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Revisão completa da tomografia computadorizada: princípios físicos, escala Hounsfield e janelas, fases de contraste, protocolos por cenário clínico (AVC, TEP, abdome agudo, trauma, rastreio de pulmão), dose de radiação, segurança do contraste e radioproteção.
[1] Hounsfield GN. Computerized transverse axial scanning (tomography). Part 1. Description of system. Br J Radiol. 1973;46(552):1016-1022 · DOI 10.1259/0007-1285.46.552.1016 | [2] Bushberg JT, Seibert JA, Leidholdt EM Jr, Boone JM. The Essential Physics of Medical Imaging. 4ª ed. Wolters Kluwer. 2021 | [3] McCollough CH, Primak AN, Braun N, Kofler J, Yu L, Christner J. Strategies for Reducing Radiation Dose in CT. Radiol Clin North Am. 2009;47(1):27-40 · DOI 10.1016/j.rcl.2008.10.006 · PMID 19195532 | [4] American College of Radiology, Committee on Drugs and Contrast Media. ACR Manual on Contrast Media. 2024 · www.acr.org | [5] Aberle DR, Adams AM, Berg CD, et al. Reduced Lung-Cancer Mortality with Low-Dose Computed Tomographic Screening (NLST). N Engl J Med. 2011;365:395-409 · DOI 10.1056/NEJMoa1102873 · PMID 21714641 | [6] Brasil. Ministério da Saúde, SVS. Portaria nº 453, de 1º de junho de 1998 — Regulamento técnico: diretrizes básicas de proteção radiológica em radiodiagnóstico médico e odontológico. Diário Oficial da União. 1998 · www.gov.br · DOI 10.1259/0007-1285.46.552.1016
A tomografia computadorizada (TC) é o exame de imagem que mais mudou a medicina aguda desde a radiografia: mede a atenuação dos raios X pelos tecidos em múltiplos ângulos e reconstrói matematicamente cortes transversais, sem sobreposição de estruturas. O primeiro aparelho, descrito por Godfrey Hounsfield em 1971 e publicado em 1973, levava minutos para um único corte de crânio e rendeu o Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1979 (dividido com Allan Cormack); um aparelho multidetectores atual adquire o tórax e o abdome inteiros com cortes submilimétricos em menos de 10 segundos. Para a prova, o estudante precisa dominar: a escala Hounsfield e as janelas de leitura, as fases de aquisição com contraste iodado, os protocolos indicados para cada apresentação clínica (com dados de desempenho), os limites de dose de radiação e o manejo do paciente com doença renal, metformina ou alergia prévia ao contraste.
No túnel do tomógrafo, o tubo de raios X emite um feixe em leque que atravessa o paciente e atinge uma fileira de detectores fixada no anel rotativo (gantry); a rotação contínua da fonte e do detector enquanto a mesa avança gera a aquisição helicoidal (espiral), base de toda TC moderna. Cada medida corresponde à atenuação do feixe, que depende do número atômico efetivo e da densidade eletrônica do tecido — por isso osso e iodo (número atômico 53) atenuam muito, e ar quase nada. O computador resolve milhares de equações simultâneas (reconstrução por retroprojeção filtrada ou, cada vez mais, reconstrução iterativa e redes de deep learning) e atribui a cada voxel um valor numérico de atenuação na escala Hounsfield. A aquisição é volumétrica: com detectores de 64 a 320 fileiras e rotação de 0,25 a 0,5 segundo, obtêm-se voxels isótropos de 0,5 a 0,625 mm, que permitem reconstruções multiplanares (MPR), projeções de intensidade máxima (MIP) e volume rendering sem perda diagnóstica.
A escala Hounsfield (UH) é centrada na água (0 UH, por definição) e vai de -1000 UH (ar) a +3000 UH (osso cortical denso), com 4096 níveis de cinza disponíveis — muito mais do que o olho humano distingue (cerca de 60). A janela de leitura resolve esse gargalo: escolhe-se um nível (WL, centro da escala de cinzas) e uma largura de janela (WW, contraste). As janelas clássicas que caem em prova: janela de parenquima cerebral (WL 35-40, WW 80-100) para sangue agudo e parênquima; janela de pulmão (WL -500 a -700, WW 1000-1500) para interstício e bolhas; janela de mediastino/partes moles (WL 30-50, WW 350-500) para linfonodos, vasos e músculo; janela óssea (WL 250-500, WW 1500-2500) para fraturas. Sangue agudo aparece com 50-80 UH, hiperdenso em relação ao parênquima cerebral (30-40 UH) — a base radiológica do diagnóstico de acidente vascular hemorrágico pela TC sem contraste.
