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Revisão completa da osteoartrite: conceito de doença do órgão articular completo, enzimas e citocinas da degradação da cartilagem, apresentação clínica por sítio, critérios diagnósticos do ACR, graduação de Kellgren-Lawrence e tratamento em degraus com doses de fármacos, indicações cirúrgicas e recomendações fortes e contraindicações da diretriz ACR 2019. Inclui os números do Global Burden of Disease e do ensaio GAIT.
[1] Hunter DJ, Bierma-Zeinstra S. Osteoarthritis. Lancet. 2019;393(10182):1745-1759 · DOI 10.1016/S0140-6736(19)30417-6 | [2] Kolasinski SL, Neogi T, Hochberg MC, et al. 2019 American College of Rheumatology/Arthritis Foundation Guideline for the Management of Osteoarthritis of the Hand, Hip, and Knee. Arthritis Care Res (Hoboken). 2020;72(2):149-162 · DOI 10.1002/acr.24831 | [3] McAlindon TE, Bannuru RR, Sullivan MC, et al. OARSI guidelines for the non-surgical management of knee osteoarthritis. Osteoarthritis Cartilage. 2014;22(3):363-388 · DOI 10.1016/j.joca.2014.01.003 | [4] GBD 2021 Osteoarthritis Collaborators. Global, regional, and national burden of osteoarthritis, 1990-2020 and projections to 2050. Lancet Rheumatol. 2023;5(9):e508-e522 · DOI 10.1016/S2665-9913(23)00163-7 | [5] Clegg DO, Reda DJ, Harris CL, et al. Glucosamine, chondroitin sulfate, and the two in combination for painful knee osteoarthritis (GAIT). N Engl J Med. 2006;354(8):795-808 · DOI 10.1056/NEJMoa052771 · DOI 10.1016/S0140-6736(19)30417-6
A osteoartrite, chamada de artrose na nomenclatura antiga, é a doença articular mais frequente e uma das principais causas de dor crônica e incapacidade em adultos. O Global Burden of Disease estimou 595 milhões de pessoas com osteoartrite em 2020, um aumento de 132% desde 1990, com projeção de quase 1 bilhão de casos em 2050, puxada pelo envelhecimento populacional e pela obesidade. O joelho é o sítio mais acometido e o de maior impacto funcional. Para a prova, o aluno precisa dominar três viradas conceituais dos últimos anos: a osteoartrite é uma doença de todo o órgão articular, e não apenas do desgaste da cartilagem; tem componente inflamatório e metabólico ativo, e não mecânico puro; e o tratamento de primeira linha é não farmacológico, com exercício e perda de peso, e não analgésico.
A osteoartrite é uma doença degenerativa-articular que envolve todos os tecidos da articulação: degradação progressiva da cartilagem articular, esclerose e remodelamento do osso subcondral, formação de osteófitos marginais, sinovite de baixo grau e alterações da cápsula e dos meniscos. Diferencia-se das artrites inflamatórias por não cursar com sinovite difusa destrutiva nem com alterações sistêmicas. A classificação clinicamente útil separa a forma primária, idiopática, relacionada a idade, genética e sobrepeso, da secundária, em que um fator identificável antecede a doença: trauma, como lesão do ligamento cruzado anterior e meniscectomia; artropatias metabólicas, como hemocromatose e ocronose; doenças endócrinas, como acromegalia e hipotireoidismo; e artrites prévias, como gota e artrite séptica.
A prevalência radiográfica supera em muito a sintomática: alterações degenerativas estão presentes na maioria dos adultos acima de 65 anos, mas a doença com dor e limitação acomete cerca de 10% dos maiores de 60 anos no joelho. A incidência aumenta de forma acentuada com a idade em ambos os sexos, com predomínio feminino após os 50 anos, particularmente nas mãos e joelhos. Fatores de risco dividem-se em sistêmicos, que aumentam a suscetibilidade da cartilagem, e locais, que concentram a carga mecânica.
