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Revisão completa da toxoplasmose: ciclo do Toxoplasma gondii, formas clínicas no imunocompetente, na gestação e no imunossuprimido, diagnóstico sorológico e molecular, esquemas terapêuticos com doses e a associação com transtornos psiquiátricos. Traz tabelas de risco de transmissão fetal, diagnóstico diferencial de lesões em anel e 10 questões comentadas.
[1] Montoya JG, Liesenfeld O. Toxoplasmosis. Lancet. 2004;363:1965-76 · DOI 10.1016/S0140-6736(04)16412-X | [2] Robert-Gangneux F, Dardé ML. Epidemiology of and diagnostic strategies for toxoplasmosis. Clin Microbiol Rev. 2012;25:264-96 · DOI 10.1128/CMR.05013-11 | [3] SYROCOT (Systematic Review on Congenital Toxoplasmosis) Study Group. Effectiveness of prenatal treatment for congenital toxoplasmosis: a meta-analysis of individual patients' data. Lancet. 2007;369:115-22 · DOI 10.1016/S0140-6736(07)60072-5 | [4] Brasil. Ministério da Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco. Brasília: MS; 2022 · gov.br/saude | [5] Panel on Opportunistic Infections in Adults and Adolescents with HIV. Guidelines for the Prevention and Treatment of Opportunistic Infections in Adults and Adolescents with HIV. NIH/CDC/IDSA · clinicalinfo.hiv.gov | [6] Torrey EF, Bartko JJ, Yolken RH. Toxoplasma gondii and other risk factors for schizophrenia: an update. Schizophr Bull. 2012;38:642-7 · DOI 10.1093/schbul/sbs043 · DOI 10.1016/S0140-6736(04)16412-X
O Toxoplasma gondii é um protozoário coccídeo intracelular obrigatório da família Sarcocystidae, um dos parasitas de maior sucesso evolutivo: infecta todas as células nucleadas de mamíferos e aves, em qualquer continente. O hospedeiro definitivo — o único em que ocorre o ciclo sexuado enteroepitelial — é o felídeo (gato doméstico e selvagens), que elimina oocistos nas fezes por uma a três semanas após a primoinfecção, geralmente apenas uma vez na vida. Os oocistos não esporulados precisam de um a cinco dias no meio ambiente para se tornarem infecciosos e permanecem viáveis por meses a anos em solo úmido, areia e água. Hospedeiros intermediários, incluindo o ser humano, abrigam duas formas relevantes: o taquizoíto, que se multiplica rapidamente por endodiogenia na fase aguda e invade tecidos, e o bradizoíto, que forma cistos tissulares de parede fina, metabolicamente lentos, no músculo esquelético e cardíaco, na retina e no encéfalo, onde persistem por toda a vida do hospedeiro.
Existem três formas infecciosas: oocistos esporulados (ingestão de água e alimentos contaminados, geofagia, areia de gato), cistos tissulares com bradizoítos (carne crua ou malpassada de porco, ovino e caça — principal via no mundo) e taquizoítos (via transplacentária, transfusão de sangue, transplante de órgão e acidente de laboratório). Geneticamente, as cepas clássicas se agrupam em clados I, II e III, mas no Brasil circulam cepas atípicas e recombinantes com virulência aumentada, o que ajuda a explicar a maior frequência de toxoplasmose ocular e de formas graves em imunocompetentes observada no país em comparação com a Europa e a América do Norte.
Toxoplasmose é a infecção pelo T. gondii, na grande maioria das vezes latente e assintomática, mas com espectro clínico que vai da linfadenopatia autolimitada até a doença potencialmente fatal do sistema nervoso central em imunossuprimidos e a infecção congênita devastadora. A classificação clinicamente útil cruza três eixos: via de aquisição (adquirida versus congênita), status imunológico do hospedeiro (imunocompetente versus imunossuprimido) e topografia do adoecimento (linfadenopática, ocular, encefálica, disseminada). Outra distinção essencial é entre primoinfecção — doença aguda por taquizoítos, com parasitemia e risco de transmissão vertical — e reativação — ruptura de cistos tissulares com conversão de bradizoítos em taquizoítos quando cai a imunidade celular, mecanismo da toxoplasmose cerebral na AIDS e da retinite recorrente.
