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Referencial completo sobre uso nocivo e dependência de álcool e outras drogas: definições CID-10 e DSM-5, neurobiologia da dependência, instrumentos de rastreamento como AUDIT e ASSIST, manejo da intoxicação e abstinência, farmacoterapia com naltrexona, acamprosato, metadona e buprenorfina, entrevista motivacional e a Rede de Atenção Psicossocial.
[1] World Health Organization. Global status report on alcohol and health 2024. Geneva: WHO; 2024 · https://www.who.int/publications/i/item/9789240096743 | [2] Saunders JB, Aasland OG, Babor TF, et al. Development of the Alcohol Use Disorders Identification Test (AUDIT): WHO Collaborative Project on Early Detection of Persons with Harmful Alcohol Consumption. Addiction. 1993;88(6):791-804 · DOI 10.1111/j.1360-0443.1993.tb02093.x · PMID 8329979 | [3] Laranjeira R (superv.). II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD II). São Paulo: UNIFESP/UNIAD; 2014 · https://lenad.uniad.org.br | [4] United Nations Office on Drugs and Crime. World Drug Report 2024. Vienna: UNODC; 2024 · https://wdr.unodc.org | [5] Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 3.088, de 23 de dezembro de 2011: institui a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) · https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2011/prt3088_23_12_2011.html | [6] National Institute for Health and Care Excellence. Alcohol-use disorders: diagnosis, assessment and management of harmful drinking and alcohol dependence. CG115. London: NICE; 2011 · https://www.nice.org.uk/guidance/cg115 · DOI 10.1111/j.1360-0443.1993.tb02093.x
O álcool mata cerca de 2,6 milhões de pessoas por ano no mundo, correspondendo a aproximadamente 13% das mortes de jovens entre 20 e 39 anos, segundo o relatório global da Organização Mundial da Saúde de 2024. Quase 292 milhões de pessoas, uma em cada 18 no planeta, usaram alguma droga ilícita em 2022, um aumento de 20% em uma década. No Brasil, o II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas estimou que cerca de 3 a 4% dos adultos preenchiam critérios de dependência de álcool, algo em torno de 5 milhões de pessoas, com prevalência várias vezes maior em homens. Para o estudante de medicina, o tema exige duas competências que as provas cobram juntas: dominar os critérios diagnósticos e a farmacologia do tratamento, e compreender que o cuidado se organiza em uma rede, a Rede de Atenção Psicossocial, por itinerários terapêuticos que raramente são lineares e que passam pela atenção básica, pelos CAPS Álcool e Drogas, pela ajuda mútua e pela redução de danos.
A CID-10 distingue o uso nocivo, códigos F1x.1, da síndrome de dependência, F1x.2. Uso nocivo é o padrão de consumo que já causa dano à saúde, físico ou mental, sem preencher critérios de dependência. A síndrome de dependência é um conjunto de fenômenos comportamentais, cognitivos e fisiológicos que se desenvolvem após uso repetido e exige pelo menos 3 de 6 critérios em 12 meses: compulsão ao consumo, tolerância, abstinência, dificuldade de controlar o início e o término, abandono progressivo de prazeres alternativos e uso persistente apesar de danos evidentes. O DSM-5 fundiu abuso e dependência em um único transtorno por uso de substância, com 11 critérios agrupados em descontrole do consumo, prejuízo social, uso arriscado e fenômenos farmacológicos, tolerância e abstinência: 2 a 3 critérios configuram transtorno leve, 4 a 5 moderado e 6 ou mais grave. Essa gradação importa porque define intensidade terapêutica: leve responde a intervenção breve na atenção básica; grave exige tratamento especializado e, frequentemente, farmacoterapia.
