carregando…
carregando…
Revisão completa de lesão e morte celular: causas e alvos moleculares da agressão, limiar entre lesão reversível e irreversível, vias da apoptose (intrínseca e extrínseca), padrões de necrose, morte celular regulada (necroptose, piroptose e ferroptose), correlações clínicas e laboratoriais. Inclui tabelas comparativas, 10 questões e flashcards.
[1] Kumar V, Abbas AK, Aster JC. Robbins & Cotran Pathologic Basis of Disease. 10th ed. Philadelphia: Elsevier; 2021 | [2] Galluzzi L, Vitale I, Aaronson SA, et al. Molecular mechanisms of cell death: recommendations of the Nomenclature Committee on Cell Death 2018. Cell Death Differ. 2018;25(3):486-541 · DOI 10.1038/s41418-017-0012-4 | [3] Hotchkiss RS, Strasser A, McDunn JE, Swanson PE. Cell death. N Engl J Med. 2009;361(16):1570-83 · DOI 10.1056/NEJMra0901217 | [4] World Health Organization. The top 10 causes of death. Fact sheet. Genebra: OMS; 2024 · https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/the-top-10-causes-of-death · DOI 10.1038/s41418-017-0012-4
A doença isquêmica do coração e o acidente vascular cerebral, líderes de mortalidade no mundo segundo a OMS, são essencialmente doenças de morte celular: milhões de cardiomiócitos e neurônios morrem por hipóxia e decidem a sobrevida do paciente em minutos. No outro extremo, o câncer existe porque células que deveriam morrer por apoptose não morrem. Compreender quando a lesão ainda é reversível e quando o ponto de não retorno foi ultrapassado é o que separa o músculo que se recupera após a reperfusão do infarto já estabelecido, e é exatamente esse limiar que as bancas exploram. Este artigo percorre a cadeia lógica completa: causas de agressão, alvos moleculares, adaptações, morte por apoptose, morte por necrose e suas variantes reguladas, com os exemplos clínicos que aparecem em prova.
As causas de lesão celular se agrupam em hipóxia e isquemia, agentes físicos (trauma, queimadura, radiação, extremos de temperatura), agentes químicos e drogas (álcool, chumbo, monóxido de carbono), agentes infecciosos, respostas imunes (hipersensibilidade, autoimunidade), distúrbios genéticos e desnutrição. A hipóxia isquêmica merece destaque: na isquemia o dano é mais rápido e grave do que na hipóxia isolada porque, além do déficit de oxigênio, cessa o aporte de substratos metabólicos e acumulam-se catabólitos, o que impede até o metabolismo anaeróbico de se sustentar.
Quando o estresse é subletal, a célula se adapta antes de morrer: atrofia (diminuição de tamanho por menor estímulo, inanição, desnervação ou compressão), hipertrofia (aumento por demanda, como o ventrículo na hipertensão), hiperplasia (aumento do número de células em tecidos hormonorresponsivos), metaplasia (troca de um fenótipo adulto por outro mais resistente, como a escamosa no epitélio bronquial do fumante) e displasia (proliferação desordenada pré-neoplásica). Essas adaptações são reversíveis ao remover o estímulo, mas podem servir de porta de entrada para o câncer.
Na lesão reversível predominam o edema celular (clarificação citoplasmática, tumefação mitocondrial, distorção das microvilosidades) e o acúmulo de lipídios (esteatose). A lesão torna-se irreversível quando três eventos se estabelecem: depleção profunda e persistente de ATP, permeabilização da membrana mitocondrial externa com liberação de citocromo c e proteínas proapoptóticas, e ruptura dos lisossomos com liberação de hidrolases que digerem a própria célula. No miocárdio, a lesão irreversível instala-se após cerca de 20 a 30 minutos de isquemia completa; a morte celular segue um padrão em onda do subendocárdio para o epicárdio ao longo de 3 a 6 horas de oclusão mantida, o que fundamenta a corrida da terapia de reperfusão.
A apoptose é morte celular programada, dependente de energia e de caspases (cisteíno-proteases que clivam após resíduos de ácido aspártico), geneticamente regulada e silenciosa para o sistema imune: a membrana se evagina em bolhas (blebs), a célula se fragmenta em corpos apoptóticos que são fagocitados sem resposta inflamatória. A cromatina se condensa (picnose) e o DNA é clivado entre nucleossomos por endonucleases, gerando fragmentos múltiplos de 180 a 200 pares de bases, o padrão em escada da eletroforese. O processo dura horas e não eleva exames inespecíficos, porque não há liberação maciça de enzimas nem exsudato.
