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Revisão completa do lúpus eritematoso sistêmico: fatores predisponentes genéticos, hormonais e ambientais, papel da microbiota intestinal, critérios de classificação EULAR/ACR 2019 com pesos, painel de autoanticorpos com sensibilidade e especificidade, classes de nefrite lúpica, tratamento por cenário com doses (hidroxicloroquina, corticoides, micofenolato, ciclofosfamida, belimumabe, anifrolumabe), lúpus na gestação e prognóstico.
[1] Aringer M, Costenbader K, Daikh D, et al. 2019 European League Against Rheumatism/American College of Rheumatology Classification Criteria for Systemic Lupus Erythematosus. Ann Rheum Dis. 2019;78(9):1151-1159 · DOI 10.1136/annrheumdis-2019-215563 | [2] Kaul A, Gordon C, Crow MK, et al. Systemic lupus erythematosus. Nat Rev Dis Primers. 2016;2:16039 · DOI 10.1038/nrdp.2016.39 | [3] Fanouriakis A, Kostopoulou M, Andersen J, et al. EULAR recommendations for the management of systemic lupus erythematosus: 2023 update. Ann Rheum Dis. 2024;83(1):15-29 · DOI 10.1136/ard-2023-224762 | [4] Manfredo Vieira S, Hiltensperger M, Kumar V, et al. Translocation of a gut pathobiont drives autoimmunity in mice and humans. Science. 2018;359(6380):1156-1161 · DOI 10.1126/science.aar7201 · DOI 10.1136/annrheumdis-2019-215563
O lúpus eritematoso sistêmico (LES) é o protótipo das doenças autoimunes sistêmicas: produção policlonal de autoanticorpos contra antígenos nucleares, deposição de complexos imunes e consumo de complemento produzem inflamação virtualmente em qualquer órgão. Afeta cerca de 20 a 70 pessoas por 100 mil, com predomínio francamente feminino (9:1 na idade reprodutiva) e maior gravidade em afrodescendentes, hispânicos e asiáticos. Para a prova, quatro blocos decidem a nota: os fatores predisponentes e o mecanismo (inclusive a microbiota intestinal), os critérios EULAR/ACR 2019 com os pesos de cada item, o painel de autoanticorpos com sensibilidade e especificidade e o tratamento escalonado por gravidade, com as doses das drogas e as particularidades da gestação.
O LES é definido clinicamente como doença autoimmune multissistêmica com autoanticorpos contra antígenos nucleares. Os critérios de classificação EULAR/ACR 2019 substituíram os antigos ACR 1997 e SLICC 2012 e seguiram uma arquitetura em árvore: primeiro, um critério de entrada obrigatório, a imunofluorescência indireta de FAN (ANA) maior ou igual a 1:80 em pelo menos uma ocasião (sensibilidade de aproximadamente 98% para LES); sem FAN positivo, o paciente não se classifica. Em seguida, somam-se critérios ponderados agrupados em domínios clínico-laboratoriais, cada um contado apenas se não existir explicação mais provável, e dentro de cada domínio vale somente o item de maior pontuação. Dez pontos ou mais classificam LES, com sensibilidade de 96,1% e especificidade de 93,4% na coorte de validação, superando o equilíbrio dos critérios anteriores (ACR 1997: sensibilidade 83,2% e especificidade 96,1%; SLICC 2012: sensibilidade 96,7% e especificidade 83,7%).
