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Revisão completa de artrite reumatoide para provas: critérios ACR/EULAR 2010 com pontuação, fisiopatologia do pannus, apresentação clínica e diferencial, exames com sensibilidade e especificidade, escalas DAS28 e estratégia treat-to-target. Cobre doses de DMARDs sintéticos, biológicos e inibidores de JAK, rastreios pré-biológico e inovações como CAR-T.
[1] Aletaha D, Neogi T, Silman AJ, et al. 2010 Rheumatoid arthritis classification criteria: an American College of Rheumatology/European League Against Rheumatism collaborative initiative. Ann Rheum Dis. 2010;69(9):1580-1588 · DOI 10.1136/ard.2010.138461 | [2] Smolen JS, Landewé RBM, Bergstra SA, et al. EULAR recommendations for the management of rheumatoid arthritis with synthetic and biological disease-modifying antirheumatic drugs: 2022 update. Ann Rheum Dis. 2023;82(1):3-18 · DOI 10.1136/annrheumdis-2022-223356 | [3] Fraenkel L, Bathon JM, England BR, et al. 2021 American College of Rheumatology Guideline for the Treatment of Rheumatoid Arthritis. Arthritis Rheumatol. 2021;73(7):924-939 · DOI 10.1002/art.41752 | [4] Mota LMH, Luz KRG, Braga GC, et al. 2017 recommendations of the Brazilian Society of Rheumatology for the pharmacological treatment of rheumatoid arthritis. Adv Rheumatol. 2018 · DOI 10.1186/s42358-018-0005-0 | [5] Smolen JS, Aletaha D, McInnes IB. Rheumatoid arthritis. Lancet. 2016;388:2020-2032 · DOI 10.1016/S0140-6736(16)30173-8 | [6] Müller F, Taubmann J, Bucci L, et al. CD19 CAR T-cell therapy in autoimmune disease — a case series with follow-up. N Engl J Med. 2024;390(8):687-700 · DOI 10.1056/NEJMoa2308917 · DOI 10.1002/art.41752
A artrite reumatoide (AR) é uma doença autoimune sistêmica, crônica e progressiva, caracterizada por sinovite persistente de articulações periféricas, destruição cartilaginosa e óssea (erosões) e morbidez cardiovascular e funcional. Afeta de 0,5% a 1% dos adultos no mundo, com predominância feminina de cerca de 3 para 1 e pico de início entre 30 e 50 anos; estudos brasileiros estimam prevalência entre 0,2% e 0,5%, variando com método e região. O conceito que mudou a disciplina é a janela de oportunidade: o tratamento agressivo nos primeiros 3 a 6 meses de sintomas previne erosões e incapacidade definitiva. Para a prova, o aluno deve dominar os critérios de classificação ACR/EULAR 2010, a conduta escalonada orientada a alvo (treat-to-target) com metotrexato como âncora, os rastreios pré-biológico e os perfis de segurança dos inibidores de JAK.
A AR define-se clinicamente como poliartrite periférica, simétrica e deformante, de pequenas e médias articulações, associada a autoanticorpos (fator reumatoide e anti-CCP) e à síndrome inflamatória. Os critérios ACR/EULAR 2010 servem para classificar artrite indiferenciada recente em AR definida e são aplicáveis apenas a pacientes com sinovite clínica em pelo menos uma articulação não melhor explicada por outra doença. A pontuação soma quatro domínios; escore igual ou superior a 6 de 10 classifica AR.
| Domínio | Pontuação | O que pontua |
|---|---|---|
| Envolvimento articular | 0 a 5 | 1 articulação média-grande soma 0; 2 a 10 médias somam 1; 1 a 3 pequenas com ou sem médias somam 2; 4 a 10 pequenas somam 3; mais de 10 articulações com ao menos uma pequena somam 5 (contam MCP, PIP, MTP, punhos, e excludem DIP) |
| Sorologia | 0 a 3 | FR e anti-CCP negativos somam 0; baixo-positivos (até 3 vezes o limite) somam 2; alto-positivos (acima de 3 vezes) somam 3 — basta um dos dois testes positivo |
| Reagentes de fase aguda | 0 a 1 | PCR e VHS normais somam 0; elevados somam 1 |
| Duração dos sintomas | 0 a 1 | Menos de 6 semanas soma 0; 6 semanas ou mais soma 1 |
| Corte diagnóstico | ≥ 6 | Soma igual ou maior que 6 pontos em paciente com sinovite não explicada classifica artrite reumatoide definida |
A prevalência mundial varia de 0,5% a 1%, com valores menores em populações asiáticas e chinesas e maiores em nativos norte-americanos (Pima e Chippewa). A incidência aumenta com a idade até cerca de 70 anos. Fatores de risco estabelecidos: sexo feminino (efeito estrogênico sobre a imunidade), história familiar (herdabilidade estimada em cerca de 60%, com o HLA-DRB1 respondendo por um terço do risco genético), tabagismo (dobra o risco, promove citrulinização pulmonar e piora a resposta ao tratamento), exposição à sílica, periodontite por Porphyromonas gingivalis (expressa enzima citrulinadora, enolase), obesidade e baixo nível socioeconômico. Estudos brasileiros estimam prevalência entre 0,2% e 0,5%, com predominância em mulheres na quarta e quinta décadas.
