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Revisão completa de genética clínica para provas de Patologia Geral: tipos de mutação, aneuploidias, síndromes de microdeleção, heranças mendeliana, mitocondrial e multifatorial, teratologia, diagnóstico molecular e aconselhamento genético com os números cobrados em prova.
[1] Kumar V, Abbas AK, Aster JC. Robbins & Cotran — Patologia Básica. 11ª ed. Elsevier; 2023 (capítulos de genética e doenças do desenvolvimento) | [2] Bull MJ, AAP Committee on Genetics. Health Supervision for Children With Down Syndrome. Pediatrics. 2011;128(2):393-406 · DOI 10.1542/peds.2011-1605 | [3] MRC Vitamin Study Research Group. Prevention of neural tube defects: results of the Medical Research Council Vitamin Study. Lancet. 1991;338(8760):131-137 · DOI 10.1016/S0140-6736(05)92842-6 | [4] Adam MP et al (eds). GeneReviews. University of Washington, Seattle; 1993-2026 · https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK1116 | [5] OMIM — Online Mendelian Inheritance in Man. Johns Hopkins University · https://omim.org
Os distúrbios genéticos e do desenvolvimento respondem por parcela substancial da morbidade pediátrica: cerca de 2% a 4% dos recém-nascidos vivos apresentam anomalia congênita maior, e as causas genéticas e congênitas figuram entre as principais causas de mortalidade infantil no Brasil e no mundo, com estimativa global da OMS de centenas de milhares de óbitos neonatais por ano atribuíveis a anomalias congênitas. Para a prova de Patologia Geral o tema é cobrado em três eixos que se complementam: interpretar padrões de herança em heredogramas, associar síndromes cromossômicas clássicas aos seus cariótipos e explicar os mecanismos moleculares — mutação, expansão de repetições, imprinting e erros da morfogênese — que produzem fenótipos que aparentemente desobedecem à herança mendeliana simples. Este artigo percorre os três eixos com os números, critérios e pegadinhas de maior rendimento em prova.
Distúrbio genético é toda doença causada por alteração do material hereditário — desde a troca de uma única base (mutação pontual) até ganhos ou perdas de cromossomos inteiros — ou por erros de programação epigenética, como o imprinting genômico. Já os distúrbios do desenvolvimento englobam as anomalias congênitas geradas durante a embriogênese, sejam por causas genéticas intrínsecas (malformações) ou por agressões extrínsecas ao embrião (disrupções e deformações). A distinção importa porque o mesmo fenótipo pode ter origem genética, ambiental ou mista, o que muda o risco de recorrência informado no aconselhamento genético.
| Grupo de distúrbios | Mecanismo | Exemplos canônicos |
|---|---|---|
| Citogenético numérico | Não-disjunção meiótica ou mitótica | Trissomias 21, 18 e 13; 47,XXY; 45,X |
| Citogenético estrutural | Quebra e rearranjo cromossômico | Cri-du-chat (del 5p); 22q11.2; translocação robertsoniana |
| Monogênico dominante | Uma cópia mutada basta (haploinsuficiência ou ganho de função) | Acondroplasia, Marfan, neurofibromatose 1, Huntington |
| Monogênico recessivo | Ambas as cópias mutadas (frequentemente perda de função enzimática) | Fibrose cística, fenilcetonúria, anemia falciforme |
| Ligado ao X | Gene no cromossomo X, com portadoras frequentemente assintomáticas | Distrofia de Duchenne, hemofilia A, Daltonismo |
| Mitocondrial | DNA mitocondrial mutado, herdado só da mãe | MELAS, neuropatia óptica hereditária de Leber |
Mutações germinativas estão presentes em todas as células do indivíduo e são transmissíveis; mutações somáticas ocorrem após a concepção e explicam mosaicos e, no adulto, o câncer. Quando a mutação ocorre em células embrionárias precoces, o paciente é mosaico: parte do tecido é normal e parte é mutada, o que produz fenótipos atenuados — situação clássica na trissomia 21 por mosaicismo (cerca de 2% a 4% dos casos). O efeito da mutação sobre a proteína é o que a prova realmente cobra, porque permite prever o padrão de herança: perda de função em enzimas costuma ser recessiva (a dose normal compensa), perda de função em proteínas estruturais costuma ser dominante (o produto anormal danifica o normal, efeito dominante negativo) e ganhos de função são dominantes por definição.
