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Revisão completa das urgências psiquiátricas: abordagem segura do paciente agitado, estratificação do risco de suicídio, uso e monitorização do lítio, toxicidade litiêmica com indicações de hemodiálise e os diferenciais críticos entre síndrome maligna e síndrome serotoninérgica. Inclui doses de sedação, tabelas comparativas e pontos clássicos de prova.
[1] Wilson MP, Pepper D, Currier GW, Holloman GH, Feifel D. The psychopharmacology of agitation: consensus statement of the American Association for Emergency Psychiatry Project BETA Psychopharmacology Workgroup. West J Emerg Med. 2012;13(1):26-34 · DOI 10.5811/westjem.2011.9.4568 · PMID 22461918 | [2] Yatham LN, Kennedy SH, Parikh SV, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) and International Society for Bipolar Disorders (ISBD) 2018 guidelines for the management of patients with bipolar disorder. Bipolar Disord. 2018;20(2):97-170 · DOI 10.1111/bdi.12609 | [3] McKnight RF, Adida M, Budge K, Stockton S, Goodwin GM, Geddes JR. Lithium toxicity profile: a systematic review and meta-analysis. Lancet. 2012;379(9817):721-8 · DOI 10.1016/S0140-6736(11)61516-X | [4] Baird-Gunning J, Lea-Henry T, Hoegberg LCG, Gosselin S, Hoffman RS. Lithium Poisoning. J Intensive Care Med. 2017;32(4):249-63 · DOI 10.1177/0885066616651582 | [5] Boyer EW, Shannon M. The Serotonin Syndrome. N Engl J Med. 2005;352(11):1112-20 · DOI 10.1056/NEJMcp041867 | [6] Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 3.088, de 23 de dezembro de 2011 — institui a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) · bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2011/prt3088_23_12_2011.html · DOI 10.1016/S0140-6736(11)61516-X
Emergências psiquiátricas estão entre as portas de entrada mais frequentes das urgências no Brasil e concentram três habilidades que as bancas adoram testar: manter a segurança da equipe e do paciente, reconhecer causas orgânicas que se disfarçam de quadro psiquiátrico e dominar a farmacologia de drogas de janela terapêutica estreita, em especial o lítio. O suicídio mata cerca de 12 mil brasileiros por ano (taxa em torno de 6 por 100 mil habitantes segundo o Sistema de Informações sobre Mortalidade), e a maioria das tentativas passa por um serviço de urgência nas semanas anteriores. O erro clássico e letal é rotular como crise psiquiátrica primária o que na verdade é delirium, hipoglicemia, traumatismo craniano, hipóxia, intoxicação ou abstinência alcoólica.
Define-se emergência psiquiátrica como qualquer quadro agudo, de origem psiquiátrica ou com apresentação psiquiátrica, que ameaça a integridade física do próprio paciente ou de terceiros, ou que determina sofrimento intenso e incapacitante, exigindo intervenção imediata. A classificação clinicamente útil separa seis grupos com prioridades terapêuticas distintas: quadros comportamentais (agitação e agressividade), risco de suicídio ou heteroagressão, síndromes tóxico-metabólicas induzidas por psicofármacos (toxicidade do lítio, síndrome serotoninérgica, síndrome maligna), síndromes de abstinência e intoxicação, doenças orgânicas com apresentação psiquiátrica e crises agudas de transtornos primários (mania severa, psicose aguda, catatonia).
