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Revisão integrada da patologia renal glomerular e cristalina: síndromes nefrítica e nefrótica, doença de mudanças mínimas, HSF, glomerulonefrite membranosa com anti-PLA2R, nefropatia IgA e escore de Oxford, glomerulonefrite pós-infecciosa, nefrite lúpica com as classes ISN/RPS, glomerulonefrites rapidamente progressivas, nefropatias cristalinas e do mieloma, correlação com microscopia óptica, imunofluorescência e eletrônica, e tratamento com doses conforme KDIGO 2021 e ensaios TESTING e MENTOR.
[1] Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) Glomerular Diseases Work Group. KDIGO 2021 Clinical Practice Guideline for the Management of Glomerular Diseases. Kidney International. 2021;100(4S):S1-S276 · DOI 10.1016/j.kint.2021.01.027 | [2] Kumar V, Abbas AK, Aster JC. Robbins & Cotran Pathologic Basis of Disease. 10th ed. Philadelphia: Elsevier, 2021 | [3] Lv J, Wong MG, Hodge JC, et al. Effect of oral methylprednisolone on clinical outcomes in patients with IgA nephropathy (TESTING randomized clinical trial). JAMA. 2017;318(5):432-442 · DOI 10.1001/jama.2017.13336 | [4] Fervenza FC, Appel GB, Barbour SJ, et al. Rituximab or cyclosporine in the treatment of membranous nephropathy. New England Journal of Medicine. 2019;381(1):36-46 · DOI 10.1056/NEJMoa1814427 | [5] Yu ASL, Chertow GM, Luyckx VA, et al. Brenner & Rector's The Kidney. 11th ed. Philadelphia: Elsevier, 2020 · DOI 10.1016/j.kint.2021.01.027
As doenças glomerulares respondem por cerca de 10 a 15% dos casos de doença renal crônica terminal no mundo, e no Brasil as glomerulonefrites estão entre as principais causas de terapia renal substitutiva em adultos jovens, faixa em que superam diabetes e hipertensão. Para a prova de Patologia Especial, o tema é organizado em duas grandes lentes que se complementam: a lente sindrômica (nefrítica versus nefrótica, com proteinúria, hematúria e complemento como eixos) e a lente da microscopia (padrão de proliferação, imunofluorescência e localização dos depósitos à microscopia eletrônica). Este artigo cobre as principais glomerulopatias com seus achados patognomônicos, somando as nefropatias cristalinas e do mieloma, que completam a patologia renal do interstício e que cada vez mais aparecem em questões integradas.
Antes de qualquer biópsia, o conjunto clínico-laboratorial já aponta o território. A síndrome nefrítica traduz inflamação proliferativa com ruptura da barreira: hematúria dismórfica com cilindros hemáticos, hipertensão, oligúria, azotemia e proteinúria subnefrótica (0,5 a 3 g/dia). A síndrome nefrótica traduz perda de seletividade da barreira à albumina: proteinúria de 3,5 g ou mais por 24 horas, hipoalbuminemia abaixo de 3 g/dL, edema (que pode chegar à anasarca), hiperlipidemia com lipidúria (corpos graxos ovais e cruz de Malta sob luz polarizada) e tendência trombótica. Entre as duas, há síndromes mistas e formas assintomáticas (hematúria isolada ou proteinúria baixa), além da glomerulonefrite rapidamente progressiva, urgência nefrológica definida por queda de função renal em dias a semanas com crescentes à biópsia.