| Tecido/estrutura | Densidade típica (UH) | Janela de leitura recomendada |
|---|---|---|
| Ar (pulmão, gases) | -1000 (de -700 a -1000 no parênquima) | Pulmão (WL -500 a -700, WW 1000-1500) |
| Gordura (subcutâneo, mesentério) | -50 a -100 | Mediastino/abdominal (WL 30-50, WW 350-500) |
| Água, LCR, líquido simples, cisto | 0 a +20 | Cerebral ou partes moles |
| Parênquima cerebral | +30 a +40 | Cerebral (WL 35-40, WW 80-100) |
| Músculo e órgãos sólidos | +35 a +60 | Partes moles/mediastino |
| Sangue agudo (hematoma, HSA) | +50 a +80 | Cerebral (hiperdenso nas primeiras horas a dias) |
| Calcificação, cálculo cálcico | +120 a +300 | Partes moles ou óssea |
| Osso cortical e metal | +700 a +3000 | Óssea (WL 250-500, WW 1500-2500) |
Os contrastes iodados atuais são agentes hidrossolúveis não iônicos de baixa osmolaridade (iohexol, iopamidol, iopromide; iodixanol é iso-osmolar), com concentrações de 300 a 370 mg de iodo/mL, administrados por via venosa periférica calibrosa (18 a 20G para taxas de 3 a 5 mL/s) seguidos de salino (chaser) de 30 a 40 mL. A dose típica é de 60 a 100 mL no adulto (aproximadamente 0,5 a 1 g de iodo por kg), com sincronização por bolus tracking (região de interesse na aorta). A escolha da fase define o diagnóstico: pâncreas e fígado avaliam-se na portal venosa; carcinoma hepatocelular e metástases hipervascularizadas saltam na arterial hepática; o urotélio exige fase excretora; e o parênquima renal é melhor avaliado na nefrográfica. O contraste oral/neutro (água ou contraste neutro) distende alças e ajuda a caracterizar a parede intestinal.
| Fase | Tempo após injeção | Alvo diagnóstico |
|---|---|---|
| Sem contraste (basal) | — | Hemorragia, calcificação, cálculo, esteatose, comparação de densidade |
| Arterial pura (aórtica) | 20 a 25 s | Dissecção aórtica, aneurisma, MAPCAs, hipervascularização precoce |
| Arterial hepática | 25 a 40 s | Carcinoma hepatocelular (lavagem na portal), metástases hipervascularizadas, NET |
| Portal venosa | 60 a 70 s | Fígado (maior realce), pâncreas, baço, linfonodos abdominais |
| Corticomedular renal | 25 a 40 s | Vasos renais, trauma renal, caracterização de lesões |
| Nefrográfica | 80 a 120 s | Parênquima renal: melhor fase para massas renais e pielonefrite enfisematosa |
| Equilíbrio / tardia | 3 a 5 min | Vesícula biliar, parede vesicular, coleções, realce tardio de fibrose |
| Excretora | 5 a 10 min | Urotélio: carcinoma urotelial, estenose ureteral, fístulas urinárias |
Nefropatia induzida por contraste (lesão renal aguda pós-contraste) é definida pelo aumento da creatinina de 0,3 mg/dL ou mais em 48 horas, ou de 1,5 vez ou mais do basal em até 7 dias, sem outra causa. O risco relevante concentra-se em pacientes com TFGe menor que 30 mL/min/1,73 m2 (o manual do ACR usa esse limiar para contraste venoso) e a profilaxia é hidratação com salina isotônica (0,9%, cerca de 1 a 3 mL/kg/h, iniciando antes e mantendo após o exame); bicarbonato e N-acetilcisteína não demonstraram benefício em ensaios grandes e saíram das recomendações. Metformina: se TFGe 30 ou maior e sem lesão renal aguda, não é preciso suspender; se TFGe menor que 30, lesão renal aguda ou estudo com contraste que justifique, suspender por 48 horas e reintroduzir após reavaliar a função renal. Reações alérgicas ao iodado classificam-se em leves (náusea, urticária limitada), moderadas (urticária difusa, broncoespasmo) e graves (anafilaxia, edema de via aérea) — o tratamento da reação grave é adrenalina intramuscular 0,01 mg/kg (máximo 0,5 mg), igual à anafilaxia por qualquer causa.
