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Revisão completa de ventilação mecânica para provas: pressões e volumes, modos ventilatórios, ventilação protetora na SDRA, parâmetros iniciais, monitorização, desmame e complicações, com os números que caem em prova.
[1] Acute Respiratory Distress Syndrome Network. Ventilation with lower tidal volumes as compared with traditional tidal volumes for acute lung injury and ARDS. N Engl J Med. 2000;342(18):1301-1308. DOI 10.1056/NEJM200005043421807 | [2] ARDS Definition Task Force. Acute respiratory distress syndrome: the Berlin definition. JAMA. 2012;307(23):2526-2533. DOI 10.1001/jama.2012.5669 | [3] Barbas CSV, Ísola AM, Farias AMC, et al. Brazilian recommendations of mechanical ventilation 2013. Part I. Rev Bras Ter Intensiva. 2014;26(2):89-121. DOI 10.5935/0103-507X.20140017 | [4] Boles JM, Bion J, Connors A, et al. Weaning from mechanical ventilation. Eur Respir J. 2007;29(5):1033-1056. DOI 10.1183/09031936.00010206 | [5] Amato MBP, Meade MO, Slutsky AS, et al. Driving pressure and survival in the acute respiratory distress syndrome. N Engl J Med. 2015;372(8):747-755. DOI 10.1056/NEJMsa1410639 | [6] Tobin MJ. Principles and Practice of Mechanical Ventilation. 3rd ed. New York: McGraw-Hill; 2013. · DOI 10.1056/NEJM200005043421807
A ventilação mecânica (VM) é a intervenção que define a medicina intensiva: entre 20 e 40% dos pacientes internados em unidades de terapia intensiva necessitam de algum grau de suporte ventilatório em algum momento da internação. Na síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA), a mortalidade hospitalar varia de 27 a 45% conforme a gravidade pela definição de Berlim, e a forma como o pulmão é ventilado muda a sobrevida: o estudo ARDSNet demonstrou que reduzir o volume corrente de 12 para 6 mL/kg do peso previsto diminuiu a mortalidade em 22% (de 39,8% para 31,0%). Para a prova, o estudante precisa dominar quatro eixos: os conceitos de pressões e volumes, os modos ventilatórios e seus gatilhos, a ventilação protetora com seus limiares numéricos e o protocolo de desmame com seus critérios objetivos.
Ventilação mecânica é a substituição parcial ou total do trabalho dos músculos respiratórios por um gradiente de pressão gerado por um ventilador, aplicado por via invasiva (tubo orotraqueal ou cânula de traqueostomia) ou não invasiva (máscara facial ou nasal). A VM não trata a doença de base: é uma ponta terapêutica que sustenta a troca gasosa e economiza trabalho muscular enquanto a causa da insuficiência respiratória é revertida. Seus objetivos são corrigir a hipoxemia refratária, corrigir a acidose respiratória aguda, reduzir o trabalho respiratório (evitando a fadiga muscular), garantir a proteção da via aérea e permitir sedação, analgesia e procedimentos em pacientes críticos.
Toda respiração mecânica tem três fases que caracterizam o modo: o gatilho (trigger), que inicia a inspiração (tempo, pressão ou esforço do paciente); a variável limite (limit), que é controlada durante a inspiração (pressão ou volume/fluxo); e a ciclagem (cycling), que encerra a inspiração (volume entregue, tempo ou fluxo decrescente a uma fração do pico). No modo volume controlado o ventilador entrega um volume fixo e as pressões variam conforme a mecânica pulmonar; no modo pressão controlada a inspiração termina por tempo e o volume varia conforme a complacência. No modo pressão de suporte a ciclagem ocorre por fluxo (quando o fluxo decai a 25% do pico) e é o paciente quem dita frequência e tempo inspiratório.