A via intrínseca (mitocondrial) responde a estímulos como privação de fatores de crescimento, dano ao DNA, ERO e estresse do retículo endoplasmático. O sensor é a família BCL-2: proteínas antiapoptóticas (BCL-2, BCL-XL, MCL-1) mantêm a integridade da membrana mitocondrial externa, enquanto as proapoptóticas BAX e BAK a permeabilizam (MOMP), liberando citocromo c. No citosol, o citocromo c se une ao APAF-1 e à procaspase-9 formando o apoptossomo, que ativa a caspase-9 (iniciadora). Na via extrínseca (receptoral), ligantes como FasL e TNF ocupam os receptores Fas (CD95) e TNFR1, cujos domínios de morte recrutam e ativam a caspase-8 (iniciadora). Ambas as vias convergem para as caspases executadoras 3, 6 e 7, que clivam o citoesqueleto, a lâmina nuclear, a PARP e o inibidor ICAD, liberando a endonuclease CAD e executando o desmonte ordenado da célula.
Necrose é a sequência morfológica que se segue à morte celular por agressão externa grave, sempre com perda da integridade da membrana, intumescência da célula e desnaturação e coagulação de proteínas. A digestão enzimática das células mortas atrai neutrófilos nas primeiras 24 a 72 horas, configurando a reação inflamatória que a apoptose não gera, e o material liberado eleva enzimas séricas (troponina, CK-MB, AST, LDH, amilase) usadas clinicamente para inferir extensão e tempo da necrose. Os padrões morfológicos da necrose são diretamente cobrados em prova porque cada um denuncia sua causa.
| Padrão de necrose | Mecanismo e morfologia | Sítios clássicos | Pista de prova |
|---|---|---|---|
| Coagulativa | desnaturação de proteínas preserva a arquitetura tecidual por dias; citoplasma eosinofílico e núcleo picnótico | miocárdio, rim, fígado e baço isquêmicos | infarto do miocárdio e infarto renal pálido por arteriolosclerose |
| Liquefativa | digestão enzimática completa transforma o tecido em pus ou líquido viscoso | encéfalo (infartos) e abscessos | acidente vascular encefálico isquêmico após alguns dias |
| Caseosa | variante da coagulativa com material granular amarelo-esbranquiçado, tipo queijo, encerrado por granuloma | tuberculose, algumas micoses e linfogranuloma venéreo | granuloma epitelióide com células gigantes de Langhans |
| Gangrenosa | necrose coagulativa com aspecto mumificado; a úmida soma infecção com liquefação; a gasosa soma Clostridium perfringens com crepitação | membros inferiores, apêndice, vesícula biliar | pé diabético com crepitação ao exame sugere gangrena gasosa |
| Fibrinoide | depósito de complexos imunes e proteínas plasmáticas na parede vascular, com aspecto vítreo e eosinofílico | vasculites, hipertensão maligna, nódulos reumatoides, lúpus | poliarterite nodosa com necrose fibrinoide de artérias de médio calibre |
| Adiposa | a lipase pancreática digere gordura e libera ácidos graxos que se ligam ao cálcio, formando sabões calcários; a forma traumática (mama) rompe adipócitos sem enzimas | pâncreas e gordura peripancreática, mama | pancreatite aguda com hipocalcemia por sequestro de cálcio |
A dicotomia necrose-acidental versus apoptose-programada caiu por terra com a descoberta de mortes necróticas programadas, com vias moleculares definidas e potencial terapêutico. A necroptose mimetiza a morfologia da necrose, mas é executada por um complexo programado: quando a caspase-8 está inibida (comum em infecções virais), o sinal de TNFR1 monta o complexo RIPK1-RIPK3, que fosforila a MLKL; a MLKL fosforilada se oligomeriza e rompe a membrana, com liberação de DAMPs e inflamação. A piroptose é morte piogênica de células infectadas: o inflamassoma (sensor NLRP3 unido à caspase-1, ou caspases 4, 5 e 11 no reconhecimento direto do LPS) cliva a gasdermina D, cujo domínio N-terminal perfura a membrana, ao mesmo tempo em que a caspase-1 matura IL-1β e IL-18, produzindo intenso quadro inflamatório na sepse. A ferroptose é morte por peroxidação lipídica ferro-dependente: a inativação ou insuficiência da GPX4 (glutationa peroxidase 4) deixa os fosfolipídios da membrana à mercê da química de Fenton, com citoplasma denso e mitocôndrias encolhidas; é inibida experimentalmente por ferrostatina-1 e deferoxamina e está implicada em lesão de reperfusão, doenças neurodegenerativas e na morte de células tumorais resistentes à apoptose.
