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Revisão completa das doenças pulmonares intersticiais difusas: classificação em causas conhecidas e pneumonias intersticiais idiopáticas, fisiopatologia do padrão de pneumonia intersticial usual, apresentação clínica com estertores em velcro, função pulmonar restritiva, padrões de TCAR e algoritmo com discussão multidisciplinar, escore GAP, tratamento com nintedanibe e pirfenidona (doses e titulação), o que não usar (tripla terapia do PANTHER) e indicações de transplante. Com tabelas, PICO do INPULSIS, 10 questões e flashcards.
[1] Raghu G, Remy-Jardin M, Richeldi L, et al. Idiopathic pulmonary fibrosis (an update) and progressive pulmonary fibrosis in adults: official ATS/ERS/JRS/ALAT clinical practice guideline. Am J Respir Crit Care Med. 2022;205(9):e18-e47 · DOI 10.1164/rccm.202202-0399ST · PMID 35452090 | [2] Baddini-Martinez JA, Paschoal IA, et al. Diretrizes brasileiras para o tratamento farmacológico da fibrose pulmonar idiopática. Documento oficial da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. J Bras Pneumol. 2020;46(2):e20190423 · DOI 10.36416/1806-3756/e20190423 | [3] Lederer DJ, Martinez FJ. Idiopathic pulmonary fibrosis. N Engl J Med. 2018;378(19):1811-23 · DOI 10.1056/NEJMra1705751 | [4] Richeldi L, du Bois RM, Raghu G, et al. Efficacy and safety of nintedanib in idiopathic pulmonary fibrosis (INPULSIS). N Engl J Med. 2014;370(22):2071-82 · DOI 10.1056/NEJMoa1402584 | [5] King TE Jr, Bradford WZ, Castro-Bernardini S, et al. A phase 3 trial of pirfenidone in patients with idiopathic pulmonary fibrosis (ASCEND). N Engl J Med. 2014;370(22):2083-92 · DOI 10.1056/NEJMoa1402582 | [6] Raghu G, Anstrom KJ, King TE Jr, et al. Prednisone, azathioprine, and N-acetylcysteine for pulmonary fibrosis (PANTHER-IPF). N Engl J Med. 2012;366(22):1968-77 · DOI 10.1056/NEJMoa1113354 | [7] Flaherty KR, Wells AU, Cottin V, et al. Nintedanib in progressive fibrosing interstitial lung diseases (INBUILD). N Engl J Med. 2019;381(18):1718-27 · DOI 10.1056/NEJMoa1908681 · DOI 10.1164/rccm.202202-0399ST
Doenças pulmonares intersticiais difusas (DPID, também chamadas doenças difusas do parênquima pulmonar) é o guarda-chuva de mais de 200 entidades que acometem difusamente o interstício e os espaços aéreos distais, compartilhando apresentação clínica (dispneia progressiva, tosse seca, estertores finos bibasais), fisiologia (padrão restritivo com redução da difusão de monóxido de carbono) e achado de imagem (opacidades intersticiais bilaterais). O desafio diagnóstico é enorme porque o mesmo padrão radiológico pode corresponder a uma pneumopatia por hipersensibilidade, uma doença autoimune, uma pneumoconiose, um efeito de fármaco ou uma pneumonia intersticial idiopática, e a conduta muda por completo: doenças inflamatórias respondem a imunossupressão, enquanto a fibrose pulmonar idiopática, a forma mais temida, é tratada com antifibróticos e corticoide pode fazer mal. O valor de conhecer o tema é quantificável: a fibrose pulmonar idiopática, protótipo das DPID fibróticas, tem sobrevida mediana histórica de 3 a 5 anos, pior que a de vários cânceres, e os antifibróticos disponíveis desde 2014 mudaram a história natural ao reduzir pela metade a velocidade de perda de função. Para a prova, o aluno precisa dominar quatro eixos: a busca sistemática de causa, os padrões de TCAR com o conceito de padrão de pneumonia intersticial usual, a discussão multidisciplinar como padrão-ouro diagnóstico e o tratamento por grupo de doença, com doses.
