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Revisão completa de saúde mental infantojuvenil: epidemiologia, ansiedade, depressão, TDAH, transtornos disruptivos e alimentares com critérios e doses, autoimagem e hiperconectividade, avaliação e conduta no risco suicida, estrutura da rede RAPS e papel do médico generalista.
[1] World Health Organization. Mental health of adolescents. Fact sheet. Genebra: OMS. 2024. who.int/news-room/fact-sheets/detail/adolescent-mental-health | [2] Polanczyk GV, Salum GA, Sugaya LS, Caye A, Rohde LA. Annual research review: a meta-analysis of the worldwide prevalence of mental disorders in children and adolescents. J Child Psychol Psychiatry. 2015;56(3):345-365. DOI 10.1111/jcpp.12381 | [3] Kessler RC, Berglund P, Demler O, et al. Lifetime prevalence and age-of-onset distributions of DSM-IV disorders in the National Comorbidity Survey Replication. Arch Gen Psychiatry. 2005;62(6):593-602. DOI 10.1001/archpsyc.62.6.593 | [4] Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 3.088, de 23 de dezembro de 2011: institui a Rede de Atenção Psicossocial, com os Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenis (CAPSi). bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2011/prt3088_23_12_2011.html | [5] U.S. Surgeon General. Social Media and Youth Mental Health: The U.S. Surgeon General Advisory. Washington: Department of Health and Human Services. 2023. hhs.gov/surgeongeneral | [6] Posner K, Brown GK, Stanley B, et al. The Columbia-Suicide Severity Rating Scale: initial validity and internal consistency findings from three multisite studies with adolescents and adults. Am J Psychiatry. 2011;168(12):1266-1277. DOI 10.1176/appi.ajp.2011.10111704 | [7] American Psychiatric Association. Practice Guideline for the Treatment of Patients With Eating Disorders. Am J Psychiatry. 2023;180(2):167-171. DOI 10.1176/appi.ajp.23180001 | [8] Fleitlich-Bilyk B, Goodman R. Prevalence of child and adolescent psychiatric disorders in southeast Brazil. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2004;43(6):727-734. DOI 10.1097/01.chi.0000120021.14101.ca · DOI 10.1111/jcpp.12381
A Organização Mundial da Saúde estima que um em cada sete adolescentes de 10 a 19 anos (14,3%) viva com um transtorno mental, que esses transtornos respondam por 15% da carga global de doença nessa faixa etária e que o suicídio seja a terceira causa de morte entre os 15 e 29 anos no mundo. Metade dos transtornos mentais da vida adulta já começou até os 14 anos de idade e três quartos até meados dos 20, o que faz da pediatria e da atenção primária o melhor ponto de diagnóstico precoce que o sistema de saúde possui. A maioria desses casos é leve a moderada, pode ser acompanhada pelo generalista e evolui bem com intervenções simples e estruturadas; a minoria grave e persistente demanda a rede de atenção psicossocial. Este artigo percorre o que cai em prova e no consultório: epidemiologia, transtornos comuns com critérios e doses, autoimagem e hiperconectividade, avaliação e conduta no risco suicida e a organização da linha de cuidado infantojuvenil no SUS.
Birra, medo e tristeza fazem parte do desenvolvimento; transtorno mental é a síndrome que se sustenta por persistência excessiva para a idade, intensidade desproporcional e, sobretudo, prejuízo funcional em pelo menos dois contextos, como casa e escola. A avaliação é multi-informante por definição: a criança pequena expressa sofrimento por comportamento e queixas somáticas, os responsáveis descrevem função e gravidade, e a escola fornece o contexto que a família não enxerga. Discrepâncias entre informantes não invalidam a avaliação, costumam ser o dado. Na entrevista com adolescente, reserve tempo a sós e explicite os limites do sigilo: o que for contado permanece entre vocês, exceto risco de vida e situações de violência.