Estima-se que cerca de um terço da população mundial tenha sorologia positiva, com variação enorme conforme clima, hábitos alimentares e contato com gatos e solo: de 10% em alguns países do norte da Europa a mais de 70% em regiões da América Latina e da África Ocidental. No Brasil, inquéritos realizados em diferentes regiões encontram soroprevalência em adultos que varia de aproximadamente 50% a 80%, historicamente mais alta no Sul e em áreas rurais, com aquisição precoce na infância em comunidades com saneamento precário. Duas particularidades brasileiras marcam a epidemiologia: a alta circulação de cepas atípicas, associada à toxoplasmose ocular, que é a principal causa de uveíte posterior infecciosa no país e uma das principais causas de cegueira prevenível em jovens; e a ocorrência de grandes surtos veiculados por água de abastecimento e alimentos contaminados por oocistos, descritos em vários estados. Na gestação, a taxa de soroconversão depende da soroprevalência local e da faixa etária, e a incidência de toxoplasmose congênita sintomática é subestimada, porque a maioria dos recém-nascidos infectados nasce sem sinais.
Após ingestão, os bradizoítos dos cistos tissulares (ou os esporozoítos dos oocistos) resistem parcialmente ao suco gástrico, invadem o enterócito e convertem-se em taquizoítos, que se multiplicam, rompem a célula e disseminam por via linfática e hematogênica. Na parasitemia, os taquizoítos infectam qualquer célula nucleada. A resposta imune inata — macrófagos ativados, IL-12, fator de necrose tumoral alfa e, sobretudo, interferon-gama produzido por linfócitos T CD4 e CD8 — controla a replicação e força a conversão dos taquizoítos em bradizoítos, formando cistos tissulares preferencialmente no músculo, na retina e no encéfalo. Estabelece-se então a infecção latente, na qual a imunidade celular mantém o equilíbrio: se ela cai — AIDS com CD4 baixo, transplante de órgão sólido com linfócitos T de doador soropositivo, quimioterapia, corticoterapia intensa — os cistos rompem, os bradizoítos voltam a ser taquizoítos e provocam necrose focal com inflamação, o substrato do abscesso cerebral e da retinite necrosante.
Na gestante, a primoinfecção gera parasitemia transiente com possibilidade de infecção placentária e passagem transplacentária de taquizoítos; a placentação e a imunidade materna modulam o risco, que cresce com a idade gestacional, enquanto a gravidade do dano fetal é inversa — quanto mais precoce a infecção, menor a chance de transmissão, porém mais grave o quadro quando ela ocorre. A imunidade prévia (IgG positiva antes da gestação) protege contra nova infecção por cepas clássicas na imensa maioria dos casos, razão pela qual a reativação congênita é relevante apenas na imunossupressão e na infecção primária por cepas atípicas em gestantes já soropositivas, situação rara, mas descrita no Brasil.
Entre 80% e 90% das primoinfecções em imunocompetentes são assintomáticas ou passam por virose banal. A forma sintomática clássica é a síndrome linfadenopática: febre baixa persistente, astenia intensa e linfonodomegalias firmes, móveis e indolores, mais frequentemente cervicais posteriores, podendo simular mononucleose por Epstein-Barr e citomegalovírus — diferencial importante porque a toxoplasmose tem monospot negativo e atypical linfocitose. Mialgias, cefaleia, faringite e rash maculopapular raro completam o quadro, com resolução espontânea em semanas a poucos meses, sem necessidade de tratamento, exceto em doença visceral persistente ou comprometimento de órgão. Formas incomuns em imunocompetentes incluem miocardite, pericardite, pneumonite, hepatitis com transaminases elevadas e coriorretinite — estas últimas mais frequentes no Brasil, associadas às cepas atípicas. Toxoplasmose grave, disseminada ou recorrente em paciente aparentemente imun competente deve motivar investigação de imunodeficiência, incluindo sorologia para HIV.