A classificação operacional das DPID separa três grandes grupos. O primeiro reúne as DPID de causa conhecida ou associada: doenças do tecido conjuntivo (artrite reumatoide, esclerose sistêmica, miopatias inflamatórias com anticorpos antissintetase, lúpus, síndrome de Sjögren), exposições ambientais e ocupacionais (pneumoconioses pela sílica e pelo asbesto, pneumopatia por hipersensibilidade a aves e a mofo), fármacos e tratamentos (amiodarona, metotrexato, nitrofurantoína, bleomicina, radioterapia, quimioterapias e imunoterapia com inibidores de checkpoint) e causas infecciosas ou hereditárias. O segundo grupo é o das pneumonias intersticiais idiopáticas, classificadas desde 2013 em principais (fibrose pulmonar idiopática com padrão de pneumonia intersticial usual, pneumonia intersticial não específica, pneumonia em organização criptogênica, pneumonia intersticial descamativa, bronquiolite respiratória com doença pulmonar intersticial, pneumonia intersticial linfocítica, pneumonia intersticial aguda e fibroelastose pleuroparenquimatosa idiopática) e inclassificáveis. O terceiro grupo abrange formas específicas como linfangioleiomiomatose, histiocitose de células de Langerhans, proteinose alveolar pulmonar e as pneumopatias eosinofílicas. A lição prática, cobrada em prova, é que nenhum paciente deve receber o rótulo de fibrose pulmonar idiopática antes de exaustiva busca de causa: até 10 a 20% das suspeitas de FPI reclassificam-se como pneumopatia por hipersensibilidade ou DPID de doença do tecido conjuntivo quando a investigação é conduzida por serviço de referência.
| Grupo | Exemplos | Pista-chave |
|---|---|---|
| Causa conhecida: doença do tecido conjuntivo | Esclerose sistêmica, artrite reumatoide, antissintetase, Sjögren | Raynaud, mão mecânica, poliartrite, anticorpos específicos (anti-Scl-70, anti-Jo1, anti-Ro52) |
| Causa conhecida: exposição ambiental | Pneumoconiose pela sílica e pelo asbesto, pneumopatia por hipersensibilidade | Exposição ocupacional (mineração, construção, cerâmica), criação de aves, mofo em ambientes úmidos |
| Causa conhecida: fármacos e tratamentos | Amiodarona, metotrexato, nitrofurantoína, bleomicina, radioterapia, inibidores de checkpoint | Revisão criteriosa da lista de medicamentos e do histórico radioterápico |
| Pneumonias intersticiais idiopáticas | Fibrose pulmonar idiopática, pneumonia intersticial não específica, pneumonia em organização criptogênica | Diagnóstico de exclusão, após afastar todas as causas acima |
| Outras DPID específicas | Linfangioleiomiomatose, histiocitose de células de Langerhans, proteinose alveolar | Mulher jovem com pneumotórax recorrente; fumante jovem com nódulos císticos apicais |
A fibrose pulmonar idiopática é uma doença da sexta e sétima décadas (60 a 75 anos), com predomínio masculino e forte associação com tabagismo, presente em cerca de dois terços dos pacientes. As estimativas de frequência variam com o método: estudos europeus baseados em dados clínicos situam a prevalência entre 2 e 29 por 100.000 habitantes, enquanto bases administrativas norte-americanas, que captam também casos leves, encontram valores várias vezes maiores, e a incidência descrita fica na faixa de 3 a 9 casos novos por 100.000 por ano, com crescimento acentuado após os 75 anos. No Brasil não há registro nacional unificado de DPID, e a demanda é concentrada em serviços de referência, que reportam a pneumopatia por hipersensibilidade a aves e a mofo como uma das DPID mais frequentes, reflexo da criação doméstica de pombos e canários e da umidade crônica das habitações, além da silicose mantida pelo garimpo, pela construção civil e pela indústria cerâmica. A pneumonia intersticial não específica ligada a doenças do tecido conjuntivo predomina em mulheres de meia-idade, e a linfangioleiomiomatose ocorre quase exclusivamente em mulheres em idade reprodutiva. Para a prova, guarde o par silicose e lobo superior, e asbesto e lobo inferior com placas pleurais: é a geometria lobar que separa as duas pneumoconioses clássicas.
