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Revisão completa do papel da neuroimagem no AVC agudo: protocolo TC/RM, escore ASPECTS, critérios de perfusão do DAWN e DEFUSE 3, mismatch DWI-FLAIR do WAKE-UP, novas tecnologias de inteligência artificial e as limitações clássicas de cada método.
[1] Powers WJ, Rabinstein AA, Ackerson T, et al. Guidelines for the Early Management of Patients With Acute Ischemic Stroke: 2019 Update to the 2018 Guidelines (AHA/ASA). Stroke. 2019;50(12) · DOI 10.1161/STR.0000000000000211 | [2] Barber PA, Demchuk AM, Zhang J, Buchan AM. Validity and reliability of a quantitative computed tomography score in predicting outcome of hyperacute stroke (ASPECTS). Lancet. 2000;355(9216):1670-1674 · DOI 10.1016/S0140-6736(00)02237-6 | [3] Nogueira RG, Jadhav AP, Haussen DC, et al. Thrombectomy 6 to 24 Hours after Stroke with a Mismatch between Deficit and Infarct (DAWN). N Engl J Med. 2018;378(1):11-21 · DOI 10.1056/NEJMoa1706442 | [4] Albers GW, Marks MP, Kemp S, et al. Thrombectomy for Stroke at 6 to 16 Hours with Selection by Perfusion Imaging (DEFUSE 3). N Engl J Med. 2018;378(8):708-718 · DOI 10.1056/NEJMoa1713973 | [5] Thomalla G, Simonsen CZ, Boutitie F, et al. MRI-Guided Thrombolysis for Stroke with Unknown Time of Onset (WAKE-UP). N Engl J Med. 2018;379(7):611-622 · DOI 10.1056/NEJMoa1804355 | [6] Pontes-Neto OM, Silva GS, Feitosa MR, et al. Brazilian guidelines for endovascular treatment of patients with acute ischemic stroke. Arq Neuropsiquiatr. 2017;75(1):50-56 · DOI 10.1590/0004-282x20160174 · DOI 10.1161/STR.0000000000000211
No AVC isquêmico agudo, a imagem deixou de ser simples confirmação diagnóstica e virou o instrumento de triagem terapêutica: é ela que separa quem recebe trombólise (janela de até 4,5 horas), quem vai para trombectomia (até 24 horas em seleção por imagem) e quem tem contraindicações. A diretriz AHA/ASA 2019 recomenda TC sem contraste dentro de 20 minutos da chegada em toda suspeita de AVC, com meta de porta-agulha de 60 minutos para a trombólise. O aluno precisa dominar três camadas: o que cada método mostra (TC, angio-TC, perfusão, RM), quais números selecionam pacientes (ASPECTS, volumes de core e penumbra) e onde cada exame falha. Este artigo cobre as três camadas com os critérios do DAWN, DEFUSE 3 e WAKE-UP, as tecnologias de automação por inteligência artificial e as armadilhas que aparecem nas provas de radiologia e neurologia.
O protocolo básico na porta de urgência segue uma sequência fixa: TC de crânio sem contraste para excluir hemorragia e avaliar sinais precoces de isquemia; angio-TC de crânio e pescoço para documentar oclusão de grande vaso (artéria carótida interna terminal, artéria cerebral média - segmento M1, e segmentos basiliares); e, quando o tempo de início é desconhecido ou supera 6 horas, tomografia de perfusão ou ressonância com difusão para quantificar core e penumbra. A ressonância com sequências de difusão (DWI/ADC) é o método mais sensível para infarto agudo, mas a TC segue sendo o primeiro exame em quase todo o mundo por disponibilidade, velocidade e custo.
