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Revisão completa de esquizofrenia e transtornos psicóticos: critérios do DSM-5-TR com limiares de tempo, epidemiologia, hipótese dopaminérgica, escolha do antipsicótico com doses, clozapina e refratariedade, duração da manutenção e manejo da agitação. Inclui tabelas comparativas, PICO de meta-análise seminal, 10 questões e flashcards para fixar o que mais cai em prova.
[1] Owen MJ, Sawa A, Mortensen PB. Schizophrenia. Lancet. 2016;388(10039):86-97 · DOI 10.1016/S0140-6736(15)01121-6 | [2] Kahn RS, Sommer IE, Murray RM, et al. Schizophrenia. Nat Rev Dis Primers. 2015;1:15067 · DOI 10.1038/nrdp.2015.67 | [3] Leucht S, Tardy M, Komossa K, et al. Antipsychotic drugs versus placebo for relapse prevention in schizophrenia: a systematic review and meta-analysis. Lancet. 2012;379(9831):2063-2071 · PMID 22560607 | [4] American Psychiatric Association. DSM-5-TR: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 5ª ed. texto revisado. Washington: APA; 2022 | [5] Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Esquizofrenia. Portaria SAS/MS nº 364/2013 · https://www.gov.br/conitec | [6] American Psychiatric Association. Practice Guideline for the Treatment of Patients With Schizophrenia. 3ª ed. Arlington: APA Publishing; 2020 · DOI 10.1016/S0140-6736(15)01121-6
A esquizofrenia é o transtorno psicótico de maior peso em saúde pública: afeta cerca de 0,7% a 1% da população ao longo da vida, manifesta-se tipicamente entre o fim da adolescência e o início da vida adulta e está entre as principais causas de incapacidade em jovens no mundo inteiro. Sem tratamento, evolui em surtos com recaídas, hospitalizações e declínio progressivo do funcionamento social e ocupacional; com tratamento adequado e contínuo, a maioria dos pacientes alcança estabilidade clínica significativa. A expectativa de vida desses pacientes é 10 a 20 anos menor que a da população geral, por causas cardiovasculares, metabólicas e suicídio, o que torna o manejo somático parte integral do cuidado psiquiátrico. Para a prova, o aluno precisa dominar três eixos: os critérios diagnósticos com seus limiares de tempo, a escolha racional do antipsicótico guiada pelo perfil de efeitos adversos e as regras de manutenção e de refratariedade, em especial as indicações e o monitoramento da clozapina.
Psicose é a perda da capacidade de avaliar a realidade, com produção de delírios e/ou alucinações, frequentemente acompanhada de desorganização do discurso e do comportamento. A esquizofrenia é o transtorno psicótico primário definido pela presença de sintomas característicos por pelo menos 6 meses, com declínio funcional, na ausência de causa orgânica ou induzida por substâncias. Clinicamente o quadro se decompõe em dimensões: sintomas positivos (delírios, alucinações), sintomas negativos (alogia, avolição, anedonia, achatamento afetivo, associalidade), desorganização (discurso e comportamento) e sintomas cognitivos (atenção, memória de trabalho e funções executivas). Essa dimensão negativa e cognitiva é a que mais corrói o funcionamento e a que responde pior aos fármacos. Os transtornos psicóticos se diferenciam entre si basicamente pela duração dos sintomas, pela presença de sintomas de humor e pela relação com substâncias.
| Transtorno | Duração dos sintomas | Traço definidor |
|---|---|---|
| Psicose breve | Menos de 1 mês | Início agudo, com frequência após estressor marcante; retorno completo ao funcionamento prévio |
| Transtorno esquizofreniforme | 1 a 6 meses | Mesmos critérios sintomáticos da esquizofrenia, sem completar os 6 meses de doença |
| Esquizofrenia | 6 meses ou mais | Fase ativa de 1 mês ou mais somada a sintomas residuais e declínio funcional |
| Transtorno esquizoafetivo | Variável, crônico | Episódio de humor com psicose concomitante e pelo menos 2 semanas de psicose sem sintomas de humor |
| Transtorno delirante | 1 mês ou mais | Delírio não bizarro encapsulado, sem alucinações proeminentes e com funcionamento global preservado |
| Psicose induzida por substâncias | Durante o uso e até 1 mês após a cessação | Delírios e alucinoses com cocaína, anfetaminas, cannabis, alucinógenos; toxicológico positivo |
A prevalência ao longo da vida fica em torno de 0,7% a 1%, com prevalência de ponto entre 0,3% e 0,7%, e incidência estimada de 10 a 22 casos por 100.000 pessoas-ano. Homens e mulheres são afetados com frequência semelhante, mas a idade de início difere: nos homens o pico ocorre entre 18 e 25 anos, nas mulheres entre 25 e 35 anos, com um segundo pico após os 45 anos, próximo à menopausa. Início mais precoce no homem associa-se a pior prognóstico. Estudos brasileiros acompanham a faixa internacional, e a esquizofrenia figura entre as maiores causas de anos vividos com incapacidade no país. Fatores de risco consolidados incluem carga genética, complicações obstétricas (hipóxia, prematuridade), infecções maternas, morar em grande centro urbano (risco cerca de 2 vezes maior), condição de migrante, trauma na infância e uso de cannabis na adolescência.