| Tipo de mutação | Efeito sobre a proteína | Exemplo cobrado em prova |
|---|---|---|
| Silenciosa | Nenhuma (códons sinônimos) | Polimorfismos neutros |
| Missense | Substituição de um aminoácido | HbS: glutamato por valina na posição 6 da beta-globina |
| Nonsense | Cóton de parada precoce e proteína truncada | Distrofina truncada em Duchenne |
| Frameshift (mudança de matriz) | Deslocamento da leitura com proteína não funcional | Deleção de um par de bases em DMD |
| Sítio de splice | Erro de processamento do RNAm | Beta-talassemia por mutação de splicing do gene HBB |
| Expansão de repetições | Instabilidade meiótica com antecipação | X frágil (CGG), Huntington (CAG) |
| Dominante negativa | Monômero mutado inativa o multímero normal | Osteogênese imperfeita (colágeno) |
| Ganho de função | Proteína com função nova ou exacerbada | Acondroplasia (FGFR3), Huntington |
| Haploinsuficiência | Metade da dose não é suficiente | Síndrome de Marfan (FBN1), síndrome de Williams (ELN) |
Aneuploidia é o desvio do número cromossômico haploide ou diploide normal. Nas trissomias autossômicas, cerca de 95% resultam de não-disjunção meiótica, quase sempre na meiose I materna, e a incidência aumenta exponencialmente com a idade materna — a base do rastreio pré-natal. Na trissomia 21, aproximadamente 3% a 4% dos casos decorrem de translocação robertsoniana envolvendo o cromossomo 21, situação em que um dos pais pode ser portador equilibrado do rearranjo e o risco de recorrência muda radicalmente: cerca de 10% a 15% se a portadora for a mãe e 1% a 3% se for o pai. O mosaicismo responde pelos casos restantes. Vale fixar que a monossomia X (Turner) é a única monossomia viável em humanos e que as trissomias 18 e 13 têm sobrevida inferior a um ano na grande maioria dos casos.
| Síndrome | Cariótipo e incidência | Achados de prova |
|---|---|---|
| Down (trissomia 21) | 47,XX,+21 ou 47,XY,+21 — cerca de 1 em 700 nascidos vivos | Hipotonia neonatal, fenda palpebral oblíqua, epicanto, prega palmar única em cerca de 50%, clinodactilia do 5º dedo, defeito cardíaco congênito em 40% a 50% (canal atrioventricular), maior risco de leucemia e de doença de Alzheimer após os 40 anos (gene APP no cromossomo 21) |
| Edwards (trissomia 18) | 47,+18 — cerca de 1 em 6.000 a 8.000 nascidos vivos | Baixo peso, mão em garra com sobreposição dos dedos, hipoplasia ungueal, pés em rocha (rocker-bottom), cardiopatia congênita, sobrevida menor que 1 ano na maioria |
| Patau (trissomia 13) | 47,+13 — cerca de 1 em 10.000 nascidos vivos | Holoprosencefalia, microftalmia, fissura labiopalatina, polidactilia, aplasia cutânea do couro cabeludo, sobrevida menor que 1 ano na maioria |
| Klinefelter | 47,XXY — cerca de 1 em 700 homens | Hipogonadismo hipergonadotrófico, infertilidade por atrofia tubular, ginecomastia, hábito longilíneo, FSH e LH elevados |
| Turner | 45,X — cerca de 1 em 2.500 meninas nascidas | Única monossomia viável; baixa estatura, pescoço alado, linfedema neonatal, coarctação da aorta, disgenesia gonadal com amenorreia e FSH elevado |
As aberrações estruturais surgem de quebras cromossômicas com reunião anômala: deleção (perda de segmento), duplicação, inversão, anel e translocação. Translocações equilibradas (recíprocas ou robertsonianas) não causam fenótipo anormal no portador, mas geram gametas desequilibrados e abortamentos ou síndromes na descendência — por isso o cariótipo dos pais é obrigatório quando o recém-nascido afetado tem translocação. As microdeleções são perdas submicroscópicas (milhares a milhões de bases) invisíveis ao cariótipo convencional, detectadas por FISH ou microarray, e produzem síndromes de contiguidade gênica em que o fenótipo depende dos genes perdidos. As cinco de maior rendimento em prova estão na tabela abaixo.