| Dimensão | CID-10 | DSM-5 |
|---|---|---|
| Categorias | Uso nocivo (F1x.1) e síndrome de dependência (F1x.2) separados | Transtorno por uso de substância único e dimensional |
| Critérios | 3 ou mais de 6 critérios, em 12 meses | 2 ou mais de 11 critérios, em 12 meses |
| Gravidade | Sem graduação formal | Leve (2-3), moderado (4-5), grave (6 ou mais) |
| Abstinência de maconha | Não listada como síndrome | Incluída como critério diagnóstico |
| Uso em provas brasileiras | F10-F19 pela letra da substância | Frequentemente cobrada em provas de residência |
Todas as drogas com potencial aditivo convergem para o circuito mesolímbico de recompensa, do área tegmental ventral ao nucleus accumbens, mediado pela dopamina, embora por portas de entrada diferentes. O álcool atua como modulador positivo do receptor GABA-A, antagonista do NMDA e indiretamente liberadores de opioides endógenos; a cocaína bloqueia o transportador de dopamina e prolonga a sinalização na fenda sináptica; a maconha agoniza receptores canabinoide CB1; os opioides ativam o receptor mu; a nicotina, os receptores nicotínicos de acetilcolina. O uso repetido desencadeia adaptações homeostáticas, tolerância por desregulação de receptores e sinalização, e o ciclo de Koob de três fases: intoxicação e recompensa, abstinência e afeto negativo por ativação de sistemas de estresse como a dinorfina, e preocupação antecipatória com busca da droga, que envolve córtex pré-frontal e condicionamento contextual.
Para a prova, retenha duas consequências clínicas dessa neurobiologia. Primeira: a fissura, craving, não é fraqueza de caráter, mas fenômeno neurobiológico condicionado por pistas ambientais, estresse e estados afetivos negativos, e por isso o tratamento combina farmacologia, psicoterapia e reestruturação de rotinas. Segunda: a tolerância e a abstinência são fenômenos farmacológicos mensuráveis que sustentam escalas de gravidade, como CIWA-Ar para álcool e COWS para opioides, e orientam a indicação de desintoxicação supervisionada, porque abstinência de álcool e de benzodiazepínicos pode matar, com convulsões e delirium tremens.
O AUDIT, Alcohol Use Disorders Identification Test, foi desenvolvido em projeto colaborativo da OMS em seis países e publicado em 1993, com 10 perguntas que somam de 0 a 40 pontos e cobram consumo, sinais de dependência e danos. A interpretação clássica em adultos: pontuação menor que 8, consumo de baixo risco; 8 a 15, uso de risco, indicando intervenção breve; 16 a 19, uso nocivo, com intervenção breve associada a monitoramento; 20 ou mais, provável dependência, com encaminhamento para tratamento especializado. A versão reduzida AUDIT-C, três perguntas de consumo, usa corte de 4 pontos para homens e 3 para mulheres. O CAGE, corte de 2 respostas afirmativas, permanece o atalho mais cobrado em provas por sua sigla memorável, e o ASSIST, da OMS, rastreia múltiplas substâncias com escore por classe de droga; o CRAFFT é a ferramenta de escolha para adolescentes.
A apresentação aguda depende do fármaco e do padrão de uso. Na intoxicação alcoólica destacam-se desinibição, ataxia, disartria e, em níveis maiores, depressão respiratória e coma, com risco de hipoglicemia e aspiração. A cocaína e o crack produzem euforia, midríase, taquicardia, hipertensão, hipertermia e comportamento estereotipado; complicações isquêmicas, infarto, acidente vascular cerebral e arritmias, podem ocorrer com uso ocasional e mesmo com primeira dose, porque a vasoconstrição e a ativação plaquetária são independentes da tolerância. A intoxicação por opioides é a grande emergência reversível: a tríade de miose, depressão respiratória e sedação exige naloxona imediata. A maconha causa taquicardia, conjuntivite hiperêmica, euforia e prejuízo de memória de trabalho; o uso crônico precoce, antes dos 16 anos, associa-se a risco aumentado de psicose em vulneráveis, e a síndrome de hiperêmese canabinoide cursa com vômitos cíclicos aliviados por banhos quentes.