| Técnica | O que mostra no AVC agudo | Limitações principais | Papel na triagem |
|---|---|---|---|
| TC sem contraste | Hemorragia (exclui trombólise), sinais precoces de isquemia, cálculo do ASPECTS, calcificações e edema | Baixa sensibilidade para infarto nas primeiras horas (30 a 60% nos primeiros 6 h) | Primeiro exame obrigatório de todo suspeito de AVC |
| Angio-TC (ATC) | Oclusão de grande vaso, estenoses, dissecção, circulação colateral | Só o vaso, não o parênquima; contraste iodado; exige cooperação mínima do paciente | Indispensável para selecionar trombectomia |
| TC de perfusão (PCT) | Core (rCBF abaixo de 30%) e penumbra (Tmax acima de 6 s), volumes em mL | Variação entre softwares e validadores, artefatos por movimento, doses de radiação | Seleção para trombectomia entre 6 e 24 h e casos de início desconhecido |
| RM com difusão (DWI/ADC) | Infarto em minutos (restrição à difusão com ADC baixo); FLAIR, GRE/SWI para sangue | Disponibilidade, tempo, contraindicações (marcapasso antigo, claustrofobia), sensibilidade menor em tronco encefálico | Padrão-ouro para infarto agudo e para trombólise em início desconhecido (WAKE-UP) |
Cerca de 75 a 80% dos AVCs são isquêmicos, e o AVC é uma das principais causas de morte e de incapacidade no Brasil, com estimativas nacionais que superam 100 mil novos casos por ano. Aproximadamente um terço dos isquêmicos anteriores tem oclusão de grande vaso, população em que a trombólise isolada recanaliza pouco e a trombectomia muda o desfecho. Por outro lado, até 20% dos pacientes chegam com horário de início desconhecido (AVC do despertar), grupo que só se beneficia de reperfusão quando a imagem demonstra que o infarto é recente e pequeno. A imagem, portanto, responde a duas perguntas terapêuticas: há tecido ainda salvável e há vaso ocluído recuperável.
A isquemia reduz o fluxo sanguíneo cerebral e desliga a bomba Na/K-ATPase: água ingressa no neurônio, surgindo o edema citotóxico em minutos. Esse edema restringe a difusão livre da água, capturada pela DWI como hiperintensidade com ADC baixo, o achado mais precoce do infarto estabelecido (core). A penumbra é a região perfundida de forma crítica (fluxo em torno de 10 a 20 mL/100 g/min) porém ainda viável, elétricamente silenciente mas metabolicamente ativa; na perfusão, aproxima-se da área com atraso de trânsito do contraste (Tmax acima de 6 segundos) que não está incluída no core. O par core mais penumbra define o mismatch: quanto maior a penumbra em relação ao core, maior o tecido salvável e o benefício esperado da reperfusão.
Na TC sem contraste, os sinais precoces refletem edema citotóxico e intersticial com perda da diferenciação entre substância cinzenta e branca: obscurecimento do núcleo lenticular, perda da insula (sinal da fita insular), apagamento dos córtices dos gânglios da base e da convexidade, e hiperdensidade espontânea da artéria cerebral média, que representa o trombo intraluminal. O sinal da ACM hiperdensa tem especificidade alta (em torno de 90 a 95%) mas sensibilidade baixa (30 a 50%) para oclusão proximal, e hipodensidade extensa (mais de um terço do território da ACM) indica infarto estabelecido com maior risco de transformação hemorrágica após trombólise.
Dois ensaios randomizados mudaram a janela da trombectomia para além de 6 horas usando seleção por imagem. O DEFUSE 3 (6 a 16 horas) selecionou por perfusão: core inferior a 70 mL, razão de mismatch (volume com Tmax acima de 6 s dividido pelo core) de 1,8 ou mais e volume de mismatch de pelo menos 15 mL, obtendo independência funcional (mRS 0 a 2 em 90 dias) em 45% contra 17% do tratamento clínico isolado. O DAWN (6 a 24 horas) substituiu o mismatch de perfusão pelo mismatch clínico-radiológico: core inferior a 21 mL em pacientes com 80 anos ou mais e NIHSS de 10 ou mais; core inferior a 31 mL em menores de 80 anos com NIHSS de 10 ou mais; e core inferior a 51 mL em menores de 80 anos com NIHSS de 20 ou mais, alcançando mRS 0 a 2 em 49% contra 13%, um dos maiores efeitos já demonstrados em medicina de urgência (número necessário a tratar em torno de 3 para um desfecho funcional melhor).