Na fibrose pulmonar idiopática, o dogma atual substituiu a inflamação por uma lesão epitelial alveolar recorrente e incompetente: agressões acumuladas (tabagismo, microaspiração silenciosa de refluxo gastresofágico, envelhecimento celular com encurtamento de telômeros e mutações em genes de reparo como TERT e TERC, estresse oxidativo) levam à morte de pneumócitos tipo II, que liberam mediadores profibróticos como TGF-beta e ativam a via Wnt e a beta-catenina. Fibroblastos e miofibroblastos proliferam e formam os focos de fibroblastos, a marca histológica do padrão de pneumonia intersticial usual, depositando colágeno de forma desorganizada e com heterogeneidade temporal: interstício normal, fibrose em favos de mel e focos ativos convivem no mesmo campo. O resultado é o remodelamento destrutivo com bronquiectasias de tração e favos de mel, predominantes nos lobos inferiores e na periferia subpleural, e um pulmão enrijecido (complacência reduzida) com perda de superfície de troca. Na pneumopatia por hipersensibilidade, ao contrário, a inalação de antígenos orgânicos desencadeia resposta imune de hipersensibilidade tipos 3 e 4, com granulomas não caseosos e infiltrado linfocitário, e o quadro pode regredir com a evicção do antígeno; a forma crônica, porém, pode evoluir para fibrose indistinguível da FPI. Na pneumonia intersticial não específica predomina inflamação homogênea com uniformidade temporal (forma celular, responsiva a corticoide) ou fibrose uniforme (forma fibrótica, de pior prognóstico). Os antifibróticos atacam esse eixo comum: o nintedanibe é inibidor de tirosinoquinases dos receptores de VEGF, PDGF e FGF, freando a proliferação de fibroblastos e a angiogênese; a pirfenidona reduz a síntese de colágeno tipo 1 e a sinalização por TGF-beta e TNF.
A DPID fibrótica típica começa com dispneia de esforço progressiva por meses a anos e tosse seca persistente. Ao exame, os estertores inspiratórios finos de estalido, em velcro, bibasais, presentes em mais de 90% dos casos de FPI, são o achado físico de maior rendimento e devem ser buscados com o paciente em apnea leve no fim da inspiração; somam-se baqueteamento digital em 25 a 50% dos pacientes com FPI, taquipneia, e, na doença avançada, cianose e sinais de hipertensão pulmonar e cor pulmonale (edema de membros inferiores, reforço de P2, turgência jugular). Formas específicas têm cenas prontas de prova: a pneumopatia por hipersensibilidade aguda ocorre 4 a 48 horas após exposição intensa a antígeno (febre, calafrios, mialgia, tosse e dispneia, revertendo em dias com afastamento do antígeno), a subaguda alterna crises por semanas e a crônica mimetiza FPI; a pneumonia em organização criptogênica apresenta-se como pneumonia de aspecto infeccioso que não responde a antibióticos, com consolidações periféricas migrativas e boa resposta a corticoide; a linfangioleiomiomatose afeta mulheres jovens com pneumotórax espontâneo recorrente, quilotorax e piora hormonal; a doença relacionada ao asbesto cursa com placas pleurais calcificadas e envolvimento de lobos inferiores; a silicose apresenta nódulos fibroconstritivos de predomínio em lobos superiores e calcificação ganglionar em casca de ovo. Pistas extrapulmonares encurtam o diagnóstico: Raynaud, esclerodactilia e telangiectasias (esclerose sistêmica), mão mecânica e fraqueza proximal (antissintetase), artrite simétrica (artrite reumatoide), xeroftalmia e xerostomia (Sjögren).
| Achado clínico ou de imagem | Diagnóstico a considerar |
|---|---|
| Estertores em velcro bibasais, baqueteamento, homem 60 a 75 anos tabagista | Fibrose pulmonar idiopática |
| Crises 4 a 48 horas após contato com aves ou mofo | Pneumopatia por hipersensibilidade (forma aguda) |
| Consolidações periféricas migrativas sem resposta a antibiótico | Pneumonia em organização criptogênica |
| Nódulos e fibrose de lobos superiores com calcificação ganglionar em casca de ovo | Silicose |
| Fibrose de base com placas pleurais calcificadas | Asbestose |
| Mulher jovem, quilotórax e cistos difusos | Linfangioleiomiomatose |
| Fumante jovem com nódulos císticos de ápices | Histiocitose de células de Langerhans |
