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Revisão completa do tratamento da DPOC conforme o GOLD 2025 e a diretriz da SBPT: grupos ABE, broncodilatadores com doses, terapia tripla, oxigenoterapia, reabilitação, e protocolo passo a passo da exacerbação aguda com corticoide, antibiótico e VNI.
[1] GOLD. Global Strategy for the Diagnosis, Management and Prevention of COPD — Report 2025 · https://goldcopd.org | [2] Fernandes FLA, Cukier A, Camelier AA, et al. Recomendações para o tratamento farmacológico da DPOC — perguntas e respostas. J Bras Pneumol. 2017;43(4):290-301 · https://www.jornaldepneumologia.com.br/details/2711/pt-BR/recommendations-for-the-pharmacological-treatment-of-copd--questions-and-answers | [3] Leuppi JD, Schuetz P, Bingisser R, et al. Short-term vs Conventional Glucocorticoid Therapy in Acute Exacerbations of COPD: the REDUCE Randomized Clinical Trial. JAMA. 2013;309(21):2223-2231 · DOI 10.1001/jama.2013.5023 | [4] Rabe KF, Martinez FJ, Ferguson GT, et al. Triple Inhaled Therapy at Two Glucocorticoid Doses in Moderate-to-Very-Severe COPD (ETHOS). N Engl J Med. 2020;383(1):35-48 · DOI 10.1056/NEJMoa1916048 · DOI 10.1056/NEJMoa1916048
A doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) acomete cerca de 384 milhões de pessoas no mundo, o equivalente a 10,3% dos adultos com 40 anos ou mais, e mata aproximadamente 3,2 milhões por ano, cerca de 5% de todas as mortes. No Brasil, o estudo PLATINO encontrou prevalência de obstrução brônquica fixa em torno de 15,8% em adultos de São Paulo com 40 anos ou mais. O que dirige a história natural, porém, não é apenas o VEF1: são as exacerbações, eventos agudos que aceleram a perda de função pulmonar, desencadeiam insuficiência respiratória e concentram a mortalidade, sobretudo quando exigem hospitalização. Este artigo cobre o tratamento de manutenção pelo GOLD 2025 e pela diretriz da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) e o protocolo completo da exacerbação, com doses e critérios numéricos de decisão.
A DPOC é doença pulmonar prevenível e tratável caracterizada por limitação persistente do fluxo aéreo, definida espirometricamente pela relação VEF1/CVF menor que 0,70 medida após broncodilatador, associada a sintomas respiratórios crônicos (dispneia, tosse, expectoração) decorrentes de alterações das vias aéreas e alvéolos causadas por exposições nocivas, sobretudo fumaça de cigarro e biomassa. A espirometria é obrigatória para o diagnóstico: sintomas sem confirmação espirométrica levam a rótulo errado e a tratamento inadequado. A gravidade da obstrução classifica-se em GOLD 1, VEF1 maior ou igual a 80% do previsto; GOLD 2, entre 50 e 79%; GOLD 3, entre 30 e 49%; e GOLD 4, abaixo de 30%. Importante: o estágio espirométrico isolado não define mais o tratamento, que depende de sintomas e histórico de exacerbações; e o VEF1 mal correlaciona com dispneia e prognóstico, o que motivou índices multidimensionais como o BODE.
Desde 2023 o GOLD fundiu os antigos grupos C e D no grupo E. A classificação atual usa duas dimensões: intensidade de sintomas (mMRC 0-1 versus 2 ou mais; ou CAT abaixo de 10 versus 10 ou mais) e histórico de exacerbações moderadas ou graves no último ano (0-1 versus 2 ou mais, ou pelo menos 1 com hospitalização). O grupo E reúne os pacientes de maior risco, independentemente do VEF1, porque o histórico de exacerbações é o melhor preditor de exacerbações futuras e de mortalidade.