A AR resulta da interação entre predisposição genética e gatilhos ambientais em um hospedeiro com falha da tolerância imunológica. A herança principal está no HLA-DRB1, cujo epítopo compartilhado (motivo de aminoácidos na posição 70 a 74) apresenta peptídeos citrulinados às células T CD4 com maior eficiência; variantes de PTPN22, STAT4 e PAD4 completam o fundo genético. A doença progride em cadeia, e cada elo dessa cadeia é um alvo terapêutico cobrado em prova.
O início típico é insidioso, ao longo de semanas, com dor e rigidez matinal prolongada (mais de 1 hora, que melhora com o uso) em articulações MCP, PIP, punhos e MTF, de forma simétrica e aditiva. Articulações interfalângicas distais, coluna lombar e tóraco-lombar poupam-se — a poupança das DIP é achado praticamente diagnóstico contra artrose e artrite psoriásica. Inícios atípicos incluem monoartrite de joelho, polimialgia do cinto em idosos e apresentação palindrômica (ataques recorrentes de horas a dias).
| Manifestação extra-articular | Apresentação e frequência | Ponto-chave |
|---|---|---|
| Nódulos reumatoides | Cotovelos e superfícies extensoras em 20% a 30%, quase sempre soropositivos | Histologia com necrose fibrinoide central cercada por palicada de histiócitos |
| Doença pulmonar intersticial | 5% a 10% clinicamente evidente, padrão UIP na TC de alta resolução | Mais comum em homens, tabagistas e ACPA positivos; exige rastreio pré-anti-TNF |
| Serosite | Pleurite e pericardite com derrame exsudativo com baixa glicose | Derrame pleural rico em fator reumatoide e com complemento baixo |
| Síndrome de Sjögren secundária | Sicca em 10% a 30% dos casos | Anti-Ro/SSA positivo em parte dos pacientes |
| Vasculite reumatoide | Púrpura, neuropatia periférica, feridas digitais em soropositivos de longa data | Marca de doença não controlada por anos |
| Síndrome de Felty | AR grave + neutropenia + esplenomegalia, menos de 1% | Associada a HLA-DR4 e risco alto de infecções; anti-TNF e rituximabe são opções |
| Osteoporose | Local e generalizada, acelerada por inflamação e glicocorticoide | Densitometria e suplementação de cálcio e vitamina D fazem parte do manejo |
| Doença cardiovascular | Aterosclerose acelerada, risco relativo 1,5 a 2 vezes maior | A AR é considerada fator de risco cardiovascular independente, como o diabetes |
Nenhum exame isolado diagnostica AR: a combinação de padrão clínico, sorologia e imagem é que sustenta o diagnóstico. O fator reumatoide (IgM anti-IgG) tem sensibilidade de 60% a 70% e especificidade de cerca de 80% — positivo também em hepatite C, Sjögren, endocardite, idosos sadios e tuberculose. O anti-CCP (anticorpo antipeptídeo citrulinado cíclico) tem sensibilidade semelhante (60% a 70%) e especificidade superior a 95%, prediz erosões e persiste com o tratamento — é o marcador de escolha quando disponível. PCR e VHS refletem atividade e orientam o treat-to-target, mas são normais em parte dos pacientes de início.
