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Revisão completa do derrame pleural: fisiopatologia, semiotécnica, imagem, critérios de Light, análise do líquido pleural com valores de corte e tratamento escalonado do parapneumônico, do empiema, do derrame maligno e da tuberculose pleural.
[1] Light RW. Pleural effusion. N Engl J Med. 2002;346(25):1971-1977 · DOI 10.1056/NEJMcp010731 | [2] Roberts ME, Rahman NM, Maskell NA, et al. British Thoracic Society Guideline for pleural disease. Thorax. 2023;78(11):1143-1156 · DOI 10.1136/thorax-2023-220304 | [3] Rahman NM, Maskell NA, West A, et al. Intrapleural use of tissue plasminogen activator and DNase in pleural infection (MIST2). N Engl J Med. 2011;365(6):518-526 · DOI 10.1056/NEJMoa1012740 | [4] Ministério da Saúde. Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose no Brasil. 2ª ed. Brasília: MS · gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/svsa/tuberculose · DOI 10.1136/thorax-2023-220304
O derrame pleural é o acúmulo anormal de líquido no espaço pleural e um dos achados mais frequentes em enfermarias e emergências: estima-se cerca de 1,5 milhão de novos casos por ano apenas nos Estados Unidos, sendo a insuficiência cardíaca a causa mais comum (aproximadamente 500 mil casos), seguida de infecções e neoplasias. Cada causa tem conduta completamente diferente, e o erro clássico é tratar todo derrame igual. Para a prova, o aluno precisa dominar três eixos: reconhecer a síndrome no exame físico, separar transudato de exsudato pelos critérios de Light e saber quais valores do líquido pleural (pH, glicose, ADA) mudam a conduta na hora, indicando dreno, biópsia ou apenas tratamento clínico.
O espaço pleural normalmente contém uma lâmina mínima de líquido (menos de 15 mL no adulto, cerca de 0,26 mL/kg), com baixa concentração de proteínas, produzida pela pleura parietal e drenada continuamente pelos linfáticos via estomas linfáticos e lacunas de Lanneer. Derrame pleural existe quando a formação excede a absorção. A classificação central para a prova separa transudato (membrana íntegra e desequilíbrio de forças hidrostáticas ou oncóticas; proteínas baixas) de exsudato (pleura doente, com aumento de permeabilidade ou obstrução linfática; proteínas e desidrogenase lática elevadas).
Nos países desenvolvidos, a insuficiência cardíaca domina o cenário; em serviços de emergência, até 10% dos derrames investigados revelam embolia pulmonar como causa oculta. Entre os exsudatos, a pneumonia bacteriana complica-se com derrame em até 40% dos casos hospitalizados, e uma minoria progride para derrame complicado ou empiema franco. Neoplasias respondem pela maior parte dos derrames exsudativos em pacientes acima de 60 anos: pulmão (cerca de 35-40%), mama (20-25%) e linfomas (10-15%) somam cerca de 75% dos derrames malignos. No Brasil, com incidência de tuberculose em torno de 35-45 casos por 100 mil habitantes e 80-90 mil casos novos por ano, a tuberculose pleural é uma das formas extrapulmonares mais frequentes e precisa estar sempre no topo do diferencial de exsudato linfocitário em jovem.
A formação e a reabsorção de líquido pleural seguem as forças de Starling: a pleura parietal é irrigada por circulação sistêmica (pressão hidrostática alta, cerca de 30 cmH2O) e a visceral por circulação brônquica, com drenagem linfática que remove proteínas e células. O acúmulo ocorre por cinco mecanismos básicos: aumento da pressão hidrostática (insuficiência cardíaca), queda da pressão oncótica (cirrose, síndrome nefrótica), aumento da permeabilidade capilar (pneumonia, tuberculose, neoplasia, embolia, colagenoses), queda da pressão intrapleural (atelectasia, escavação pulmonar) e obstrução ou rotura de ductos e vasos (linfoma obstruindo linfáticos, lesão do ducto torácico, trauma).