O modelo dopaminérgico em sua terceira versão propõe disfunção em duas populações neuronais: hiperatividade dopaminérgica presináptica no estriado, que gera os sintomas positivos por atribuição aberrante de saliência a estímulos irrelevantes, e hipodopaminérgia no córtex pré-frontal, ligada aos sintomas negativos e ao déficit cognitivo. Estudos de imagem com PET (FDOPA) demonstram síntese aumentada de dopamina no estriado de pacientes, e a liberação de dopamina após anfetamina é exagerada nos que respondem aos antipsicóticos, dados que sustentam o efeito antipsicótico do bloqueio D2 nessa via final comum.
O modelo estende-se a outros sistemas. Antagonistas de receptores NMDA como a ketamina e a PCP reproduzem no humano não só sintomas positivos, mas também negativos e cognitivos, o que sugere hipofunção glutamatérgica em interneurônios GABAérgicos corticais como mecanismo a montante da disfunção dopaminérgica. Agonistas serotoninérgicos 5-HT2A (alucinógenos) indicam participação serotonérgica, explorada pelos antipsicóticos de segunda geração. Há ainda evidência de componente do neurodesenvolvimento (perda volumétrica cortical e moderada dilatação ventricular nos exames, alterações de migração neuronal) e de neuroinflamação com ativação microglial. A síntese integradora corrente é de um transtorno do neurodesenvolvimento com interação gene-ambiente, no qual o estresse e as substâncias precipitam a expressão clínica.
A doença costuma se anunciar por um prodrómo de 2 a 5 anos: declínio insidioso do rendimento escolar ou profissional, isolamento social, hipersensibilidade a estímulos, ideias de autorreferência, sintomas negativos leves e vivências atenuadas, como ilusões e percepções anormais passageiras. Segue-se o primeiro episódio psicótico franco, frequentemente desencadeado por estressor, com delírios, alucinações e desorganização, que é o momento de maior risco suicida e de maior sofrimento familiar. A fase ativa exige intervenção imediata, pois cada surto não tratado se associa a pior desfecho subsequente.
O diagnóstico da esquizofrenia é essencialmente clínico, com base no DSM-5-TR, e nenhum exame complementar o confirma. A escala PANSS (30 itens, escore de 30 a 210, subescalas positiva, negativa e psicopatologia geral) serve para mensurar gravidade e resposta ao tratamento, com resposta usualmente definida como redução de pelo menos 20% no escore total, e o CGI para avaliação global. Diante de um primeiro episódio psicótico, contudo, é obrigatório rastrear causas orgânicas e por substâncias antes de fixar o diagnóstico.
Rotina mínima de investigação do primeiro episódio: hemograma, creatinina, eletrólitos, TSH, glicemia, perfil lipídico, transaminases, vitamina B12 e folato, sorologias para HIV e sífilis (VDRL ou FTA-ABS), exame toxicológico de urina, e neuroimagem (ressonância de crânio) especialmente em início tardio (acima de 40 anos), sinais focais, cefaleia ou curso atípico. Síndrome anticorpo antineuronal, sobretudo encefalite anti-NMDA, deve ser suspeitada em início subagudo com crises, movimentos anormais, discinesias orofaciais, catatonia grave ou disautonomia, e exige anticorpos no soro e no líquor além de investigação de teratoma ovariano. O eletrencefalograma está indicado quando houver suspeita de crises epilépticas não convulsivas.