| Síndrome | Alteração e gene principal | Fenótipo-chave |
|---|---|---|
| Cri-du-chat | Deleção do braço curto do cromossomo 5 (5p) | Choro semelhante a miado de gato, deficiência intelectual, microcefalia |
| DiGeorge / velocardiofacial | Microdeleção 22q11.2, gene TBX1 | Aplasia ou hipoplasia tímica e paratireoidiana com hipocalcemia, cardiopatia conotruncal (tetralogia, tronco arterial), fenda palatina, defeitos de T-células (mnemônico CATCH-22) |
| Williams | Microdeleção 7q11.23, gene ELN | Facies de duende, hipercalcemia na infância, estenose aórtica supravalvar, personalidade hiperssocial com déficit visuoespacial |
| Prader-Willi | Perda da contribuição paterna de 15q11-q13 (deleção paterna em 70% ou disomia uniparental materna) | Hipotonia neonatal, hiperfagia com obesidade, hipogonadismo, deficiência intelectual leve |
| Angelman | Perda da contribuição materna de 15q11-q13 (deleção materna ou disomia uniparental paterna; UBE3A) | Riso frequente e aparência de marionete feliz, ataxia com movimentos tipo flapping, crises epilépticas, ausência quase completa de fala |
| Wolf-Hirschhorn | Deleção distal de 4p | Microcefalia com perfil em capacete grego, deficiência intelectual grave, crises epilépticas |
Na herança autossômica dominante a transmissão é vertical (gerações sucessivas afetadas), o risco para cada filho é de 50% e não há diferença entre sexos; mutações novas são frequentes quando a doença reduz a aptidão reprodutiva — cerca de 80% dos casos de acondroplasia e metade dos de neurofibromatose tipo 1 surgem de mutações de novo, associadas à idade paterna avançada. Na herança autossômica recessiva a transmissão é horizontal (irmãos afetados, pais saudáveis), o risco de recorrência é de 25%, a consanguinidade aumenta a probabilidade e predominam defeitos enzimáticos de perda de função. Nas doenças ligadas ao X recessivas, homens afetados transmitem o alelo a todas as filhas (portadoras) e a nenhum filho; as mulheres portadoras podem expressar fenótipo parcial pela inativação aleatória do X (lionização). A herança mitocondrial é exclusivamente materna: o pai não transmite, porque o espermatozoide contribui com quase nenhuma mitocôndria.
| Padrão de herança | Exemplos com gene | Assinatura que resolve a questão |
|---|---|---|
| Autossômica dominante | Acondroplasia (FGFR3, ganho de função); Marfan (FBN1); NF1 (cromossomo 17); Huntington (HTT) | Transmissão vertical, risco de 50%, alta taxa de mutações novas com idade paterna avançada, expressividade variável |
| Autossômica recessiva | Fibrose cística (CFTR, delta F508, portadores 1 em 25 caucasianos); fenilcetonúria (PAH, 1 em 10.000 a 15.000); anemia falciforme (HBB) | Irmãos afetados com pais sadios, consanguinidade, risco de 25%, frequentemente defeitos enzimáticos |
| Ligada ao X recessiva | Duchenne (distrofina, 1 em 3.500 a 5.000 meninos, um terço de mutações novas); hemofilia A (fator VIII) | Homens afetados, mulheres portadoras, pai afetado transmite a todas as filhas e a nenhum filho, CK muito elevada em Duchenne |
| Ligada ao X dominante | Raquitismo hipofosfatêmico vitamina D resistente; síndrome de Rett (MECP2, letal em meninos na forma clássica) | Homens mais gravemente afetados do que as mulheres heterozigotas |
| Mitocondrial | MELAS; neuropatia óptica hereditária de Leber (LHON) | Transmissão só materna, heteroplasemia e efeito limiar: tecidos de alta demanda de ATP (SNC, músculo, retina) são os mais afetados |
As doenças por expansão de repetições de trinucleotídeos têm duas características que a prova adora: instabilidade meiótica com antecipação (gerações sucessivas adoecem mais cedo e mais gravemente, porque a repetição cresce) e efeito de origem parental (a expansão cresce mais na espermatogênese em algumas doenças e na ovogênese em outras). Em paralelo, o imprinting genômico demonstra que herdamos cópias parentalmente marcadas de certos genes: na região 15q11-q13, os genes relacionados a Prader-Willi só são expressos do cromossomo paterno e o UBE3A só do materno, nos neurônios. Perder a contribuição paterna causa Prader-Willi; perder a materna, Angelman — a mesma deleção, fenótipos completamente distintos conforme o parental de origem.