| Domínio | Critério (o de maior peso é o contado) | Peso |
|---|---|---|
| Constitucional | Febre não explicada por outra causa | 2 |
| Hematológico | Leucopenia (menos de 4.000/mm3) | 3 |
| Hematológico | Trombocitopenia (menos de 100.000/mm3) | 4 |
| Hematológico | Anemia hemolítica autoimune | 4 |
| Neuropsiquiátrico | Delirium | 2 |
| Neuropsiquiátrico | Psicose | 3 |
| Neuropsiquiátrico | Convulsão | 5 |
| Mucocutâneo | Alopecia não cicatricial | 2 |
| Mucocutâneo | Úlceras orais | 2 |
| Mucocutâneo | Lúpus cutâneo subagudo ou discóide | 4 |
| Mucocutâneo | Lúpus cutâneo agudo (rash málar, lupus generalizado) | 6 |
| Serosa | Derrame pleural ou pericárdico | 5 |
| Serosa | Pericardite aguda ou crônica | 6 |
| Musculoesquelético | Envolvimento articular (sinovite em 2 ou mais articulações ou dor em 2 ou mais com rigidez matinal maior que 30 minutos) | 6 |
| Renal | Proteinúria maior que 0,5 g/24h | 4 |
| Renal | Nefrite lúpica classe II ou V na biópsia | 8 |
| Renal | Nefrite lúpica classe III ou IV na biópsia | 10 |
| Antifosfolípides | Anticorpo anticardiolipina IgG/IgM médio-alto, anticoagulante lúpico ou anti-beta2 glicoproteína I | 2 |
| Complemento | C3 OU C4 baixos | 3 |
| Complemento | C3 E C4 baixos | 4 |
| Anticorpos específicos | Anti-DNA nativo ou anti-Sm | 6 |
O LES tem pico de início entre 15 e 45 anos, idade em que a relação mulheres:homens chega a 9:1; antes da menarca e após a menopausa a proporção cai para cerca de 2 a 3:1, o que aponta para o papel estrogênico. A prevalência varia fortemente com a etnia: cerca de 20 a 70 por 100 mil na média populacional, ultrapassando 200 por 100 mil em mulheres afrodescendentes, que também têm doença mais grave, mais nefrite e pior prognóstico renal. A concordância entre gêmeos monozigóticos é de 24 a 57%, contra 2 a 5% entre dizigóticos, mostrando a base genética forte com gatilhos ambientais necessários.
A cadeia central do LES começa com a remoção defeituosa dos restos apoptóticos: quando células em apoptose não são limpas (por deficiência de complemento, de DNase I ou por fagocitose ineficaz), material nuclear fica exposto ao sistema imune. Células dendríticas plasmocitoides reconhecem DNA e RNA nucleares por TLR7 e TLR9 e produzem grandes quantidades de interferon do tipo I, que matura dendríticas, aumenta a apresentação de autoantígenos e confere às células mononucleares a chamada assinatura de interferon, presente na maioria dos pacientes ativos. O interferon e o BAFF (também chamado BLyS) estimulam a sobrevivência e a diferenciação de linfócitos B autorreativos em plasmócitos produtores de autoanticorpos (anti-DNA nativo, anti-Sm, anti-Ro, anti-La, anti-RNP). Os complexos imunes antigene-anticorpo formados em excesso saturam o sistema reticuloendotelial, depositam-se em membranas basais (glomerular, serosas, endotélio, pele), ativam a via clássica do complemento (C3 e C4 consumidos) e recrutam neutrófilos por frações C3a e C5a: é hipersensibilidade do tipo III. Neutrófilos de baixa densidade do LES liberam redes extracelulares de neutrofilos (NETs) rico em DNA e histonas que, mal degradadas, realimentam a produção de interferon: o ciclo se fecha.
No rim, o depósito de complexos imunes no mesângio e na membrana basal glomerular, com ativação local do complemento, gera desde glomerulonefrite mesangial pura até a proliferativa difusa; o dano tecidual é amplificado por anticorpos anti-DNA que reagem cruzadamente com componentes glomerulares. Nas lesões cutâneas, a exposição ultravioleta aumenta a apoptose epidérmica e a expressão de Ro na superfície dos queratinócitos, o que explica a fotossensibilidade e o lúpus cutâneo subagudo dos pacientes anti-Ro positivo.