| Característica | Síndrome nefrítica | Síndrome nefrótica |
|---|---|---|
| Proteinúria | 0,5 a 3 g/24 h | ≥ 3,5 g/24 h (≥ 3 g/1,73 m² em crianças) |
| Urina tipo 1 | Hematúria dismórfica com cilindros hemáticos | Lipidúria e cilindros graxos; hematúria rara |
| Pressão e débito | Hipertensão e oligúria frequentes | Pressão variável; oligúria só na insuficiência renal |
| Albumina e edema | Albumina normal ou pouco reduzida; edema periférico leve | Albumina < 3 g/dL; edema brando, anasarca e derrames |
| Lipídeos | Normais | Colesterol e triglicerídeos elevados |
| Exemplos | Pós-infecciosa, IgA, lúpus proliferativo, RPGN | Mudanças mínimas, HSF, membranosa, amiloidose, diabetes |
A barreira de filtração tem três camadas: endotélio fenestrado com glicocálix cargado negativamente, membrana basal glomerular (colágeno tipo IV, laminina e heparam sulfato) e o podócito, cujos processos pedicelares se mantêm unidos pelo diafragma de fenda feito de nefrina, podocina e CD2AP. Doenças do podócito (mudanças mínimas, HSF, mutações de NPHS1, NPHS2 e TRPC6) causam proteinúria seletiva sem depósitos imunes; doenças imunológicas causam depósitos in situ (anti-GBM ligando o colágeno IV, anticorpo anti-PLA2R no domínio M1 do receptor no podócito) ou imunocomplexos circulantes que ficam retidos (lúpus, IgA, pós-infecciosa). A ativação do complemento termina no complexo de ataque de membrana C5b-9, que estimula podócito e mesângio a produzirem oxidantes, proteases e citocinas; na microscopia eletrônica, o marcador indireto de lesão podocitária imune é a fusão (apagamento) dos processos pedicelares.
A doença de mudanças mínimas (lipoid nephrosis) é a causa de 70 a 90% das síndromes nefróticas em crianças menores de 10 anos (pico entre 2 e 6 anos, predomínio masculino) e de apenas 10 a 15% em adultos. À microscopia óptica o glomérulo é normal (daí o nome), a imunofluorescência é negativa e a eletrônica mostra o achado singular: fusão dos processos pedicelares do podócito, hoje atribuída a um fator circulante permeabilidade que some após remissão. A resposta à prednisona é excelente (mais de 90% das crianças entram em remissão em 4 a 8 semanas), porém 70 a 80% recidivam, e recidivantes frequentes ou dependentes recebem ciclofosfamida, inibidor de calcineurina ou rituximabe. Em adultos com síndrome nefrótica pura e exames negativos, assume-se mudanças mínimas apenas depois de excluir secundarismo, e a biópsia é indicada antes do corticoide.
| Aspecto | Mudanças mínimas | Hialose segmentar e focal (HSF) |
|---|---|---|
| Idade e população | Crianças de 2 a 6 anos | Adolescentes e adultos; mais comum em afrodescendentes |
| Microscopia óptica | Glomérulo normal | Esclerose segmentar de alguns lobos glomerulares |
| Imunofluorescência | Negativa | IgM e C3 inespecíficos nos segmentos esclerosados |
| Microscopia eletrônica | Fusão podocitária isolada | Fusão podocitária mais esclerose segmentar e colapso |
| Resposta ao corticoide | Mais de 90% respondem | 40 a 60% respondem; muitos esteroide-resistentes |
| Prognóstico | Excelente, com recidivas | Cerca de 50% evoluem para doença renal terminal em 10 anos |
| Recidiva pós-transplante | Rara | 30 a 40%, às vezes em horas (fator circulante) |
A HSF não é uma doença única: variantes colapsante (a mais grave, associada a vírus da imunodeficiência humana, uso de anabolizantes e variantes genéticas do APOL1 em pessoas de ascendência africana), perihilar, celular, tip e NOS diferem em prognóstico. A forma esteroide-resistente da criança obriga a pensar em doença genética do podócito (NPHS1 da nefrina, NPHS2 da podocina, WT1, INF2, TRPC6), que não responde a imunossupressão e pode recidivar menos no transplante enxertado; já a HSF recidivante pós-transplante responde a plasmaférese, inibidor de calcineurina e rituximabe, confirmando o fator circulante.
A glomerulonefrite membranosa é a causa mais comum de síndrome nefrótica em adultos brancos não diabéticos (30 a 40% dos casos biopsiados), com pico entre 40 e 60 anos. É doença de depósitos subepiteliais (entre a membrana basal e o podócito): a microscopia óptica mostra espessamento difuso da parede capilar sem hiperplasia celular, a prata-metenamina desenha espiculações (spike and dome) da membrana basal intercalando os depósitos, a imunofluorescência é granular fina e difusa de IgG (sobretudo IgG4) com C3, e a eletrônica confirma depósitos subepiteliais com fusão podocitária. Aproximadamente 70 a 80% dos casos primários têm anticorpo anti-PLA2R (receptor da fosfolipase A2 no podócito), que serve de marcador de atividade, resposta ao tratamento e recidiva; os demais são secundários.