O risco de transmissão vertical existe apenas na primoinfecção materna (ou na reativação por imunossupressão) e depende da idade gestacional na soroconversão: cresce progressivamente do primeiro para o terceiro trimestre, enquanto a gravidade cai na mesma direção. A infecção no primeiro trimestre raramente se transmite, mas quando o faz causa abortamento, hidrocefalia, calcificações cerebrais difusas, coriorretinite e óbito fetal; no terceiro trimestre transmite-se na maioria das vezes, porém o recém-nascido costuma ser assintomático ao nascer, correndo risco de coriorretinite, deficiência auditiva e sequelas neurocognitivas tardias se não for tratado. A metanálise SYROCOT, com dados individuais de 1.438 crianças, mostrou que o tratamento pré-natal iniciado até três semanas após a soroconversão associa-se a menor transmissão em comparação com início tardio, embora o efeito sobre sinais clínicos da doença congênita seja pequeno e impreciso — o que não dispensa o tratamento, mas fundamenta a necessidade de diagnóstico precoce.
| Idade gestacional na primoinfecção | Risco de transmissão fetal | Gravidade típica da doença congênita |
|---|---|---|
| Primeiro trimestre (até 12 semanas) | Cerca de 10 a 15% | A mais grave: abortamento, hidrocefalia, calcificações, coriorretinite, óbito |
| Segundo trimestre (13 a 27 semanas) | Cerca de 25 a 40% | Doença moderada: coriorretinite, calcificações, raramente hidrocefalia |
| Terceiro trimestre (28 semanas a termo) | Cerca de 60 a 80% | A maioria assintomática ao nascer, com risco tardio de coriorretinite e déficits |
A triagem sorológica no pré-natal varia entre países: obrigatória e mensal na França e na Áustria, não rastreada rotineiramente no Reino Unido; no Brasil não há programa nacional unificado, mas a sorologia IgG e IgM no primeiro consulta é recomendada pela maioria dos protocolos, incluindo o Manual de Gestação de Alto Risco do Ministério da Saúde. Gestante IgG e IgM negativas é suscetível e deve receber orientações de prevenção com retestagem conforme protocolo do serviço (mensal ou trimestral); IgG positiva e IgM negativa indica imunidade prévia, sem risco de transmissão na imunocompetente; IgM positiva nunca é tratada como sinônimo de infecção aguda sem confirmação, porque o IgM pode persistir detectável por meses a anos: solicita-se IgG avidez (avidez alta exclui infecção adquirida nos 3 a 4 meses anteriores em ensaios validados), ISAGA ou teste de referência (Sabin-Feldman), além de nova sorologia em 2 a 3 semanas para documentar soroconversão ou elevação de títulos. Confirmada ou altamente suspeita a infecção aguda, indica-se PCR em líquido amniótico a partir de 18 semanas de gestação e pelo menos 4 semanas após a data estimada da soroconversão, com sensibilidade que varia conforme técnica e serviço (em torno de 60 a 90%) e alta especificidade; PCR negativo não exclui totalmente a infecção e mantém seguimento ecográfico (ecocardiografia fetal, busca de calcificações, ventriculomegalia, hepatoesplenomegalia, ascite).
Tratamento gestacional: antes de 18 semanas ou enquanto a infecção fetal não estiver confirmada, usa-se espiramicina 3.000.000 UI (1 g) por via oral de 8 em 8 horas, macrolídeo que se concentra na placenta e reduz a transmissão, sem crossing significativo para o feto. Após 18 semanas, ou imediatamente se a infecção fetal for documentada, troca-se para a combinação fetalcida de taquizoítos: pirimetamina 50 mg por dia por via oral (após dose de ataque de 100 a 200 mg em alguns serviços) com sulfadiazina 100 mg por kg por dia (máximo de 4 g por dia) fracionada de 6 em 6 horas e ácido folínico 10 a 25 mg por dia, em ciclos que alternam com a espiramicina conforme protocolo, até o parto. A pirimetamina é teratogênica e proibida no primeiro trimestre; o ácido folínico acompanha obrigatoriamente o esquema para prevenir mielossupressão. O recém-nascido com infecção congênita confirmada ou altamente provável recebe pirimetamina 1 mg por kg por dia por via oral, sulfadiazina 50 mg por kg por dose de 12 em 12 horas e ácido folínico 10 mg três vezes por semana (com ajuste do esquema ao longo do ano), mantidos por aproximadamente 12 meses, mesmo quando assintomático — o tratamento prolongado reduz drasticamente as sequelas, conforme demonstrado pelas coortes de referência em infecção congênita.
