para bioquímica e sorologias, que precisam ser homogeneizados suavemente e centrifugados após a coagulação; depois heparina (tampa verde) para dosagens urgentes; depois EDTA (tampa roxa) para hemograma, que exige homogeneização imediata por inversão; e por último o tubo com fluoreto de sódio e oxalato de potássio (tampa cinza) para glicemia e lactato, pois inibe a glicólise in vitro por até 24 horas.
| Ordem | Tampa | Antiticoagulante ou aditivo | Exemplos de exames |
|---|---|---|---|
| 1ª | Frascos de hemocultura | Meio de cultura aeróbio e anaeróbio | Hemoculturas (antissepsia da pele e do frasco antes da punção) |
| 2ª | Azul | Citrato de sódio 3,2% (9:1) | Coagulograma, INR, TP e TTPa |
| 3ª | Vermelha ou dourada | Sem anticoagulante, com ativador de coágulo e/ou gel | Bioquímica, sorologias e hormônios |
| 4ª | Verde | Heparina de lítio ou sódio | Dosagens urgentes e amônia |
| 5ª | Roxa | EDTA | Hemograma, reticulócitos e hemoglobina glicada |
| 6ª | Cinza | Fluoreto de sódio com oxalato de potássio | Glicemia e lactato |
Regras complementares da coleta: identificar o tubo à beira do leito antes de deixar o paciente, nunca colher do braço com infusão em curso quando houver alternativa (se inevitável, pausar a infusão por pelo menos 2 minutos e descartar os primeiros 5 a 10 mL), homogeneizar por inversão lenta o número de vezes indicado em cada tubo (nunca agitar) e enviar rapidamente ao laboratório, mantendo tubos de amônia e lactato em gelo quando protocolado.
A sonda nasogástrica serve para descompressão gástrica em íleo e obstrução intestinal, administração de dieta e medicamentos em pacientes com disfagia ou risco de broncoaspiração, lavagem gástrica em intoxicações selecionadas e prevenção de aspiração em emergências. As contraindicações absolutas incluem suspeita de fratura de base de crânio e traumatismo facial grave tipo Le Fort, pelo risco de intrusão intracraniana; são contraindicações relativas ou exigem cautela: coagulopatia grave, varizes esofágicas (sonda fina em uso profilático de balão é exceção específica), ingestão recente de cáusticos, estenose esofágica e cirurgia nasal recente. O calibre segue a função: sondas finas de 8 a 12 Fr para dieta em adultos (5 a 8 Fr em recém-nascidos) e sondas de 16 a 18 Fr para descompressão e lavagem. O comprimento de inserção mede-se da ponta do nariz ao trágus e deste ao apêndice xifoide, acrescentando-se cerca de 10 cm para garantir posição gástrica, e a marca é registrada na sonda para servir de referência nas inspeções diárias.
Complicações da sondagem: epistaxe, enovelamento na nasofaringe, intubação brônquica (risco de pneumotórax, pneumonia por aspiração e morte se dieta instilada), perfuração esofágica com enfisema mediastinal, arritmias e reação vagal durante a passagem, sinusite e otite no uso prolongado e obstrução ou formação de concreções na sonda. A vigilância diária inclui conferir a marca externa, checar residual gástrico conforme protocolo, inspecionar a narina quanto a lesão por pressão e trocar sondas de PVC conforme política do serviço, preferindo sondas de poliuretano para uso prolongado.
O cateterismo vesical de alívio (intermitente) esvazia a bexiga e retira a sonda em seguida; o de demora mantém cateter com balão. Indicações apropriadas de demora: retenção urinária ou obstrução, necessidade de diurese horária estrita em pacientes críticos, períodos operatórios selecionados (cirurgias longas, urológicas e sob anestesia com diuréticos), proteção de feridas sacrais e perineais em pacientes incontinentes em tratamento, imobilização prolongada por instabilidade de coluna ou fratura e conforto em cuidados paliativos ao fim da vida. Colocar sonda por conveniência da equipe, para coleta de urina para exame em paciente continente ou como resposta padrão à incontinência são indicações inadequadas e devem ser combatidas: até 70% das infecções associadas a cateter são consideradas preveníveis, e a medida isolada mais eficaz é não introduzir o cateter ou removê-lo o quanto antes. Em homens continentes, o coletor peniano é alternativa; em retenção crônica, o autocateterismo intermitente limpo reduz infecção comparado ao cateter fixo.