| Doença | Repetição e limiares | Pegadinha de prova |
|---|---|---|
| Síndrome do X frágil | CGG no promotor do FMR1: normal abaixo de 45; premutação 55 a 200; mutação completa acima de 200 com metilação e silenciamento | Principal causa hereditária de deficiência intelectual em meninos (macroorquidismo, face longa, orelhas grandes); a premutação em mulheres causa insuficiência ovariana prematura e tremor/ataxia em homens idosos |
| Doença de Huntington | CAG no HTT: normal até 26; alelo de penetrância reduzida 36 a 39; mutação completa 40 ou mais | Antecipação típica da transmissão paterna; coréia, psicose e demência com início entre 30 e 45 anos; ganho de função tóxico |
| Distrofia miotônica tipo 1 | CTG no gene DMPK: sintomático acima de 50 repetições; forma congênita com milhares | Antecipação frequente na transmissão materna; miotonia, catarata precoce, arritmias cardíacas e endocrinopatias |
| Ataxia de Friedreich | GAA intrônico no gene da frataxina (FXN) | A grande exceção: herança autossômica recessiva, não dominante como as demais expansões |
A maioria das anomalias congênitas comuns — defeitos do tubo neural, fissura labiopalatina, estenose hipertrófica de piloro, luxação congênita do quadril — e das doenças crônicas do adulto (diabetes tipo 1 e 2, hipertensão, esquizofrenia, cardiopatias congênitas isoladas) segue herança multifatorial: muitos genes de efeito pequeno somados a fatores ambientais, com um modelo de limiar de liabilities além do qual o fenótipo se expressa. O risco de recorrência não é calculado por leis mendelianas, mas empiricamente: em geral 2% a 5% para parentes de primeiro grau, subindo com o número de familiares afetados e com a gravidade do defeito no caso índice. A concordância entre gêmeos monozigóticos fica entre 20% e 45% (nunca 100%), outro marcador de prova de herança não mendeliana.
Teratógeno é qualquer agente químico, físico ou biológico que produz anomalias congênitas quando a exposição ocorre em janela crítica do desenvolvimento. A suscetibilidade é máxima entre a 3ª e a 8ª semana de gestação (período organogenético, contado da última menstruação), quando se formam os órgãos; na fase pré-implantação vale a regra do tudo ou nada (morte ou reparo integral) e após a 8ª semana predominam defeitos de crescimento e funcionais, com o SNC permanecendo sensível até o termo por continuar se diferenciando. A classificação dos erros da morfogênese separa quatro mecanismos com exemplos fixos de prova: malformação (defeito intrínseco do tecido, como a polidactilia), deformação (força extrínseca sobre tecido normal, como o pé torto por oligoidrâmnio), disrupção (destruição de tecido normal, como as bridas amnióticas) e displasia (organização tecidual anormal, como nas displasias ectodérmicas).
| Teratógeno | Janela crítica | Defeitos característicos |
|---|---|---|
| Álcool | Todo a gestação, sem dose segura | Espectro alcoólico fetal: déficit de crescimento, facies característica com filtro liso, deficiência intelectual — principal causa evitável de deficiência intelectual |
| Talidomida | 24 a 36 dias pós-concepção | Focomelia (encurtamento grave dos membros) |
| Isotretinoína oral | 1º trimestre | Embriopatia por retinoide: orelhas anômalas, defeitos cardíacos e do SNC, timo hipoplásico |
| Ácido valproico | 1º trimestre | Defeitos do tubo neural em 1% a 2% dos expostos, cerca de 10 vezes o risco basal |
| Varfarina | 1º trimestre e final da gestação | Hipoplasia nasal, epífises puntiformes; risco hemorrágico fetal no 3º trimestre |
| Inibidores da ECA | 2º e 3º trimestres | Oligoidrâmnio, hipoplasia renal, hipoplasia pulmonar secundária, cranioestenose |
| Lítio | 1º trimestre | Anomalia de Ebstein (risco absoluto baixo, cerca de 1 em 1.000 expostos) |
| Tetraciclinas | 2º e 3º trimestres | Discromia e hipoplasia do esmalte dentário |
| Rubéola (infecção) | 1º trimestre | Tríade de Gregg: catarata, cardiopatia e surdez |
| Diabetes materno mal controlado | Periconcepcional | Risco 3 a 4 vezes maior de malformações, incluindo regressão caudal |
O grupo TORCH (toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus, herpes e outras como sífilis e zika vírus) resume as infecções congênitas que mimetizam distúrbios genéticos: restrição de crescimento, hepatite, púrpura trombocitopênica, coriorretinite e calcificações intracranianas. No Brasil, zika vírus e toxoplasmose são diferenciais obrigatórios diante de microcefalia congênita, e a sífilis congênita permanece notificação compulsória. A mensagem de prova: antes de rotular uma anomalia congênita como genética, investigue teratógenos e infecções gestacionais — o risco de recorrência e a conduta são completamente diferentes.
