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Revisão dos três transtornos de ansiedade mais cobrados: critérios DSM-5 com números, epidemiologia, fisiopatologia (amígdala, BNST, panicógenos), instrumentos de rastreio com sensibilidade e especificidade, tratamento escalonado com psicoterapia e farmacoterapia em doses, e complicações.
[1] American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. 5ª ed., texto revisado (DSM-5-TR). Washington: American Psychiatric Publishing; 2022 | [2] NICE. Generalised anxiety disorder and panic disorder in adults: management. Clinical guideline CG113. Londres: NICE; 2011 (última verificação 2020) · https://www.nice.org.uk/guidance/cg113 | [3] NICE. Social anxiety disorder: recognition, assessment and treatment. Clinical guideline CG159. Londres: NICE; 2013 · https://www.nice.org.uk/guidance/cg159 | [4] Craske MG, Stein MB. Anxiety. Lancet. 2016;388(10063):3048-3059 · DOI 10.1016/S0140-6736(16)30381-6 | [5] Spitzer RL, Kroenke K, Williams JBW, Löwe B. A brief measure for assessing generalized anxiety disorder: the GAD-7. Arch Intern Med. 2006;166(10):1092-1097 · DOI 10.1001/archinte.166.10.1092 | [6] Katzman MA, Bleau P, Blier P, et al. Canadian clinical practice guidelines for the management of anxiety, posttraumatic stress and obsessive-compulsive disorders. BMC Psychiatry. 2014;14(Suppl 1):S1 · DOI 10.1186/1471-244X-14-S1-S1 | [7] Baldaçara L, Bernik MA, Almeida TM, et al. Brazilian Psychiatric Association treatment guidelines for generalized anxiety disorder. Braz J Psychiatry. 2024;46:e20233235 · DOI 10.47626/1516-4446-2023-3235 · DOI 10.47626/1516-4446-2023-3235
Os transtornos de ansiedade são o grupo mais prevalente de transtornos mentais: estimativas globais apontam cerca de 300 milhões de pessoas afetadas (aproximadamente 4% da população mundial), com início frequentemente na infância e adolescência e forte predomínio feminino de cerca de 2:1. Inquéritos da OMS em países de renda média e alta mostram prevalência de 12 meses entre 5 e 9%, e o Brasil figura entre os países com maiores taxas. O custo vem do absenteísmo, do uso excessivo de serviços de urgência e da comorbidade com depressão, que multiplica o risco de suicídio. Para a prova, três entidades concentram as questões: transtorno de ansiedade generalizada (TAG), transtorno do pânico (TP) e transtorno de ansiedade social (TAS). O aluno deve sair desta revisão sabendo diferenciá-los pelos critérios numéricos do DSM-5, rastrear com GAD-7 e tratar em degraus, com ISRS como primeira linha e benzodiazepínico apenas como ponte de curto prazo.
O DSM-5 agrupa como transtornos de ansiedade a ansiedade de separação, o mutismo seletivo, a fobia específica, a ansiedade social, o pânico, a agorafobia e a ansiedade generalizada; a agorafobia e o pânico deixaram de ser ligados hierarquicamente como no DSM-IV, e o ataque de pânico virou especificador que pode ser anotado em qualquer transtorno. O TAG exige ansiedade e preocupação excessivas, ocorrendo mais dias do que não por pelo menos 6 meses, sobre vários eventos ou atividades, difíceis de controlar, acompanhadas de pelo menos 3 de 6 sintomas: inquietação, fatigabilidade, dificuldade de concentração, irritabilidade, tensão muscular e perturbação do sono. O transtorno do pânico exige ataques de pânico recorrentes e inesperados seguidos de pelo menos 1 mês de preocupação persistente com novos ataques ou de mudança desadaptativa de comportamento; o ataque de pânico em si é surto de medo intenso com pico em minutos e pelo menos 4 de 13 sintomas somáticos e cognitivos. O TAS exige medo intenso de situações sociais de escrutínio e avaliação negativa, com evitação ou ansiedade intensa, por pelo menos 6 meses, e tem o especificador restrito ao desempenho (performance), típico de falar ou apresentar-se em público.
