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Guia de decisão para pedir ressonância magnética: princípios das sequências T1, T2, FLAIR, difusão e STIR, indicações por sistema, contraindicações e segurança do gadolínio. Aprofunda duas aplicações cobradas em prova: a RM de próstata com PI-RADS v2.1 (com números do ensaio PRECISION) e a RM na síndrome de Parsonage-Turner.
[1] Turkbey B, Rosenkrantz AB, Haider MA, et al. Prostate Imaging Reporting and Data System Version 2.1: 2019 update. Eur Urol. 2019;76(3):340-51 · DOI 10.1016/j.eururo.2019.02.005 | [2] Kasivisvanathan V, Rannikko AS, Borghi M, et al. MRI-targeted or standard biopsy for prostate-cancer diagnosis (PRECISION). N Engl J Med. 2018;378(19):1767-77 · DOI 10.1056/NEJMoa1801993 | [3] Van Eijk JJJ, Groothuis JT, Van Alfen N. Neuralgic amyotrophy: an update on diagnosis, pathophysiology, and treatment. Muscle Nerve. 2016;53(3):337-50 · DOI 10.1002/mus.25030 · PMID 26561714 | [4] Kanda T, Ishii K, Kawaguchi H, et al. High signal intensity in the dentate nucleus and globus pallidus on unenhanced T1-weighted MR images. Radiology. 2014;270(3):834-41 · DOI 10.1148/radiol.13131669 | [5] European Association of Urology. EAU Guidelines on Prostate Cancer. Arnhem: EAU; 2025. Disponível em https://uroweb.org/guidelines/prostate-cancer · DOI 10.1016/j.eururo.2019.02.005
A ressonância magnética (RM) é o método de imagem de maior contraste tecidual disponível na medicina: diferencia medula óssea, cartilagem, nervos, parênquima e lesões focalmente distintas sem radiação ionizante, o que a torna preferida em jovens, gestantes (quando necessária) e em seguimentos que exigem exames seriados. Pedir RM, porém, é uma decisão: o exame é caro, demorado, de acesso desigual e exige triagem de segurança rigorosa. Este artigo organiza a lógica da solicitação — qual pergunta clínica a RM responde melhor do que a radiografia, a ultrassonografia ou a tomografia — e aprofunda duas aplicações de alta densidade de prova: a RM multiparamétrica da próstata com o sistema PI-RADS v2.1 e a RM do ombro na síndrome de Parsonage-Turner (amiotrofia neuralgética).
A RM usa campo magnético intenso (1,5 ou 3 Tesla) e pulsos de radiofrequência para gerar contraste a partir das propriedades de relaxação T1 e T2 dos prótons de hidrogênio dos tecidos. Saber o que cada sequência realça permite ler qualquer laudo com criticidade: T1 mostra anatomia e vazaamento de sangue subagudo; T2 destaca líquido e edema; a difusão (DWI com mapa de ADC) revela tecido hipercelular; sequências com supressão de gordura evidenciam edema de medula óssea e de partes moles; e a angiorressonância e os estudos dinâmicos pós-contraste avaliam fluxo e neovascularização.
| Sequência | O que realça | Exemplo de aplicação cobrada em prova |
|---|---|---|
| T1 ponderada | Anatomia; líquido escuro; gordura, sangue subagudo e melanina brilhantes | Base para estudos com contraste (hipófise, lesões hepáticas, coluna pós-operatória) |
| T2 ponderada | Líquido e edema hiperintensos | Cistos, disco intervertebral, endometrioma, condutos biliares e pancreático |
| FLAIR (T2 com supressão do LCR) | Lesões justacorticais e periventriculares que o T2 simples mascara | Placas de esclerose múltipla; hemorragia subaracnoidea; diferencia cisto aracnoideo de ventriculomegalia |
| Difusão (DWI e ADC) | Restrição de difusão por citotoxicidade ou hiper celularidade | AVC isquêmico em minutos; abcesso; tumores de próstata, mama e útero |
| Gradiente-eco e SWI | Suscetibilidade: sangue, ferro e calcificação | Cavernomas, micro-hemorragias hipertensivas, calcificações |
| STIR e supressão de gordura | Edema de medula óssea e de partes moles com fundo escurecido | Fraturas por estresse, osteomielite, edema muscular por desnervação no plexo braquial |
A RM entra quando a pergunta clínica exige contraste de partes moles, medula óssea ou parênquima neurológico, ou quando exames seriados tornam a radiação um problema. Não é exame de primeiro uso no trauma agudo nem no AVC hiperagudo (a TC de crânio sem contraste exclui hemorragia em minutos e libera a trombólise), e a dor lombar mecânica recente não pede RM antes de 6 semanas, salvo bandeiras vermelhas. A tabela resume os cenários mais cobrados.