A nefropatia IgA (doença de Berger) é a glomerulonefrite mais comum do mundo e a principal causa de glomerulonefrite primária no Brasil e na Ásia. A apresentação clássica é hematúria macroscópica sinfaríngica: sangue visível 24 a 72 horas após infecção de vias aéreas superiores (ao contrário da pós-infecciosa, que aparece 1 a 3 semanas depois), alternando com hematúria microscópica persistente e proteinúria variável. O mecanismo multi-hit envolve IgA1 deficiente em galactose (Gd-IgA1), anticorpos IgG anti-Gd-IgA1 que formam imunocomplexos circulantes e deposição mesangial com ativação local do complemento via via alternativa e lectina. À biópsia: hiperplasia mesangial com depósitos de IgA na imunofluorescência (achado definidor) e depósitos eletrodensos paramesangiais à eletrônica; o escore de Oxford MEST-C (hiperplasia mesangial M, hipercelularidade endocapilar E, esclerose segmentar S, atrofia tubular e fibrose intersticial T, crescentes C) estratifica o risco de piora da função renal e a resposta ao tratamento.
A glomerulonefrite pós-infecciosa (pós-estreptocócica) atinge crianças de 2 a 12 anos, 1 a 3 semanas após faringite (anti-ASO elevado) ou 3 a 6 semanas após piodermite e impetigo (anti-DNase B). O quadro é nefrítico agudo: hematúria marrom, edema periorbitário, hipertensão e oligúria com C3 baixo e C4 normal; o C3 normaliza em 6 a 8 semanas, e se permanecer baixo após 8 a 12 semanas deve-se pensar em glomerulopatia C3 ou lúpus. À patologia: glomérulos difusos e exsudativos com polimorfonucleares, imunofluorescência granular em roseta (estrela do céu) de C3 e IgG, e microscopia eletrônica com corcovas subepiteliais (humps) de imunocomplexos. O tratamento é de suporte (diurético, controle de pressão, penicilina para erradicar o foco) e mais de 95% das crianças recuperam-se completamente; adultos têm prognóstico pior.
| Classe ISN/RPS da nefrite lúpica | Padrão histológico | Conduta típica |
|---|---|---|
| I - mesangial inaparente | Depósitos de imunocomplexos só à imunofluorescência ou eletrônica | Controle do lúpus extrarrenal e hidroxicloroquina |
| II - proliferativa mesangial | Hiperplasia mesangial leve | IECA/BRAA se proteinúria; imunossupressão raramente |
| III - focal | Proliferação endocapilar e crescentes em menos de 50% dos glomérulos | Indução com imunossupressor |
| IV - difusa | Mais de 50% dos glomérulos; alças em arame (wire loops); full house | Indução com micofenolato ou ciclofosfamida IV |
| V - membranosa | Depósitos subepiteliais; síndrome nefrótica | Como membranosa; combinar se há classe IV + V |
| VI - esclerosante avançada | Mais de 90% de glomérulos esclerosados | Terapia renal substitutiva; sem imunossupressão |
Na nefrite lúpica, a imunofluorescência full house (IgG, IgA, IgM, C3 e C1q) traduz a deposição inespecífica de anticorpos contra material nucleico, e as alças em arame (wire loops) correspondem a grandes depósitos subendoteliais que ativam o complemento. A indução da classe III ou IV é feita por 6 meses com micofenolato mofetil 2 a 3 g/dia ou ciclofosfamida IV (regime Euro-Lupus 500 mg a cada 2 semanas por 6 doses), combinados a corticoide (pulse de metilprednisolona seguido de prednisona oral em desmame); a manutenção usa micofenolato 2 g/dia ou azatioprina. Hidroxicloroquina em todos os pacientes (5 mg/kg/dia), porque reduz flares, dano renal acumulado e mortalidade.