A meta-análise de Polanczyk e colegas, com 41 estudos de 27 países, estimou prevalência agrupada de 13,4% para qualquer transtorno mental em crianças e adolescentes, com os transtornos ansiosos liderando em todas as idades. Antes da puberdade predominam quadros externalizantes em meninos; após a puberdade, quadros internalizantes, depressão e transtornos alimentares passam a predominar em meninas. O estudo brasileiro de referência, com escolares de 7 a 14 anos do sudeste do país, encontrou 12,7% de qualquer transtorno, compatível com a média mundial. Na pandemia de COVID-19, metanálise da JAMA Pediatrics duplicou as estimativas de sintomas: um em cada quatro jovens com sintomas depressivos e um em cada cinco com sintomas ansiosos.
| Grupo de transtornos | OMS 10 a 14 anos | OMS 15 a 19 anos | Meta-análise global (Polanczyk, 2015) |
|---|---|---|---|
| Transtornos de ansiedade | 4,1% | 5,3% | 6,5% |
| Transtornos depressivos | 1,3% | 3,4% | 2,6% |
| TDAH | 2,7% | 2,2% | 3,4% |
| Transtornos do comportamento disruptivo | 3,3% | 1,8% | 5,7% |
| Transtornos alimentares | 0,1% | 0,4% | não agrupado |
| Qualquer transtorno mental | cerca de 14,3% (10 a 19 anos) | cerca de 14,3% (10 a 19 anos) | 13,4% |
O quadro mais típico da criança pequena é a ansiedade de separação: medo ou recusa desproporcional de se afastar das figuras de vínculo por pelo menos 4 semanas, com recusa escolar, pesadelos de abandono e queixas somáticas matinais como dor abdominal e vômitos, frequentemente confundidas com doença gastrintestinal. No transtorno de ansiedade generalizada, a preocupação excessiva e difícil de controlar dura 6 meses ou mais e, diferente do adulto, a criança precisa de apenas um sintoma associado, e não três, para fechar critérios: inquietação, fatigabilidade, dificuldade de concentração, irritabilidade, tensão muscular ou distúrbio do sono. Completam o grupo a fobia social, com medo de exposição ao julgamento e o mutismo seletivo como forma extrema, as fobias específicas e o pânico, mais comum no fim da adolescência.
O tratamento de primeira linha é a terapia cognitivo-comportamental com exposição gradual, em 12 a 16 sessões, com envolvimento da família e da escola no plano de retorno gradual às situações evitadas. Para casos moderados a graves, somam-se os inibidores seletivos de recaptação de serotonina, sempre com o princípio de começar baixo e subir devagar. O ensaio CAMS, publicado no New England Journal of Medicine em 2008, randomizou 488 crianças e adolescentes de 7 a 17 anos com ansiedade de separação, generalizada ou fobia social: a resposta em 12 semanas foi de 80,7% com sertralina mais terapia cognitivo-comportamental, contra 59,7% com apenas terapia, 54,9% com apenas sertralina (25 a 200 mg/dia) e 23,7% com placebo, consolidando a combinação como padrão no quadro moderado a grave. Após a resposta, manter o antidepressivo por 6 a 12 meses e descontinuar de forma gradual.
Os critérios do DSM-5 exigem 5 ou mais sintomas por 2 semanas, incluindo obrigatoriamente humor deprimido ou anedonia; na criança e no adolescente, o humor pode ser irritável no lugar do deprimido, e é essa irritabilidade com queda de rendimento escolar que traz o paciente ao consultório, não a tristeza. Completam o quadro alteração de peso ou apetite, insônia ou hipersonia, agitação ou retardo psicomotor, fadiga, culpa ou inutilidade, queda de concentração e ideação de morte. Para rastreio, o PHQ-A adapta o PHQ-9 para 11 a 17 anos. A apresentação pediátrica privilegia queixas somáticas, isolamento de amigos e queda escolar, e o diagnóstico diferencial inclui hipotireoidismo, anemia, uso de substâncias e abuso sexual, que devem ser ativamente investigados.
