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Revisão completa do SAPHO e da CRMO/CNO: critérios clínicos, sinal da cabeça de touro na cintilografia, diferencial com osteomielite bacteriana e neoplasias, e tratamento escalonado com AINH, bisfosfonados e biológicos com doses.
[1] Nguyen MT, Borchers A, Selmi C, Naguwa SM, Cheema G, Gershwin ME. The SAPHO syndrome. Semin Arthritis Rheum. 2012;42(3):254-265. DOI 10.1016/j.semarthrit.2012.05.006 | [2] Ferguson PJ, Sandu M. Current understanding of the pathogenesis and management of chronic recurrent multifocal osteomyelitis. Curr Rheumatol Rep. 2012;14(2):130-141. DOI 10.1007/s11926-012-0239-5 | [3] Kahn MF, Khan MA. The SAPHO syndrome. Baillieres Clin Rheumatol. 1994;8(2):333-362. DOI 10.1016/s0950-3579(94)80022-7 | [4] Schnabel A, Range U, Hahn G, Siepmann T, Berner R, Hedrich CM. Unexpectedly high incidences of chronic non-bacterial as compared to bacterial osteomyelitis in children. Rheumatol Int. 2016;36(12):1737-1745. DOI 10.1007/s00296-016-3572-6 | [5] Schnabel A, Nashawi M, Anderson C, et al. TNF-inhibitors or bisphosphonates in chronic nonbacterial osteomyelitis? Results of an international retrospective multicenter study. Clin Immunol. 2022;238:109018. DOI 10.1016/j.clim.2022.109018 | [6] Reiser C, Klotsche J, Hospach A, et al. First-year follow-up of children with chronic nonbacterial osteomyelitis - an analysis of the German National Pediatric Rheumatologic Database from 2009 to 2018. Arthritis Res Ther. 2021;23(1):281. DOI 10.1186/s13075-021-02658-w · DOI 10.1016/j.semarthrit.2012.05.006
Dor óssea crônica com lesões mistas líticas e escleróticas, culturas negativas e resposta inconsistente a antibióticos: esse é o ponto de partida das doenças autoinflamatórias ósseas. A sigla SAPHO (Synovitis, Acne, Pustulosis, Hyperostosis, Osteitis) foi cunhada por Chamot em 1987 para agrupar condições antes chamadas de osteíte esternoclavicular, pustulose palmoplantar artrítica e acne conglobata com hiperostose. Em pediatria, a osteomielite crônica recorrente multifocal (CRMO, chronic recurrent multifocal osteomyelitis), descrita originalmente por Giedion em 1972, representa o mesmo processo biológico: osteíte inflamatória estéril, recorrente, mediada por desregulação da imunidade inata. Hoje o termo osteomielite não bacteriana crônica (CNO, chronic non-bacterial osteomyelitis) funciona como guarda-chuva que engloba formas unifocais e multifocais, sendo a CRMO a forma multifocal clássica. Para a prova, o essencial é reconhecer o quadro (o osso inflama sem germe), diferenciá-lo de osteomielite infecciosa e de neoplasias, e dominar o algoritmo terapêutico que começa sempre com anti-inflamatórios não esteroidais (AINH).
O SAPHO é definido pela associação entre osteíte inflamatória (frequentemente com hiperostose) e dermatose neutrofílica, tipicamente pustulose palmoplantar e/ou acne grave, com envolvimento predominante da parede torácica anterior. Não existe critério laboratorial patognomônico nem teste genético de rotina: o diagnóstico é clínico-radiológico e por exclusão. A CRMO pediátrica exige dor óssea recorrente ou persistente com imagem compatível, após exclusão de infecção, neoplasia e doença hematológica. O espectro é contínuo entre as duas entidades: adolescentes com CRMO podem evoluir para fenótipo de SAPHO na vida adulta, e ambos compartilham a mesma base autoinflamatória.
O SAPHO é raro e subdiagnosticado, com prevalência estimada em cerca de 1 caso para cada 10.000 habitantes em estimativas europeias; o atraso diagnóstico é frequentemente de anos, e séries históricas relatam intervalos de 2 a 9 anos entre o primeiro sintoma e o rótulo correto. O pico de incidência ocorre entre 30 e 50 anos, com predomínio feminino discreto a moderado. A CRMO é a osteomielite crônica mais comum da criança em serviços de referência: um estudo alemão de base populacional (Schnabel e colaboradores, 2016) demonstrou, de forma inesperada, que a incidência de CNO superou a da osteomielite bacteriana na população pediátrica avaliada, refutando a ideia de raridade extrema.
