carregando…
carregando…
Revisão completa de psicofarmacologia para provas: mecanismos, doses, níveis séricos e monitoramento de antidepressivos, antipsicóticos, estabilizadores do humor e ansiolíticos, incluindo depressão resistente, esquizofrenia refratária, síndrome serotoninérgica e neuroléptica maligna.
[1] Kennedy SH et al. CANMAT 2016 Clinical Guidelines for the Management of Adults with Major Depressive Disorder: Section 3. Pharmacological Treatments. Can J Psychiatry. 2016;61(9):540-560 · DOI 10.1177/0706743716642532 | [2] Cipriani A et al. Comparative efficacy and acceptability of 21 antidepressant drugs for the acute treatment of adults with major depressive disorder: network meta-analysis. Lancet. 2018;391(10128):1357-1366 · DOI 10.1016/S0140-6736(17)32802-7 | [3] Leucht S et al. Comparative efficacy and tolerability of 15 antipsychotic drugs in schizophrenia: multiple-treatments meta-analysis. Lancet. 2013;382(9896):951-962 · DOI 10.1016/S0140-6736(13)60733-3 | [4] Gardner DM et al. International Consensus Study of Antipsychotic Dosing. Am J Psychiatry. 2010;167(6):686-693 · DOI 10.1176/appi.ajp.2009.09060802 | [5] Taylor DM, Barnes TRE, Young AH. The Maudsley Prescribing Guidelines in Psychiatry. 14a ed. Wiley-Blackwell. 2021 · DOI 10.1177/0706743716642532
Os psicofármacos estão entre os medicamentos mais prescritos do mundo e do Brasil: o inquérito nacional de saúde mais recente estimou prevalência de depressão em torno de 10% nos adultos brasileiros, a esquizofrenia acomete cerca de 1% da população ao longo da vida e o transtorno bipolar 1 a 2%. A maior parte dessa prescrição acontece fora do consultório do psiquiatra, na atenção primária e nas enfermarias gerais, onde o aluno precisa escolher droga, dose e monitoramento com segurança. Provas de psicofarmacologia cobram exatamente isso: mecanismo, dose terapêutica, efeito adverso característico de cada fármaco e conduta diante de interações e urgências, como síndrome serotoninérgica, intoxicação por lítio e neuroléptica maligna. Este artigo organiza a matéria em blocos de decisão clínica: antidepressivos, antipsicóticos, estabilizadores do humor e ansiolíticos, sempre com números.
Três conceitos farmacocinéticos explicam a maioria das pegadinhas. Primeiro, a latência de 2 a 4 semanas dos antidepressivos: aumentar dose ou trocar droga antes disso é erro clássico, e a dose plena deve ser mantida por 4 a 6 semanas antes de declarar falha terapêutica. Segundo, a meia-vida determina a síndrome de descontinuação: fármacos de meia-vida curta (paroxetina, venlafaxina) causam sintomas de retirada intensos em 1 a 3 dias, enquanto a fluoxetina raramente causa, pois sua meia-vida é de 4 a 6 dias, com metabólito ativo de 7 a 15 dias. Terceiro, o metabolismo pelo citocromo P450: fluoxetina e paroxetina são inibidores potentes da CYP2D6 (elevam tricíclicos, antipsicóticos e flecainida), a fluvoxamina inibe a CYP1A2 (eleva clozapina e teofilina), e carbamazepina e tabagismo são indutores enzimáticos importantes.
| Fármaco | Meia-vida aproximada | Implicação clínica |
|---|---|---|
| Fluoxetina | 4-6 dias (norfluoxetina 7-15 dias) | Quase não causa síndrome de descontinuação; washout de 5 semanas antes de IMAO |
| Paroxetina | ~21 horas | Pior síndrome de descontinuação entre os ISRS; inibidor potente da CYP2D6 |
| Venlafaxina | ~5 h (liberação prolongada ~11 h) | Descontinuação intensa; hipertensão arterial dose-dependente acima de 150 mg/dia |
| Quetiapina | 6-7 horas | Exige duas a três tomadas ou formulação de liberação prolongada |
| Clozapina | ~12 horas | Níveis séricos úteis; sedação e sialorreia marcantes |
Todos os antidepressivos comercializados compartilham eficácia semelhante no agregado, mas diferem em mecanismo, perfil de efeitos adversos e interações, e é isso que orienta a escolha individual. A metanálise em rede de Cipriani e colaboradores (Lancet 2018), com 522 ensaios e mais de 116 mil pacientes, confirmou que todos os 21 antidepressivos são superiores ao placebo, com melhor equilíbrio eficácia-aceitação para escitalopram e sertralina. O mecanismo comum é o aumento da neurotransmissão monoaminérgica: serotonina (ISRS, IRSN, clomipramina, IMAO), noradrenalina (IRSN, maprotilina, ATC) e dopamina (bupropiona), com regulação adaptativa de receptores que explica a latência terapêutica.