A toxoplasmose cerebral é doença definidora de AIDS e, historicamente, a lesão expansiva intracraniana mais frequente nesses pacientes, causada por reativação de cistos latentes em indivíduos IgG positivos, quase sempre com CD4 abaixo de 200 e sobretudo abaixo de 100 células por mm3. A apresentação típica é subaguda, em dias a semanas: cefaleia, febre baixa, déficit focal (hemiparesia, afasia, ataxia), alteração do estado mental e convulsões. A neuroimagem mostra lesões hipodensas com realce em anel após contraste, frequentemente múltiplas, com predileção por gânglios da base e junção córtico-medular, edema perilesional e efeito de massa; a ressonância com gadolínio é mais sensível que a tomografia para lesões múltiplas e pequenas. O diagnóstico é presumido e tratado empiricamente na maioria dos casos: sorologia IgG positiva (ausência de IgG torna o diagnóstico muito improvável, sem o exclui totalmente), imagem compatível e resposta clínica e radiológica em 10 a 14 dias de terapia específica, que ocorre em cerca de 90% dos casos; PCR de T. gondii no líquido cefalorraquidiano tem especificidade alta e sensibilidade variável (aproximadamente 50 a 80%), e a ausência de resposta em duas semanas indica biópsia para diferencial, principalmente linfoma primário do sistema nervoso central.
| Achado | Toxoplasmose cerebral | Linfoma primário do SNC | Abscesso piogênico |
|---|---|---|---|
| Contexto imunológico | IgG positivo, CD4 muito baixo | CD4 muito baixo, EBV no LCR | Bacteremia, endocardite, sinusite, pós-operatório |
| Neuroimagem típica | Lesões múltiplas com anel fino, gânglios da base | Lesão única com anel espesso, periventricular, corpo caloso | Lesão única ou múltipla de parede irregular |
| PCR no LCR | T. gondii positivo (especificidade alta) | DNA de EBV positivo (especificidade alta) | Esteril; hemoculturas podem positivar |
| Resposta à terapia empírica | Melhora clínica e radiológica em 10 a 14 dias | Ausente; piora progressiva | Drenagem e antibiótico necessários |
Tratamento da toxoplasmose cerebral: pirimetamina 200 mg por via oral em dose de ataque, seguida de 50 mg por dia (pacientes até 60 kg) ou 75 mg por dia (acima de 60 kg), com sulfadiazina 1 a 1,5 g por via oral de 6 em 6 horas e ácido folínico 10 a 25 mg por dia, mantido por pelo menos 6 semanas e enquanto houver melhora radiológica; doses mais altas de sulfadiazina (até 8 g por dia em quatro tomadas) são usadas em doença grave. Alternativas para intolerância a sulfas: clindamicina 600 mg por via oral ou intravenosa de 6 em 6 horas com pirimetamina e folínico, ou sulfametoxazol-trimetoprima (trimetoprima 10 mg por kg por dia com sulfametoxazol 50 mg por kg por dia, intravenoso ou oral, fracionada), com eficácia comparável em séries observacionais e vantagem de dispensar folínico. Corticoide (dexametasona) fica restrito ao edema de massa com risco vital, e anticonvulsivante apenas para crise documentada. Concluída a fase de indução, o paciente mantém terapia de supressão secundária (manutenção) com pirimetamina 25 a 50 mg por dia mais sulfadiazina 2 a 4 g por dia (ou clindamicina, ou sulfametoxazol-trimetoprima em dose única diária dupla intensidade), suspensa somente quando o CD4 se mantiver acima de 200 células por mm3 por mais de 6 meses sob antirretrovirais. Profilaxia primária: pacientes IgG positivos com CD4 abaixo de 100 recebem sulfametoxazol-trimetoprima em comprimido dupla intensidade diário, que protege simultaneamente contra pneumonia por Pneumocystis.