| Característica | TAG | Transtorno do pânico | Ansiedade social |
|---|---|---|---|
| Núcleo clínico | Preocupação excessiva e difusa, difícil de controlar | Ataques inesperados de medo intenso com pico em minutos | Medo de escrutínio e julgamento negativo em situações sociais |
| Critério de tempo | Mais dias do que não por 6 meses | 1 mês de preocupação ou mudança de comportamento após os ataques | 6 meses de medo ou evitação |
| Sintomas-chave | 3 de 6: inquietação, fatigabilidade, desatenção, irritabilidade, tensão muscular, insônia | 4 de 13: palpitações, sudorese, tremor, dispneia, asfixia, dor torácica, náusea, tontura, calafrios ou ondas de calor, parestesias, desrealização, medo de perder o controle, medo de morrer | Rubor, tremor, sudorese, medo de falar, comer ou ser observado em público |
| Início típico | Mediana ao redor dos 30 anos, estendendo-se por toda a vida | Pico entre 20 e 24 anos | Mediana aos 13 anos, raramente inicia após os 25 |
| Curso característico | Crônico e flutuante | Episódico, com agorafobia em uma fração substancial | Persistente, com atraso de tratamento de mais de uma década |
| Rastreio | GAD-7 e GAD-2 | PDSS e minicontagem de ataques | Mini-SPIN e LSAS |
O TAG tem prevalência de 12 meses em torno de 2 a 3% dos adultos (mais frequente na atenção primária), predomínio feminino de 2:1 e curso crônico flutuante, com remissão completa em menos da metade dos casos em seguimento longo. O transtorno do pânico acomete 2 a 3% da população em 12 meses; ataques de pânico isolados, sem critério para o transtorno, já ocorreram em até um quarto das pessoas em algum momento da vida, o que reforça que o diagnóstico depende da recorrência mais a preocupação persistente, e não do ataque isolado. O TAS tem prevalência de 12 meses próxima de 7% em inquéritos norte-americanos, é o transtorno de início mais precoce (mediana de 13 anos) e o de maior atraso entre início e busca de tratamento, frequentemente mais de 10 anos, já que rubor e timidez são normalizados. Entre um terço e metade dos pacientes com transtorno do pânico desenvolve agorafobia ao longo da vida. Todos os três predispõem a depressão: no TAG, até 60% dos pacientes terão um episódio depressivo maior ao longo da vida.
O modelo neurobiológico atual distingue duas redes: a resposta de medo agudo, centrada na amígdala basolateral e central, e o estado sustentado de ansiedade antecipatória, dependente do núcleo do leito da estria terminal (BNST), o que explica por que o pânico é um fenômeno amigdalar paroxístico e o TAG é um estado de alerta contínuo. A hiperatividade amigdalar com falha de regulação pelo córtex pré-frontal ventromedial é achado consistente nos três transtornos, e a ínsula anterior, processando sinais interoceptivos, é central na leitura catastrófica de sintomas corporais no pânico. No transtorno do pânico, os panicógenos (lactato, dióxido de carbono a 35%, cafeína, ioimbina, CCK-4) desencadeiam ataques na maioria dos pacientes e raramente em controles, sugerindo hipersensibilidade dos sistemas de alarme sufocante e adrenérgico: locus coeruleus e noradrenalina no alerta, serotonina (núcleos da rafe) modulando tanto a evitação quanto a catastrofização, e GABA-A como porta de entrada rápida dos benzodiazepínicos. A herdabilidade estimada por estudos de gêmeos fica em torno de 30 a 40%, e o temperamento de inibição comportamental na infância é o precursor melhor documentado, sobretudo para o TAS, que também se associa a histórico de bullying e pais superprotetores ou críticos.
No TAG, o paciente chega ao consultório ou à emergência queixando-se de insônia, dor muscular, cansaço e sintomas gastrointestinais, e a preocupação excessiva só aparece quando o médico pergunta diretamente: a dor de cabeça é a ponta, a preocupação é o iceberg. No transtorno do pânico, o quadro clássico é o atendimento de urgência com dor precordial, dispneia, formigamentos, sensação de morte iminente e exames cardiológicos repetidamente normais; palpitações e taquicardia, sudorese, tremores e dispneia estão presentes na maioria dos ataques, e o paciente passa a evitar exercício, cafés, cinemas e filas, configurando agorafobia. No TAS, o rubor facial, o tremor das mãos ao escrever ou beber em público e o medo de falar são as portas de entrada; a forma restrita ao desempenho acomete profissionais que só sofrem ao apresentar-se. Apresentações atípicas em homens frequentemente se traduzem em irritabilidade, consumo de álcool e queixas físicas, mascarando o diagnóstico, e em idosos a preocupação do TAG concentra-se em saúde e memória, levando a investigações repetidas.