| Mecanismo | Exemplos clássicos |
|---|---|
| Aumento da pressão hidrostática | Insuficiência cardíaca (bilateral, maior à direita), pericardite constritiva |
| Queda da pressão oncótica | Cirrose com hidrotórax hepático (2/3 à direita), síndrome nefrótica |
| Aumento da permeabilidade | Pneumonia, tuberculose, neoplasias, embolia pulmonar, artrite reumatoide, lúpus |
| Pressão intrapleural muito negativa | Atelectasia, escavação pulmonar comunicada |
| Obstrução ou lesão de ductos e vasos | Linfoma, trauma ou cirurgia (ducto torácico), síndrome de Dressler tardia |
A tríade clássica é dispneia (proporcional ao volume e à reserva cardiorrespiratória), dor pleurítica (aguda, piora à inspiração, pode ceder quando o derrame separa as pleuras) e tosse seca. Derrames pequenos podem ser assintomáticos e manifestar-se apenas com fricção pleural (atrito). Sempre buscar sintomas da causa: febre e escara pneumônica (parapneumônico), febre vespertina, sudorese noturna e emagrecimento em jovem (tuberculose), perda ponderal, tabagismo e hemoptise (neoplásico), orthopnea e edema (cardíaco). No derrame maciço, dispneia grave e sinais de comprometimento do estado geral.
A radiografia de tórax em póstero-anterior e ortostatismo precisa de cerca de 200 mL de líquido para apagar o seio costofrênico; o perfil detecta a partir de 50-75 mL (seio costofrênico posterior), e o decúbito lateral com raio horizontal identifica coleções a partir de 5-50 mL, além de confirmar se o líquido é livre (camada de menos de 10 mm dificulta a punção; camada maior que 10-20 mm permite toracocentese segura). A ultrassonografia torácica é hoje o método de escolha: detecta volumes mínimos, diferencia derrame de espessamento pleural, identifica septações e lojacões, guia a punção (reduzindo pneumotórax iatrogênico para menos de 2%) e pode sugerir exsudato (derrame ecogênico, septado ou com debris). A tomografia com contraste diferencia pleura de parênquima, mostra espessamento e nodularidade (espessamento pleural maior que 1 cm sugere mesotelioma ou doença maligna) e investiga causa abdominal ou pulmonar.
| Método | Volume mínimo detectável | Principal utilidade |
|---|---|---|
| Radiografia PA ortostática | Cerca de 200 mL | Rastreamento inicial; apagamento do seio costofrênico |
| Radiografia em perfil | 50-75 mL | Seio costofrênico posterior, derrame subpulmonar |
| Decúbito lateral (raio horizontal) | 5-50 mL | Confirma líquido livre e mobilidade antes da punção |
| Ultrassonografia torácica | Poucos mililitros | Método de escolha: septações, guia de punção, estimativa de volume |
| Tomografia com contraste | Detecta mínimos | Espessamento e nódulos pleurais, doença pulmonar e abdominal associada |
A British Thoracic Society recomenda toracocentese diagnóstica para praticamente todo derrame unilateral com mais de 10 mm de espessura na ultrassonografia, e nos bilaterais quando o contexto clínico não é tipicamente cardíaco (febre, dor pleurítica, desproporção entre os lados) ou quando não há resposta ao tratamento. O líquido deve ser enviado para dosagem simultânea (líquido e soro) de proteínas e desidrogenase lática (LDH), glicose, pH, hemograma com contagem diferencial, bacterioscopia e cultura, citologia e ADA quando houver suspeita de tuberculose.