| Substância | Sinais de intoxicação | Complicações crônicas principais |
|---|---|---|
| Álcool | Desinibição, ataxia, disartria, coma | Cirrose, pancreatite crônica, cardiomiopatia, polineuropatia, síndrome de Wernicke-Korsakoff, cânceres, transtorno fetal |
| Cocaína e crack | Midríase, taquicardia, hipertensão, hipertermia | Infarto, AVC, arritmias, perfuração do septo nasal, psicose, endocardite no uso injetável |
| Maconha | Taquicardia, conjuntiva hiperêmica, euforia | Hiperêmese canabinoide, risco de psicose em vulneráveis, prejuízo cognitivo no uso adolescente |
| Opioides | Miose, depressão respiratória, sedação | Overdose, endocardite e infecções no uso injetável, dependência iatrogênica |
| Nicotina | Pouco aparente | DPOC, cânceres, doença cardiovascular, úlcera péptica |
Os marcadores laboratoriais do consumo de álcool se dividem em indiretos e diretos. A gama-glutamiltransferase, GGT, eleva-se em torno de 60 a 80% dos bebedores pesados, mas tem especificidade limitada, pois sobe com obesidade, hepatopatias, anticonvulsivantes e álcool em associação. O volume corpuscular médio aumenta acima de 100 fL em uma minoria dos bebedores crônicos, com alta especificidade e baixa sensibilidade. A transferrina deficiente em carboidratos, CDT, é o marcador de escolha para monitorar recaída por ter especificidade mais alta, em torno de 80 a 90%, com normalização em 2 a 4 semanas de abstinência. A razão AST/ALT maior que 2, com elevação modesta das transaminases, sugere hepatopatia alcoólica. A toxicologia de urina complementa a avaliação com janelas de detecção distintas que caem em prova.
O alicerce psicoterápico do cuidado é a entrevista motivacional, método centrado no paciente que explora a ambivalência em vez de confrontá-la, estruturado nas habilidades OARS: perguntas abertas, afirmações, escuta reflexiva e sumários. A intervenção breve, adaptável a consultas de 5 a 15 minutos na atenção básica, segue estruturas como FRAMES, feedback, responsabilidade, aconselhamento, menu de opções, empatia e autoeficácia, e reduz significativamente o consumo de álcool em bebedores de risco, com efeito cumulativo proporcional ao número de contatos. Essas técnicas se ajustam ao estágio de mudança em que o usuário se encontra, segundo o modelo de Prochaska e DiClemente.
A farmacoterapia do álcool tem quatro pilares com evidência consistente, e todos disponíveis no Sistema Único de Saúde. A naltrexona, antagonista opioide, reduz a fissura e a recaída em bebedores pesados na dose de 50 mg por dia por via oral ou 380 mg intramuscular mensal para adesão irregular; exige função hepática monitorada e é contraindicada em uso concomitante de opioides. O acamprosato, 666 mg por via oral de 8 em 8 horas, modula a transmissão glutamatérgica e é mais eficaz para manter a abstinência após a desintoxicação, com eliminação renal que pede cautela na doença renal crônica. O dissulfiram, 250 a 500 mg por dia, inibe a aldeído desidrogenase e produz reação desagradável, rubor, náuseas, taquicardia, com qualquer ingestão de álcool, funcionando como auxiliar para quem escolhe essa barreira. O topiramato, titulado até 200 a 300 mg por dia, e o baclofeno têm evidência crescente, o baclofeno com destaque em pacientes com hepatopatia, por não depender de metabolismo hepático relevante.
O manejo da síndrome de abstinência alcoólica é tema plantonista. Benzodiazepínicos são o padrão, com diazepam 10 a 20 mg por via oral ou intravenosa a cada 1 a 6 horas conforme sintomas, ou clordiazepóxido, guiados pela escala CIWA-Ar em regime gatilhado por sintomas; escores maiores que 15 indicam alto risco de convulsões e delirium tremens e internação. Tiamina, 100 mg por via intramuscular ou intravenosa de 8 em 8 horas nos casos moderados a graves, ou pelo menos 100 mg ao dia, deve preceder qualquer infusão de glicose, para prevenir a encefalopatia de Wernicke, com confusão, ataxia e oftalmoplegia, e sua evolução para a síndrome de Korsakoff de amnésia anterógrada e confabulação. O delirium tremens, com confusão, alucinações visuais, hiperadrenergia e febre, aparece entre 48 e 96 horas após a redução do consumo e tem mortalidade de 1 a 5% com tratamento adequado.