O diagnóstico dos três transtornos é clínico, pelos critérios do DSM-5, e não existe exame que o confirme; os exames servem para excluir mimetizadores na primeira apresentação ou quando o quadro muda. A investigação mínima sensata inclui TSH (hipertireoidismo é o grande mimetizador do TAG e do pânico), hemograma, glicemia, ECG (arritmias e isquemia), e histórico de cafeína, estimulantes, corticoides, salbutamol, tiazídicos, de abstinência de álcool ou benzodiazepínico e de antecedentes familiares. A feocromocitoma deve ser lembrada quando os episódios vêm com hipertensão paroxística e cefaleia intensa (dosar metanefrinas), e a epilepsia partial em ataques com automatismos e déficit pós-ictal. O rastreio estruturado usa o GAD-7 (7 itens, pontuação 0 a 21; corte de 10 pontos com sensibilidade de 89% e especificidade de 82% para TAG; 5, 10 e 15 marcam graus leve, moderado e grave), a versão ultra curta GAD-2 (corte de 3 pontos), o Mini-SPIN para ansiedade social (corte de 6 pontos) e a escala de gravidade do pânico PDSS; a LSAS (Liebowitz) quantifica agravamento e resposta no TAS em pesquisa e ambulatórios especializados.
| Diagnóstico diferencial | Pistas clínicas | Exame decisivo |
|---|---|---|
| Hipertireoidismo | Perda de peso, intolerância ao calor, tremor fino, taquicardia sustentada, exoftalmia | TSH suprimido e T4 livre elevada |
| Arritmia e doença coronariana | Dor precordial esforço-dependente, síncope, alterações ao ECG | ECG, Holter, teste ergométrico |
| Feocromocitoma | Crises com hipertensão paroxística, cefaleia pulsátil e sudorese profusa | Metanefrinas fracionadas plasmáticas ou urinárias |
| Hipoglicemia | Episódios em jejum com sudorese, tremor e alívio com ingestão | Glicemia capilar durante o sintoma |
| Intoxicação por estimulantes | Uso de cafeína em excesso, anorexígenos, cocaína ou antidepressivos em início | Anamnese direcionada, afastar a substância |
| Abstinência de álcool ou sedativo | Tremor, diaforese, agitação em 6 a 72 h após redução | Anamnese e escala de abstinência |
| Asma e DPOC | Sibilo, toc, histórico respiratório, pico de fluxo variável | Espirometria com prova broncodilatadora |
| Epilepsia parcial | Episódios estereotipados com automatismo e confusão pós-ictal | EEG e videoencefalografia |
O manejo segue o modelo de cuidado escalonado do NICE: identificar, psicoeducar e orientar redução de cafeína, álcool e nicotina; intervenções de baixa intensidade (autoguiadas baseadas em TCC, grupos psicoeducativos, biblioterapia) para casos leves de TAG; e TCC de alta intensidade (12 a 15 sessões semanais de uma hora), relaxamento aplicado ou farmacoterapia para casos moderados a graves. A TCC do pânico combina psicoeducação sobre o ciclo de catastrofização, reestruturação cognitiva e exposição interoceptiva (hiperventilação voluntária, respiração por canudo, girar na cadeira, escada elevada) que demonstra ao paciente que as sensações não matam; a TCC do TAS adiciona treinamento social e exposição gradual hierarquizada a situações temidas; no TAG, o tempo dedicado à preocupação e a exposição a imagens temidas substituem a evitação. A farmacoterapia de primeira linha em todos os três transtornos é ISRS ou IRSN, começando baixo e subindo devagar: no pânico, a dose inicial reduz a ativação paradoxal das primeiras semanas (por exemplo, sertralina 25 mg/dia por uma semana antes de 50 mg). A resposta aparece em 4 a 6 semanas e o tratamento deve se manter por 6 a 12 meses após a resposta para prevenir recaída, com desmame lento. Benzodiazepínicos têm lugar apenas como ponte de 2 a 4 semanas cobrindo o início do antidepressivo ou em crises: prescritos na menor dose e pelo menor tempo, pois causam tolerância, dependência, prejuízo cognitivo e quedas em idosos.