| Causa orgânica ou tóxica | Pistas clínicas | Exame-chave |
|---|---|---|
| Encefalites autoimunes (anti-NMDA e outras) | Início subagudo, jovem, crises epilépticas, discinesias orofaciais, catatonia, disautonomia | Anticorpos anti-NMDA no soro e líquor; RM; investigação de teratoma |
| Psicose por cocaína, anfetaminas ou cannabis | Uso recente, midríase, taquicardia, hipervigilância, alucinoses táteis (formigamento) | Toxicológico de urina |
| Doença de Wilson | Início antes dos 40 anos, tremor, rigidez, cirrose, anéis de Kayser-Fleischer | Ceruloplasmina baixa, cobre urinário de 24 h, RM de crânio |
| Neurosífilis e HIV | Fatores de risco, déficit cognitivo progressivo, alterações pupilares | VDRL e FTA-ABS no líquor; sorologia para HIV |
| Tumor cerebral, malformação vascular, epilepsia do lobo temporal | Início tardio, sinais focais, cefaleia, aura epiléptica, alucinações olfativas | RM de crânio; eletrencefalograma |
| Hipotireoidismo, déficit de B12 e folato | Curso insidioso, anemia, neuropatia, lentificação | TSH, vitamina B12, folato |
Todos os antipsicóticos, típicos e atípicos, têm eficácia semelhante sobre os sintomas positivos, com a exceção da clozapina, superior nos refratários. Por isso a escolha individual se guia pelo perfil de efeitos adversos, pela via de administração, pelas interações e pelas comorbidades do paciente. No primeiro episódio, doses menores bastam (o paciente virgem de tratamento responde com doses da metade ou menos das usadas no doente crônico) e uma tentativa adequada exige 4 a 6 semanas em dose terapêutica com adesão confirmada. Antipsicótico injetável de duração prolongada deve ser oferecido a quem prefere, a quem tem adesão precária e a quem respondeu bem ao oral, com a ressalva de que sua retirada demora meses.
| Fármaco | Dose inicial | Dose alvo por dia | Efeito adverso marcante |
|---|---|---|---|
| Risperidona | 1 a 2 mg VO | 4 a 6 mg (máx 10 mg) | Hiperprolactinemia: galactorreia, amenorreia, disfunção sexual |
| Olanzapina | 5 a 10 mg VO | 10 a 20 mg | Ganho de peso e síndrome metabólica |
| Quetiapina | 25 a 50 mg VO 2x ao dia | 400 a 750 mg | Sedação; perfil metabólico intermediário |
| Aripiprazol | 5 a 10 mg VO | 10 a 30 mg | Acatisia (agonista D2 parcial) |
| Ziprasidona | 20 a 40 mg VO 2x ao dia com alimento | 120 a 160 mg | Prolongamento do QTc |
| Amisulprida | 50 a 100 mg VO | 400 a 800 mg | Hiperprolactinemia |
| Haloperidol | 1 a 2 mg VO ou IM | 2 a 10 mg (máx 20 mg) | Sintomas extrapiramidais e discinesia tardia |
| Clozapina | 12,5 a 25 mg VO | 300 a 600 mg (máx 900 mg) | Agranulocitose (0,8%), miocardite, convulsões |
Formulações de depósito úteis para adesão: risperidona microesferada 25 a 50 mg IM a cada 15 dias, paliperidona 25 a 150 mg IM mensal e decanoato de haloperidol 50 a 200 mg IM mensal, todas após estabilização com o oral correspondente. O monitoramento somático é parte da prescrição: peso e circunferência abdominal, glicemia de jejum e perfil lipídico na linha de base, apos 12 semanas e depois periodicamente ao longo do primeiro ano, com intervenção precoce sobre ganho de peso, dislipidemia e hiperglicemia (troca de fármaco, metformina para o ganho de peso induzido por antipsicótico, encaminhamento a nutricionista e atividade física).
Cerca de 30% dos pacientes não respondem a antipsicóticos comuns e são considerados refratários. A definição operatória exige a falha de duas tentativas adequadas com antipsicóticos diferentes: duração de 4 a 6 semanas em dose terapêutica com adesão comprovada (nível plasmático quando disponível). Para esses pacientes a clozapina é o único fármaco com eficácia consistentemente superior, com resposta clínica relevante em 40% a 70% dos refratários e é também o único antipsicótico que reduz comportamento suicida (ensaio InterSePT) e hospitalizações nesse grupo. A dose clínica habitual é 300 a 600 mg/dia, titulada lentamente a partir de 12,5 a 25 mg. Efeitos adversos: sedação e sialorreia intensa, ganho de peso e síndrome metabólica importantes, constipação grave com risco de íleo e aspiração, taquicardia, hipotensão postural, enurese, convulsão dose-dependente e, nas primeiras 8 semanas, miocardite (suspeitar com febre, taquicardia, mialgia e elevação de troponina), além de raros casos de miocardiopatia.