| Cenário clínico | Exame de primeira linha | Papel da RM |
|---|---|---|
| AVC agudo | TC de crânio sem contraste para excluir hemorragia | DWI detecta isquemia em minutos com sensibilidade acima de 90%; define penumbra e cronologia |
| Esclerose múltipla suspeita | RM de crânio e medula com gadolínio | Exame diagnóstico: critérios de McDonald com disseminação no tempo e no espaço |
| Dor lombar com radiculopatia | Radiografias; TC na persistência | RM após 6 semanas ou antes se bandeira vermelha: câncer, infecção, déficit progressivo, trauma |
| Suspeita de osteomielite | RM do segmento acometido | Sensibilidade em torno de 90%; define extensão, abscesso e necessidade de drenagem |
| Lesão meniscal ou ligamentar do joelho | RM articular | Padrão não invasivo de referência para menisco (sensibilidade cerca de 90%) e ligamento cruzado |
| Nódulo hepático em cirrótico | RM dinâmica com contraste | Melhor caracterização e estadiamento (sistema LI-RADS); superior à TC para lesões pequenas |
| Suspeita de coledocolitíase | Ultrassonografia; função hepática | ColangioRM não invasiva: sensibilidade de 85 a 93% para cálculo em via biliar |
| Endometriose profunda | Ultrassonografia especializada | RM pélvica mapeia implantes, acometimento intestinal e planeja a cirurgia |
A segurança na RM depende da interação entre campo magnético, dispositivos implantados e objetos ferromagnéticos. Todo exame exige questionário padronizado sobre cirurgias, marcapasso, desfibrilador, neuroestimulador, implante coclear, stents, clips, próteses, fragmentos metálicos (especialmente em olhos de quem trabalha com metal), tatuagens, alergias, função renal e gestação. Dispositivos classificados como MR-conditional só entram sob condições específicas de campo (1,5 T ou 3 T) e protocolo cardiológico; a geração atual de marcapassos deixou de ser contraindicação automática, mas exige verificação documento a documento. Projétil metálico intraocular e clips ferromagnéticos antigos de aneurisma permanecem contraindicações absolutas clássicas.
Sobre o gadolínio: o estudo de Kanda e colaboradores (2014) demonstrou correlação entre a dose cumulativa do contraste e sinal hiperintenso em T1 no núcleo dentado e no globo pálido de exames sem contraste, achado confirmado depois como deposição cerebral, muito maior com agentes lineares (gadodiamida, gadopentetato) e discreta com os macrocíclicos (gadobutrol, gadoterato, gadoteridol). A fibrose sistêmica nefrogênica, descrita com agentes lineares em disfunção renal grave, tornou-se rara após as restrições regulatórias: os agentes macrocíclicos de grupo II têm risco estimado inferior a 0,07% mesmo em rins comprometidos. Reações de hipersensibilidade ao gadolínio são leves na grande maioria e graves em menos de 0,01% das administrações.
A RM multiparamétrica da próstata combina T2 (anatomia da zona periférica e da zona de transição), difusão com alto valor de b (celularidade) e estudo dinâmico pós-contraste (neovascularização). As diretrizes europeias recomendam a RM antes da primeira biópsia em homens com suspeita clínica (PSA elevado ou toque alterado), após biópsia negativa com PSA persistente e na vigilância ativa para confirmação antes do ingresso e reavaliação. A RM biparamétrica (T2 mais difusão, sem contraste) tem desempenho próximo ao da multiparamétrica e tem sido preferida em muitos serviços por dispensar o gadolínio e encurtar o exame.
O laudo segue o PI-RADS v2.1, que gradua cada achado de 1 a 5 para a probabilidade de câncer clinicamente significativo. A regra de ouro da versão: a sequência dominante depende da zona — na zona periférica manda a difusão (DWI); na zona de transição, manda o T2. Um achado PI-RADS 3 na zona periférica que apresenta realce focal precoce no estudo dinâmico é promovido a PI-RADS 4; essa é a única regra de upgrade sobrevivente na versão 2.1 e cai em prova.
| Escore PI-RADS v2.1 | Probabilidade de câncer clinicamente significativo | Conduta usual |
|---|---|---|
| PI-RADS 1 | Muito baixa | Não biopsiar; seguimento de rotina |
| PI-RADS 2 | Baixa | Individualizar; considerar biópsia apenas com fatores de risco adicionais |
| PI-RADS 3 | Intermediária (aproximadamente 5 a 15% nas coortes de biópsia da zona periférica) | Decisão compartilhada: biópsia ou vigilância com PSA, densidade de PSA e achados associados |
| PI-RADS 4 | Alta | Recomendar biópsia dirigida |
| PI-RADS 5 | Muito alta | Recomendar biópsia dirigida; alta chance de doença com significado clínico |
O PRECISION mudou a prática mundial: a via com RM prévia detectou 38% mais cânceres clinicamente significativos do que a biópsia sistemática cega, reduziu o diagnóstico de doença insignificante — que gera ansiedade e overtreatment — e poupou biópsia a uma parcela substancial dos homens com exame negativo. Na vigilância ativa, a RM confirma a adequação da vigilância e substitui biópsias de reavaliação em cenários selecionados. Lembre também do contexto brasileiro: a RM de próstata de qualidade exige aparelho de campo adequado, coil e radiologista treinado, e a escassez desses recursos é limite real à aplicabilidade universal do pathway.