| Classe | Exemplos | Dose usual (mg/dia) | Particularidades que caem em prova |
|---|---|---|---|
| ISRS | Sertralina 50-200; escitalopram 10-20; fluoxetina 20-80; paroxetina 20-50; citalopram 20-40 | Ver coluna anterior | Primeira linha na maioria dos quadros; citalopram limitado a 20 mg acima de 60 anos por prolongar QT |
| IRSN | Venlafaxina 75-225; duloxetina 60-120 | Ver coluna anterior | Duloxetina útil em dor neuropática e fibromialgia; venlafaxina pode elevar pressão arterial |
| NDRI | Bupropiona 150-450 | Ver coluna anterior | Sem disfunção sexual; contraindicada em convulsão, bulimia e abstinência alcoólica |
| NaSSA | Mirtazapina 15-45 | Ver coluna anterior | Sedação e ganho de peso; excelente em depressão com insônia e anorexia |
| Tricíclicos | Amitriptilina 75-300; nortriptilina 75-150 | Ver coluna anterior | Letáis em superdose (cardiotoxicidade); amitriptilina também usada em dor crônica |
| SARI | Trazodona 25-100 (hipnótica) até 300 | Ver coluna anterior | Dose baixa para insônia; risco de priapismo |
| Tetracíclicos | Mianserina 30-90 | Ver coluna anterior | Sedativo; risco de discrasias em idosos |
| IRMA | Clomipramina 25-250 | Ver coluna anterior | Padrão-ouro histórico do TOC |
A escolha dentro da classe é sintomática e farmacocinética. Insônia e ansiedade marcantes: sertralina ou escitalopram em vez de fluoxetina (ativadora). Depressão com anedonia, fadiga e tabagismo associado: bupropiona. Depressão com dor neuropática: duloxetina. Depressão com insônia e perda de peso: mirtazapina. Paciente com disfunção sexual por ISRS: trocar para bupropiona antes de acrescentar outra intervenção. Na troca entre antidepressivos, respeitar washout de cerca de 2 semanas para a maioria e de 5 semanas da fluoxetina para qualquer inibidor da monoaminoxidase, além de 2 semanas de washout do próprio IMAO.
Depressão resistente define-se pela falha de pelo menos dois ensaios terapêuticos adequados, isto é, com dose plena e duração suficiente (6 a 8 semanas na dose-alvo). A partir desse ponto, as diretrizes CANMAT organizam as estratégias em otimização, troca, potencialização, combinação e terapias biológicas. O erro clássico é declarar resistência sem checar adesão, diagnóstico (bipolaridade mascarada, hipotireoidismo, anemia, uso de corticoide ou álcool) e dose realmente tomada.
Todos os antipsicóticos bloqueiam receptores D2 de dopamina; os de segunda geração (atípicos) adicionam antagonismo 5-HT2A ou propriedades parciais agonistas, o que reduz sintomas extrapiramidais ao custo de mais efeitos metabólicos. A metanálise de Leucht (Lancet 2013) comparou 15 antipsicóticos em 212 ensaios: todos foram superiores ao placebo, com clozapina e amisulprida entre os mais eficazes e perfil de tolerabilidade claramente distinto entre moléculas. Para converter potências em provas e prescrição, o consenso internacional de Gardner fixa que clorpromazina 100 mg equivale a haloperidol 2 mg, risperidona 2 mg, olanzapina 5 mg, quetiapina 75 mg, aripiprazol 10 mg e ziprasidona 60 mg.