A escolha do exame genético depende da pergunta clínica. O cariótipo convencional (células em metáfase) detecta aneuploidias e rearranjos maiores que 5 a 10 megabases e continua sendo o exame indicado quando se suspeita de síndrome cromossômica clássica ou de translocação. O FISH usa sondas específicas para regiões-alvo e entrega resultado em 24 a 48 horas, ideal para microdeleções conhecidas (22q11.2, 5p) e para diagnóstico rápido de trissomia 21 em pré-natal. O microarray cromossômico (array-CGH/SNP) eleva a resolução para 10 a 100 kilobases e é hoje o exame de primeira linha em deficiência do desenvolvimento, autismo e anomalias congênitas múltiplas com cariótipo normal, com acréscimo diagnóstico de 10% a 15% sobre o cariótipo. O sequenciamento de exoma identifica variantes de sequência em toda a fração codificante e alcança rendimento diagnóstico de 25% a 40% nessas mesmas populações, frequentemente resolvendo casos anos depois do início da investigação. O teste pré-natal livre de DNA fetal (NIPS) é rastreio, não diagnóstico: sensibilidade acima de 99% para trissomia 21, mas exige confirmação por cariótipo em líquido amniótico antes de qualquer decisão terapêutica.
| Exame | O que detecta e resolução | Indicação principal |
|---|---|---|
| Cariótipo convencional | Aneuploidias e rearranjos maiores que 5 a 10 Mb | Suspeita de síndrome cromossômica clássica; confirmação de NIPS positivo |
| FISH | Sondas para regiões-alvo; resultado em 24 a 48 h | Microdeleções conhecidas (22q11.2, cri-du-chat) e resultado rápido |
| Microarray cromossômico | Cópia de variantes (CNVs) de 10 a 100 kb | Primeira linha em deficiência do desenvolvimento, autismo e anomalias múltiplas com cariótipo normal |
| Sequenciamento de exoma | Variantes de nucleotídeo em toda fração codificante; rendimento 25% a 40% | Doenças mendelianas e síndromes genéticas sem diagnóstico por cariótipo/microarray |
| DNA fetal livre (NIPS) | Rastreio de trissomias 21, 18, 13 e monossomia X no plasma materno | Rastreio pré-natal; resultado positivo exige cariótipo confirmatório |
No rastreio neonatal brasileiro, o teste do pezinho básico (Portaria de incorporação, cobertura universal pelo SUS) investiga seis doenças: fenilcetonúria, hipotireoidismo congênito, doença falciforme e outras hemoglobinopatias, fibrose cística, hiperplasia adrenal congênita e deficiência de biotinidase. Os testes expandidos (painéis complementares privados) acrescentam dezenas de erros inatos do metabolismo. O princípio que une todos é o benefício da janela de oportunidade: tratar antes do sintoma, como na fenilcetonúria, em que a dieta restrita em fenilalanina iniciada na primeira semana de vida preserva praticamente por completo o desenvolvimento neurológico.