As pressões são a linguagem da VM e precisam ser interpretadas em conjunto. A pressão de pico de via aérea é medida durante o fluxo inspiratório e reflete a soma do componente resistivo (tubo, secreção, broncoespasmo) com o componente elástico. A pressão de platô é medida com pausa inspiratória de 0,5 a 1 segundo (sem fluxo) e reflete a pressão alveolar, dependendo apenas da complacência do sistema respiratório e do volume entregue. A PEEP é a pressão positiva mantida ao final da expiração, que recruta alvéolos colapsados e evita o fechamento cíclico. A PEEP total é a soma da PEEP externa do ventilador com a PEEP intrínseca (auto-PEEP), gerada por ar aprisionado quando o tempo expiratório é insuficiente.
| Pressão ou parâmetro | O que mede | Alvo habitual em prova |
|---|---|---|
| Pressão de pico | Resistência da via aérea somada à complacência; sobe com broncoespasmo, secreção, tubo fino ou dobrado | Mais baixa possível; investigar sempre que acima de 35 cmH2O |
| Pressão de platô (pausa inspiratória) | Pressão alveolar ao fim da inspiração; depende de complacência e volume corrente | Menor ou igual a 30 cmH2O na SDRA |
| PEEP externa | Pressão no fim da expiração setada no ventilador; recrutamento alveolar | 5 cmH2O no paciente sem lesão pulmonar; titulada na SDRA |
| PEEP intrínseca (auto-PEEP) | Ar aprisionado por obstrução ou tempo expiratório curto (DPOC, asma) | Detectar por oclusão expiratória; minimizar |
| Pressão de condução (driving pressure) | Pplatô menos PEEP total; amplitude pressórica aplicada ao pulmão por volume corrente | Menor ou igual a 15 cmH2O |
| Pressão média de via aérea | Média ao longo do ciclo; relaciona-se à oxigenação e à compressão cardíaca | Aumentar melhora oxigenação, mas pode reduzir o retorno venoso |
A ventilação não invasiva (CPAP ou BiPAP por máscara) é tratamento de primeira linha em três cenários com evidência robusta: exacerbação de DPOC com acidose respiratória compensada a levemente descompensada (pH 7,25 a 7,35), edema agudo de pulmão cardiogênico e insuficiência respiratória hipoxêmica do paciente imunossuprimido com infiltrado pulmonar difuso. É contraindicada em parada respiratória, incapacidade de proteger a via aérea ou eliminar secreções, rebaixamento de consciência, vômitos, obstrução intestinal, cirurgia ou trauma facial recente e pneumotórax não drenado. Na ventilação invasiva, os modos se organizam pelo que controlam.
| Modo | O que o ventilador fixa | O que varia | Uso típico |
|---|---|---|---|
| Volume controlado (VCV) | Volume e fluxo inspiratórios | Pressões (variam com a mecânica) | Instabilidade; garante volume minuto constante |
| Pressão controlada (PCV) | Pressão inspiratória e tempo inspiratório | Volume (varia com a complacência) | SDRA; distribuição mais homogênea |
| Pressão de suporte (PSV) | Nível de suporte pressórico + PEEP | Paciente controla frequência, fluxo e tempo | Desmame; exige disparo do paciente |
| CPAP | Pressão positiva contínua única | Todo o trabalho respiratório é do paciente | Edema agudo de pulmão; apneia obstrutiva do sono |
| SIMV com pressão de suporte | Frequência mínima sincronizada + suporte | Respirações extras recebem suporte | Desmame tradicional (em desuso progressivo) |
| PRVC ou volume garantido | Meta de volume com limite de pressão | Pressão ajustada respiração a respiração | Mecânica pulmonar variável |
| APRV | Pressão alta contínua com liberações breves | Respiração espontânea em dois níveis de pressão | SDRA grave selecionada; exige expertise |
A mecânica respiratória no ventilador se resume à equação do movimento: a pressão aplicada (do ventilador somada à muscular) é gasta para vencer o componente elástico (volume corrente dividido pela complacência) e o componente resistivo (fluxo multiplicado pela resistência) do sistema. Na prática: Pressão de via aérea = (VT / complacência) + (fluxo x resistência) + PEEP. Complacência é a variação de volume por variação de pressão; no adulto ventilado sem doença pulmonar situa-se entre 50 e 80 mL/cmH2O, caindo para 20 a 40 mL/cmH2O na SDRA (a rigidez do pulmão inflamatório). Resistência da via aérea no paciente intubado fica em torno de 5 a 10 cmH2O/(L/s) e ultrapassa 15 a 20 na asma e na exacerbação de DPOC.