A estratificação do tratamento segue a lógica das diretrizes: depressão leve recebe psicoeducação, suporte e reavaliação em 4 a 6 semanas; a moderada recebe psicoterapia estruturada, como terapia cognitivo-comportamental ou interpessoal para adolescentes, e/ou ISRS; a grave, com risco ou comorbidade, combina antidepressivo e psicoterapia. O ensaio TADS, com 439 adolescentes de 12 a 17 anos, mostrou em 12 semanas resposta de 71% com fluoxetina mais terapia cognitivo-comportamental, contra 60,6% com fluoxetina isolada, 43,2% com apenas terapia e 34,8% com placebo. A fluoxetina é o ISRS com melhor evidência e aprovação a partir dos 8 anos; o escitalopram é aprovado a partir dos 12. O aviso regulatório de ideação suicida em menores de 25 anos, cerca de 4% contra 2% no placebo nos ensaios, sem suicídios consumados, não contraindica o uso: exige monitoramento com contato semanal no primeiro mês e orientação explícita da família sobre sinais de alerta.
| Fármaco | Indicação aprovada em menores de 18 anos | Dose inicial | Faixa usual |
|---|---|---|---|
| Fluoxetina | Depressão a partir dos 8 anos e TOC a partir dos 7 | 10 mg/dia | 20 mg/dia, podendo chegar a 40 mg |
| Escitalopram | Depressão a partir dos 12 anos | 10 mg/dia | 10 a 20 mg/dia |
| Sertralina | TOC a partir dos 6 anos; ansiedade com forte evidência de ensaio clínico | 12,5 a 25 mg/dia | 25 a 200 mg/dia |
| Fluvoxamina | TOC a partir dos 8 anos | 25 mg/dia | 25 a 200 mg/dia |
O DSM-5 exige 6 ou mais sintomas de desatenção e/ou 6 ou mais de hiperatividade-impulsividade (5 ou mais se idade igual ou maior que 17 anos), presentes há 6 meses ou mais, em intensidade incompatível com o nível de desenvolvimento, com vários sintomas iniciados antes dos 12 anos, evidentes em dois ou mais ambientes e com prejuízo funcional claro, não melhor explicados por outro transtorno. O TDAH é altamente hereditável, com herdabilidade estimada em 70 a 80%, e se traduz em disfunção dos circuitos fronto-estriatais de dopamina e noradrenalina. Atenção ao erro clássico: sintomas que só aparecem em um único ambiente sugerem ansiedade, privação de sono, transtorno de aprendizagem, abuso ou negligência, e não TDAH. Cerca de dois terços dos casos têm comorbidade, sobretudo transtorno desafiador opositor, ansiedade e transtornos de aprendizagem, e o estudo MTA mostrou que o tratamento combinado permite doses menores e melhores desfechos funcionais e comórbidos do que medicação isolada, ainda que os benefícios comparativos se atenuem nos seguimentos longos, reforçando o manejo multimodal.
| Fármaco | Dose inicial | Faixa usual | Observações práticas |
|---|---|---|---|
| Metilfenidato de liberação imediata | 5 mg 1 a 2 vezes ao dia | 0,5 a 1 mg/kg/dia em 2 a 3 tomadas, máximo de 60 mg/dia | Efeito de 3 a 5 horas; sujeito a receita de controle especial (lista B1, tarja preta) |
| Metilfenidato OROS de liberação prolongada | 18 mg/dia pela manhã | 18 a 54 mg/dia | Efeito de 8 a 12 horas; preferido pela adesão escolar |
| Lisdexanfetamina | 30 mg/dia | 30 a 70 mg/dia | Pró-fármaco da dexanfetamina, efeito de cerca de 12 horas; notificação de receita A (lista A1) |
| Atomoxetina | 0,5 mg/kg/dia por 7 dias | 1,2 mg/kg/dia, máximo de 1,4 mg/kg/dia ou 100 mg | Não estimulante e não controlado; efeito em semanas; útil com abuso de substância ou ansiedade comórbida |
O transtorno desafiador opositor (TOD) é padrão persistente, por 6 meses ou mais, de humor raivoso e irritável, com perda de temperamento, sensibilidade a aborrecimentos, raiva e ressentimento; de comportamento argumentativo e desafiador, com discussão com adultos, desafio a regras, incomodar deliberadamente e culpar os outros; e de rancor, pelo menos duas vezes em 6 meses, causando prejuízo funcional e sem violação grave de direitos ou agressão a pessoas e animais. O tratamento de primeira linha não é farmacológico: treino parental de manejo de contingências e terapia cognitivo-comportamental para regulação emocional, com envolvimento da escola. Parte dos casos evolui para transtorno de conduta, sobretudo com início precoce e comorbidade com TDAH não tratado.