A toxoplasmose ocular é uma retinites necrosante focal que surge por reativação endógena de cistos na retina, tanto em infecção congênita quanto adquirida, tipicamente entre a segunda e a quarta décadas. O achado oftalmoscópico quase patognomônico é foco de retinite branca amolecida e necrosante adjacente a cicatriz pigmentada preexistente (lesão satélite), com vitreíte intensa — a aparência clássica de farol no nevoeiro —, dor ocular, moscas volantes, hiperemia e baixa da acuidade visual quando a lesão ameaça mácula, nervo óptico ou produz cicatriz macular. Complicações: cicatrizes retinianas, descolamento de retina, membranas neovasculares, glaucoma, catarata e panoftalmite em casos graves. Recidivas ao longo da vida são a regra, e cada episódio soma cicatriz e risco visual. Tratamento indicado quando a lesão ameaça a visão (mácula, nervo óptico, proximidade de grandes vasos), tem tamanho acima de 2 dioptrias ou vitreíte importante: mesma combinação sistêmica da toxoplasmose cerebral (pirimetamina com sulfadiazina e folínico, ou clindamicina com pirimetamina, ou sulfametoxazol-trimetoprima) por 4 a 6 semanas, com corticoide sistêmico (prednisona 0,5 a 1 mg por kg por dia) introduzido apenas 48 a 72 horas depois do antimicrobiano e nunca em monoterapia, porque imunossupressão sem cobertura antiparasitária promove ativação fulminante. Injeção intravítrea de clindamicina é opção em casos selecionados.
Desde os anos 1950 acumulam-se evidências que ligam o T. gondii a fenômenos neuropsiquiátricos. Meta-análises de estudos sorológicos encontram chance aumentada, na ordem de 1,5 a 2 vezes, de soropositividade em pessoas com esquizofrenia em comparação com controles, além de associações descritas com transtornos de personalidade, maior impulsividade, maior taxa de acidentes de trânsito e suicídio em algumas coortes — associações modestas e heterogêneas. Os mecanismos propostos são plausíveis: cistos crônicos em amígdala e córtex com microglial activation e neuroinflamação; produção de dopamina induzida pelo parasita, que carrega genes análogos a tirosina hidroxilase, capaz de alterar a neurotransmissão; e o exemplo icônico da manipulação do comportamento em roedores, que perdem a aversão inata ao odor de felinos, facilitando a conclusão do ciclo. Apesar disso, nenhuma relação causal foi estabelecida em humanos: confundimento por condição socioeconômica, contato com gatos, moradia rural e direção reversa (pacientes com psicose mudam hábitos) não está excluído, os desenhos são majoritariamente transversais e não há ensaio que mostre benefício de tratamento antiparasitário em psiquiatria. Para a prova: a associação é descrita e biologicamente plausível, mas sem aplicação clínica atual — rastreio sorológico ou tratamento de pacientes psiquiátricos não é recomendado.
O diagnóstico apoia-se em sorologia, métodos moleculares e, raramente, histologia. A prova de Sabin-Feldman (dye test) permanece o padrão de referência histórico para IgG, realizada em laboratórios de referência; ELISAs e imunofluorescências comerciais são o uso corrente. O IgM é detectável em torno de uma semana após a infecção, pica em um mês e pode persistir por 6 a 18 meses ou mais — daí a impossibilidade de datar a infecção pelo IgM isolado. O teste de avidez de IgG resolve parte dos casos: avidez alta exclui infecção adquirida nos 3 a 4 meses anteriores em ensaios validados; avidez baixa não confirma infecção recente, porque pode durar além do quarto mês. A PCR detecta DNA parasitário no líquido amniótico (a partir de 18 semanas), líquido cefalorraquidiano, humor aquoso e vítreo, sangue de recém-nascido e tecidos, com especificidade alta e sensibilidade que depende de carga, momento da coleta e técnica. Na imunossupressão, a sorologia IgG documenta a latência que predispõe à reativação; IgG negativa torna toxoplasmose cerebral improvável. A inoculação em camundongo e a cultura celular permanecem métodos de referência para isolamento. A histologia identifica taquizoítos em tecido (biópsia cerebral, linfonodo, placenta) e o linfonodo da toxoplasmose tem padrão hiperplásico característico com folículos reativos e sinusite.