O produto resistência x complacência define a constante de tempo do sistema respiratório: são necessárias 3 a 5 constantes de tempo para esvaziar 95 a 99% do volume inspirado. Quando o tempo expiratório é menor que o necessário (frequência alta, tempo inspiratório longo, obstrução grave), o ar fica aprisionado e gera auto-PEEP. A auto-PEEP eleva a pressão intratorácica, comprime os vasos e reduz o retorno venoso, podendo causar hipotensão e mesmo tamponamento dinâmico do coração direito, além de aumentar o risco de barotrauma. Mede-se pela manobra de oclusão expiratória no final da expiração.
A SDRA, pela definição de Berlim (2012), exige início dentro de 1 semana do insulto clínico conhecido, opacidades bilaterais não totalmente explicadas por derrame, atelectasias ou nódulos, edema pulmonar não totalmente explicado por insuficiência cardíaca ou sobrecarga volêmica, e hipoxemia com PEEP maior ou igual a 5 cmH2O: leve com PaO2/FiO2 entre 201 e 300, moderada entre 101 e 200 e grave menor ou igual a 100, com mortalidade aproximada de 27, 32 e 45%, respectivamente. O tratamento ventilatório de base é a ventilação protetora, que reduz a tensão mecânica sobre alvéolos doentes e a liberação de mediadores inflamatórios (biotrauma).
| FiO2 | PEEP (cmH2O) |
|---|---|
| 0,3 | 5 |
| 0,4 | 5 a 8 |
| 0,5 | 8 a 10 |
| 0,6 | 10 |
| 0,7 | 10 a 14 |
| 0,8 | 14 |
| 0,9 | 14 a 18 |
| 1,0 | 18 a 24 |
No SDRA grave com PaO2/FiO2 menor que 150 (com FiO2 maior ou igual a 0,6 e PEEP maior ou igual a 5), a posição prona por pelo menos 12 a 16 horas contínuas por dia reduz a mortalidade: no estudo PROSEVA, de 16,0% versus 32,8% em 28 dias, com número necessário para tratar de 6. O decúbito ventral recruta as regiões dorsais dependente, homogeneiza a ventilação e reduz o shunt, embora exija treinamento da equipe para manejo de vias, acessos e risco de lesões por pressão. O bloqueio neuromuscular por 48 horas já foi recomendado na SDRA grave (ensaio ACURASYS, com redução de mortalidade), mas o estudo ROSE não reproduziu o benefício e o uso rotineiro caiu; reserva-se a asincronias graves e hipoxemia refratária.
Cerca de 40% do tempo total de ventilação é gasto no desmame, e a demora em extubar aumenta a mortalidade e as complicações. Todo dia, o paciente em VM deve ser avaliado por critérios de prontidão: causa da insuficiência respiratória em resolução, hemodinâmica estável sem ou com mínima vasoativa, oxigenação adequada (PaO2/FiO2 maior que 150 com PEEP menor ou igual a 5 a 8 cmH2O e FiO2 menor ou igual a 0,4), pH maior ou igual a 7,30, capacidade de iniciar esforço inspiratório e escala RASS entre 0 e menos 1. Presentes os critérios, faz-se o teste de respiração espontânea (SBT) de 30 minutos (padrão de 120 minutos em alguns serviços) com pressão de suporte de 5 a 8 cmH2O ou tubo em T.