| Modalidade | Maquinária essencial | Gatilho típico | Contexto clínico |
|---|---|---|---|
| Apoptose | BCL-2 versus BAX/BAK, MOMP, apoptossomo (APAF-1 + citocromo c + caspase-9), caspases 3, 6 e 7 | privação de fatores de crescimento, dano ao DNA via p53, FasL e granzima B | embriogênese, involução hormonal, rejeição de enxerto, corpos de Councilman |
| Necroptose | RIPK1, RIPK3 e MLKL fosforilada | TNF com caspase-8 bloqueada (vírus) | lesão de isquemia-reperfusão e doenças inflamatórias intestinais |
| Piroptose | inflamassoma NLRP3, caspase-1 (ou 4, 5 e 11), gasdermina D, IL-1β e IL-18 | padrões microbianos e cristais de urato e colesterol | sepse, gota, aterosclerose |
| Ferroptose | falência da GPX4, peroxidação lipídica ferro-dependente, sistema xc- | depleção de glutationa e excesso de ferro livre | doença renal crônica, neurodegeneração, terapia antitumoral |
| Netose | expulsão de DNA e grânulos por neutrófilos, citrulinação de histonas por PAD4 | infecções e complexos imunes | armadilhas extracelulares de neutrófilos, lúpus, trombose |
| Morte autofágica | autofagossomos e lisossomos, LC3-II, p62/SQSTM1 | privação nutricional prolongada quando a autofagia não basta | centros de tumores sólidos hipóxicos e mal vascularizados |
A autofagia é a digestão intracelular de componentes próprios em vacúolos de membrana dupla (autofagossomos) que fundem com lisossomos, fornecendo aminoácidos e energia durante o jejum e removendo organelas danificadas. O eixo mTOR (que reprime a autofagia quando há nutrientes e insulina) e AMPK/ULK1 (que a ativam no estresse energético) controla a formação dos autofagossomos, marcada pela lipidacão de LC3 (LC3-II). Na maioria dos cenários a autofagia é citoprotetora: sem ela, mitocôndrias e proteínas alteradas acumulam-se e empurram a célula para apoptose ou necrose. Existem doenças por falência do sistema (mutações de genes de autofagia em doenças neurodegenerativas e miopatias vacuolares) e por excesso sustentado, que culmina em morte autofágica com acúmulo de vacúolos, típica dos centros de tumores sólidos hipóxicos.
| Atributo | Apoptose | Necrose |
|---|---|---|
| Estímulo | fisiológico ou patológico discreto, programado | agressão externa intensa (isquemia, toxina, trauma) |
| Dependência de ATP | sim, absoluta (a queda grave de ATP desvia para necrose) | não, acentua-se justamente quando o ATP cai |
| Membrana plasmática | íntegra até o fim, com blebs e corpos apoptóticos | rompida precocemente, com liberação de enzimas |
| Inflamação | ausente, com fagocitose silenciosa | presente, com exsudato neutrofílico |
| DNA | fragmentação internucleossomal em escada de 180-200 pb | degradação aleatória com padrão difuso (smear) |
| Enzimas efetoras | caspases 3, 6 e 7 e endonuclease CAD | hidrolases lisossomais, sem caspases |
| Cromatina | condensada e periférica, picnose | cariorrexe e cariólise por digestão |
| Fagocitose | por macrófagos e células vizinhas, sem dano colateral | por neutrófilos atraídos pelos DAMPs, com dano colateral |
| Exemplos | involução mamária, corpos de Councilman, rejeição celular | infarto miocárdico, abscesso, pancreatite, tuberculose |
A necrose é visível ao laboratório porque libera enzimas: na necrose miocárdica, a troponina I e T começa a subir 3 a 4 horas após a oclusão (algoritmo de 0 e 3 horas com troponina ultrasensível), permanece elevada por até 10 a 14 dias e sua área sob a curva estima a massa perdida; a CK-MB sobe em 4 a 6 horas, tem pico em torno de 24 horas e normaliza em 48 a 72 horas, sendo útil para suspeita de reinfarto precoce e lesão periprocedimento. Na necrose hepática, AST e ALT podem exceder milhares de U/L; na pancreatite necrosante, a lipase (mais específica que a amilase) sobe tipicamente a mais de 3 vezes o limite superior do referencial. Na necrose tumoral e na hemólise, a LDH se eleva. A apoptose, ao contrário, exige métodos dedicados: TUNEL (marcação das extremidades do DNA fragmentado), imuno-histoquímica para caspase-3 clivada e identificação de corpos apoptóticos, empregados em pesquisa e como marcadores prognósticos em tumores.