A CRMO acomete sobretudo meninas (aproximadamente 2:1), com pico entre 9 e 11 anos, mas pode ocorrer em pré-escolares e em adultos jovens. Comorbidades imunológicas ocorrem em parcela dos pacientes: psoríase e doença inflamatória intestinal em cerca de 10% cada, além de artrite idiopática juvenil e tireoidite autoimune. No Brasil existem apenas séries de casos e relatos, sem dados nacionais de incidência, o que torna os números europeus a referência para provas.
O núcleo fisiopatológico é a ativação desregulada da imunidade inata, com produção excessiva de IL-1 beta, IL-17, IL-23 e TNF-alfa por macrófagos e neutrófilos, recrutando mais células inflamatórias para a medula óssea e ativando osteoclastos e, secundariamente, osteoblastos. O resultado é inflamação estéril do osso (osteíte), edema medular na fase inicial e, com o tempo, reparo osteoblástico exuberante com hiperostose e entesófitos, padrão típico da parede torácica anterior. O modelo animal camundongo cmo (mutação no gene Pstpip2) reproduz a osteomielite neutrofílica estéril e reforça o papel da IL-1. Em humanos, as formas monogênicas associadas explicam o mecanismo: na DIRA, a perda de função do antagonista do receptor de IL-1 (IL1RN) gera osteomielite multifocal neonatal com pustulose e inflamação sistêmica dramática, revertida com anacinra.
O papel do Cutibacterium acnes (antes Propionibacterium acnes), isolado em até metade das biópsias ósseas de SAPHO em algumas séries, permanece controverso: pode ser gatilho molecular (estímulo tipo NOD2/Toll-like) ou simples colonizador de osso necrótico, e por isso antibióticos não fazem parte do algoritmo padrão, exceto quando a cultura é positivamente significativa. A associação com dermatoses neutrofílicas (pustulose palmoplantar, acne, hidrosadenite) define o chamado eixo pele-osso: mesmas citocinas (IL-17/IL-23) na pele e no osso, com intervalo de anos entre o surgimento da lesão cutânea e da osteíte em até metade dos casos. Diferente das doenças autoimunes, não há autoanticorpos nem consumo de complemento, e a resposta terapêutica se dá com bloqueio de citocinas da imunidade inata.
No adulto com SAPHO, domina a dor na parede torácica anterior (70-90% dos casos), difusa, de caráter inflamatório, com edema e dor à palpação das articulações esternoclaviculares, esternocostais e da sínfise manúbrio-esternal; pode haver sinovite periférica (joelhos, tornozelos, pequenas articulações) em metade dos pacientes. A pele conta a história: pustulose palmoplantar em cerca de metade a dois terços (vesículas-pústulas estéreis em palmas e plantas) e acne grave (conglobata ou fulminans) em 20-30%, mais em homens jovens; a hidrosadenite supurativa compõe o espectro PASH quando há pioderma gangrenoso. O intervalo entre lesão cutânea e óssea varia de simultâneo a até 20 anos, e por isso a ausência atual de dermatose não exclui o diagnóstico.
Na criança com CRMO, o quadro é de dor óssea profunda, frequentemente noturna, com claudicação e edema local discreto, sem eritema importante; febre baixa ocorre em minoria (10-20%) e febre alta sugere outra doença. Os sítios preferenciais são as metáfises de ossos longos (tíbia distal é a mais clássica, seguida de fêmur, fíbula), pelve, clavícula, mandíbula e coluna. Até um quarto dos pacientes apresenta forma unifocal (NBO), situação em que a distinção com neoplasia exige biópsia. Envolvimento vertebral ocorre em parcela dos casos e é a localização mais perigosa, por risco de fratura por compressão e déficit neurológico.