| Teste | Sensibilidade | Especificidade | Interpretação |
|---|---|---|---|
| Fator reumatoide | 60% a 70% | cerca de 80% | Positivo em 70% a 80% dos casos estabelecidos; falsos-positivos em hepatite C, Sjögren, endocardite e idosos |
| Anti-CCP | 60% a 70% | superior a 95% | Marcador mais específico; prediz doença erosiva e evolui melhor com metotrexato |
| Ultrassonografia com Doppler | superior à radiografia para sinovite | depende do operador | Detecta sinovite, tenossinovite e erosões precoces; útil na dúvida diagnóstica e na suspensão de tratamento |
| Radiografias de mãos e pés | baixa no início | alta para erosão estabelecida | Erosões marginais e redução do espaço articular aparecem tardiamente; servem de linha de base |
| Diagnóstico diferencial | Distribuição articular | Pistas diferenciais |
|---|---|---|
| Artrose | DIP, primeira carpometacarpal, joelhos, assimétrica | Rigidez matinal curta (menos de 30 min), sem sinovite difusa, sem VHS elevada |
| Artrite psoriásica | Assimétrica, DIP, dactilite, entesite | Psoríase cutânea, unhas com pitting e onicólise, fator reumatoide negativo |
| Lúpus eritematoso sistêmico | Simétrica de pequenas articulações, não erosiva | Artralgia sem erosão, FAN positivo, citopenias e rash |
| Artrites virais | Poliartrite aguda simétrica | Início abrupto com exantema (parvovírus B19, rubéola, chikungunya), duração curta e resolução espontânea |
| Microcristais (gota e condrocalcinose) | Mono ou oligoartrite aguda | Cristais de urato monossódico ou de pirofosfato de cálcio na artrocentese; podagra clássica |
A atividade de doença quantifica-se pelo DAS28 (contagem de 28 articulações dolorosas e tumefeitas, VHS ou PCR e avaliação global): remissão abaixo de 2,6; baixa atividade entre 2,6 e 3,2; moderada entre 3,2 e 5,1; alta acima de 5,1. Alternativas validadas incluem CDAI e SDAI, que dispensam laboratório e têm limiares de remissão de 2,8 e 3,3 respectivamente. A avaliação do paciente deve incluir medidores funcionais (HAQ) e escala de dor.
| Droga | Dose de manutenção | Via | Monitorização e alertas |
|---|---|---|---|
| Metotrexato | 15 a 25 mg uma vez por semana | Oral ou subcutânea (biodisponibilidade maior na via SC) | Ácido fólico 5 a 10 mg por semana (no dia seguinte); hemograma, transaminases e creatinina a cada 1 a 3 meses; contraindicado na gestação e na doença hepática |
| Leflunomida | 20 mg por dia (10 mg na intolerância) | Oral | Teratogênica com washout longo (colestiramina); hepatotoxicidade, hipertensão e diarreia |
| Sulfassalazina | 2 a 3 g por dia, fracionada | Oral | Hemograma pelo risco de agranulocitose; tolerada na gestação; oligospermia reversível |
| Hidroxicloroquina | 5 mg/kg por dia, até 400 mg | Oral | Retinografia inicial e anual após 5 anos; opção na doença leve e na gestação |
| Prednisona (ponte) | 5 a 10 mg por dia, retirada em até 3 meses | Oral | Ponte até o DMARD agir; evitar uso crônico por osteoporose, diabetes, hipertensão e infecções |
O metotrexato começa com 7,5 a 15 mg semanais e titula-se até 20 a 25 mg; a via subcutânea responde melhor em doses altas e na intolerância gastrintestinal. A associação de três csDMARDs (metotrexato + sulfassalazina + hidroxicloroquina, a terapia tripla) é alternativa válida ao anti-TNF na falha do metotrexato isolado, com eficácia comparável e custo muito menor. Antes de qualquer imunossupressor: vacinação atualizada (influenza, pneumococo, COVID-19, herpes zóster inativada), rastreio de tuberculose latente (PPD ou IGRA e radiografia de tórax) e sorologias de hepatite B (incluindo anti-HBc), hepatite C e HIV.