| Grupo | Exemplos típicos | Prioridade de conduta |
|---|---|---|
| Comportamental | Agitação psicomotora, agressividade, heteroagressividade | Segurança da cena, desescalada verbal, sedação se necessária |
| Risco de suicídio | Ideação com plano, tentativa em curso, automutilação grave | Estratificação, remoção de meios letais, internação quando indicado |
| Tóxico-metabólico | Toxicidade do lítio, síndrome serotoninérgica, síndrome maligna | Estabilização ABCDE, suspensão do fármaco, depuração quando indicada |
| Abstinência e intoxicação | Delirium tremens, psicose por cocaína ou maconha sintética | Tiamina antes da glicose, benzodiazepínicos, suporte vital |
| Orgânico com máscara psiquiátrica | Delirium, hipoglicemia, TCE, meningoencefalite, hipertireoidismo | Investigar e tratar a causa clínica antes de rotular como psiquiátrico |
| Crise de transtorno primário | Mania severa, psicose aguda, catatonia | Antipsicótico, avaliação de internação e de eletroconvulsoterapia |
O primeiro passo é garantir a segurança: equipe em número suficiente, porta de saída acessível para o profissional, remoção de objetos perigosos do ambiente e distância de aproximadamente dois comprimentos de braço do paciente agitado. O consenso do Project BETA (American Association for Emergency Psychiatry) estabelece que a desescalada verbal é a primeira linha de tratamento: apresentar-se pelo nome, manter tom de voz calmo e respeitoso, escutar sem confrontar, oferecer escolhas (medicação oral antes da injetável, água, local mais silencioso) e negociar objetivos concretos. Medicação e contenção são reservadas para a falha dessas medidas ou para risco iminente.
A escolha do fármaco depende da causa provável, do estado clínico e da via aceita pelo paciente. A associação haloperidol mais prometazina é o esquema melhor estudado em ensaios clínicos brasileiros (estudos TREC) e reduz a distonia aguda induzida pela butirofenona. O lorazepam é preferido quando há suspeita de intoxicação por estimulantes, abstinência alcoólica ou uso concomitante de outros depressores desconhecidos. Em idosos, frágeis ou desidratados, reduza as doses em cerca de 50%.
| Fármaco e via | Dose habitual no adulto | Início aproximado | Cautelas principais |
|---|---|---|---|
| Haloperidol IM associado a prometazina IM | 5 mg + 25 a 50 mg, repetível em 30 a 60 min | 20 a 40 min | Sintomas extrapiramidais; a prometazina reduz distonia aguda; evitar se QTc prolongado, hipocalemia ou hipomagnesemia |
| Droperidol IM | 5 a 10 mg | 10 a 20 min | Prolongamento do QT; evitar em QTc acima de 450 ms |
| Olanzapina IM | 10 mg (5 mg em idosos e desidratados) | 15 a 45 min | Não associar a benzodiazepínico IM na mesma hora (sedação excessiva e hipotensão) |
| Lorazepam IM | 2 mg (1 mg no idoso) | 30 a 60 min | Depressão respiratória; preferido na suspeita de abstinência alcoólica ou intoxicação desconhecida |
| Via oral ou sublingual | Risperidona 1 a 2 mg ou olanzapina 10 mg SL ou lorazepam 1 a 2 mg | 30 a 60 min | Oferecer sempre antes da via injetável quando o paciente aceita |
A tentativa de suicídio prévia é o preditor individual mais forte de morte por suicídio, seguida de planos definidos com meio letal disponível, sintomas psicóticos com comandos alucinatórios, comorbidade com uso de álcool ou substâncias, isolamento social, perdas recentes, dor crônica e doença física debilitante. No Brasil, o perfil de maior letalidade é homem, idade entre 30 e 59 anos, com transtorno depressivo ou por uso de álcool não tratado. A Columbia Suicide Severity Rating Scale (C-SSRS) estrutura a investigação de ideação, intensidade e comportamento, mas nenhum instrumento substitui o julgamento clínico.