A dose em TC é quantificada pelo CTDIvol (mGy, dose no corte) e pelo DLP (mGy.cm, CTDIvol x comprimento); a dose efetiva estimada multiplica o DLP por fatores de conversão por região (aproximadamente 0,0023 para crânio e 0,015 para abdome, em mSv por mGy.cm). Referências para prova: TC de crânio 1 a 2 mSv; TC de tórax 5 a 7 mSv; TC de abdome e pelve 8 a 10 mSv; angio-TC de tórax 5 a 15 mSv; TC de tórax de baixa dose 1 a 2 mSv — contra cerca de 3 mSv de radiação natural de fundo por ano e 0,02 a 0,1 mSv de uma radiografia de tórax. As estratégias de redução de dose validadas incluem modulação automática da corrente do tubo, adequação do kilovoltage ao biótipo (80-100 kVp em pacientes finos e angio-TC), limitação do comprimento varrido, reconstruções iterativas e de deep learning (com ganhos de 30 a 60%) e protocolos pediátricos por peso. O princípio jurídico e ético no Brasil está na Portaria SVS/MS 453/1998 e nas normas da CNEN: justificação (o exame precisa mudar a conduta) e otimização (ALARA — dose tão baixa quanto razoavelmente alcançável), com o pedido justificado e o protocolo supervisionado pelo médico radiologista.
O protocolo não é detalhe técnico — é a decisão diagnóstica. No AVC agudo, a TC de crânio sem contraste é o primeiro exame em todos os pacientes com deficit neurológico agudo, porque exclui hemorragia (contra-indicação do trombolítico) em minutos; a escala ASPECTS pontua de 0 a 10 a extensão do hipodenso isquêmico no território da artéria cerebral média (valores 7 ou menos indicam extensão desfavorável), a angio-TC identifica oclusão de grande vaso para trombectomia e a perfusão por TC seleciona pacientes na janela estendida: critérios do DEFUSE 3 (6 a 16 horas, núcleo isquêmico menor que 70 mL, razão de mismatch 1,8 ou mais) e do DAWN (6 a 24 horas, núcleo de 21 a 51 mL conforme idade e NIHSS). Na cefaleia em trovo súbita, a TC sem contraste nas primeiras 6 horas tem sensibilidade próxima de 100% para hemorragia subaracnóidea — exame normal nesse intervalo, com punção lombar ou angio-TC conforme a probabilidade clínica (regra de Ottawa).
Na suspeita de tromboembolismo pulmonar, o escore de Wells estratifica a probabilidade: Wells 4 ou menos com D-dímero negativo (limiar ajustado à idade, multiplicando a idade por 10 acima de 50 anos — ex.: 65 anos, corte de 650) descarta a doença; probabilidade alta ou D-dímero positivo indica angio-TC de tórax, com sensibilidade em torno de 83% e especificidade em torno de 96% no PIOPED II. No abdome agudo, a TC é decisiva: apendicite aguda com sensibilidade e especificidade em torno de 95% (apendicolito, espessamento cecal, estrangulamento gorduroso), TC sem contraste para cólica renal com sensibilidade de 95 a 98% para cálculo (tamanho orientando a conduta: menor de 4 mm elimina-se espontaneamente em mais de 90% dos casos, 5 a 7 mm em cerca de metade, maior que 7 mm raramente), e pancreatite aguda na qual a TC é reservada para complicações após 72-96 horas de evolução (classificação de Balthazar). No trauma, a TC de corpo inteiro é padrão no paciente estável, e o FAST permanece a ferramenta de triagem do instável; aneurisma de aorta abdominal medido em 3 cm ou mais, com indicação de correção eletiva a partir de 5,5 cm. No tórax, o escore de cálcio coronariano por Agatston (0, 1-99, 100-399, 400 ou mais) reestratifica o risco cardiovascular: score 0 associa-se a risco anual de evento inferior a 1%.