| Manifestação | Frequência aproximada | Comentário |
|---|---|---|
| Dor na parede torácica anterior | 70-90% | Esternoclavicular, esternocostal e manúbrio-esternal; quase universal no SAPHO |
| Pustulose palmoplantar | metade a dois terços | Dermatose neutrofílica; pode preceder ou seguir a osteíte em anos |
| Acne grave (conglobata ou fulminans) | 20-30% | Mais comum em homens jovens; hidrosadenite compõe o espectro PASH |
| Sacroiliíte | 10-35% | Predominantemente unilateral, diferindo da espondiloartrite axial |
| Envolvimento vertebral | até 30% | Espondilodiscite inflamatória, fraturas por compressão e cifose |
| Febre alta com toxicidade | rara | Inflamação biologicamente fria: achado que afasta osteomielite bacteriana |
Não existe padrão-ouro. Os critérios clássicos de Kahn e Khan (1994) definem o SAPHO pela presença de manifestação osteoarticular característica (osteíte ou hiperostose da parede torácica anterior) associada a acne, pustulose ou ambas; formas com osteíte isolada bem caracterizada também são aceitas quando outros diagnósticos são excluídos. Para a CRMO pediátrica, critérios propostos por Jansson e colaboradores pontuam achados clínicos, radiológicos e laboratoriais, mas na prática o diagnóstico segue sendo de congruência clínico-radiológica: dor óssea recorrente, imagem multifocal compatível, cultura estéril e exclusão de mímicos.
O laboratório é pouco reativo: VHS e PCR normais ou pouco elevados em grande parte dos pacientes (elevam-se em aproximadamente 30-50% dos casos), hemograma habitualmente normal, hemoculturas negativas e ausência de autoanticorpos. A biópsia óssea não é obrigatória no quadro típico multifocal, mas é indicada quando a apresentação é unifocal, atípica, progressivamente lítica ou em crianças pequenas, para excluir Ewing, sarcoma osteogênico, histiocitose de células de Langerhans, leucemia e osteomielite bacteriana; o histológico da CNO mostra inflamação crônica inespecífica com plasmócitos, sem micro-organismos.
Na imagem, a radiografia pode ser normal no início e, com o tempo, mostra áreas mistas de osteólise e esclerose com hiperostose e reação perióstea. A ressonância com supressão de gordura (STIR) é o exame mais sensível para osteíte ativa (edema medular hipersinal em STIR com realce pós-gadolínio); na criança, a RM de corpo inteiro substitui a cintilografia por não usar radiação e detectar focos assintomáticos que mudam a conduta em parcela relevante dos casos, incluindo coluna. A cintilografia óssea mostra o sinal da cabeça de touro (bull-head sign): captação intensa no esterno e nas articulações esternoclaviculares bilaterais, altamente sugestiva de SAPHO.
| Achado | CRMO/CNO | Osteomielite bacteriana | Neoplasia óssea (Ewing/LCH) |
|---|---|---|---|
| Febre e leucocitose | Ausentes ou discretas na maioria | Febre alta, toxicidade, leucocitose com desvio | Febre baixa intermitente ou sintomas B |
| Culturas | Estéreis | Positivas em proporção variável dos casos | Estéreis |
| Número de focos | Multifocal na maioria; eventualmente unifocal | Praticamente sempre unifocal | Unifocal |
| Padrão de imagem | Edema medular metáfisário difuso com STIR hipersinal e evolução esclerótica | Coleção, abscesso subperiosteal, destruição cortical | Lesão lítica expansiva com massa de partes moles e reação perióstea agressiva |
| Biópsia | Inflamação crônica inespecífica com plasmócitos | Neutrófilos, necrose e micro-organismos | Células pequenas redondas azuis CD99 positivo ou histiócitos CD1a positivos |
| Resposta a antibiótico | Ausente | Boa com esquema dirigido | Ausente, com piora progressiva |
O tratamento é escalonado por gravidade e fenótipo. AINH são a primeira linha para todos os pacientes: promovem melhora em aproximadamente 70-80%, embora a doença totalmente inativa com AINH isolado ocorra em apenas cerca de metade. Na falha, acrescentam-se corticoide de curto prazo como resgate, DMARDs (metotrexato, sulfassalazina) para sinovite persistente, bisfosfonados para doença óssea refratária e biológicos guiados pelo fenótipo: anti-TNF para predomínio cutâneo-articular e inibição de IL-1 ou bisfosfonados para predomínio ósseo. Um estudo retrospectivo internacional multicêntrico (Schnabel e colaboradores, 2022) comparou inibidores de TNF e bisfosfonados em CNO: ambas as estratégias foram eficazes, com tendência a melhor controle do componente ósseo com bisfosfonados e do componente cutâneo-articular com anti-TNF; os dados são retrospectivos e não definem hierarquia absoluta.