A recaída é o evento que mais agride o cérebro social do paciente: cada surto reduz a chance de recuperação funcional completa. A meta-análise de Leucht (Lancet, 2012), com 65 ensaios e 6.493 pacientes estabilizados, mostrou que em 1 ano a recaída ocorreu em 27% dos que mantinham antipsicótico contra 64% dos randomizados para placebo, com redução também de hospitalizações (RR em torno de 0,4). Por isso a suspensão precoce é o erro mais grave do manejo. As durações recomendadas variam pelo número de episódios e devem ser discutidas com o paciente e a família desde o início, nunca decididas unilateralmente.
A agitação aguda no contexto psicótico é emergência que exige abordagem graduada, do menos para o mais invasivo, sempre privilegiando a via oral quando possível e monitorando sinais vitais após cada dose parenteral.
A farmacoterapia trata o surto, mas a reabilitação reconstrói a vida. As intervenções com melhor evidência devem ser combinadas ao fármaco desde o primeiro episódio: psicoeducação familiar estruturada, que reduz as recaídas aproximadamente à metade em famílias de alta emoção expressa; terapia cognitivo-comportamental adaptada à psicose, que reduz a intensidade dos sintomas positivos e o distress; tratamento assertivo comunitário para os casos de maior complexidade; reabilitação cognitiva para atenção e funções executivas; emprego apoiado (modelo IPS) para reinserção laboral; treino de habilidades sociais; e manejo de uso nocivo de substâncias integrado à psiquiatria. Cessação do tabagismo e atividade física regular são medidas de impacto direto na mortalidade cardiovascular. A eletroconvulsoterapia tem indicação precisa na catatonia, na psicose refratária mesmo com clozapina e no risco suicidário iminente, em esquemas habituais de 8 a 12 sessões.
A mortalidade é 2 a 3 vezes a esperada, com gap de 10 a 20 anos na expectativa de vida: predominam doenças cardiovasculares e metabólicas (síndrome metabólica pode acometer 30% a 40% dos crônicos), doença pulmonar por tabagismo (prevalência de fumo de 60% a 70%), suicídio consumado por 4% a 10% ao longo da vida, epilepsia, tromboembolismo e infecções. Complicações iatrogênicas exigem vigilância: sintomas extrapiramidais agudos (distonia aguda, bradicinesia e tremor por bloqueio D2 nigroestriatal, acatisia) e discinesia tardia (movimentos orofaciais involuntários coreoatetóticos, risco cumulativo de até 20% a 25% em 5 anos com típicos, tratada com troca para clozapina ou quetiapina e, em alguns países, valbenazina), hiperprolactinemia e síndrome neuroléptica maligna.
1.Homem de 23 anos apresenta há 7 meses delírios persecutórios, alucinações auditivas, discurso desorganizado e achatamento afetivo, com abandono da faculdade e isolamento. Qual o diagnóstico?
2.Qual combinação isolada de sintomas NÃO satisfaz o critério A do DSM-5-TR para esquizofrenia?
3.Paciente no primeiro episódio psicótico, com IMC de 34 kg/m2, diabetes tipo 2 e história familiar de infarto precoce. Qual antipsicótico tem o melhor perfil metabólico para iniciá-lo?
4.A esquizofrenia refratária é definida pela persistência de sintomas após:
5.Sobre o risco de agranulocitose com clozapina, assinale a correta:
6.Homem em uso de risperidona 6 mg/dia para esquizofrenia refere galactorreia bilateral e ginecomastia dolorosa. Qual o mecanismo?
7.Após remissão completa de um primeiro episódio psicótico, por quanto tempo manter o antipsicótico?
8.Na meta-análise de Leucht (Lancet 2012), a recaída em 1 ano entre pacientes estabilizados foi de:
9.Qual dos seguintes é um sintoma de primeira ordem de Schneider?
10.Qual intervenção não farmacológica tem a melhor evidência para reduzir recaídas de esquizofrenia no contexto familiar?
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