O lítio permanece como primeira linha no tratamento do transtorno bipolar, tanto na mania aguda quanto na prevenção de novos episódios, com efeito antissuicidário único entre os estabilizadores. Também é usado como potencializador em depressões unipolares resistentes. A dose habitual de carbonato de lítio é de 600 a 1.800 mg/dia, fracionada em duas a três tomadas ou em apresentação de liberação prolongada única diária, ajustada pela litemia medida 12 horas após a última dose, após 5 a 7 dias de estabilização de cada ajuste. A excreção é exclusivamente renal (100%), com cerca de 80% de reabsorção proximal pelo mesmo transportador do sódio, o que explica todas as interações perigosas.
| Situação clínica | Alvo de litemia (mEq/L) | Comentário |
|---|---|---|
| Mania aguda | 0,8 a 1,2 | Resposta em 1 a 2 semanas; associar antipsicótico se excitação intensa |
| Manutenção do transtorno bipolar | 0,6 a 0,8 | Níveis mais baixos reduzem toxicidade mantendo eficácia |
| Idosos e insuficiência renal | 0,4 a 0,6 | Meia-vida prolongada e maior sensibilidade neurológica |
| Potencialização antidepressiva | 0,5 a 0,8 | Uso em depressão unipolar refratária |
| Toxicidade | Acima de 1,5 | Acima de 2,5 configura toxicidade grave na intoxicação crônica |
Antes de iniciar: creatinina e taxa de filtração glomerular, sódio e potássio, cálcio, TSH e T4 livre, beta-hCG, ECG e peso. Durante o tratamento, repetir litemia, função renal e TSH a cada 3 a 6 meses, ou antes se houver intercorrência. Os efeitos adversos crônicos mais cobrados são hipotireoidismo (o efeito endócrino mais frequente, mais comum em mulheres), diabetes insipidus nefrogênico com poliúria, ganho de peso, tremor fino de repouso, acne e hiperparatireoidismo com hipercalcemia. Interações que elevam a litemia e caem em prova: anti-inflamatórios não esteroidais (reduzem prostaglandinas e fluxo renal), diuréticos tiazídicos (aumentam a reabsorção proximal de sódio e lítio), inibidores da ECA e bloqueadores do receptor de angiotensina, e depleção de volume por vômitos, diarreia ou febre.
A toxicidade pode ser aguda (ingestão maciça única), crônica (acúmulo por queda da função renal, desidratação ou interações) ou mista, a mais frequente na prática. Na intoxicação aguda predominam sintomas gastrointestinais precoces (náusea, vômito, diarreia) seguidos de neurotoxicidade; na crônica o paciente chega diretamente com encefalopatia: tremor grosseiro, disartria, ataxia de tronco, mioclonias, hiperreflexia, convulsões e coma. Sequelas neurológicas irreversíveis podem ocorrer após episódios graves (síndrome SILENT). O lítio não tem antídoto, não é adsorvido pelo carvão ativado e a hemodiálise é o método de depuração mais eficaz, removendo o fármaco do compartimento vascular e corrigindo a redistribuição.
| Característica | Intoxicação aguda | Intoxicação crônica |
|---|---|---|
| Cenário | Ingestão maciça única (tentativa ou erro) | Acúmulo por insuficiência renal, desidratação, AINE, diurético ou IECA |
| Quadro inicial | Náusea, vômito, diarreia | Neurológico: tremor, disartria, ataxia, confusão |
| Evolução | Mioclonias, hiperreflexia, convulsões, coma | Encefalopatia progressiva, risco de sequelas irreversíveis |
| Correlação com a litemia | Razoável | Fraca: nível normal ou limítrofe não exclui toxicidade grave |
| Conduta inicial | Suporte, lavagem gástrica se precoce, hidratação | Suspender o lítio, hidratar com salina, corrigir eletrólitos |
| Depuração | Hemodiálise nos casos graves | Hemodiálise conforme critérios de gravidade e função renal |
Duas síndromes iatrogênicas graves se apresentam como hipertermia, instabilidade autonômica e alteração mental, e a distinção é rotineiramente cobrada. A síndrome maligna dos neurolépticos (SMN) surge em dias (mediana de 4 dias) após exposição a antipsicótico ou retirada de dopaminérgico, com rigidez em tubo de chumbo, bradicinesia, CK frequentemente acima de 1.000 UI/L, leucocitose e hipertermia. A síndrome serotoninérgica começa em menos de 24 horas (frequentemente em menos de 6 horas) após aumento de serotoninérgico ou associação (ISRS com IMAO, linezolida, tramadol, triptanos), e a assinatura clínica é o clônus induzível ou espontâneo, hiperreflexia, tremor, diarreia e midriase. Os critérios de Hunter (clônus mais exposição serotonérgica) têm sensibilidade de aproximadamente 84% e especificidade de 97% para síndrome serotoninérgica.