Cerca de 15-25% dos derrames de insuficiência cardíaca, especialmente sob uso vigoroso de diuréticos, comportam-se como pseudoexsudatos (o diurético concentra proteínas e LDH no líquido). Nesses casos, um gradiente de albumina sérica menos pleural maior que 1,2 g/dL, ou gradiente de proteínas maior que 3,1 g/dL, reclassifica o derrame como transudato e evita investigação invasiva desnecessária. Outro marcador útil: NT-proBNP no líquido pleural acima de 1.500 pg/mL indica origem cardíaca com sensibilidade e especificidade em torno de 90%.
| Parâmetro | Achado | Interpretação |
|---|---|---|
| ADA (adenosina desaminase) | Maior que 40 U/L | Tuberculose pleural; sensibilidade 90-100% e especificidade 85-95% em área endêmica |
| pH | Menor que 7,20 | Derrame complicado/empiema, tuberculose, neoplasia, ruptura esofágica, lúpus; indica dreno no parapneumônico |
| Glicose | Menor que 60 mg/dL | Empiema, artrite reumatoide, tuberculose, neoplasia; glicose muito baixa no reumatismo |
| Predominância linfocitária | Linfócitos acima de 50% (frequentemente 90%) | Tuberculose, neoplasia, pós-pontagem de safena, sarcoidose |
| Células mesoteliais | Menos de 5% | Sugere fortemente tuberculose; mesoteliais abundantes praticamente excluem TB pleural |
| Eosinófilos | Acima de 10% | Hemorragia ou pneumotórax prévios, fármacos, parasitoses (paracoccidioidomicose no Brasil) |
| Triglicerídeos | Maiores que 110 mg/dL | Quilotórax (lesão do ducto torácico, linfoma) |
| Amilase | Elevada | Ruptura esofágica (salivar) e pancreatite (pancreática) |
| Citologia | Positiva em 40-70% na 1ª amostra | Derrame maligno; rendimento maior em adenocarcinoma e com amostras seriadas |
| Hematócrito do líquido | Maior que 50% do hematócrito sanguíneo | Define hemotórax (trauma, iatrogenia, neoplasia) |
O pH deve ser colhido em seringa heparinizada, com gasômetro, idealmente levada em gelo e analisada em até 1-2 horas; amostras contaminadas por anestésico local com lidocaína ou por pus muito espesso geram valores falsamente baixos ou não confiáveis, e sangue arterial acidental eleva o pH. Hemoculturas e cultura do líquido com meios para anaeróbios são obrigatórias na suspeita de empiema (rendimento de 40-60%).
| Grupo | Causas principais | Pistas de prova |
|---|---|---|
| Transudatos | Insuficiência cardíaca, cirrose (hidrotórax hepático), síndrome nefrótica, atelectasia, diálise peritoneal | Bilaterais, indolores, LDH baixa; tratar a causa sem punção, salvo atipia |
| Parapneumônico | Pneumonia bacteriana, abscesso, ruptura esofágica | Contexto infeccioso; pH e glicose definem necessidade de dreno |
| Tuberculoso | TB pleural primária ou reativação | Jovem, exsudato linfocitário, ADA alto, mesoteliais ausentes |
| Maligno | Pulmão, mama, linfoma, mesotelioma | Idoso, tabagista, citologia positiva, derrame recidivante e sangrento |
| Reumáticos | Artrite reumatoide, lúpus, síndrome de Dressler | RA: exsudato com glicose muito baixa; lúpus: ANA e complemento no líquido |
| Abdominais | Pancreatite aguda ou crônica, abcesso subfrênico, urinotórax | Amilase elevada (pâncreas) ou creatinina do líquido maior que a sérica (urinotórax) |
Classifica-se em derrame parapneumônico simples (estéril, pH maior que 7,20, glicose maior que 60 mg/dL, LDH menor que 1.000 U/L, cultura negativa), complicado (pH menor que 7,20, glicose menor que 60 mg/dL, LDH maior que 1.000 U/L, cultura positiva ou Gram positivo, sem pus franco) e empiema (pus franco ou organismos visíveis no Gram). O simples resolve apenas com antibiótico; o complicado e o empiema exigem drenagem imediata, porque antibiótico isolado não penetra coleções lojaculadas.