A falha de extubação ocorre em 10 a 20% dos casos em até 48 a 72 horas, por causa respiratória (carga alta, tosse ineficaz, edema laríngeo), cardíaca (insuficiência cardíaca de carga) ou neurológica (delirium, encefalopatia). A reintubação não planejada está associada a aumento de mortalidade, e postergar a reintubação em paciente falhando piora o desfecho: a decisão de reintubar é clínica e não depende de número isolado.
| Complicação | Mecanismo | Prevenção e conduta |
|---|---|---|
| Barotrauma (pneumotórax, enfisema intersticial) | Pressão transalveolar excessiva por volumes ou pressões altas | Platô menor ou igual a 30 e driving menor ou igual a 15 cmH2O; drenar imediatamente pneumotórax hipertensivo |
| Volutrauma e atelectrauma | Hiperdistensão alveolar e abertura e fechamento cíclicos | Volume corrente baixo com PEEP adequada (ventilação protetora) |
| Biotrauma | Lesão mecânica libera citocinas (IL-1, TNF-alfa) que disseminam inflamação à distância | Ventilação protetora diminui a resposta inflamatória sistêmica |
| Pneumonia associada à VM (VAP) | Microaspiração de secreção colonizada ao redor do balonete; risco de 1 a 3 episódios por 1.000 dias de VM | Bundle: cabeceira 30 a 45 graus, higiene oral, baloneto 20 a 30 cmH2O, aspiração subglótica, interrupção diária da sedação, avaliar extubação diária |
| Hipotensão por auto-PEEP | Ar aprisionado eleva pressão intratorácica e reduz o retorno venoso | Desconectar momentaneamente o circuito, alongar a expiração, reduzir frequência e volume |
| Fraqueza diafragmática adquirida | Esforço excessivo (carga alta) ou superassistência (atrofia por desuso) | Titular suporte, mobilização precoce, minimizar sedação |
| Delirium e privação de sono | Sedação excessiva, ruído, luz, dor não controlada | Meta RASS 0 a menos 2, CAM-ICU, bundle ABCDEF, sono noturno protegido |
A VAP merece atenção porque prolonga a ventilação e a internação e soma mortalidade atribuível: o diagnóstico exige infiltrado novo ou progressivo mais pelo menos dois de febre maior que 38 graus, leucocitose maior que 12.000 ou leucopenia menor que 4.000, e secreção purulenta, confirmada por cultura quantitativa de escarro ou aspirado traqueal (pontos de corte habituais maiores que 100.000 UFC/mL no aspirado e maiores que 10.000 UFC/mL no lavado broncoalveolar). O tratamento empírico depende da fauna local, do início precoce (menos de 5 dias de VM) ou tardio e dos fatores de risco para multirresistência, sempre cobrindo Staphylococcus aureus, Pseudomonas aeruginosa e Enterobacterales nos casos tardios.
1.Homem de 170 cm internado com SDRA (PaO2/FiO2 de 130) inicia ventilação mecânica. Qual o volume corrente inicial correto?
2.Durante a ventilação, observa-se pressão de pico de 48 cmH2O com pressão de platô de 22 cmH2O. Qual a interpretação?
3.Qual parâmetro ventilatório demonstrou a associação mais forte com a sobrevida na SDRA?
4.Pela definição de Berlim, paciente com opacidades bilaterais de início dentro de 7 dias, sem sobrecarga cardíaca, PEEP de 8 cmH2O e PaO2/FiO2 de 180 tem SDRA de qual gravidade?
5.Sobre o ensaio ARDSNet (2000), qual foi o principal resultado da ventilação com baixo volume corrente?
6.Paciente com SDRA tem PaO2/FiO2 de 110, FiO2 de 0,8 e PEEP de 12 cmH2O, estável. Qual medida tem evidência de redução de mortalidade?
7.Qual critério NÃO faz parte dos sinais de falha do teste de respiração espontânea?
8.Paciente com asma grave em ventilação desenvolve hipotensão e pressão de platô crescente com hipoxemia. Qual a primeira medida?
9.Qual item do bundle de prevenção de pneumonia associada à ventilação mecânica está correto?
10.Sobre a ventilação não invasiva, qual indicação tem evidência de nível mais alto?
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