| Achado | Síndrome maligna (SMN) | Síndrome serotoninérgica |
|---|---|---|
| Gatilho | Antipsicótico ou retirada de dopaminérgico | Excesso serotonérgico ou associação de serotoninérgicos |
| Início | Dias (mediana de 4 dias) | Menos de 24 horas, frequentemente menos de 6 horas |
| Tônus muscular | Rigidez em tubo de chumbo com bradicinesia | Hipertonia discreta com clônus e hiperreflexia (membros inferiores) |
| Exames | CK elevada, leucocitose, mioglobinúria | CK geralmente normal ou pouco elevada |
| Hipertermia | Presente na maioria dos casos | Presente apenas nos casos graves |
| Tratamento específico | Dantrolene 1 a 2,5 mg/kg IV ou bromocriptina 2,5 a 5 mg a cada 6 h | Ciproheptadina 12 mg por sonda, seguida de 2 mg a cada 2 h (máximo 32 mg/dia) mais benzodiazepínico |
O prognóstico da agitação e da crise suicidária melhora dramaticamente com engajamento em tratamento: a alta do serviço de emergência deve ser um evento terapêutico, com consulta agendada em até 7 dias, ligação para o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e plano de crise. Em usuários crônicos de lítio, a meta-análise do Lancet de 2012 confirma que o risco absoluto de insuficiência renal terminal é baixo (inferior a 1% em tratamentos prolongados), mas exige vigilância da função renal. Na gestação, o lítio eleva o risco de anomalia de Ebstein para aproximadamente 0,05 a 0,1%, contra cerca de 0,005% na população geral; a decisão de manter ou suspender é individualizada, nunca unilateral na emergência. Episódios de toxicidade grave têm mortalidade estimada em torno de 10% e risco de sequelas neurológicas permanentes, reforçando que prevenção (educação do paciente, hidratação, cautela com interações) é o melhor tratamento.
1.Homem de 68 anos em uso crônico de lítio para transtorno bipolar apresenta confusão mental progressiva, ataxia, tremor grosseiro e disartria há 3 dias. Iniciou furosemida e ibuprofeno há uma semana por edema de membros inferiores. Litemia de 2,2 mEq/L. Qual o mecanismo principal da toxicidade?
2.Qual cenário constitui indicação formal de hemodiálise na intoxicação por lítio?
3.Paciente chega à emergência extremamente agitado, taquicárdico, hipertenso, com tremores grosseiros, sudorese e história de alcoolismo crônico com última dose há 48 horas. Qual a melhor escolha inicial de sedação IM?
4.Segundo os critérios de Hunter, qual achado é a assinatura diagnóstica da síndrome serotoninérgica na presença de exposição a fármacos serotoninérgicos?
5.Qual é a medida terapêutica específica da síndrome maligna dos neurolépticos além da suspensão do antipsicótico e do resfriamento ativo?
6.Qual a faixa-alvo de litemia no tratamento da mania aguda?
7.Paciente em uso de carbonato de lítio teve a dose aumentada de 900 para 1.500 mg/dia. Quando e como colher a litemia de controle?
8.Gestante em uso de lítio pergunta sobre o risco teratogênico principal. Qual malformação é classicamente associada ao lítio?
9.Segundo o Project BETA (American Association for Emergency Psychiatry), qual é a primeira linha de tratamento do paciente agitado?
10.Qual propriedade do lítio é singular entre os estabilizadores de humor e sustenta seu uso mesmo em pacientes com dificuldade de adesão?
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