O transtorno de conduta (TDC) exige 3 ou mais critérios de 15 nos últimos 12 meses, com ao menos 1 nos últimos 6 meses, distribuídos em quatro domínios: agressão a pessoas ou animais, destruição de propriedade, fraude ou furto e violação grave de regras, como fugar de casa de madrugada ou evasão escolar antes dos 13 anos. Especifica-se o início na infância, antes dos 10 anos e de pior prognóstico, ou na adolescência, e o especificador de traços pró-sociais emocionalmente limitados, quando falta culpa, empatia e afeto superficial. O TDC é o predecessor direto do transtorno de personalidade antissocial do adulto em parcela dos casos, e o tratamento é multimodal: intervenção familiar, escolar, cognitivo-comportamental para habilidades sociais e tratamento rigoroso das comorbidades. Medicamento só entra para agressividade grave e refratária: risperidona 0,25 a 0,5 mg/dia de partida, usualmente 1 a 2 mg/dia, com vigilância ativa de peso, prolactina e perfil metabólico.
Na anorexia nervosa, o DSM-5 exige restrição de ingestão em relação às necessidades levando a peso significativamente abaixo do mínimo esperado para idade e sexo, medo intenso de ganhar peso ou comportamento evitativo persistente e alteração da autopercepção do peso e da forma corporal; especificam-se o subtipo restritivo e o de compulsão periódica com purgação, e a gravidade em adolescentes usa o percentil de índice de massa corporal. A amenorreia saiu dos critérios do DSM-5, embora continue sendo sinal clínico relevante. A bulimia nervosa alterna episódios de compulsão periódica com comportamentos compensatórios inadequados, como vômitos autoinduzidos, uso indevido de laxantes e diuréticos e exercício excessivo, ao menos uma vez por semana por 3 meses, com peso normal ou alto. O transtorno de ingestão alimentar restritiva e evitativa (ARFID) restringe por textura, medo de consequências ou desinteresse sensorial, sem qualquer distorção de imagem corporal.
A porta de entrada costuma ser a atenção primária: perda ponderal em adolescente, amenorreia, intolerância ao frio, bradicardia, hipotensão postural, lanugo, sinal de Russell (calosidades no dorso das falanges por vômitos autoinduzidos), erosão dental, parotidomegalia e edema por hipoproteinemia. O laboratório pode mostrar hipopotassemia, alcalose metabólica hipoclorêmica pelos vômitos, hiperamilasemia e, em fases avançadas, osteopenia. A diretriz americana de 2023 consolida o tratamento baseado na família, modelo Maudsley, como primeira linha para anorexia do adolescente, em três fases: pais assumem integralmente a realimentação, devolução gradual da autonomia alimentar e questões próprias da adolescência, com meta ambulatorial de ganho de 0,5 a 1 kg por semana. Na bulimia, primeira linha é terapia cognitivo-comportamental; a fluoxetina em dose alta, 60 mg/dia, é o adjuvante farmacológico com melhor evidência, e doses usuais de 20 mg não são eficazes.