| Fármaco | Dose usual (mg/dia) | Destaques de eficácia e tolerabilidade |
|---|---|---|
| Haloperidol (típico de alta potência) | 2-20; via IM 2-5 mg repetível | Potente antiagitação; alto risco de sintomas extrapiramidais e de QTc pela via IV |
| Clorpromazina (típico de baixa potência) | 25-1000 | Sedação e hipotensão marcantes; padrão histórico de equivalência |
| Risperidona | 2-8 | Extrapolando 6 mg/dia, risco extrapiramidal se aproxima do haloperidol; maior hiperprolactinemia |
| Olanzapina | 5-20 | Eficaz para sintomas negativos e agitação; pior perfil metabólico com quetiapina e clozapina |
| Quetiapina | 300-800 | Mínimo risco extrapiramidal; sedação, hipotensão ortostática; usada como adjuvante no bipolar |
| Aripiprazol | 10-30 | Agonista parcial D2; perfil metabólico mais neutro; pode causar acatisia e inquietação |
| Ziprasidona | 80-160; IM 10-20 | Metabolicamente neutra, mas prolonga QTc; exigir alimentação junto ao comprimido |
| Amisulprida | 400-1200 | Alta prolactina; eficaz em sintomas negativos em doses baixas |
| Clozapina | 300-600 | Padrão-ouro da esquizofrenia refratária; efeitos raros e graves próprios |
Formulações de depósito (decanoato de haloperidol 50 a 200 mg IM a cada 4 semanas, decanoato de flufenazina 12,5 a 100 mg, palmitato de paliperidona mensal ou trimestral, risperidona microesferas) estão indicadas em não adesão documentada e reduzem reinternização em cerca de 20 a 25% nessa situação.
A esquizofrenia refratária define-se pela persistência de sintomas produtivos após dois ensaios adequados (dose e duração) de antipsicóticos diferentes. Nesse cenário, a clozapina é a única droga com superioridade consistente, com resposta em 40 a 60% dos casos refratários. Inicia-se com 12,5 a 25 mg à noite e titula-se até 300 a 600 mg/dia, guiada por níveis séricos (janela terapêutica 350 a 600 ng/mL).
| Efeito adverso | Maior risco | Manejo objetivo |
|---|---|---|
| Síndrome metabólica | Clozapina e olanzapina, seguidas de quetiapina | Peso, glicemia e lipídeos na base, 12 semanas e depois semestralmente; metformina 500 a 2000 mg/dia; trocar para aripiprazol ou ziprasidona |
| Sintomas extrapiramidais | Haloperidol e risperidona em dose alta | Reduzir dose; benztropina 2 a 6 mg/dia ou biperideno 2 a 6 mg/dia |
| Acatisia | Aripiprazol e antipsicóticos de alta potência | Propranolol 30 a 90 mg/dia; reduzir dose; não confundir com piora psicótica |
| Discinesia tardia | Exposição cumulativa, maior com típicos | Valbenazina 40 a 80 mg/dia ou deutetrabenazina 12 a 48 mg/dia; trocar para clozapina |
| Hiperprolactinemia | Risperidona, paliperidona, amisulprida | Trocar para aripiprazol; avaliar galactorreia, amenorreia e osteoporose |
| Prolongamento do QTc | Ziprasidona, haloperidol IV, altas doses | ECG de base em pacientes com risco; corrigir potássio e magnésio |
| Fármaco | Dose e nível alvo | Melhor indicação | Monitoramento e teratogenicidade |
|---|---|---|---|
| Lítio | 600-1200 mg/dia; 0,8-1,2 mEq/L na mania aguda e 0,6-0,8 na manutenção | Mania, manutenção do bipolar I e efeito antissuicida | TSH, creatinina, cálcio, β-hCG e peso semestralmente; risco cardíaco fetal (anomalia de Ebstein) estimado em 0,1 a 0,5% |
| Valproato | 20-30 mg/kg/dia na mania; nível 50-125 mcg/mL | Mania aguda e epilepsias generalizadas | Hemograma, transaminases e amônia; teratogenicidade de cerca de 10%, contraindicado em mulheres com potencial gestacional |
| Carbamazepina | 400-1600 mg/dia; nível 4-12 mcg/mL | Mania e profilaxia em não respondedores | Hemograma, transaminases, sódio; síndrome de Stevens-Johnson associada a HLA-B1502 em asiáticos; indutor enzimático potente |
| Lamotrigina | 25 mg/dia por 2 semanas, 50 mg por 2 semanas, até 200 mg/dia | Profilaxia do polo depressivo do bipolar | Rash em 8 a 10% e síndrome de Stevens-Johnson em cerca de 0,1%; titular lentamente e dobrar o intervalo de titulação se usar com valproato |
O lítio é o único estabilizador com evidência robusta de redução de suicídio em transtorno bipolar e permanece primeira linha na manutenção. Sua toxicidade é dose-dependente e facilitada por desidratação, dietas hipossódicas, anti-inflamatórios não esteroidais, tiazídicos, inibidores da enzima conversora e espironolactona, que reduzem a depuração. Intoxicação leve (1,5 a 2,0 mEq/L): tremor grosseiro, náuseas, diarreia e confusão; grave (acima de 2,5 mEq/L): convulsões, arritmias e coma, com indicação de hemodiálise. Em uso crônico, 10 a 20% desenvolvem hipotireoidismo e uma minoria, diabetes insipidus nefrogênico e redução da taxa de filtração glomerular.