| Grupo | Critérios | Tratamento inicial recomendado |
|---|---|---|
| A | 0-1 exacerbação moderada no ano, sem hospitalização; mMRC 0-1 ou CAT abaixo de 10 | Broncodilatador de longa ação (LABA ou LAMA); considerar associação se sintomas persistentes |
| B | 0-1 exacerbação moderada no ano; mMRC 2 ou mais ou CAT 10 ou mais | LABA + LAMA em associação fixa, preferida à monoterapia por superioridade em sintomas e prevenção de exacerbações |
| E | 2 ou mais exacerbações moderadas ou 1 hospitalização no ano, qualquer VEF1 | LABA + LAMA; adicionar corticoide inalatório (terapia tripla) quando eosinófilos 300 ou mais por mm³, ou entre 100 e 300 com exacerbações apesar da dupla |
Nenhum inalador altera de forma consistente o declínio do VEF1, mas o tratamento adequado melhora dispneia, tolerância ao esforço, qualidade de vida e, sobretudo, previne exacerbações. A base é broncodilatação: beta-2 agonista de longa ação (LABA) e antimuscarínico de longa ação (LAMA) combinados superam cada classe isolada. O corticoide inalatório (CSI) não é rotina: soma-se ao esquema guiado pelos eosinófilos periféricos, marcador de resposta, com limiar de 300 por mm³ para iniciar tripla de plano e de 100 por mm³ para escalonar quem já exacerba em uso de dupla. CSI isolado é contraindicado na DPOC, e a retirada gradual é recomendada quando há pneumonia recorrente ou ausência clara de benefício. Após uma exacerbação, reavalie técnica inalatória e adesão antes de trocar de esquema.
| Medicamento ou classe | Dose usual em adultos | Observações práticas |
|---|---|---|
| Salbutamol (SABA de resgate) | 100 µg por jato; 1-2 jatos a cada 4-6 h; nebulização de 2,5-5 mg | Primeira linha na exacerbação; MDI com espaçador equivale à nebulização |
| Ipratrópio (SAMA) | 20 µg por jato, 2 jatos 3-4 vezes ao dia; 250-500 µg nebulizados | Pode somar ao salbutamol na exacerbação |
| Formoterol (LABA) | 12 µg a cada 12 h | Início rápido; em associações fixas pode servir de resgate |
| Salmeterol (LABA) | 50 µg a cada 12 h | Nunca em monoterapia para DPOC |
| Indacaterol (LABA) | 75-150 µg 1 vez ao dia | Ação de 24 horas |
| Tiotrópio (LAMA) | 18 µg ao dia em pó ou 5 µg ao dia em soft mist | O LAMA mais estudado; reduz exacerbações e internações |
| Umeclidínio ou glicopirrônio (LAMA) | 62,5 µg ao dia; 44-50 µg ao dia | Alternativas em pó |
| Aclidínio (LAMA) | 322 µg a cada 12 h | Alternativa de 12 em 12 horas |
| Budesonida (CSI) | 200-400 µg a cada 12 h | Sempre associado a broncodilatador, jamais isolado |
| Associações triplas fixas | Furoato de fluticasona 100/umeclidínio 62,5/vilanterol 25 µg 1 vez ao dia; budesonida 320/glicopirrônio 18,4/formoterol 9,6 µg a cada 12 h | Reduzem exacerbações e mortalidade em análise secundária do ETHOS |
| Roflumilaste (inibidor de PDE4) | 500 µg por via oral ao dia | VEF1 abaixo de 50%, bronquite crônica e 2 ou mais exacerbações no último ano; efeitos: náusea, diarreia, perda de peso, insônia e depressão |
| Azitromicina (profilaxia) | 250 mg ao dia ou 500 mg 3 vezes por semana por até 1 ano | Após otimização do tratamento; monitorar intervalo QT e audição; melhor resposta em ex-fumantes |
A oxigenoterapia domiciliar prolongada é indicada na hipoxemia crônica grave: PaO2 de 55 mmHg ou menos, ou saturação de 88% ou menos, em repouso e estabilidade clínica; ou PaO2 entre 56 e 59 mmHg quando há evidência de hipoxemia crônica com consequências (cor pulmonale, hipertensão pulmonar, policitemia com hematócrito acima de 55%). O uso deve ser de pelo menos 15 horas por dia, incluindo o sono, com fluxo titulado para saturação de 90% ou mais em repouso, esforço e sono. A ventilação não invasiva crônica é indicada na insuficiência respiratória hipercápnica crônica, especialmente com PaCO2 de 52 mmHg ou mais e após internação por exacerbação com hipercapnia, cenário em que reduz reinternações e mortalidade. A correção da hipoxemia na crise é diferente: o alvo é 88 a 92% para não agravar a retenção de CO2.