Transudatos tratam-se tratando a doença de base: insuficiência cardíaca responde a diuréticos e ajuste de dose em dias (toracocentese terapêutica apenas se desconforto grave ou investigação); o hidrotórax hepático exige restrição de sódio (2 g/dia), espironolactona 100 mg somada a furosemida 40 mg (proporção 100:40) e, nos refratários, TIPS ou transplante, evitando punções seriadas que causam depleção proteica. Derrame da síndrome nefrótica resolve com controle da proteinúria.
No derrame maligno, a conduta é paliativa e guiada por sintomas: toracocentese terapêutica de repetição, pleurodese com talco (eficácia em torno de 70-90%, maior com talcoscopia do que com slurry) ou cateter pleural permanente (dreno tunelizado), que é a escolha no pulmão encarcerado, com boa sobrevida e baixa permanência hospitalar. Na tuberculose pleural, o tratamento é o esquema antituberculose padrão de 6 meses (fase intensiva com rifampicina, isoniazida e pirazinamida; etambutol é adicionado na fase intensiva em várias diretrizes, inclusive a da OMS, seguindo-se a fase de manutenção com rifampicina e isoniazida); dreno geralmente não é necessário, pois o líquido reabsorve-se em semanas, e corticoide não é rotina por falta de benefício consistente. Corticoides e imunossupressores são a base no lúpus; NSAIDs e colchicina na síndrome de Dressler.
O empiema não drenado progride em três fases (exsudativa, fibrinopurulenta e organizada) até o fibrotórax com pulmão encarcerado e perda irreversível da função ventilatória; a mortalidade varia em torno de 10-20%, maior em idosos, nos empiemas por anaeróbios e nos pacientes com comorbidades. O derrame tuberculoso pode deixar espessamento pleural e restrição tardia. O derrame maligno tem prognóstico reservado, com sobrevida mediana de 4 a 7 meses, pior no câncer de pulmão; o escore LENT (LDH do líquido, desempenho ECOG, relação neutrófilos-linfócitos e tipo de tumor) estratifica o risco e ajuda a escolher entre pleurodese agressiva e cateter pleural. Complicações da própria toracocentese incluem pneumotórax (menos de 2% com guia ecográfica), lesão intercostal vascular (punção abaixo da borda inferior da costela), tosse persistente e edema de reexpansão (evitar remover mais de 1,5 L de uma vez no derrame crônico).
1.Homem de 67 anos com insuficiência cardíaca apresenta derrame pleural à direita. Proteína pleural 3,4 g/dL (sérica 6,8 g/dL), relação LDH pleural/sérica 0,4 e LDH pleural 300 U/L (2/3 do limite sérico = 400 U/L). Pela classificação de Light, trata-se de:
2.Na análise do líquido de um derrame parapneumônico, o valor que, isoladamente, mais indica drenagem torácica é:
3.O melhor método de imagem para detectar pequenas coleções, identificar septações e guiar a toracocentese é:
4.Jovem de 24 anos, febre vespertina e dor pleurítica há 3 semanas. Exsudato linfocitário (92% linfócitos) com ADA de 58 U/L e virtual ausência de células mesoteliais. O diagnóstico mais provável é:
5.Paciente cirúrgico apresenta derrame leitoso após cirurgia torácica. O exame do líquido que confirma quilotórax é:
6.Idosa com insuficiência cardíaca em uso de furosemida tem exsudato pelos critérios de Light. O parâmetro que reclassifica o derrame como pseudoexsudato transudativo é:
7.Sobre o ensaio MIST2 no empiema loculado, a conduta que reduziu encaminhamento cirúrgico e internação foi:
8.Vítima de trauma apresenta líquido pleural com hematócrito de 24% e hematócrito sanguíneo de 45%. A conduta correta é:
9.Radiografia mostra opacidade de todo o hemitórax esquerdo com desvio do mediastino para a esquerda (mesmo lado). A interpretação correta é:
10.Derrame exsudativo recidivante em mulher de 70 anos, tabagista, com citologia negativa em duas amostras e líquido hemorrágico. O próximo passo com maior rendimento diagnóstico é:
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