A síndrome da realimentação mata por arritmia e merece protocolo: suplementar tiamina, 100 a 300 mg por dia, antes e durante o início da oferta calórica; monitorar fósforo, potássio e magnésio diariamente na primeira semana, com correção vigorosa de quedas, inclusive assintomáticas; iniciar as calorias de forma menos restritiva do que no passado, em torno de 1.400 kcal por dia ou mais conforme o protocolo do serviço, com avanço gradual diário; e restringir ganho agressivo de peso e carga de sódio nos primeiros dias. O objetivo global é restaurar peso, normalizar o comportamento alimentar e tratar a psicopatologia, com o generalista coordenando o cuidado com nutricionista, psicólogo e psiquiatra e mantendo a família dentro do plano terapêutico em todas as etapas.
O parecer do cirurgião-general dos Estados Unidos de 2023 resume a dimensão da exposição: cerca de 95% dos adolescentes de 13 a 17 anos usam redes sociais e mais de um terço declara uso quase constante; passar mais de 3 horas por dia em redes sociais associou-se ao dobro do risco de desfechos ruins de saúde mental, incluindo sintomas de depressão e ansiedade. Os mecanismos hipotetizados ligam-se diretamente à autoimagem: comparação social permanente com corpos e vidas editados, exposição a conteúdo de dieta e exercício, pressão por validação por curtidas, ciberbullying, deslocamento do sono e da atividade física e medo de ficar de fora (FOMO). Meninas adolescentes e jovens de orientação sexual e identidade de gênero minoritárias em ambientes não acolhedores parecem mais vulneráveis aos efeitos negativos.
A leitura crítica é cobrada porque a evidência é de associação, não de causalidade: em análises de curva de especificação com centenas de milhares de adolescentes, o uso de tecnologia digital explicou menos de 1% da variância do bem-estar, efeito estatisticamente significativo, porém pequeno, com provável causalidade reversa, já que adolescentes com humor deprimido usam mais as redes. Na prática, o clínico deve perguntar sobre quantidade de horas, conteúdo consumido, horário noturno, interações negativas e comparação corporal, e não apenas se usa redes. A conduta é de higiene digital negociada com a família, jamais de proibição punitiva isolada, e o rastreio de ciberbullying e de comparação corporal negativa entra na anamnese de rotina do adolescente com o mesmo status do rastreio de tabagismo.
O suicídio é a terceira causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no mundo e as taxas brasileiras em adolescentes vêm subindo nas últimas décadas. O preditor mais forte de morte por suicídio é a tentativa prévia, seguida de transtorno mental não tratado, sobretudo depressão, uso de substâncias e transtorno alimentar; somam-se bullying presencial e virtual, história familiar de suicídio, violência sexual, identidade minoritária em ambiente hostil e, de forma decisiva e modificável, o acesso a meios letais, como armas de fogo e estoques de medicamentos. Sinais de alerta imediatos incluem verbalização de morte e desamparo, presentear pertences, despedidas, busca ativa de método e mudança abrupta de humor de depressivo para aparente calma, que pode indicar decisão tomada.
Perguntar diretamente sobre suicídio não induz ideação, reduz barreiras e é a única forma de estratificar risco; essa é uma das afirmativas mais cobradas. O instrumento ASQ, do instituto nacional de saúde mental americano, rastreia com 4 perguntas de sim ou não em qualquer serviço de saúde; a escala de gravidade de suicidalidade de Columbia (C-SSRS), validada em estudos multicêntricos com adolescentes e adultos, classifica a ideação em gravidade crescente, do desejo de morte à ideação ativa com método, intenção e plano, e documenta o comportamento, incluindo tentativa, preparação, tentativa interrompida e automutilação sem intenção. O item 9 do PHQ-9 funciona como gatilho de avaliação completa, e não como medida de risco por si.