Se a morte celular errada causa doença, ela também virou alvo terapêutico real. O exemplo maduro é a oncologia: o inibidor de BCL-2 venetoclax, na dose de 400 mg por via oral uma vez ao dia (após escalada inicial para prevenir síndrome de lise tumoral), associado à azacitidina, é padrão em leucemia mieloide aguda de adultos não elegíveis à quimioterapia intensiva, e na leucemia linfocítica crônica em combinação com anti-CD20. No extremo oposto, proteger células da morte é a lógica da reperfusão precoce no infarto (angioplastia primária dentro de 90 a 120 minutos da chegada ao serviço), da hipotermia terapêutica pós-parada cardiorrespiratória e dos inibidores experimentais de caspases, das necrostatinas (bloqueio de RIPK1) e das ferrostatinas (bloqueio da ferroptose), que reduzem a lesão de isquemia-reperfusão em modelos, ainda sem aprovação clínica. A reperfusão, porém, é faca de dois gumes: o retorno do oxigênio gera explosão de ERO e lesão de reperfusão que amplifica a necrose das células já comprometidas.
O destino clínico da necrose depende do tecido e da extensão: cardiomiócitos e neurônios são células terminais e a perda é definitiva, com cicatriz funcional no miocárdio e encefalomalácia no sistema nervoso; epitélios e fígado regeneram a partir das células sobreviventes. No infarto com sobrevida, as primeiras 24 a 72 horas de inflamação neutrofílica concentram o risco de ruptura da parede ventricular, com pericardite epistenocárdica entre o segundo e o quarto dia; a substituição por colágeno culmina em cicatriz em cerca de 6 semanas, e a dilatação ventricular com aneurisma é complicação tardia. Complicações gerais da necrose extensa incluem síndrome da resposta inflamatória sistêmica com falência de múltiplos órgãos, síndrome de lise tumoral após morte maciça de células neoplásicas e fibrose progressiva quando o dano é crônico e recorrente, cicatrizando o órgão em um ciclo de lesão e reparo que termina em insuficiência.
1.Homem de 62 anos com dor precordial há 6 horas apresenta supradesnivelamento de ST e troponina ultrasensível francamente elevada. O padrão de necrose esperado no território ocluído é:
2.Qual opção associa corretamente as caspases iniciadoras e executadoras da apoptose?
3.A biópsia hepática de paciente com icterícia por hepatite viral mostra hepatócitos eosinofílicos arredondados, com núcleo fragmentado e sem infiltrado neutrofílico ao redor. O achado corresponde a:
4.A fragmentação do DNA em múltiplos inteiros de 180 a 200 pares de bases, formando padrão em escada na eletroforese, ocorre por:
5.A via molecular que caracteriza a necroptose envolve:
6.Mulher com pancreatite aguda grave desenvolve hipocalcemia. O mecanismo que melhor explica o achado é:
7.O linfoma folicular ilustra qual alteração da regulação da morte celular?
8.Paciente com poliarterite nodosa apresenta necrose da parede de pequenas e médias artérias, com depósito proteico vítreo e eosinofílico. O padrão descrito é:
9.A ferroptose diferencia-se das outras modalidades de morte celular principalmente por:
10.Após 5 dias de evolução, um infarto cerebral isquêmico mostra o tecido encefálico destruído transformando-se em material amolecido. O padrão de necrose e sua explicação são:
acesso de membros
Matérias, materiais na íntegra, resumos, quiz e revisões ficam liberados na sua conta — a prévia desfocada é só um gostinho.
Entrar e continuar