A glomerulonefrite rapidamente progressiva é uma síndrome, não uma doença: perda de função renal em dias a semanas com hematúria dismórfica e proteinúria, cuja biópsia mostra crescentes (proliferação de células epiteliais parietais e macrófagos na cápsula de Bowman) em mais de 50% dos glomérulos. A classificação por imunofluorescência divide em três tipos com condutas diferentes, e a sobreposição com sangramento alveolar (síndrome pulmão-rim) torna a apresentação emergencial.
| Tipo de RPGN | Imunofluorescência e sorologia | Exemplos e conduta |
|---|---|---|
| Tipo I - anti-GBM | Linear difusa de IgG ao longo da membrana basal; anti-GBM positivo | Síndrome de Goodpasture com hemoptise; plasmaférese diária associada a pulse de metilprednisolona e ciclofosfamida |
| Tipo II - imunocomplexos | Granular; complemento variável conforme a base | Lúpus IV, IgA, pós-infecciosa, crioglobulinemia; trata-se a doença de base |
| Tipo III - pauci-imune | Poucos ou nenhum depósito; ANCA positivo (PR3 na granulomatose com poliangiite, MPO na poliangiite microscópica) | Idosos com insuficiência renal rapidamente progressiva; pulse de corticoide + ciclofosfamida ou rituximabe |
Diferenciais de síndrome pulmão-rim que aparecem em prova: síndrome de Goodpasture (anti-GBM linear, hemorragia alveolar difusa), granulomatose com poliangiite (c-ANCA/PR3, nódulos pulmonares cavitados, sinusite), poliangiite microscópica (p-ANCA/MPO, púrpura e glomerulonefrite), nefropatia IgA com pneumopatia e crioglobulinemia (HCV, púrpura palpável e C4 baixo). A vasculite leucocitoclástica da púrpura de Henoch-Schönlein (IgA) é a forma infantil da nefropatia IgA, com tétrade de púrpura dos membros inferiores, artralgia, dor abdominal e hematúria.
As nefropatias cristalinas lesam o néfron por precipitação intratubular com obstrução e inflamação intersticial, e o exame habitual é a análise de cristalúria com luz polarizada e o sedimento urinário. A nefropatia urática aguda é a emergência da síndrome de lise tumoral: quimioterapia de doenças de alta massa celular (linfomas, leucemias) libera purinas, potássio e fósforo, definindo lise laboratorial com ácido úrico maior ou igual a 8 mg/dL, potássio maior ou igual a 6 mEq/L, fósforo maior ou igual a 4,5 mg/dL no adulto e creatinina alta; o ácido úrico precipita nos túbulos, formando cilindros ácido-úrico-positivos. A profilaxia é hidratação vigorosa e alopurinol 300 mg/dia; o tratamento estabelecido é rasburicase 0,15 a 0,2 mg/kg IV uma vez ao dia por até 3 a 7 dias, que converte urato em alantoina solúvel e é contraindicada na deficiência de G6PD por hemólise e metemoglobinemia.