A microbiota intestinal é hoje reconhecida como órgão imunológico que educa linfócitos T reguladores e produz metabólitos anti-inflamatórios, e o LES se associa a um padrão de disbiose: aumento da razão Firmicutes/Bacteroidetes, enriquecimento de Streptococcus, Veillonella e outros taxa pro-inflamatórios e perda de diversidade microbiana, achados reproduzidos em coortes chinesas, europeias e norte-americanas (com alguma heterogeneidade de taxa entre estudos). Três mecanismos conectam a mucosa ao lúpus. Primeiro, o aumento da permeabilidade intestinal permite a translocação de bactérias e seus produtos: o estudo de Manfredo Vieira e colaboradores (Science, 2018) demonstrou que Enterococcus gallinarum, um patobionte presente no intestino delgado de camundongos predispostos e de pacientes com LES e síndrome antifosfolípida, transloca para fígado e baço, induz a diferenciação de plasmócitos produtores de autoanticorpos (incluindo anti-DNA), ativa respostas T dependentes e promove hepatite autoimune; vacinação ou antibiótico dirigido previram a doença nos modelos. Segundo, mímica molecular: bactérias comensais carregam ortólogos da proteína Ro60, e a exposição mucosa a esses ortólogos pode iniciar e sustentar a produção de anti-Ro em hospedeiros suscetíveis. Terceiro, metabolitos: o estroboloma (conjunto de genes bacterianos que reativam estrógenos conjugados na luz intestinal) aumenta a reabsorção de estrogênios e pode amplificar o ambiente hormonal do lúpus; por outro lado, ácidos graxos de cadeia curta produzidos por bactérias fermentadoras sustentam linfócitos T reguladores, enquanto produtos microbianos como o LPS (via TLR4) e o DNA bacteriano (via TLR9) realimentam a produção de interferon. Na prática, ainda não existe intervenção aprovada de manipulação da microbiota no LES: probióticos e transplante fecal permanecem experimentais, e a principal lição de prova é mecanística: disbiose, permeabilidade aumentada e translocação bacteriana alimentam a autoimunidade.
O LES é a grande imitadora: pode começar por fadiga isolada, artrite, rash, citopenia, nefrite ou psicose, e oscila entre flares de atividade e remissões. As manifestações mais frequentes estão na tabela a seguir; manifestações iniciais mais comuns são artralgia/artrite, rash málar e citopenias. O exame físico deve incluir inspeção cutâneo-mucosa completa, ausculta cardiopulmonar (atritos), avaliação articular (artrite simétrica, não erosiva, de pequenas articulações, com morning stiffness), medida de pressão arterial (hipertensão nova sugere nefrite) e avaliação neurológica.
| Sistema | Manifestações (frequência aproximada) | Marcas de prova |
|---|---|---|
| Musculoesquelético | Artralgia/artrite simétrica não erosiva (80-90%); mialgia; raramente necrose asséptica | Artrite de pequenas articulações, sem erosão no raio-X (contraste com AR) |
| Cutâneo-mucoso | Rash málar (~50%); fotossensibilidade; lúpus cutâneo subagudo anular/papuloescamoso; lúpus discóide (cicatricial); úlceras orais indolores; alopecia não cicatricial; fenômeno de Raynaud | Rash málar poupa sulcos nasolabiais; discóide cicatriza e é fator de risco de carcinoma escamoso em cicatriz |
| Renal | Nefrite lúpica (40-50%): proteinúria, hematúria dismórfica, cilindros, hipertensão, creatinina elevada | Acometimento renal é assintomático em boa parte dos casos: urina tipo 1 em toda consulta |
| Hematológico | Anemia de doença crônica (mais comum); anemia hemolítica autoimune (teste de Coombs direto positivo, ~10%); leucopenia/linfopenia; trombocitopenia (20-40%) | Linfopenia reflete atividade; plaquetopenia no LES obriga a pesquisar anticorpos antifosfolípide |
| Neuropsiquiátrico | Cefaleia, distúrbios cognitivos, convulsão, psicose, acidente vascular cerebral, mielite transversa, neuropatias cranianas e periféricas | Atribuição exige exclusão de infecção, metabólico, hipertensão e drogas (glicocorticoide) |