| Fármaco | Alvo | Dose habitual no adulto | Observações |
|---|---|---|---|
| Etanercepte | Receptor solível do TNF | 50 mg subcutânea uma vez por semana | Biossimilares reduziram custo; eficácia equivalente aos outros anti-TNF |
| Adalimumabe | Anti-TNF monoclonal | 40 mg subcutânea a cada 2 semanas | Opção com dados extensos; imunogenicidade reduzida quando combinado ao metotrexato |
| Infliximabe | Anti-TNF monoclonal | 3 mg/kg IV nas semanas 0, 2 e 6 e depois a cada 8 semanas | Infusão hospitalar; dose pode titrar até 10 mg/kg |
| Rituximabe | Depleção de linfócitos B CD20 | 1 g IV nos dias 1 e 15, repetindo a cada 6 a 12 meses | Preferência na AR soropositiva com linfoma prévio ou hepatite B controlada |
| Abatacepte | Bloqueio da coestimulação CD80-CD86/CTLA4 | 125 mg subcutânea semanal após dose IV de ataque | Opção segura no perfil neoplásico prévio |
| Tocilizumabe | Receptor da interleucina 6 | 162 mg subcutânea a cada 2 semanas ou 8 mg/kg IV a cada 4 semanas | Vigilar transaminases, lipídeos e neutropenia; máscara de PCR |
| Tofacitinibe | Inibidor de JAK1 e JAK3 | 5 mg oral de 12 em 12 horas | Advertência em caixa: eventos cardiovasculares, tromboembolismo, malignidade e mortalidade |
| Baricitinibe e upadacitinibe | JAK1 seletivos | 4 mg e 15 mg oral uma vez ao dia, respectivamente | Mesma advertência de classe; preferência após falha de anti-TNF |
A hierarquia prática consolidada pelas diretrizes ACR 2021 e EULAR 2022: metotrexato primeiro em todos, a menos que contraindicado; na falha, biológico (tradicionalmente anti-TNF) ou inibidor de JAK, mantendo o metotrexato combinado; JAK preferencialmente após falha de um anti-TNF, sobretudo em pacientes com mais de 65 anos, tabagistas e com fatores de risco cardiovascular ou neoplásico, em razão do excesso de eventos observado no estudo de segurança ORAL Surveillance, que comparou tofacitinibe com anti-TNF e mostrou mais eventos cardiovasculares maiores, tromboembolismo venoso, malignidade e mortalidade com o inibidor de JAK. Na falha de um anti-TNF, pode-se trocar para outro anti-TNF com estrutura diferente (segundo anti-TNF) ou mudar de classe (abatacepte, tocilizumabe, rituximabe ou JAK); na AR soropositiva, o rituximabe é escolha racional após dois anti-TNF. Na remissão sustentada, a retirada gradual do glicocorticoide vem primeiro, seguida do espaçamento do biológico, jamais do csDMARD.
Além do CAR-T, quatro frentes dominam a inovação em AR. Primeira, biossimilares de anti-TNF e de rituximabe derrubaram barreiras de acesso e viabilizam o uso mais precoce de biológicos. Segunda, inibidores de JAK mais seletivos (JAK1) tentam manter eficácia com menos eventos adversos de classe. Terceira, a medicina de precisão: ensaios como o R4RA estratificam a escolha do biológico pelo fenótipo sinovial (linfocítico versus mielocítico) na biópsia, aproximando a reumatologia da oncologia. Quarta, estratégias imunorreguladoras em teste — interleucina 2 em baixa dose para expandir linfócitos T reguladores, vacinas tolerogênicas contra peptídeos citrulinados e modulação do microbioma intestinal. No consultório, a ultrassonografia point-of-care e as plataformas digitais de monitorização remota da atividade de doença encurtam o ciclo treat-to-target.
Sem tratamento, a AR leva a destruição articular em 75% dos pacientes nos primeiros 2 anos e à incapacidade laboral em 30% a 50% em uma década — números históricos que o tratamento precoce mudou. Comorbidades que encurtam a expectativa de vida: doença cardiovascular aterosclerótica (a primeira causa de morte, com risco 1,5 a 2 vezes maior que o esperado), infecções (pela doença e pela imunossupressão), osteoporose (fraturas por fragilidade), linfoma não Hodgkin (risco relativo cerca de 2 vezes, maior na doença muito ativa) e doença pulmonar intersticial. Fatores de mau prognóstico: ACPA e FR em títulos altos, atividade persistente, erosões precoces, tabagismo e baixo status socioeconômico. Com a estratégia treat-to-target, a expectativa de vida aproxima-se da população geral e a progressão radiográfica pode ser interrompida.
1.Paciente com poliartrite simétrica de mãos há 8 semanas, FR negativo, anti-CCP alto-positivo (acima de 3 vezes o limite), PCR elevada. Considerando apenas sorologia, fase aguda e duração, ela já soma 5 pontos. Qual achado de exame físico garante a MAIOR pontuação no domínio de envolvimento articular dos critérios ACR/EULAR 2010?
2.Sobre autoanticorpos na AR, a afirmativa correta é:
3.A preservação das articulações interfalângicas distais (DIP) com envolvimento simétrico de MCP, PIP e punhos é padrão de:
4.A droga de primeira linha para qualquer paciente com AR recém-diagnosticada, salvo contraindicação, é:
5.Antes de iniciar anti-TNF, o rastreio obrigatório inclui:
6.Paciente em acompanhamento com DAS28-VHS de 2,3. A classificação de atividade de doença é:
7.Homem de 58 anos com AR soropositiva de longa data, neutropenia importante e esplenomegalia. O diagnóstico sindrômico é:
8.O tocilizumabe atua bloqueando:
9.O estudo ORAL Surveillance (2022) comparou tofacitinibe com anti-TNF na AR com fatores de risco cardiovasculares e demonstrou:
10.Mulher de 28 anos com AR planeja gestação. O esquema compatível é:
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