| Cenário clínico | Protocolo de primeira linha | Dados de desempenho e achados |
|---|---|---|
| Deficit neurológico agudo / AVC | TC de crânio sem contraste + angio-TC e perfusão | ASPECTS 0-10 (7 ou menos = extenso); trombólise IV até 4,5 h; trombectomia 6-24 h por perfusão |
| Cefaleia em trovo (HSA) | TC sem contraste em até 6 h | Sensibilidade próxima de 100% na primeira hora; cai com o tempo — normal não afasta se > 6 h |
| Suspeita de TEP | Wells/D-dímero ajustado à idade; angio-TC de tórax | Sens ~83% e espec ~96% (PIOPED II); defeito de repleção, sinal do halo, infarto em cunha |
| Cólica renal | TC sem contraste de abdome (baixa dose) | Sens 95-98% e espec 96-98% para cálculo; hidronefrose, esteatose perirrenal |
| Apendicite aguda | TC com contraste IV (ou US em jovens/gestantes) | Sens ~95%; apendicolito, calibre > 6 mm, infiltração gordurosa peripendicular |
| Trauma abdominal estável | TC com contraste IV, fases portal e (se suspeita vascular) arterial | Lesão de órgãos sólidos graduada por AAST; contraste extravasado = lesão vascular ativa |
| Rastreio de câncer de pulmão | TC de tórax de baixa dose anual | Redução de 20% da mortalidade por câncer de pulmão no NLST |
| Dor torácica atípica | Escore de cálcio; se 1-399 com sintomas, angio-TC de coronárias | Score 0 = risco anual de evento < 1%; CTA anatômica em 64 detectores com boa acurácia |
O National Lung Screening Trial (NLST) randomizou 53.454 fumantes de alto risco para três rodadas anuais de TC de baixa dose versus radiografia de tórax e demonstrou redução relativa de 20% na mortalidade específica por câncer de pulmão (e 6,7% na mortalidade total), resultado confirmado pelo NELSON em homens europeus. A recomendação vigente do USPSTF (2021) indica rastreio anual com TC de baixa dose para adultos de 50 a 80 anos, com histórico de 20 maços-ano ou mais (por exemplo, um maço ao dia por 20 anos), fumantes atuais ou que pararam há menos de 15 anos, desde que tenham condição e disposição para tratamento. O gargalo é o manejo de nódulos: a maioria dos achados é benigna, e a estratificação por risco ( tamanho, densidade, crescimento volumétrico e calcificação) segue os protocolos tipo Lung-RADS, com nódulos sólidos de 6 mm ou mais ou em parte sólidos de 6 mm ou mais merecendo seguimento ou investigação conforme o risco.
As limitações da TC precisam ser conhecidas para pedir o exame certo: menor contraste tecidual que a ressonância (baixo rendimento para medula, ligamentos, placas desmielinizantes e epilepsia), uso de radiação ionizante (restrição relativa em gestantes, crianças e exames repetidos), dependência de contraste iodado (alergia e função renal) e artefatos. Os artefatos clássicos: endurecimento do feixe (beam hardening) entre os ossos petrosos criando pseudohemorragia na fossa posterior; artefato metálico em próteses (mitigado por reconstruções dedicadas); movimentos (exames não cooperados); efeito de volume parcial resolvido por cortes finos. O laudo ideal segue estrutura: técnica empregada, achados por sistema, impressão diagnóstica numerada e comparativa com exames anteriores — a comparação com estudos prévios muda a conduta em nódulos e lesões indeterminadas mais do que qualquer recurso técnico.
1.Na TC de crânio sem contraste de um paciente com cefaleia súbita há 2 horas, qual densidade caracteriza sangue agudo na cisterna silviana?
2.Para avaliar interstício pulmonar, bolhas e nódulos na TC de tórax, qual janela deve ser usada?
3.Um paciente com nódulo hepático suspeito de carcinoma hepatocelular realiza TC dinâmica. Em que fase o tumor hipervascular mostra realce máximo?
4.Paciente de 72 anos, TFGe 26 mL/min/1,73 m2, em uso de metformina, precisa de TC com contraste iodado. Qual conduta correta segundo o ACR?
5.Qual o esquema clássico de premedicação eletiva para paciente com reação alérgica moderada prévia ao contraste iodado?
6.Qual a dose efetiva típica de uma TC de abdome e pelve com contraste no adulto, e a que corresponde em radiação natural de fundo?
7.Sobre a investigação de hemorragia subaracnóidea em cefaleia súbita em trovo, qual afirmativa é correta?
8.Paciente de 65 anos com probabilidade clínica baixa de TEP (Wells 2). Qual o limiar do D-dímero ajustado à idade?
9.A escala ASPECTS, usada na TC de crânio no AVC isquêmico, tem qual interpretação correta?
10.Durante a injeção do contraste iodado, o paciente desenvolve urticária difusa, estridor e hipotensão. Qual a primeira conduta?
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