A amiotrofia neuralgética ou síndrome de Parsonage-Turner é uma neuropatia do plexo braquial, provavelmente imunomediada, com incidência estimada em torno de 1 caso por 1.000 pessoas-ano — mais comum do que se supõe e frequentemente confundida com ombro doloroso mecânico. A sequência clínica em duas fases é a chave do diagnóstico: dor intensa de início súbito no ombro e face lateral do braço, pior à noite e refratária a analgésicos comuns por dias a semanas (fase dolorosa), seguida de declínio da dor com surgimento de fraqueza e atrofia (fase paralítica). Em cerca de metade dos casos há evento desencadeante nas semanas prévias: infecção viral, vacinação, exercício incomum, cirurgia ou puerpério; formas hereditárias ligadas ao gene SEPT9 recorrem em episódios familiares. Por ordem de frequência, os nervos acometidos são o supraescapular (supra e infraespinhal), o axilar (deltóide), o torácico longo (escápula alada por paralisia do serrátil anterior), o musculocutâneo e o frênico.
A RM do ombro e do plexo braquial tem dupla função. Primeiro, excluir os diagnósticos que mimetizam a síndrome: ruptura do manguito rotador, hérnia de disco cervical com radiculopatia e compressões extrínsecas do plexo. Segundo, documentar a desnervação: na fase aguda e subaguda, os músculos acometidos exibem edema com hiperintensidade em T2 e STIR com tendões, cartilagem e ossos preservados; na fase crônica, aparecem atrofia e substituição gordurosa com hipersinal em T1 e volume reduzido. A neurografia de alta resolução pode mostrar realce e engrossamento dos troncos. As alterações de sinal muscular por desnervação tornam-se evidentes tipicamente entre 1 e 4 semanas após o início da fraqueza; o eletroneuromiografia permanece essencial para localizar a lesão, graduar a axonotmese e excluir neuropatias difusas, e deve ser pedido complementar e não concorrente.
Tratamento em camadas: analgesia escalonada precoce (anti-inflamatórios não hormonais, opioides de curta duração, gabapentina ou pregabalina para dor neuropática), corticosteroide oral iniciado no primeiro mês da dor (por exemplo, prednisona 40 a 60 mg/dia com redução gradual em 2 a 4 semanas) acelera a analgesia em ensaios pequenos; imunoglobulina intravenosa precoce é opção estudada nos casos graves; e a reabilitação com fisioterapia preserva amplitude de movimento e promove reprogramação motora. Prognóstico: a dor cede em semanas na maioria; a recuperação motora é lenta, ao longo de meses a 3 anos, incompleta em parcela substancial dos pacientes (descrita entre 25 e 60% nas séries); recidiva ocorre em cerca de 25% dos casos e é mais frequente na forma hereditária.
A RM tem aquisição lenta (20 a 60 minutos por exame), sensibilidade a movimento, claustrofobia limitante em 1 a 10% dos pacientes, bore com limite de peso e acesso desigual no sistema público — gargalo relevante no Brasil, onde o tempo de espera pode comprometer a janela terapêutica em oncologia. Complicações diretas são raras: reações ao gadolínio leves na grande maioria, graves em menos de 0,01%, e fibrose sistêmica nefrogênica praticamente restrita a agentes lineares em disfunção renal grave. O risco cumulativo de deposição cerebral de gadolínio, descrito por Kanda, orienta a escolha de macrocíclicos e o uso criterioso de contraste, além do crescimento das estratégias biparamétricas sem contraste.
1.Paciente com déficit neurológico focal há 2 horas. Qual sequência de RM é a mais sensível para isquemia aguda e em quanto tempo ela se torna positiva?
2.Na RM de próstata pelo PI-RADS v2.1, qual é a sequência dominante para avaliar lesão na zona periférica?
3.Lesão classificada como PI-RADS 3 na zona periférica que apresenta realce focal precoce no estudo dinâmico deve ser:
4.O ensaio PRECISION (NEJM, 2018) randomizou 500 homens sem biópsia prévia para RM com biópsia dirigida versus biópsia sistemática. Resultado principal:
5.Paciente com TFGe de 22 mL/min/1,73 m2 precisa de exame com contraste. Qual a conduta mais adequada em relação ao gadolínio?
6.O estudo de Kanda (2014) sobre deposição de gadolínio descreveu hiperintensidade em T1 sem contraste em quais estruturas?
7.Homem de 45 anos com dor súbita intensa no ombro direito há 3 semanas, pior à noite, que começou a melhorar há 5 dias, quando surgiu dificuldade para abduzir o braço. RM mostra hiperintensidade em STIR nos músculos supra e infraespinhal com tendões do manguito íntegros. O diagnóstico mais provável é:
8.Sobre a RM na amiotrofia neuralgética, assinale a correta:
9.Após ultrassonografia inconclusiva e bilirrubinas alteradas, qual exame não invasivo tem sensibilidade de 85 a 93% para cálculo em via biliar principal?
10.Qual dos itens a seguir é contraindicação absoluta clássica para RM?
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