Benzodiazepínicos potencializam o receptor GABA-A e são excelentes ansiolíticos, hipnóticos, miorrelaxantes e anticonvulsivantes, mas causam tolerância, dependência, prejuízo cognitivo e quedas. Por isso, o uso deve ser limitado a 2 a 4 semanas na ansiedade generalizada, com retirada gradual de 10 a 25% da dose a cada 1 a 2 semanas. As equivalências de dose precisam ser dominadas: diazepam 10 mg equivale a clonazepam 0,5 mg, alprazolam 0,5 mg, lorazepam 1 mg, oxazepam 30 mg e clordiazepóxido 25 mg. No paciente com hepatopatia grave, prefira lorazepam ou oxazepam, que sofrem apenas glucuronidação, sem fase oxidativa.
A síndrome serotoninérgica resulta do excesso de serotonina, quase sempre por combinações: ISRS mais IMAO, ISRS mais tramadol ou triptanos, ISRS mais linezolida, ou superdosagens de ISRS. Os critérios de Hunter exigem exposição a fármaco serotoninérgico mais pelo menos um de: clônus induzível, clônus espontâneo, midríase com taquicardia, hipertermia com hipertonia, ou clonus ocular. Difere da síndrome neuroléptica maligna pelo início agudo em horas, clônus e hiperreflexia (contra rigidez em tubo de chumbo e bradirreflexia da SNM). Tratamento: suspender os serotoninérgicos, sedação com benzodiazepínico, resfriamento e ciproheptadina 12 mg via oral seguida de 2 mg por hora até 32 mg/dia. Inibidores da monoaminoxidase ainda exigem dieta pobre em tiramina para evitar crise hipertensiva.
1.Um aluno precisa iniciar antidepressivo para um adulto de 45 anos com primeiro episódio de depressão moderada, sem comorbidades. Segundo a metanálise de Cipriani e as diretrizes CANMAT, qual a melhor escolha inicial?
2.Paciente com depressão major em uso de paroxetina 20 mg/dia há 8 semanas refere anorgasmia importante e pede alternativa. Qual troca preserva a eficácia e resolve o sintoma com mais probabilidade?
3.Homem de 28 anos com esquizofrenia persistiu com sintomas psicóticos após 8 semanas de risperidona 6 mg/dia e 8 semanas de olanzapina 20 mg/dia em adesão documentada. Qual o próximo passo?
4.Qual esquema de monitoramento hematológico é correto ao iniciar clozapina?
5.Mulher de 34 anos com transtorno bipolar I em manutenção com lítio 900 mg/dia apresenta tremor grosseiro, náuseas, diarreia e confusão. Qual nível sérico esperado e qual a principal causa a investigar?
6.Qual estabilizador do humor é a melhor escolha para profilaxia do polo depressivo do transtorno bipolar em uma mulher de 26 anos que planeja engravidar?
7.Antes de prescrever carbamazepina para um paciente de ascendência asiática, qual exame é recomendado?
8.Paciente em uso de sertralina e tramadol chega com clônus induzível, midríase, taquicardia e agitação iniciadas há 6 horas. Além de suspender os fármacos, qual o antídoto de escolha?
9.Qual par diferencia corretamente síndrome neuroléptica maligna de síndrome serotoninérgica?
10.Segundo o consenso internacional de Gardner, haloperidol 2 mg equivale a qual dose de olanzapina e de quetiapina, respectivamente?
acesso de membros
Matérias, materiais na íntegra, resumos, quiz e revisões ficam liberados na sua conta — a prévia desfocada é só um gostinho.
Entrar e continuar