| Cristal ou lesão | Contexto clínico | Achado característico |
|---|---|---|
| Urato monossódico | Lise tumoral, síndromes mieloproliferativas, doença de deposição de urato | Ácido úrico alto, cilindros amorfos e cristais birrefringentes; tinta de De Galantha positiva |
| Fosfato de cálcio | Hipercalcemia, excesso de vitamina D, alcalose, síndrome leite-alcalino | Cristais birrefringentes não especificamente; nefrocalcinose à imagem |
| Oxalato de cálcio | Intoxicação por etilenoglicol, enteropatias perdedoras, cirurgia bariátrica | Cristais em envelope birrefringentes na urina com acidose metabólica de ânion gap alto |
| Estruvita (fosfato de amônio e magnésio) | ITU por Proteus e bactérias ureolíticas | Urina alcalina (pH maior que 7) e cálculos coraliformes em chifre de veado |
| Cristais de drogas | Aciclovir em bólus rápido, sulfadiazina, indinavir, metotrexato, triantereno | Cristais em agulha no sedimento; oligúria e desidratação agravam a precipitação |
| Cilindros de cadeias leves (mieloma) | Mieloma múltiplo com proteína de Bence Jones | Cilindros eosinofílicos frágeis, PAS-negativos, com reação gigantocelular e calcificação |
No mieloma, a nefropatia por cilindros (cast nephropathy) é a principal causa de injúria renal aguda: as cadeias leves livres (sobretudo lambda) ligam a proteína de Tamm-Horsfall no túbulo distal formando cilindros obstrutivos com reação inflamatória gigantocelular, agravados por desidratação, contraste iodado e anti-inflamatórios não esteroides. O tratamento é hidratação com salina, correção de cálcio, bortezomibe com dexametasona e, nos casos graves, diálise com filtros de alta permeabilidade ou plasmaférese. Distinção histológica obrigatória: na amiloidose AL as cadeias leves formam depósitos extracelulares congófilos com birrefringência maçã-verde à luz polarizada, que afetam glomérulos e vasos com proteinúria nefrótica e cardiopatia restritiva; na doença por depósitos de cadeias leves (LCDD) os depósitos são granulares, lineares ao longo das membranas basais glomerular e tubular, congó-negativos e de cadeia kappa na maioria.
A investigação de uma glomerulopatia segue uma ordem fixa: urina tipo 1 com sedimento (dismórficos, cilindros), proteinúria quantitativa (relação proteína/creatinina ou coleta de 24 horas), função renal com equação, sorologia completa e, quando indicado, biópsia renal. A biópsia é indicada em síndrome nefrótica do adulto (para classificar), síndrome nefrítica ou rapidamente progressiva, proteinúria acima de 1 g/dia com hematúria dismórfica ou função renal em queda, e suspeita de nefropatia por imunoglobulinas; na criança com síndrome nefrótica pura assume-se mudanças mínimas e trata-se sem biópsia. O fragmento é dividido em três partes: microscopia óptica (HE, PAS, tricrômico e prata-metenamina), imunofluorescência com anti-IgG, IgA, IgM, C3, C1q, kappa e lambda, e microscopia eletrônica para localizar os depósitos.
| Achado sorológico | Diagnóstico sugerido |
|---|---|
| C3 baixo com C4 normal e ASO ou anti-DNase B elevados | Glomerulonefrite pós-estreptocócica |
| C3 e C4 baixos com FAN e anti-DNA positivos | Nefrite lúpica proliferativa (classe III/IV) |
| C3 persistentemente baixo com C4 normal e C3NeF | Glomerulopatia C3 (doença dos depósitos densos) |
| Complementos normais com hematúria sinfaríngica | Nefropatia IgA |
| Anti-GBM positivo | RPGN tipo I (Goodpasture) |
| ANCA PR3 ou MPO positivos | RPGN pauci-imune (granulomatose com poliangiite ou poliangiite microscópica) |
| Anti-PLA2R positivo | Glomerulonefrite membranosa primária |
| HBsAg, anti-HCV ou crioglobulinas positivas | Membranosa ou membranoproliferativa associada a hepatites |
Toda glomerulopatia proteinúrica recebe a base de tratamento chamada de terapia de suporte otimizada, que por si só muda o curso da doença: inibidor da enzima de conversão ou bloqueador do receptor de angiotensina na dose máxima tolerada (meta de pressão abaixo de 125/75 mmHg e proteinúria abaixo de 1 g/dia, idealmente abaixo de 0,5 g/dia), restrição de sódio a 2 g/dia, diurético de alça para o edema (furosemida 40 a 240 mg/dia, associada à albumina 0,5 a 1 g/kg quando a albumina é menor que 2 g/dL e o edema refratário), estatina para a hiperlipidemia e anticoagulação discutida quando a albumina é menor que 2,5 g/dL na membranosa. Os inibidores de SGLT2 passaram a integrar o arsenal da doença renal crônica proteinúrica por reduzirem a progressão, e a vacinação antipneumocócica e antigripal é indicada em toda síndrome nefrótica pela perda de imunoglobulinas.