| Estudo | Janela | Critério de imagem | mRS 0 a 2 em 90 dias |
|---|---|---|---|
| DEFUSE 3 | 6 a 16 h | Core por rCBF abaixo de 30% inferior a 70 mL; razão de mismatch de 1,8 ou mais; volume de mismatch de 15 mL ou mais | 45% com trombectomia contra 17% clínico |
| DAWN | 6 a 24 h | Core inferior a 21 mL (80 anos ou mais, NIHSS 10 ou mais); inferior a 31 mL (menores de 80 anos, NIHSS 10 ou mais); inferior a 51 mL (menores de 80 anos, NIHSS 20 ou mais) | 49% com trombectomia contra 13% clínico |
| WAKE-UP | Início desconhecido (despertar) | Mismatch DWI-FLAIR: lesão visível na DWI sem hiperintensidade na FLAIR indica início provavelmente menor que 4,5 h | 53,3% com alteplase contra 41,8% com placebo (mRS 0 a 1) |
O WAKE-UP trouxe a lógica fisiológica do relógio da RM: a restrição à difusão (DWI) aparece em minutos, mas a hiperintensidade FLAIR do mesmo território só se desenvolve depois de aproximadamente 4 a 6 horas. Paciente que desperta com déficit, tem lesão na DWI ainda iso/hipointensa na FLAIR, provavelmente teve o início do AVC há menos de 4,5 horas e se beneficia da trombólise. O estudo randomizou esses pacientes para alteplase contra placebo e demonstrou melhora do desfecho funcional (mRS 0 a 1 em 53,3% contra 41,8%), com o preço esperado de pequeno excesso de sangramento sintomático.
Para a prova, os números de sensibilidade e especificidade organizam-se assim. A TC sem contraste é excelente para excluir hemorragia (sensibilidade de 95 a 100% quando comparada à RM e à evolução) mas ruim para infarto agudo: detecta sinais precoces em apenas 30 a 60% dos casos nas primeiras 6 horas, principalmente nos de maior extensão. A DWI detecta infarto agudo com sensibilidade de 95 a 100% e especificidade em torno de 90% já nos primeiros minutos, com falsos-negativos descritos em lesões pequenas de tronco encefálico (da ordem de 5% nas primeiras 24 h). A angio-TC identifica oclusões de grande vaso com sensibilidade acima de 95% e especificidade de 90 a 98%, sendo o método de escolha para mapear o alvo da trombectomia. O ASPECTS automatizado aproxima-se do consenso de neurorradiologistas, mas continua ferramenta de apoio, não de substituição.
A automação por inteligência artificial transformou a pós-processamento: plataformas como RAPID, Viz.ai e Brainomix calculam ASPECTS, mapas de perfusão e detectam oclusão de grande vaso automaticamente, com sensibilidade acima de 90% para LVO, e enviam o alerta direto para o celular da equipe, reduzindo tempos de comunicação e de transferência entre serviços em dezenas de minutos em séries publicadas. O ASPECTS eletrônico (e-ASPECTS) mostrou desempenho comparável ao consenso de neurorradiologistas em estudos de validação e já é incorporado a diretrizes como apoio à decisão. Unidades de AVC móveis com TC a bordo e telemedicina permitem trombólise antes da chegada ao hospital, e salas híbridas com angiografia planar associam diagnóstico e tratamento no mesmo ambiente.