| Fármaco | Dose inicial e faixa usual | Indicações | Observações |
|---|---|---|---|
| Sertralina | 25-50 mg/dia; 50-200 mg/dia | TAG, TP e TAS | Primeira linha; início baixo no pânico; interações leves |
| Escitalopram | 5-10 mg/dia; 10-20 mg/dia | TAG, TP e TAS | Boa tolerabilidade; dose máxima maior no TAS (20 mg) |
| Paroxetina | 10 mg/dia; 20-60 mg/dia | TP, TAG e TAS | Anticolinérgica e ganho de peso; síndrome de descontinuação |
| Venlafaxina XR | 37,5-75 mg/dia; 75-225 mg/dia | TAG, TP e TAS | Pressão arterial deve ser monitorada em doses altas |
| Duloxetina | 30 mg/dia; 60-120 mg/dia | TAG | Alternativa de primeira linha; náusea comum no início |
| Pregabalina | 75-150 mg/dia; 150-600 mg/dia em 2 tomadas | TAG | Início rápido e sem interações pelo citocromo P450; sedação e risco de uso indevido |
| Buspirona | 7,5 mg 2x/dia; 15-60 mg/dia | Somente TAG | Efeito em 2 a 4 semanas; sem dependência; ineficaz no pânico e no TAS |
| Clonazepam | 0,25-0,5 mg/dia; 0,5-2 mg/dia | Ponte de 2 a 4 semanas ou crise | Nunca como monoterapia de manutenção; desmame lento |
| Propranolol | 10-40 mg, 1 hora antes do evento | TAS restrito ao desempenho | Não trata ansiedade social interacional |
| Fenelzina (IMAO) | 15 mg/dia; 45-90 mg/dia | TAS e TP refratários | Dieta hipotiramina e risco de crise hipertensiva |
A complicação mais grave é a comorbidade depressiva: até 60% dos pacientes com TAG desenvolvem depressão maior ao longo da vida, e a presença de ansiedade eleva o risco de suicídio mesmo na ausência de humor deprimido, o que exige perguntar sobre ideação em toda avaliação. O álcool e as próprias benzodiazepínicos são usados como automedicação, criando dependência que independe do transtorno primário. O transtorno do pânico não tratado evolui para agorafobia em um terço a metade dos pacientes e para desemprego em parcela significativa; o TAS crônico reduz escolaridade, carreira e renda e associa-se a depressão e abuso de álcool. O prognóstico com tratamento é bom: taxas de resposta a ISRS ou TCC ficam entre 50 e 60%, a TCC tem efeito mais duradouro após a suspensão, e a combinação de TCC com farmacoterapia é útil nos casos graves ou com recaídas. Seguimento recomendado: reavaliação em 4 a 6 semanas após iniciar tratamento, monitorização de escala (GAD-7, PDSS) para documentar resposta e revisão da necessidade de manter fármaco a cada 6 meses.
1.Segundo o DSM-5, por quanto tempo a preocupação excessiva e difícil de controlar deve persistir para o diagnóstico de transtorno de ansiedade generalizada?
2.Além dos ataques de pânico recorrentes e inesperados, o que o DSM-5 exige para diagnosticar transtorno do pânico?
3.Sobre o ataque de pânico, qual afirmativa é correta?
4.Executivo tem medo intenso apenas de apresentações e palestras, sem evitar outras interações sociais. Qual o diagnóstico e a intervenção mais adequada?
5.Qual o corte e o desempenho do GAD-7 para rastrear transtorno de ansiedade generalizada?
6.Qual a primeira linha farmacológica para tratamento de manutenção do transtorno do pânico?
7.A hipersensibilidade a lactato, dióxido de carbono a 35% e CCK-4, com ataques desencadeados na maioria dos pacientes e raramente em controles, é característica de qual mecanismo?
8.O que caracteriza a exposição interoceptiva usada na TCC do transtorno do pânico?
9.Sobre a pregabalina no tratamento do TAG, qual afirmativa correta?
10.Paciente com TAG em remissão pergunta por quanto tempo deve manter o antidepressivo. Qual a resposta baseada em diretrizes?
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