A espirometria com volumes pulmonares mostra padrão restritivo na DPID estabelecida: capacidade vital forçada e capacidade pulmonar total reduzidas, com relação VEF1 sobre CVF normal ou até aumentada; a prova decisiva é a capacidade de difusão de monóxido de carbono (DLCO), reduzida precocemente e proporcional à destruição do leito capilar, sendo DLCO abaixo de 40% do previsto marcador de doença avançada e critério de encaminhamento para transplante. A gasometria e o teste de caminhada de seis minutos completam a avaliação: queda da saturação abaixo de 88% durante a caminhada indica necessidade de oxigenoterapia e pior prognóstico. A tomografia computadorizada de alta resolução (TCAR) com cortes finos é o exame central e, em boa parte dos casos, suficiente: o padrão de pneumonia intersticial usual definitivo na TCAR, definido por retícula subpleural basal com bronquiectasias de tração e favos de mel, sem achados que sugiram diagnóstico alternativo, estabelece o diagnóstico de fibrose pulmonar idiopática sem necessidade de biópsia, segundo a diretriz internacional de 2022, desde que discutido em contexto multidisciplinar; padrões provável, indeterminado e alternativo seguem para discussão e eventual lavado broncoalveolar ou biópsia. O lavado broncoalveolar é útil sobretudo para redirecionar o diagnóstico: linfocitose acentuada sugere pneumopatia por hipersensibilidade ou pneumonia intersticial não específica, neutrofilia sugere doença fibrótica, eosinofilia sugere doença eosinofílica ou fármaco, e a presença de linfócitos atípicos ou material PAS-positivo aponta linfangite carcinomatosa ou proteinose alveolar. A biópsia cirúrgica por videotoracoscopia, histórico padrão-ouro com rendimento diagnóstico acima de 90%, foi em grande parte substituída pela criobiópsia pulmonar transbrônquica, com rendimento de 70 a 80% e menos complicações, embora com risco de pneumotórax em torno de 10 a 20%. O painel mínimo de autoanticorpos na avaliação inicial inclui fator antinuclear, fator reumatoide, anti-CCP, anti-Scl-70, anti-Jo1 e antissintetases, anti-Ro52, ANCA e creatinoquinase, além de sorologias de aves e mofo quando se suspeita de pneumopatia por hipersensibilidade.
| Exame | Achado típico na DPID | Significado |
|---|---|---|
| Espirografia com volumes (padrão restritivo) | CVF e CPT reduzidas, VEF1/CVF normal ou alto | Confirma restrição verdadeira; CPT distingue de padrão obstrutivo |
| DLCO | Reduzida, frequentemente antes da CVF | Marca perda de leito capilar; menor que 40% indica doença avançada |
| Teste de caminhada de 6 minutos | Dessaturação abaixo de 88% | Indica oxigenoterapia e pior prognóstico |
| TCAR de tórax | Padrão de pneumonia intersticial usual definitivo | Favos de mel subpleural basal com tração, sem achado alternativo, fecha FPI sem biópsia |
| Lavado broncoalveolar | Linfocitose acentuada | Sugere pneumopatia por hipersensibilidade ou pneumonia intersticial não específica |
| Criobiópsia transbrônquica | Rendimento de 70 a 80% | Alternativa menos invasiva à biópsia cirúrgica; pneumotórax em 10 a 20% |
A leitura organizada da TCAR em padrões histológicos substituiu a lista aleatória de diferenciais. Padrão de pneumonia intersticial usual: retícula e favos de mel subpleurais e basais, com tração, típico da FPI, mas também de DPID de doença do tecido conjuntivo e de asbestose. Padrão de pneumonia intersticial não específica: opacidades em vidro fosco basais com poucos favos, podendo haver poupança subpleural, com bronquiectasias de tração discretas e homogeneidade temporal. Padrão de pneumopatia por hipersensibilidade: opacidades em vidro fosco com nódulos centrolobulares de limites imprecisos e armadilhamento aéreo no expiratório, distribuição difusa com poupança das bases em muitos casos. Padrão de organização: consolidações periféricas e peribroncovasculares, às vezes migratórias. Silicose: nódulos de predomínio em lobos superiores e posteriores, conglomerados e calcificação ganglionar em casca de ovo. O prognóstico da FPI é estratificado pelo escore GAP, que soma sexo (0 feminino, 1 masculino), idade (0 até 60, 1 de 61 a 75, 2 acima de 75), CVF (0 acima de 75% do previsto, 1 de 50 a 75%, 2 abaixo de 50%) e DLCO (0 acima de 55%, 1 de 36 a 55%, 2 de 35% ou menos): estágio 1 de 0 a 3 pontos, estágio 2 de 4 a 5 e estágio 3 de 6 a 8, com mortalidade em 1 ano crescente por estágio, em torno de 6%, 15% e 30% no estudo de validação. O diagnóstico final de qualquer DPID é, por definição, multidisciplinar: pulmologista, radiologista e patologista revisam juntos clínica, imagem e, quando disponível, histologia, a discussão multidisciplinar é o padrão-ouro e muda a categoria diagnóstica em proporção relevante dos casos.