| Parâmetro | Mulher adulta | Homem adulto | Observação |
|---|---|---|---|
| Calibre usual | 12-14 Fr | 14-16 Fr | 16-18 Fr em retenção por hiperplasia prostática ou coágulos |
| Profundidade de inserção | 5 a 7,5 cm até sair urina, avançando mais 2-3 cm | 15 a 20 cm até sair urina, avançando até a bifurcação | Nunca insuflar o balão sem retorno de urina ou resistência |
| Balão de retenção | 5 a 10 mL de água estéril | 5 a 10 mL de água estéril | Usar água estéril, nunca soro fisiológico, que cristaliza a válvula |
| Técnica | Asséptica com campo estéril | Asséptica com campo estéril e retração do prepúcio | Recolocar o prepúcio após a fixação para evitar parafimose |
A técnica exige higião das mãos, luvas estéreis, campo, gaze e antissético (clorexidina aquosa ou polvidona), lubrificante hidrossolúvel anestésico na uretra e cateter estéril. Na mulher, separar os grandes lábios e limpar o meato de frente para trás (da uretra em direção ao ânus); no homem, retrair o prepúcio, segurar o pênis perpendicular ao corpo alongando a uretra e introduzir com movimentos contínuos até sair urina. O balão só é insuflado depois do retorno de urina e do avanço adicional, com sonda avançada até a bifurcação no homem, e qualquer resistência ao insuflar manda parar e reposicionar: o balão insuflado na uretra causa lesão, sangramento, estritura e dor intensa. Após a instalação: recolher o prepúcio (evitar parafimose), fixar a sonda na coxa na mulher ou no abdome no homem para reduzir tração uretral, manter a bolsa coletora abaixo do nível da bexiga e nunca apoiada no chão, manter o sistema fechado e registrar o horário e o volume inicial.
A bacteriúria aparece em 3 a 7% dos cateterizados por dia, e parte dos pacientes evolui com infecção do trato urinária sintomática associada ao cateter, definida por sintomas (febre acima de 38 °C, urgência, frequência, dor suprapúbica ou dor lombar) com piúria e urocultura acima do limiar protocolar (tipicamente entre 10³ e 10⁵ unidades formadoras de colônia por mL, conforme a norma vigente), sem outra fonte; bacteriúria assintomática em cateter não se trata, exceto em gestantes e antes de procedimentos urológicos sangrentos. O bundle de prevenção: questionar diariamente a necessidade e remover precocemente (revisão de cateter em rounds), inserir apenas com indicação e técnica asséptica, manter sistema fechado, bolsa abaixo da bexiga, higiene perineal diária com água e sabão (antisséptico de rotina no meato não tem benefício), nunca desconectar o sistema para coleta (aspirar da porta própria com desinfecção), trocar a sonda apenas se obstruída, infectada ou conforme protocolo em uso prolongado e preferir alternativas (alívio intermitente, coletor peniano, escâner vesical para confirmar retenção antes de recateterizar). Outras complicações: trauma uretral com falsa via, estritura, hematuria, espasmo vesical (anticolinérgico se necessário), incrustação e obstrução por biofilme, erosão do meato por tração e vazamento por bypass.
Todo procedimento básico começa com identificação correta do paciente por dois identificadores, explicação e consentimento, checagem de material e alergias (latex, antisséptico, anestésico tópico) e termina com registro em prontuário de indicação, técnica, calibre ou sítio, tolerância, intercorrências e plano de monitorização. A retirada de dispositivos também se documenta: após remover sonda vesical de alívio ou demora, monitorar a primeira micção espontânea nas 6 a 8 horas e medir o resíduo se houver retenção suspeita; após sonda nasogástrica, observar tolerância à via oral. São nunca-eventos destes procedimentos: instilar dieta por sonda sem confirmação de posição, insuflar balão vesical sem retorno de urina, administrar droga vesicante sem checagem de refluxo e deixar cateter vesical sem indicação revisada.
1.Qual a ordem correta dos tubos na coleta de sangue venoso?
2.Qual o critério de pH do aspirado que confirma posição gástrica da sonda nasogástrica à beira do leito?
3.Durante cateterismo vesical em homem, sai urina clara. Qual o próximo passo correto?
4.Paciente em uso de noradrenalina por cateter periférico desenvolve área pálida e dolorosa ao redor do sítio. Qual medida específica trata esse extravasamento?
5.Segundo a escala de flebite, qual grau corresponde a dor, eritema, edema e cordão venoso palpável de 3 cm?
6.Qual calibre de venóclise é o mais adequado para um politraumatizado em reanimação com reposição volêmica agressiva?
7.Qual situação é contraindicação absoluta à passagem de sonda nasogástrica?
8.Qual a medida isolada mais eficaz para reduzir infecção do trato urinária associada a cateter vesical?
9.Sobre a manutenção do cateter venoso periférico em adultos, o padrão internacional atual recomenda:
10.Sobre bacteriúria assintomática em paciente com sonda vesical de demora há 5 dias, a conduta correta é:
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