| Fármaco | Dose habitual | Posição no algoritmo |
|---|---|---|
| Ibuprofeno | 20-30 mg/kg/dia VO dividido de 6/6 h; adulto 400-600 mg de 6/6 a 8/8 h | Primeira linha em todos os pacientes |
| Naproxeno | 10-15 mg/kg/dia VO de 12/12 h; adulto 500 mg de 12/12 h | Primeira linha alternativa, bem tolerada |
| Indometacina | 1-3 mg/kg/dia; adulto 25-50 mg de 8/8 h | Alternativa com boa resposta em séries pediátricas |
| Prednisona | 0,5-1 mg/kg/dia (máximo 60 mg) com desmame em 4-8 semanas | Resgate de exacerbação; evitar uso crônico |
| Metilprednisolona em pulsos | 30 mg/kg/dia IV (máximo 1 g) por 1 a 3 dias | Doença grave ou axial rapidamente progressiva |
| Metotrexato | 10-15 mg/m2/semana VO ou SC com ácido fólico | Sinovite persistente ou como poupador de corticoide |
| Pamidronato | Criança: 0,5 mg/kg no dia 1 e 1 mg/kg/dia nos dias 2 e 3 IV, ciclos a cada 3 meses (esquemas variam entre centros); adulto: 60-90 mg IV mensal | Doença óssea refratária a AINH; principal agente ósseo |
| Infliximabe | 5 mg/kg IV nas semanas 0, 2 e 6 e depois a cada 6-8 semanas | Fenótipo cutâneo-articular refratário |
| Adalimumabe | 40 mg SC a cada 2 semanas; criança acima de 30 kg: 24 mg/m2 a cada 2 semanas | Alternativa anti-TNF ambulatorial |
| Anacinra | 100 mg SC/dia; criança 1-2 mg/kg/dia | Casos selecionados, sobretudo fenótipos monogênicos |
Medidas de suporte completam o esquema: reabilitação física e analgesia multimodal, suplementação de cálcio e vitamina D durante o uso de bisfosfonados, densitometria óssea de acompanhamento, e tratamento ortopédico das fraturas vertebrais (corsete, cifoplastia quando indicado). Antibióticos só têm papel se houver isolado microbiológico significativo. Duas pegadinhas terapêuticas: isotretinoína, usada para o acne do SAPHO, pode por si própria induzir hiperostose esquelética e confundir a monitorização; e corticoides crônicos devem ser evitados, pois a doença dura anos e o dano iatrogênico supera o benefício.
A complicação mais temida é a fratura vertebral por compressão na doença axial, que pode cursar com cifose, dor crônica e, raramente, déficit neurológico; outras incluem retardo de crescimento e discrepância de membros na doença metafisária ativa prolongada, dor crônica com impacto funcional e escolar, e, excepcionalmente, amiloidose AA por inflamação crônica não controlada. O curso típico é de exacerbações e remissões ao longo de anos: parte das crianças tem curso monofásico, mas a maioria alterna recaídas por 3 a 8 anos, e parcela significativa mantém atividade na vida adulta. O SAPHO do adulto tende à cronicidade relapsante, porém com dano articular destrutivo raro quando tratado; a mortalidade direta é baixíssima.
1.Paciente de 42 anos com dor há 8 meses na região esternoclavicular, pustulose palmoplantar e RM com hiperostose e edema medular. Qual exame apresenta o sinal clássico descrito nesta síndrome?
2.Qual é a primeira linha de tratamento de uma criança com CRMO recém-diagnosticada, sem complicações axiais?
3.Qual microrganismo é ocasionalmente isolado em biópsias ósseas de SAPHO, com papel patogênico controverso?
4.Criança de 9 anos com lesão lítica unifocal em metáfise tibial, cultura estéril e VHS pouco elevado. Qual a conduta imageada correta?
5.O que significa a sigla SAPHO?
6.Qual mecanismo melhor explica a fisiopatologia do SAPHO/CRMO?
7.Adolescente com CRMO multifocal refratária a AINH plenos por 3 meses, sem lesão cutânea e com dor óssea dominante. Qual o próximo passo mais adequado?
8.Sobre a sacroiliíte do SAPHO, qual assertiva é correta?
9.Qual síndrome monogênica se apresenta com CRMO, anemia diseritropoiética congênita e dermatose neutrofílica?
10.Qual perfil laboratorial é mais típico de CRMO quando comparado à osteomielite bacteriana?
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