| Padrão na TCAR | Distribuição típica | Diagnóstico a considerar |
|---|---|---|
| Pneumonia intersticial usual (favos de mel e tração) | Subpleural, basal, heterogênea | Fibrose pulmonar idiopática; DPID de doença do tecido conjuntivo; asbestose |
| Pneumonia intersticial não específica | Basal, vidro fosco homogêneo, poupança subpleural | Doença do tecido conjuntivo; formas idiopáticas |
| Pneumopatia por hipersensibilidade | Difusa, nódulos centrolobulares, vidro fosco, armadilhamento aéreo | Exposição a aves ou mofo |
| Organização | Consolidações periféricas, às vezes migratórias | Pneumonia em organização criptogênica ou secundária |
| Nódulos fibroconstritivos com calcificação em casca de ovo | Lobos superiores e posteriores | Silicose |
| Placas pleurais calcificadas com fibrose de base | Lobos inferiores e pleura diafragmática | Asbestose |
O tratamento da fibrose pulmonar idiopática repousa em dois antifibróticos aprovados, recomendados pela diretriz internacional de 2022 e pelas diretrizes brasileiras da SBPT de 2020, com nível de evidência condicional a forte, para todos os pacientes com diagnóstico confirmado, salvo contraindicação. O nintedanibe é prescrito em 150 mg por via oral de 12 em 12 horas, com redução para 100 mg de 12 em 12 horas em caso de intolerância; seus efeitos adversos principais são diarreia (a causa mais frequente de ajuste de dose), elevação de transaminases e risco hepatotóxico, exigindo enzimas hepáticas basais e periódicas, e cautela quando o paciente usa anticoagulantes ou antiagregantes, pelo efeito antiangiogênico e inibição de tirosinoquinases. A pirfenidona começa com titulação: 267 mg de 8 em 8 horas na primeira semana, 534 mg de 8 em 8 horas na segunda, atingindo a dose plena de 801 mg de 8 em 8 horas (2.403 mg/dia); exige fotoproteção rigorosa por causar fotossensibilidade, orientação de tomar com alimento para reduzir náusea e monitorização hepática. Os dois fármacos reduzem aproximadamente pela metade a velocidade de queda anual da capacidade vital forçada e não foram comparados diretamente entre si, sendo a escolha guiada por comorbilidades, perfil de efeitos adversos e preferência do paciente. O ensaio INBUILD estendeu o nintedanibe às doenças pulmonares intersticiais fibróticas progressivas além da FPI, com o mesmo benefício funcional. Território clássico de prova é o que não usar na FPI: a tripla terapia com prednisona, azatioprina e N-acetilcisteína foi interrompida no estudo PANTHER por aumentar mortalidade e hospitalizações, a N-acetilcisteína isolada não demonstrou benefício, corticoides isolados não têm papel, e o paciente deve ser vacinado contra influenza, pneumococo, COVID-19 e pertussis, cessar o tabagismo, tratar o refluxo gastresofágico e entrar em programa de reabilitação pulmonar. A oxigenoterapia domiciliar prolongada está indicada com PaO2 de 55 mmHg ou menos, saturação de 88% ou menos em repouso ou esforço, ou com PaO2 entre 56 e 59 mmHg com sinais de hipoxemia crônica, e melhora sobrevida e capacidade de exercício.