| Serosal | Pleural com derrame exsudativo pequeno (a mais comum); pericardite; peritonite rara | Derrame lúpico: exsudato linfocítico com complemento baixo e ANA positivo no líquido |
| Cardíaco | Pericardite; endocardite de Libman-Sacks (verrucosa, valva mitral); miocardite rara; doença coronariana acelerada | Libman-Sacks associa-se a antifosfolípide; aterosclerose precoce é causa tardia de morte |
| Pulmonar | Derrame pleural; pneumonite lúpica; hemorragia alveolar (emergência); hipertensão pulmonar; síndrome do pulmão encolhido | Hemorragia alveolar difusa: queda de hemoglobina + infiltrado difuso + hemoptise (nem sempre presente) |
| Outros | Linfadenopatia, hepatoesplenomegalia, uveítes, sicca (overlap Sjögren), febre de origem indeterminada | Febre no lúpico sob imunossupressão é infecção até prova em contrário |
O FAN por imunofluorescência indireta em células HEp-2 é o rastreio (sensibilidade de aproximadamente 98% e especificidade apenas moderada, em torno de 75%, sendo positivo em até 15 a 30% de pessoas sadias em baixos títulos e em outras doenças autoimunes, infecções e neoplasias). Os padrões nucleares mais frequentes no LES são o homogêneo (anti-DNA e anti-histona) e o pontilhado ou speckled (anti-Sm, anti-RNP, anti-Ro). Confirmada a suspeita, o painel de especificidade define o diagnóstico e o risco de cada órgão, e a atividade é monitorada com anti-DNA nativo e frações do complemento.
| Autoanticorpo | Sensibilidade no LES | Especificidade | Associação clínica |
|---|---|---|---|
| FAN (ANA) ≥ 1:80 | ~98% | ~75% | Critério de entrada; títulos não correlacionam com atividade |
| Anti-DNA nativo (dsDNA) | 50-70% | 90-97% | Nefrite lúpica e atividade de doença; títulos oscilam com flares |
| Anti-Sm | 20-40% | ~99% | O mais específico do LES; não acompanha atividade |
| Anti-Ro/SSA | 30-40% | Moderada | Lúpus cutâneo subagudo, secura (overlap Sjögren), lúpus neonatal e bloqueio cardíaco congênito; FAN pode ser negativo |
| Anti-La/SSB | 10-20% | Moderada | Sempre acompanha anti-Ro; overlap com Sjögren |
| Anti-RNP | 25-40% | Baixa para LES | Em título alto e isolado define doença mista do tecido conjuntivo |
| Anti-histona | 50-70% no LES espontâneo; maioria no lúpus induzido por drogas | Baixa | Lúpus induzido por drogas (procainamida, hidralazina), quadro leve |
| Anti-ribossomal P | 10-20% | Alta | Associado a neurolúpus (psicose, depressão) em algumas séries |
| Antifosfolípides (LA, aCL, anti-beta2GPI) | 30-40% positivos | Depende do ensaio | Trombose, perdas fetais, trombocitopenia, endocardite de Libman-Sacks |
O complemento sérico é o termômetro do consumo imune: C3, C4 e CH50 baixos indicam ativação da via clássica por complexos imunes e acompanham atividade, sobretudo nefrite. Um padrão laboratorial muito cobrado é a dissociação VHS-PCR: VHS elevada com proteína C reativa normal ou pouco elevada é típica de atividade lúpica, enquanto PCR alta sugere infecção, serosite ou necrose tissular. A avaliação de rotina de todo lúpico inclui hemograma, creatinina, urina tipo 1, razão proteína/creatinina (ou proteinúria de 24 horas), albumina e lipidograma.
A biópsia renal é indicada quando há proteinúria maior ou igual a 0,5 g por 24 horas (sobretudo maior ou igual a 1 g), sedimento urinário ativo (hematúria dismórfica ou cilindros hemáticos) ou elevação inexplicada da creatinina. A classificação ISN/RPS divide a nefrite lúpica em classes com condutas distintas: classe I mesangial mínima; II proliferativa mesangial (curso benigno, corticoide baixa dose se sintomática); III proliferativa focal (menos de 50% dos glomérulos); IV proliferativa difusa (50% ou mais dos glomérulos, a mais grave e frequente); V membranosa (síndrome nefrótica, risco trombótico); e VI esclerosante avançada (mais de 90% de glomérulos esclerosados, imunossupressão inútil). Classes III ou IV na biópsia valem 10 pontos nos critérios EULAR/ACR, a maior pontuação de todos os domínios clínicos.