Exacerbação é evento agudo de piora de sintomas respiratórios (dispneia, tosse, volume ou purulência do escarro) além da variação diária normal, que exige mudança de tratamento; a piora deve ser sustentada e não meramente momentânea, e em pesquisa janelas padronizadas de 14 dias evitam contagem duplicada do mesmo episódio. Os gatilhos: infecções respiratórias predominam, com vírus identificáveis em cerca de um terço a metade dos episódios (rinovírus, influenza, vírus sincicial respiratório) e bactérias em outro quarto a metade, sendo Haemophilus influenzae, Streptococcus pneumoniae e Moraxella catarrhalis as mais comuns; Pseudomonas aeruginosa emerge na DPOC muito grave, bronquiectasias e internações repetidas. Até um terço dos episódios não tem gatilho infeccioso claro: considere embolia pulmonar, insuficiência cardíaca, pneumotórax, arritmia e má adesão ao tratamento. A espirometria não é necessária nem útil no momento agudo: o diagnóstico da exacerbação é clínico.
| Grau | Definição operacional | Local de manejo |
|---|---|---|
| Leve | Piora de sintomas controlada apenas com broncodilatador de curta ação | Ambulatorial |
| Moderada | Exige corticoide sistêmico com ou sem antibiótico | Ambulatório ou emergência |
| Grave | Dispneia intensa, acidose respiratória ou necessidade de suporte ventilatório; comorbidade descompensada; alteração do nível de consciência | Emergência com decisão de UTI |
Indicações de UTI e intubação: falha da VNI (persistência de pH abaixo de 7,25, exaustão, rebaixamento de consciência), instabilidade hemodinâmica, arritmia grave e parada respiratória iminente. Na alta hospitalar, quatro medidas reduzem reinternação e mortalidade: garantir esquema inalatório otimizado com técnica verificada, iniciar reabilitação pulmonar nas primeiras 4 semanas, programar seguimento em 1 a 4 semanas com reavaliação de oxigenoterapia por gasometria em 30 a 90 dias, e completar vacinas. Paciente que persiste hipercápnico tem indicação reforçada de VNI domiciliar.
A prevenção é a face mais valiosa do tratamento. Em ordem de impacto: cessação do tabagismo; vacinação; combinação LABA + LAMA (e terapia tripla quando eosinófilos altos); reabilitação pulmonar; oxigenoterapia quando indicada; e, em selecionados, roflumilaste (VEF1 abaixo de 50% com bronquite crônica e exacerbações repetidas) e azitromicina contínua por até 1 ano, que reduziu a taxa de exacerbações em cerca de 25 a 30% em ensaio randomizado, com melhor resposta em ex-fumantes e exigência de monitorar QT e audição. Cirurgia é exceção: bulectomia na bolha enfisematosa gigante compressiva, cirurgia de redução de volume pulmonar no enfisema heterogêneo com predomínio apical e baixa capacidade de exercício, e transplante pulmonar na doença avançada refratária, com encaminhamento precoce ao centro de transplante.
As exacerbações frequentes aceleram o declínio do VEF1, pioram qualidade de vida e marcam risco de morte: uma única hospitalização por exacerbação eleva substancialmente a mortalidade no ano seguinte, em torno de 20% em séries contemporâneas. Complicações crônicas incluem cor pulmonale e hipertensão pulmonar, perda ponderal e caquexia, policitemia, osteoporose, depressão e ansiedade, e maior risco de câncer de pulmão. O seguimento ambulatorial deve incluir espirometria anual, avaliação de dispneia com mMRC ou CAT, checagem de técnica inalatória a cada visita, rastreio de comorbidades e do estado vacinal. Suspeite de deficiência de alfa-1 antitripsina no enfisema de início jovem (abaixo de 45 anos), em pulmonares de base, em não tabagistas e com história familiar: dosar alfa-1 antitripsina sérica nesses cenários.
1.Qual critério espirométrico, e em que condição, estabelece o diagnóstico de DPOC?
2.Paciente com DPOC, mMRC 3, VEF1 de 55% do previsto, 3 exacerbações moderadas no último ano sem hospitalização. Segundo o GOLD, em qual grupo ele se enquadra?
3.Qual o tratamento inicial preferido para paciente do grupo B (mMRC 2, sem exacerbações)?
4.Quando o GOLD recomenda iniciar corticoide inalatório somado a LABA + LAMA (terapia tripla) no tratamento inicial?
5.Sobre a duração do corticoide sistêmico na exacerbação aguda, o ensaio REDUCE (JAMA, 2013) demonstrou que:
6.Qual conjunto de critérios (Anthonisen) oferece maior benefício documentado para o uso de antibiótico na exacerbação?
7.Paciente grave em emergência com exacerbação, SpO2 de 78% ao ar ambiente e história de hipercapnia. Qual o alvo de saturação ao iniciar oxigenoterapia?
8.Paciente com exacerbação grave, pH de 7,28, PaCO2 de 68 mmHg, frequência respiratória de 30, consciente e cooperativo. Qual a conduta ventilatória inicial?
9.Qual perfil clínico justifica o roflumilaste oral no tratamento da DPOC?
10.A oxigenoterapia domiciliar prolongada está formalmente indicada quando, em estabilidade clínica:
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