A cartilagem hialina é sustentada por condrócitos que mantêm uma matriz extracelular com duas macromoléculas-chave: o colágeno tipo II, que dá resistência à tração, e o agrecano, proteoglicano que retém água e confere compressibilidade. Na osteoartrite, estímulos mecânicos excessivos e citocinas desencadeiam um fenótipo catabólico dos condrócitos: as metaloproteinases de matriz, em especial a colagenase MMP-13, clivam o colágeno tipo II, e as agrecanases ADAMTS-4 e ADAMTS-5 degradam o agrecano, com perda da capacidade de retenção de água, fissuração e erosão da superfície cartilaginosa. A regulação é inflamatória: interleucina 1 beta e fator de necrose tumoral alfa induzem as enzimas catabólicas e suprimem a síntese de matriz, e a interleucina 6 recruta e ativa sinovócitos.
A resposta óssea é simultânea: o osso subcondral sofre remodelamento acelerado com esclerose radiográfica e microfraturas, formando cistos; na margem articular, estímulos de TGF-beta e da via WNT desencadeiam ossificação endocondral que produz os osteófitos, tentativa de estabilização da articulação que acaba limitando o movimento. A sinóvia responde com infiltração de macrófagos CD14 positivos e produção de interleucina 6 e GM-CSF, gerando derrames de baixo grau. Como a cartilagem é aneural, a dor origina-se do osso subcondral, da sinóvia, da cápsula e das estruturas periarticulares; a angiogênese com brotamento de nervos sensoriais junto ao fator de crescimento nervoso, NGF, dentro de estruturas normalmente não inervadas explica a dor crônica, e os anticorpos anti-NGF como tanezumabe, ainda experimentais, comprovaram o papel da via ao controlar a dor com risco de artropatia destrutiva rápida em estudos fase 3.
A dor da osteoartrite é profunda, localizada na articulação, induzida pelo uso e aliviada pelo repouso nas fases iniciais; com a progressão, passa a ocorrer também em repouso e à noite, sinal de doença avançada. A rigidez matinal ou após imobilidade, o fenômeno de gelificação, dura menos de 30 minutos, em contraste marcante com as artrites inflamatórias. Crepitação óssea grossa à movimentação, aumento ósseo de volume, derrames de pequeno volume e deformidades, como geno varo, completam o quadro. Não há sintomas sistêmicos: febre, emagrecimento, adenomegalia, rigidez prolongada ou poliartrite simétrica de pequenas articulações com sinovite maciça apontam para outro diagnóstico.
O diagnóstico de osteoartrite de joelho é clínico. Os critérios clássicos do Colégio Americano de Reumatologia exigem dor no joelho e pelo menos três de seis achados: idade acima de 50 anos, rigidez matinal inferior a 30 minutos, crepitação óssea à movimentação ativa, dor à pressão óssea nas margens articulares, aumento ósseo de volume e ausência de calor à palpação, conjunto com sensibilidade de 95% e especificidade de 69%. Para o quadril, dor no quadril e dois de três: velocidade de hemossedimentação abaixo de 20 mm na primeira hora, osteófitos femorais ou acetabulares e pinçamento superior do espaço articular. Para as mãos, dor e endurecimento ósseo com aumento de volume de duas ou mais articulações de um conjunto de dez, menos de três metacarpofalangianas tumefeitas e duas ou mais interfalangianas distais aumentadas.
A radiografia simples em apoio permanece o exame de imagem inicial, mesmo sabendo que a correlação entre gravidade radiográfica e intensidade da dor é fraca. A graduação de Kellgren-Lawrence padroniza o laudo. Exames laboratoriais são normais e servem para excluir diagnósticos diferenciais: hemossedimentação e proteína C reativa dentro da faixa, fator reumatoide e anti-CCP negativos. O líquido sinovial, quando colhido, é não inflamatório, com 200 a 2.000 leucócitos por mm cúbico, boa viscosidade e ausência de cristais e de microrganismos.
| Grau de Kellgren-Lawrence | Achados radiográficos |
|---|---|
| Grau 0 | radiografia normal, sem achados de osteoartrite |
| Grau I | osteofito duvidoso e espaço articular normal |
| Grau II | osteofito definido com possível pinçamento mínimo do espaço |
| Grau III | múltiplos osteófitos moderados, pinçamento definido, esclerose subcondral e possível deformidade óssea incipiente |
| Grau IV | grandes osteófitos, pinçamento acentuado, esclerose intensa, cistos subcondrais e deformidade óssea franca |
Ultrassonografia demonstra osteófitos, derrames e sinovite ao Doppler, guiando infiltrações; a ressonância magnética não é rotina, mas revela lesões da medula óssea, extrusão meniscal e sinovite, úteis nos casos atípicos. Em resumo: clínica manda, imagem confirma e laboratório exclui.