Cinco medidas gerais valem para todos: fotoproteção com filtro solar diário, vacinação atualizada (influenza anual, pneumocócica, hepatite B, HPV e herpes zóster inativado; vacinas vivas contraindicadas sob imunossupressão), reposição de vitamina D e cálcio quando indicado, cessação do tabagismo e controle rigoroso do risco cardiovascular. A hidroxicloroquina é a única droga recomendada a todos os pacientes, na dose de até 5 mg/kg/dia (habitualmente 200 a 400 mg/dia): reduz frequência e gravidade de flares, dano acumulado, trombose, diabetes induzido por corticoide e mortalidade, e melhora desfechos da gestação; a suspensão precoce é um dos preditores de flare e por isso deve ser mantida inclusive na gravidez. A vigilância de retinopatia inclui exame ocular basal (com tomografia de coerência óptica e, se possível, campo visual) dentro do primeiro ano e depois anual a partir do 5º ano de uso (ou antes, se dose alta, doença renal ou hepática, idade avançada ou doença macular prévia).
Os glicocorticoides continuam sendo a droga mais eficaz para controlar atividade, mas o objetivo da EULAR 2023 é usar a menor dose pelo menor tempo: prednisona 0,3 a 0,5 mg/kg/dia para atividade moderada, com desmame rápido; doença grave (nefrite proliferativa, neurolúpus, pneumonite, hemorragia alveolar, citopenias com risco de morte) inicia com pulso de metilprednisolona 500 a 1.000 mg IV por dia por 3 dias, seguido de prednisona oral em desmame; e a dose crônica de manutenção não deve passar de 5 mg/dia, com retirada como meta. Para poupar corticoide, o imunossupressor deve ser introduzido cedo (na própria primeira prescrição, quando o cenário é nefrite, manifestação grave ou risco de flare ao desmame).
| Cenário | Primeira linha | Alternativas e biológicos | Observações de dose |
|---|---|---|---|
| Nefrite lúpica classes III/IV (indução) | Micofenolato 2-3 g/dia ou ciclofosfamida IV por 6 meses, com corticoide | Belimumabe 10 mg/kg IV (semanas 0, 2 e 4, depois a cada 4 semanas) ou voclosporina 23,7 mg 2x/dia somados à terapia padrão; rituximabe 2 x 1 g IV em refratária | Euro-Lupus: ciclofosfamida 500 mg IV a cada 2 semanas por 6 doses (3 g totais), eficácia igual à do esquema americano de alta dose (0,5-1 g/m2 mensal) com menos toxicidade em caucasianos de baixo risco |
| Nefrite lúpica (manutenção) | Micofenolato 2 g/dia ou azatioprina 2 mg/kg/dia | Tacrolimus (particularmente classes V e mistas); belimumabe continuado | Manter por pelo menos 3 anos após remissão completa antes de pensar em desmame; recidiva é comum |
| Nefrite classe V com síndrome nefrótica | Micofenolato + corticoide em dose baixa | Inibidores da calcineurina (tacrolimus, voclosporina); rituximabe | Anticoagulação a considerar se albumina menor que 2,5 g/dL (risco trombótico da síndrome nefrótica) |
| Manifestações cutâneas e articulares refratárias | Metotrexato 15-25 mg/semana VO ou SC com ácido fólico | Talidomida 50-100 mg/dia (lúpus discóide refratário, teratogênica e neurotóxica); leflunomida | Antimalárico otimizado primeiro: adicionar quinacrina à hidroxicloroquina |
| Doença refratária a padrão ou atividade persistente | Belimumabe (IV ou subcutâneo 200 mg/semana) | Anifrolumabe 300 mg IV a cada 4 semanas; rituximabe | No ensaio TULIP-2, anifrolumabe alcançou resposta SRI-4 em 47,8% contra 31,5% do placebo; indicado sobretudo para atividade cutâneo-articular |
| Urgências (hemorragia alveolar, neurolúpus grave, citopenias com risco de morte) | Pulso de metilprednisolona + ciclofosfamida IV | Imunoglobulina IV, plasmaferese em casos selecionados; rituximabe | Plasmaferese não tem benefício comprovado na nefrite isolada, mas pode ser usada em hemorragia alveolar e microangiopatia |