A Rede de Atenção Psicossocial, instituída pela Portaria GM/MS nº 3.088 de 23 de dezembro de 2011, organiza o cuidado em saúde mental no SUS em pontos articulados: a atenção básica, com equipes de saúde da família apoiadas por equipes multiprofissionais e pelo apoio matricial em saúde mental; a atenção psicossocial especializada, com os CAPS I, II e III e os CAPS de álcool e outras drogas; os CAPS infantojuvenis (CAPSi); a atenção à urgência e emergência, com SAMU, UPA e portas hospitalares com protocolos de crise; a atenção hospitalar; a atenção residencial de caráter transitório; e as estratégias de desinstitucionalização. O desenho é o oposto do antigo modelo manicomial: cuidado territorial, substitutivo ao hospital, com a crise atendida o mais próximo possível da comunidade.
O CAPSi é o dispositivo especializado para a criança e o adolescente com transtorno mental grave e persistente, implantado prioritariamente em municípios com mais de 200 mil habitantes e passível de organização regional: recebe casos que extrapolam a capacidade da atenção básica, como psicose infantojuvenil, autismo com comprometimento importante, transtornos graves com reincidência de crise suicida e quadros graves por uso de álcool e outras drogas, oferecendo cuidado intensivo diário, reabilitação, articulação com escola, conselho tutelar e assistência social, e evitando internações psiquiátricas. A regra de ouro da linha de cuidado é o gradiente de intensidade: casos leves e moderados ficam na atenção básica com apoio matricial; os graves e persistentes seguem ao CAPSi; a crise com risco imediato vai para a urgência; e nenhum desses pontos dispensa a responsabilização longitudinal pelo território.
O generalista é a porta de entrada e o coordenador do cuidado: rastreia nas consultas de puericultura e de adolescente, diagnostica os quadros comuns, trata os leves e moderados com psicoterapia estruturada e farmacoterapia básica, sabe pedir ajuda e mantém vínculo mesmo depois do encaminhamento. Duas competências concentram o valor prático: a entrevista com adolescente, com tempo a sós e sigilo relativo explicitado desde o início, e o seguimento farmacológico, com escolha de ISRS com boa evidência, começo baixo e subida devagar, contato semanal no primeiro mês e retirada gradual ao final. Prescrições controladas, como metilfenidato, exigem receita própria e reavaliação periódica documentada de peso, pressão, altura e resposta funcional, e não apenas de sintomas.
1.Menino de 8 anos com dor abdominal e vômitos todas as manhãs antes da escola, exames físicos e laboratoriais normais, fim de semana tranquilo em casa e recusa intensa a ficar longe da mãe. O diagnóstico mais provável é:
2.Sobre os critérios de transtorno de ansiedade generalizada do DSM-5 em crianças e adolescentes, é correto afirmar:
3.No ensaio TADS com adolescentes deprimidos de 12 a 17 anos, qual braço apresentou a maior taxa de resposta em 12 semanas?
4.Adolescente de 14 anos com desatenção importante apenas nas aulas, bom foco em jogos e tarefas de que gosta nos fins de semana, sem prejuízo nas relações familiares. Sobre o diagnóstico de TDAH:
5.Criança de 5 anos com critérios de TDAH e prejuízo importante na pré-escola. Qual a primeira linha de tratamento?
6.Adolescente de 13 anos furta objetos em lojas, já incendiou uma lixeira do bairro e foge de casa de madrugada, sem culpa aparente. O diagnóstico adequado é:
7.Adolescente com anorexia nervosa inicia realimentação hospitalar. Qual achado laboratorial é o marcador precoce mais típico da síndrome da realimentação, a ser monitorado diariamente na primeira semana?
8.Sobre o rastreio de risco suicida em adolescentes na atenção primária, a afirmativa correta é:
9.Dentro da Rede de Atenção Psicossocial, o CAPSi é o dispositivo destinado a:
10.Segundo o parecer do cirurgião-general americano de 2023 sobre redes sociais e saúde mental de jovens, passar mais de 3 horas diárias em redes sociais associa-se a:
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