O aconselhamento genético transforma a classificação acima em números concretos para a família. Riscos gerais de partida: qualquer casal tem risco basal de 3% a 4% de anomalia congênita maior por gestação. Após um filho com defeito multifatorial, o risco de recorrência empírico fica entre 2% e 5%. A idade materna eleva o risco de trissomia 21 de cerca de 1 em 1.250 aos 25 anos para 1 em 350 aos 35, 1 em 100 aos 40 e 1 em 30 aos 45 anos. Já a trissomia 21 por não-disjunção confere risco de recorrência de cerca de 1% somado ao risco por idade — número que justifica oferecer rastreio intensificado na gestação seguinte. A tabela consolidada abaixo é a mais rentável para revisão de véspera.
| Situação | Risco numérico de prova |
|---|---|
| Basal de anomalia congênita maior (qualquer casal) | 3% a 4% por gestação |
| Idade materna de 35 anos (trissomia 21) | cerca de 1 em 350 |
| Idade materna de 40 anos (trissomia 21) | cerca de 1 em 100 |
| Idade materna de 45 anos (trissomia 21) | cerca de 1 em 30 |
| Um filho com doença multifatorial (ex.: defeito do tubo neural) | 2% a 5% de recorrência; com 4 mg de ácido fólico periconcepcional a recorrência de DTN cai 72% |
| Herança autossômica dominante (um dos pais afetado) | 50% por gestação |
| Herança autossômica recessiva (pais heterozigotos) | 25% por gestação |
| Ligada ao X recessiva (mãe portadora) | 50% dos meninos afetados; meninas portadoras |
| Translocação robertsoniana t(14;21) com mãe portadora | 10% a 15% de recorrência; com pai portador, 1% a 3% |
A síndrome de Down ilustra por que o diagnóstico genético muda o seguimento clínico: deficiência intelectual de grau variável, cardiopatia congênita em 40% a 50% (com necessidade de ecocardiograma no primeiro mês), hipotireoidismo (TSH neonatal e anual), maior prevalência de doença celíaca e diabetes tipo 1, risco relativo elevado de leucemias na infância, otites e apneia obstrutiva do sono recorrentes, instabilidade atlantoaxial a avaliar antes de esportes, doença de Alzheimer com neuropatologia a partir dos 40 anos e expectativa de vida que hoje supera os 60 anos em países com programas estruturados. As trissomias 18 e 13 permanecem de prognóstico sombrio, com sobrevida média de semanas e menos de 10% a 15% de sobrevida em um ano, o que coloca a discussão de cuidados paliativos como parte do manejo. Em Turner, o seguimento foca cardiologia (coarctação e valvopatia aórtica, com risco de dissecção), baixa estatura (hormônio do crescimento) e indução da puberdade; em Klinefelter, reposição de testosterona e suporte à fertilidade. Nas doenças por expansão, o teste genético dos familiares em risco permite aconselhamento reprodutivo, incluindo diagnóstico pré-implantacional.
1.Recém-nascido com fenótipo de Down apresenta cariótipo 46,XX,rob(14;21),+21. Qual é a conduta correta e o risco de recorrência se a mãe for portadora da translocação?
2.Menino de 8 anos com deficiência intelectual, face longa, orelhas grandes e macroorquidismo. O mecanismo molecular da doença suspeita é:
3.Criança com riso frequente, ataxia, movimentos de flapping das mãos, crises epilépticas e ausência quase completa de fala. A alteração genética esperada é:
4.Homem de 38 anos com coréia progressiva e antecedente familiar com início cada vez mais precoce nas gerações sucessivas, transmitida pelo avô e pelo pai. O padrão descrito corresponde a:
5.O período da gestação com maior suscetibilidade a teratógenos para produção de malformações estruturais maiores é:
6.Recém-nascido com hipotonia importante e dificuldade de alimentação; na evolução, hiperfagia com obesidade grave, hipogonadismo e deficiência intelectual leve. O mecanismo mais frequente é:
7.Sobre a distrofia muscular de Duchenne, assinale a correta:
8.Jovem com acidente vascular isquêmico, enxaqueca, epilepsia, miopatia e acidose lática; a mãe e dois irmãos maternos apresentam sintomas variados de gravidade distinta. O padrão de herança e o conceito que explicam a variabilidade são:
9.Adolescente do sexo feminino com baixa estatura, pescoço alado, amenorreia primária e FSH elevado. Sobre a alteração cromossômica envolvida, é correto afirmar:
10.Criança de 4 anos com deficiência global do desenvolvimento, fenótipo dismórfico sutil e cariótipo convencional normal. Qual o próximo exame de maior rendimento diagnóstico?
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