| Doença | Imunossupressão de primeira linha | Doses e duração típicas |
|---|---|---|
| Mudanças mínimas | Prednisona oral | Criança 60 mg/m²/dia (máx 80) por 4-8 semanas; adulto 1 mg/kg/dia por até 16 semanas; recidivante: ciclofosfamida 2 mg/kg/d por 8-12 semanas ou inibidor de calcineurina ou rituximabe |
| HSF | Prednisona; esteroide-resistente: inibidor de calcineurina | Prednisona 1 mg/kg/dia por 12-16 semanas; ciclosporina 3-5 mg/kg/dia ou tacrolimus por 12 meses ou mais |
| Membranosa de alto risco | Rituximabe (ou ciclofosfamida alternada com corticoide, ou calcineurina) | Rituximabe 375 mg/m² semanal por 4 semanas ou 1 g nos dias 1 e 15; monitorar anti-PLA2R em 3 e 6 meses |
| Nefropatia IgA | Corticoide após suporte otimizado | Prednis(o)lona 0,6-0,8 mg/kg/dia com teto de 48 mg, desmame em torno de 6 meses, se proteinúria persistente acima de 1 g/dia |
| Nefrite lúpica III/IV | Indução com micofenolato ou ciclofosfamida IV | Micofenolato 2-3 g/dia por 6 meses ou ciclofosfamida IV 500 mg a cada 2 semanas por 6 doses (Euro-Lupus); manutenção com micofenolato 2 g/dia ou azatioprina |
| RPGN ANCA ou anti-GBM | Pulse de metilprednisolona + ciclofosfamida ou rituximabe; plasmaférese no anti-GBM | Metilprednisolona 500-1.000 mg IV por 3 dias; prednisona 1 mg/kg/dia em desmame; plasmaférese diária por 7-14 sessões com hemorragia alveolar ou diálise inicial |
A síndrome nefrótica tem quatro complicações que sustentam questões: trombose (perda urinária de antitrombina III, proteínas C e S, com aumento de fibrinogênio; TVP, TEP e trombose de veia renal, mais comum à esquerda e na membranosa), infecção (perda de IgG e do fator B do complemento: peritonite primária por pneumococo, celulite e pneumonia, com indicação de vacina antipneumocócica), hiperlipidemia aterogênica (aumento de síntese hepática de VLDL e LDL, com risco cardiovascular de longo prazo) e hipovitaminose D com hipocalcemia relativa por perda de proteína carreadora e vitamina D ligadora. O prognóstico divide-se: mudanças mínimas têm sobrevida renal praticamente normal; a HSF leva cerca de metade dos pacientes à doença renal terminal em 10 anos; a membranosa segue a regra dos terços; a nefropatia IgA progride para doença renal terminal em 20 a 40% dos casos em 20 anos (proteinúria persistente, hipertensão e fibrose intersticial T2/T3 de Oxford são os preditores); e a nefrite lúpica IV sem tratamento leva metade dos pacientes à insuficiência renal em 5 anos, número que cai para menos de 20% em 10 anos com indução e manutenção adequadas.
1.Qual achado de microscopia eletrônica define a doença de mudanças mínimas?
2.A hematúria macroscópica da nefropatia IgA tipicamente aparece quanto tempo após infecção de vias aéreas superiores?
3.O marcador sorológico da glomerulonefrite membranosa primária, presente em 70 a 80% dos casos, é:
4.Na síndrome nefrótica, qual definição de proteinúria delimita o critério para adultos?
5.Paciente de 68 anos com insuficiência renal rapidamente progressiva, imunofluorescência sem depósitos e p-ANCA (anti-MPO) positivo. Qual o mecanismo e a conduta?
6.Na nefrite lúpica, a classe IV (difusa) compromete qual proporção de glomérulos e tem qual assinatura imunohistoquímica?
7.Qual achado laboratorial diferencia a glomerulonefrite pós-estreptocócica da nefropatia IgA?
8.Sobre o ensaio TESTING na nefropatia IgA, qual foi o resultado central?
9.Paciente em lise tumoral com ácido úrico de 14 mg/dL e creatinina em ascensão. Qual contraindicação específica da rasburicase deve ser rastreada?
10.Qual achado diferencia a nefropatia por cilindros do mieloma da amiloidose AL na biópsia renal?
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