A gestação deve ser planejada para período de remissão (idealmente 6 meses ou mais sem atividade) porque o flare materno, a pré-eclâmpsia e o nascimento prematuro são as complicações dominantes. A hidroxicloroquina é mantida durante toda a gravidez (reduz flares e complicações); azatioprina até 2 mg/kg/dia, prednisona (preferir doses baixas; evitar pulsos no primeiro trimestre) e heparina de baixo peso molecular são permitidos; micofenolato, ciclofosfamida, metotrexato e leflunomida são teratogênicos e devem ser suspensos pelo menos 3 meses antes da concepção (o micofenolato exige contracepção eficaz durante o uso). Ácido acetilsalicílico 75 a 100 mg/dia é recomendado a partir do primeiro trimestre para reduzir pré-eclâmpsia, sobretudo em nefrite, anticorpos antifosfolípide ou complemento baixo.
A mortalidade do LES é bimodal: nos primeiros anos dominam infecções (a principal causa de morte precoce, favorecida pela doença ativa, linfopenia e imunossupressão) e atividade grave; após uma década, dominam a doença cardiovascular e a doença renal terminal. O risco cardiovascular é dramaticamente aumentado: risco relativo de infarto do miocárdio várias vezes maior que o da população geral, chegando a cerca de 50 vezes em mulheres de 35 a 44 anos nas coortes americanas, por combinação de inflamação crônica, corticoide, nefrite e antifosfolípide. A nefrite lúpica progride para doença renal terminal em 10 a 30% dos pacientes em 15 anos, com pior desfecho em afrodescendentes, hipertensão não controlada e adesão ruim. Outras complicações: osteoporose e osteonecrose (a necrose asséptica de cabeça femoral acomete 5 a 30% conforme dose e duração do corticoide), catarata e glaucoma induzidos por corticoide, retinopatia do antimalárico e aumento de risco de linfoma. O dano irreversível é medido pelo SLICC/ACR Damage Index, e as recomendações atuais adotam a estratégia treat to target: remissão ou baixa atividade, dose mínima de corticoide e reavaliação da terapia a cada 6 a 12 meses. Com tratamento moderno, a sobrevida em 5 anos supera 95% e em 10 anos gira em torno de 90% em coortes contemporâneas.
1.Qual é o critério de entrada obrigatório dos critérios de classificação EULAR/ACR 2019 para LES?
2.Qual autoanticorpo tem a maior especificidade para o diagnóstico de LES?
3.Gestante com LES conhecido, anti-Ro/SSA positivo, demais anticorpos negativos. Qual risco fetal exige monitorização específica e com que exame?
4.A biópsia renal de paciente lúpica com proteinúria de 3,5 g/dia e hematúria dismórfica mostra proliferativa difusa com mais de 50% dos glomérulos acometidos. Qual a classe ISN/RPS e a conduta de indução?
5.Sobre a hidroxicloroquina no LES, qual afirmação é correta?
6.Paciente lúpica com artralgia difusa é reavaliada: VHS 68 mm/h, PCR 2 mg/L (normal), C3 e C4 baixos, anti-DNA em elevação. A interpretação correta é:
7.Paciente em uso de hidralazina apresenta febre, artralgia, rash e anti-histona positivo, com anti-DNA nativo negativo, sem proteinúria. O diagnóstico mais provável é:
8.O estudo de Manfredo Vieira e colaboradores (Science, 2018) sobre microbiota e autoimunidade demonstrou que:
9.Qual associação entre anticorpo antifosfolípide e manifestação clínica é a correta?
10.Qual é a meta terapêutica de dose de glicocorticoide em manutenção segundo as recomendações EULAR 2023?
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