| Característica | Osteoartrite | Artrite reumatoide | Gota | Artrite séptica |
|---|---|---|---|---|
| Padrão da dor | mecânica, piora com o uso | inflamatória, piora com o repouso e à noite | recorrente, abrupta, noturna | aguda, intensa, em horas |
| Rigidez matinal | menos de 30 minutos | mais de 1 hora | ausente entre crises | curta, mascarada pela dor |
| Distribuição | DIP, PIP, primeira CMC, joelhos, quadril | MCP, punhos, PIP, simétrica | primeiro metatarsofalângico, monoarticular | grande articulação, monoarticular |
| Sinais inflamatórios locais | ausência de calor à palpação | sinovite macia e difusa | rubor intenso, calor, tumefação | rubor, calor e derrame tensos |
| Exames | VHS e PCR normais, FR negativo | FR e anti-CCP positivos, ESR e CRP elevados | ácido úrico variável, cristais de urato | cultura positiva, leucócitos acima de 50 mil |
| Líquido sinovial, leucócitos | 200 a 2.000 | 2.000 a 50 mil | 2.000 a 50 mil com cristais | acima de 50 mil com neutrófilos |
As diretrizes ACR 2019 e OARSI convergem: o núcleo do tratamento é não farmacológico e deve começar antes de qualquer comprimido. Exercício é a intervenção com maior corpo de evidência: fortalecimento do quadríceps três vezes por semana por pelo menos 12 semanas reduz dor com magnitude comparável a anti-inflamatórios, e exercício aeróbico e aquático somam efeito. Perda de peso é a segunda perna: perdas de 5 a 10% do peso já produzem melhora clinicamente relevante da dor, e a combinação de dieta com exercício reduziu a pontuação de dor em cerca de metade no ensaio IDEA; no seguimento de Framingham, mulheres que perderam 5 kg reduziram pela metade o risco de osteoartrite sintomática de joelho. Educação, programas de autocuidado, terapia cognitivo-comportamental, tai chi e ioga têm recomendação forte ou condicional conforme a diretriz.
A farmacoterapia é adjuvante, individualizada pelo risco gastrointestinal, cardiovascular e renal. O anti-inflamatório tópico é a primeira escolha no idoso com osteoartrite de joelho ou mão, pela eficácia com absorção sistêmica mínima. Anti-inflamatórios orais são eficazes, mas usados na menor dose e pelo menor tempo, com inibidor de bomba de prótons quando há risco gastrointestinal e preferência por naproxeno quando predomina o risco cardiovascular. A tabela resume as doses e as forças de recomendação da diretriz ACR 2019.
| Classe ou droga | Dose típica do adulto | Recomendação ACR 2019 | Cautelas |
|---|---|---|---|
| Diclofenaco tópico a 1% | 2 a 4 g no joelho 4 vezes ao dia | forte para joelho e mão | irritação cutânea local |
| AINE oral, naproxeno | 500 mg a cada 12 horas | forte para joelho e quadril | risco cardiovascular relativamente menor entre os não seletivos |
| AINE oral, ibuprofeno | 600 mg a cada 8 horas | forte para joelho e quadril | dose máxima diária de 2.400 mg |
| AINE oral, celecoxibe | 200 mg uma vez ao dia | forte para joelho e quadril | cardiovasculares em doses altas; menor toxicidade gástrica |
| Corticoide intra-articular, triamcinolona | 40 mg intra-articular no joelho; repetir no máximo 3 a 4 vezes ao ano | forte para joelho e quadril | efeito de 4 a 8 semanas; atrofia cutânea e risco de infecção raros |
| Paracetamol | até 3 g ao dia, fracionado | condicional, eficácia limitada | hepatotoxicidade em uso crônico e álcool |
| Duloxetina | 30 mg ao dia com aumento para 60 mg | condicional, dor centralizada | náusea, insônia, interações |
| Tramadol | 50 a 100 mg a cada 6 a 8 horas | condicional, resgate | dependência, quedas no idoso |
| Ácido hialurônico intra-articular | 1 aplicação semanal por 3 a 5 semanas | condicional para joelho | efeito pequeno e inconsistente |
| Condroitina sulfato | 1.200 mg ao dia | condicional para mão; contra para joelho e quadril | a variar entre formulações |
| Glicosamina | 1.500 mg ao dia | fortemente contra | o ensaio GAIT não mostrou superioridade ao placebo |
| Corticoide oral e opioides fortes | não recomendados | fortemente contra corticoide oral; opioides fortes contraindicados | efeitos adversos sem benefício sustentado |
A capsaicina tópica tem recomendação condicional para joelho e mão. Infiltração com corticoide é indicada nos flares de dor com derrame, com aspiração prévia quando há derrame; a viscosuplementação reserva-se a casos selecionados. Terapias em investigação incluem anti-NGF, anticorpos monoclonais contra interleucinas e moduladores de canal, ainda sem lugar na prática.