Outras frentes: a TC de dupla energia diferencia contraste residual de sangrado após procedimento endovascular e melhora a caracterização do trombo; a TC com contagem de fótons, ainda em adoção, promove melhor resolução temporal e dose menor; protocolos de RM em etapa única (one-stop MRI) decidem trombólise e trombectomia em um único exame em centros especializados; e modelos de aprendizado profundo estimam automaticamente colateralidade e prognóstico, ainda como ferramentas de apoio. A diretriz brasileira de tratamento endovascular já incorpora a triagem por imagem estendida (CTP ou RM com difusão) como padrão para seleção entre 6 e 24 horas.
| Método | Armadilha clássica | Como evitar |
|---|---|---|
| TC sem contraste | Falso-negativo nas primeiras horas (até 40 a 60% dos infartos precoces não são visíveis); lacunas crônicas e leucoaraiose simulam hipodensidade aguda | TC normal não exclui AVC agudo; correlacionar com clínica e usar janela estreita de parênquima (W 35, L 35) e, se dúvida, DWI |
| Sinal da ACM hiperdensa | Falso-positivo em calcificação arterial crônica e falso-negativo em anemia grave | Comparar os dois lados e confirmar a oclusão na angio-TC |
| ASPECTS | Concordância interobservador apenas moderada; escore baixo não é contraindicação absoluta em paciente jovem | Usar versão automatizada e decidir em equipe com o perfil clínico |
| TC de perfusão | Movimento do paciente e falha cardíaca alteram o atraso do contraste; softwares divergem nos volumes de core | Repetir segmentos movimentados, interpretar com a clínica e usar o mesmo software na sequência do paciente |
| DWI | Falso-negativo em lesões pequenas de tronco encefálico e no início dos sintomas; restrição também ocorre em crises epilépticas prolongadas e abscessos | Repetir o exame se a clínica persiste; DWI não é específico de isquemia vascular |
| FLAIR e WAKE-UP | Vascularização lenta (estenose carotídea grave) gera hiperintensidade FLAIR precoce e falso match | Aplicar o critério apenas em contexto adequado e em centros com experiência |
| Angio-TC | Oclusão em M2 e oclusões tandem podem passar despercebidas; artefato de fluxo lento simula oclusão | Revisar em múltiplos planos e comparar com a perfusão e a clínica |
A imagem também estratifica risco após reperfusão. Transformação hemorrágica sintomática ocorre em torno de 2 a 7% dos trombolisados, mais frequente quando há hipodensidade extensa prévia, hiperglicemia ou hipertensão não controlada; a sequência GRE/SWI da RM e a TC de dupla energia pós-endovascular distinguem contraste extravasado de sangrado verdadeiro. O edema maligno do território da ACM progride nas primeiras 24 a 96 horas, com risco de herniação; a craniectomia descompressiva dentro de 48 horas reduz mortalidade em pacientes até 60 anos e em selecionados acima disso. Para prognóstico, contam o volume final do infarto, o ASPECTS, a recanalização e a colateralidade na angio-TC multifásica, melhor preditor de imagem do resultado funcional após trombectomia tardia.
1.Homem de 68 anos com hemiparesia direita há 1 hora chega à emergência. Qual o primeiro exame de imagem e por quê?
2.Sobre o escore ASPECTS, qual afirmação é correta?
3.Na tomografia de perfusão, o core do infarto é estimado por qual parâmetro?
4.Mulher de 82 anos, NIHSS 14, último horário bem conhecido há 10 horas, oclusão de M1 e core de 15 mL na perfusão. Ela preenche critério de imagem do DAWN?
5.Qual critério de imagem definia elegibilidade no DEFUSE 3?
6.Paciente desperta com déficit, horário de início desconhecido. Qual achado de RM habilita a trombólise segundo o WAKE-UP?
7.A principal limitação da TC sem contraste no AVC agudo é:
8.O sinal da artéria cerebral média hiperdensa na TC representa:
9.Homem de 58 anos em preparo para trombólise cuja TC mostra hipodensidade envolvendo mais de 1/3 do território da ACM. O achado implica:
10.Todas as situações cursam com restrição à difusão na RM, EXCETO:
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