| Fármaco | Dose e titulação | Efeitos adversos e monitorização |
|---|---|---|
| Nintedanibe | 150 mg de 12/12 horas; reduzir para 100 mg de 12/12 horas se intolerância | Diarreia, náusea, elevação de transaminases (hepatotoxicidade); enzimas hepáticas basais e periódicas; cautela com anticoagulação |
| Pirfenidona | Semana 1: 267 mg de 8/8 horas; semana 2: 534 mg de 8/8 horas; dose plena: 801 mg de 8/8 horas (2.403 mg/dia) | Fotossensibilidade (fotoproteção), náusea (tomar com alimento), disgeusia, elevação de transaminases |
| Tripla terapia prednisona, azatioprina e N-acetilcisteína | Contraindicada na FPI | PANTHER: aumentou mortalidade e hospitalizações; estudo interrompido por segurança |
| N-acetilcisteína isolada | Sem benefício demonstrado na FPI | Não recomendada como tratamento de fibrose pulmonar idiopática |
| Oxigenoterapia domiciliar | Pelo menos 15 horas por dia | Indicada com PaO2 de 55 mmHg ou menos, saturação de 88% ou menos, ou hipoxemia com cor pulmonale |
Nas DPID com componente inflamatório ou autoimune, a imunossupressão é indicada e salva função. Na pneumonia intersticial não específica celular e nas DPID de doenças do tecido conjuntivo, o esquema clássico inicia com prednisona 0,5 a 1 mg por kg por dia (dose usual de 40 a 60 mg) por 4 a 8 semanas com retirada gradual ao longo de meses, associando poupadores como micofenolato mofetil 2 a 3 g por dia ou azatioprina 2 mg por kg por dia para manutenção; na esclerose sistêmica com DPID, o micofenolato tornou-se o poupador de escolha e o nintedanibe ganhou indicação para a doença fibrótica progressiva associada. Na pneumopatia por hipersensibilidade, a medida decisiva é a evicção completa do antígeno (retirar aves, corrigir umidade e mofo, uso de máscaras e mudança de ambiente), reservando corticoide para as formas agudas graves e subagudas. A pneumonia em organização criptogênica responde dramaticamente a prednisona 0,5 a 1 mg por kg por dia com desmame lento ao longo de 3 a 6 meses, com recidiva frequente se a retirada for rápida. A pneumonia eosinofílica aguda responde a corticoide em poucos dias. Nas pneumoconioses não há tratamento específico: cessar a exposição, vigilância de tuberculose na silicose (risco muito aumentado) e de mesotelioma e câncer de pulmão no asbesto. O transplante pulmonar é a única terapia que muda a sobrevida na FPI avançada: encaminhar precocemente quando CVF abaixo de 50% do previsto, DLCO abaixo de 40%, escore GAP 2 ou 3, declínio rápido apesar do antifibrótico ou hipoxemia, com sobrevida de 5 anos acima de 50% em centros de referência.
A exacerbação aguda da fibrose pulmonar idiopática é a complicação mais temida: deterioração dispneica em menos de 30 dias com novas opacidades bilaterais em vidro fosco ou consolidação sobrepostas ao padrão fibroso, não totalmente explicadas por edema cardíaco, infecção ou embolia. Trata-se de evento grave, com mortalidade hospitalar em torno de 50%, desencadeado por infecções, cirurgias, procedimentos com sedação, microaspiração ou sem causa identificável; o tratamento é suporte com oxigenoterapia, corticoide em alta dose (metilprednisolona 0,5 a 1 g por dia por 3 dias, seguida de prednisona 1 mg por kg com desmame, esquema de evidência fraca), cobertura antibiótica empírica por sobreposição infecciosa não ser excluída, e discussão precoce de metas de cuidado e cuidados paliativos, integrados desde o diagnóstico na doença avançada. Outras complicações: hipertensão pulmonar (suspeitar quando a DLCO cai desproporcionalmente à CVF), maior risco de câncer de pulmão na FPI, pneumotórax na linfangioleiomatose e tuberculose na silicose. O prognóstico global da FPI melhorou com os antifibróticos, a reabilitação e o transplante oportuno: a doença permanece incurável, mas a trajetória de queda funcional pode ser retardada, e o acompanhamento serial da CVF a cada 3 a 6 meses define a progressão e a necessidade de escalada terapêutica.
1.Homem de 68 anos, tabagista, com dispneia progressiva, estertores em velcro bibasais e TCAR mostrando favos de mel subpleural basal com bronquiectasias de tração, sem achados alternativos. A conduta que dispensa biópsia pulmonar é:
2.Qual achado funcional é típico das doenças pulmonares intersticiais difusas?
3.Sobre o tratamento farmacológico da fibrose pulmonar idiopática, a afirmativa correta é:
4.A titulação clássica da pirfenidona na fibrose pulmonar idiopática é:
5.Qual par exposição e achado de imagem caracteriza corretamente uma pneumoconiose?
6.Paciente com suspeita de pneumopatia por hipersensibilidade. Qual achado no lavado broncoalveolar apoia fortemente o diagnóstico?
7.A pneumonia em organização criptogênica tem, como cena clínica e resposta terapêutica típicas:
8.No escore GAP de gravidade da fibrose pulmonar idiopática, os componentes são:
9.A exacerbação aguda da fibrose pulmonar idiopática é definida por:
10.Qual é a indicação de encaminhamento para transplante pulmonar na fibrose pulmonar idiopática?
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