A indicação cirúrgica é clínica, não radiográfica: dor persistente que falha ao tratamento clínico otimizado por 3 a 6 meses, com limitação funcional relevante e doença estrutural compatível. A artroplastia total de joelho ou quadril é uma das intervenções de maior sucesso da medicina, com sobrevida do implante acima de 90% em 15 a 20 anos e melhora substancial de dor e função em mais de 85% dos pacientes; riscos incluem infecção profunda em 1-2%, tromboembolismo, com profilaxia obrigatória, rigidez e falha asséptica ao longo dos anos. A artroscopia está fortemente contraindicada na osteoartrite degenerativa e no menisco degenerativo, pois ensaios randomizados mostraram equivalência ao tratamento clínico, com riscos cirúrgicos somados. Alternativas em jovens ativos com doença unilateral e eixo alterado incluem osteotomia tibial de correção e artroplastia unicompartmental, que preservam os tecidos sadios.
A osteoartrite avanada causa incapacidade funcional, quedas, sedentarismo com agravamento de doenças cardiovasculares e diabetes, e cronificação da dor com sensibilização central, em que o paciente passa a apresentar dor difusa e alodinia. Iatrogenia importante: anti-inflamatórios orais sem gastroproteção em idosos causam sangramento digestivo alto e lesão renal, e opioides cedo na doença geram dependência sem ganho funcional. O prognóstico, porém, não é de deterioração linear: a maioria dos pacientes estabiliza com tratamento de base, e a artroplastia resgata a função nos casos avançados. A progressão radiográfica é mais rápida em obesos, no sexo feminino e na doença de início inflamatório.
1.Mulher de 68 anos com dor há 2 anos nas interfalangianas distais das mãos, nódulos ósseos duros e rigidez matinal de 10 minutos. Qual o achado laboratorial esperado?
2.Nódulos de Bouchard correspondem a aumento ósseo de quais articulações?
3.Qual enzima é a principal colagenase responsável pela degradação do colágeno tipo II na cartilagem osteoartrítica?
4.Nos critérios clínicos do ACR para osteoartrite de joelho, qual achado integra o conjunto de seis itens?
5.Radiografia de joelho mostra múltiplos osteófitos moderados, pinçamento definido do espaço articular e esclerose subcondral, sem deformidade óssea franca. Qual o grau de Kellgren-Lawrence?
6.Idoso de 76 anos com osteoartrite de joelho, hipertensão, diabetes e úlcera péptica prévia. Qual a analgesia inicial mais adequada?
7.O ensaio GAIT, publicado no NEJM em 2006, randomizou pacientes com osteoartrite de joelho para glicosamina, condroitina, combinação, celecoxibe ou placebo. Qual a conclusão principal?
8.Homem de 62 anos com osteoartrite de joelho grau III e dor meniscal degenerativa solicita artroscopia. Qual a conduta baseada em evidência?
9.Paciente com osteoartrite sintomática do joelho direito deve usar a bengala em qual mão e por quê?
10.Análise do líquido sinovial de paciente com derrame crônico de joelho mostra 900 leucócitos por mm cúbico, boa viscosidade e ausência de cristais. Qual a interpretação?
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