No transtorno por uso de opioides, o tratamento substitutivo é o padrão ouro porque reduz mortalidade, uso ilícito e comportamentos de risco. A metadona, agonista mu de meia-vida longa, inicia-se com 20 a 30 mg por dia e titula-se, com doses de manutenção habitualmente entre 60 e 120 mg por dia associadas a melhor retenção. A buprenorfina associada à naloxona, sublingual, inicia-se quando há abstinência leve estabelecida, início com 2 a 4 mg e titulação até 12 a 16 mg por dia, com teto de efeito respiratório que confere maior segurança. A naloxona é o antídoto da overdose: 0,4 a 2 mg por via intravenosa, intramuscular ou intranasal, repetida a cada 2 a 3 minutos até retorno da ventilação, com a orientação atual de distribuir kits de naloxona aos usuários e familiares como medida de redução de danos. Para cocaína e crack não há farmacoterapia aprovada; o tratamento é psicossocial, com gestão de contingências, reforço positivo de toxicologias negativas, como intervenção de melhor evidência, associada a abordagem cognitivo-comportamental e reabilitação.
Itinerários terapêuticos são os caminhos reais percorridos pelos usuários e familiares em busca de cuidado, e raramente seguem a sequência idealizada da atenção básica ao serviço especializado. Passam por automudança, religiosidade, grupos de ajuda mútua como Alcoólicos Anônimos e Narcóticos Anônimos, comunidades terapêuticas, emergências, internações e CAPS, muitas vezes com idas e vindas, abandono de tratamento e retorno. A literatura qualitativa mostra que a vivência do usuário, o que ele sente como acolhimento, escuta e respeito, determina a permanência nos serviços mais do que a oferta técnica em si, e que a recaída, presente em 40 a 60% dos casos no primeiro ano, precisa ser trabalhada como parte do processo de mudança e não como falha moral ou motivo de desligamento.
No Brasil, esse cuidado se organiza pela Rede de Atenção Psicossocial, instituída pela Portaria 3.088 de 2011, com os CAPS Álcool e Drogas, criados na lógica da reforma psiquiátrica desde a Portaria 336 de 2002, como serviços ambulatoriais especializados de intensividade variável, capazes de atendimento diário, matriciamento da atenção básica e cuidados compartilhados. A atenção básica rastreia com AUDIT e ASSIST e conduz intervenções breves; o CAPS-AD assume os casos moderados a graves, com equipes multiprofissionais, tratamento substitutivo para opioides e reabilitação psicossocial; as comunidades terapêuticas atuam sob regulação e fiscalização, preferencialmente por decisão voluntária; e as estratégias de redução de danos, troca de seringas, kits de naloxona, testagem rápida, conexão com serviços sociais, completam a rede para quem não deseja ou não consegue a abstinência imediata, reduzindo mortalidade e infecções.
O transtorno por uso de substâncias é crônico e recorrente, mas com prognóstico melhor do que o estigma sugere: coortes de seguimento longo mostram que a maioria dos indivíduos com dependência alcança remissão ao longo da vida, metade delas sem tratamento formal, embora o tratamento acelere e estabilize o processo. A mortalidade é excessiva, por overdose, trauma, cirrose, infecções e suicídio, com perda estimada de uma década de expectativa de vida na dependência de álcool grave. O seguimento deve monitorar fissura, recaída, comorbidades psiquiátricas, depressão e risco de suicídio, e condições clínicas associadas, com reavaliação do plano terapêutico a cada recaída, ajuste de farmacoterapia e reengajamento rápido, mantendo a pessoa na rede, porque cada contato aumenta a chance de mudança duradoura.
1.Pela CID-10, o que define a síndrome de dependência de álcool (F10.2)?
2.No DSM-5, um paciente com 7 dos 11 critérios de transtorno por uso de substância é classificado como:
3.Homem de 45 anos faz AUDIT e pontua 21. Qual a conduta?
4.Alcoólatra confuso, atáxico e com paralisia de olhar conjugado chega ao pronto-socorro. Qual a sequência correta?
5.Paciente com abstinência alcoólica tem CIWA-Ar de 18. Qual a interpretação e conduta?
6.Qual é o mecanismo e a principal utilidade da naltrexona no transtorno por uso de álcool?
7.Sobre o acamprosato, qual afirmação é correta?
8.Jovem é encontrado sonolento, com miose e respiração de 6 incursões por minuto. Qual a conduta imediata?
9.Qual estratégia tem a melhor evidência para o tratamento da dependência de cocaína/crack?
10.Paciente em pré-contemplação sobre seu uso prejudicial de álcool. Qual a abordagem mais apropriada pela entrevista motivacional?
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