| IgG | IgM | Interpretação e conduta na gestante |
|---|---|---|
| Negativo | Negativo | Susceptível: orientar prevenção e repetir sorologia conforme protocolo do serviço (mensal ou trimestral) |
| Positivo | Negativo | Imunidade prévia, infecção anterior à gestação: sem risco de transmissão em imunocompetente |
| Positivo | Positivo | Infecção recente possível ou IgM persistente: dosar avidez de IgG, ISAGA ou teste de referência e repetir em 2 a 3 semanas; referenciar |
| Negativo | Positivo | Falso-positivo frequente ou primoinfecção muito recente: repetir e confirmar em laboratório de referência antes de tratar |
| Cenário clínico | Esquema de primeira linha | Duração |
|---|---|---|
| Imunocompetente com linfadenopatia sem visceralização | Geralmente apenas tratamento sintomático | Autolimitado em semanas a meses |
| Gestante com primoinfecção antes de 18 semanas ou sem confirmação fetal | Espiramicina 3.000.000 UI (1 g) VO de 8 em 8 horas | Até o parto ou até definição da infecção fetal |
| Gestante após 18 semanas ou infecção fetal confirmada | Pirimetamina 50 mg/dia VO + sulfadiazina 100 mg/kg/dia (máx 4 g) 6/6 h + ácido folínico 10-25 mg/dia, em ciclos alternados com espiramicina | Até o parto, com acompanhamento especializado |
| Recém-nascido com toxoplasmose congênita | Pirimetamina 1 mg/kg/dia VO + sulfadiazina 50 mg/kg 12/12 h + ácido folínico 10 mg 3x/semana | Aproximadamente 12 meses, mesmo se assintomático |
| Toxoplasmose cerebral (HIV ou outro grau de imunossupressão) | Pirimetamina 200 mg ataque VO, depois 50-75 mg/dia + sulfadiazina 1-1,5 g 6/6 h + ácido folínico 10-25 mg/dia | Mínimo de 6 semanas; depois manutenção até CD4 acima de 200 por 6 meses |
| Toxoplasmose ocular com ameaça visual | Pirimetamina + sulfadiazina + folínico (ou clindamicina + pirimetamina, ou SMZ-TMP) com prednisona 0,5-1 mg/kg/dia após 48-72 h | 4 a 6 semanas, com reavaliação oftalmológica |
Gestantes soronegativas, pacientes com CD4 baixo e candidatos a transplante IgG negativos devem receber orientação escrita de prevenção: comer carne bem cozida, sem interior rosado (os cistos morrem com aquecimento interno adequado acima de aproximadamente 67 graus); lembrar que freezers domésticos comuns podem não atingir de forma homogênea as temperaturas de congelamento industrial, de modo que o congelamento caseiro não deve ser a única barreira; lavar frutas, verduras e legumes em água potável tratada e higienizá-los adequadamente; usar luvas ao jardinagem e ao manusear terra e areia, com higiene das mãos posterior; trocar a areia da caixa sanitária do gato diariamente (oocistos só esporulam e infectam após 1 a 5 dias no ambiente), de preferência por pessoa não gestante; não alimentar gatos com carne crua; beber apenas água filtrada ou tratada. Em regionais com surtos hídricos descritos, a orientação sobre água tratada é ainda mais relevante.
No imunocompetente, o prognóstico é excelente, com cura espontânea e imunidade duradoura; a exceção é a coriorretinite, que pode recidivar por décadas, e as raras formas viscerais por cepas virulentas. Na toxoplasmose congênita, o prognóstico depende da precocidade do tratamento: crianças tratadas por 12 meses têm redução drástica de sequelas, mas hidrocefalia estabelecida, calcificações extensas e comprometimento macular ao nascimento predizem déficit neurológico e visual permanentes; toda criança infectada precisa de seguimento oftalmológico periódico por toda a infância. Na AIDS, a resposta ao tratamento empírico ocorre em cerca de 90% dos casos em duas semanas; sem terapia, a toxoplasmose cerebral é progressiva e fatal em semanas a poucos meses, e a mortalidade residual está ligada ao diagnóstico tardio e à não adesão à antirretroviral. Em transplantados de órgão sólido de doador soropositivo para receptor soronegativo, a profilaxia com sulfametoxazol-trimetoprima por pelo menos 6 meses reduz a doença por reativação a taxas mínimas.
1.Sobre a relação entre idade gestacional na soroconversão materna e toxoplasmose congênita, é correto afirmar:
2.Gestante de 12 semanas com IgG positivo e IgM positivo no rastreamento do pré-natal. A próxima conduta mais adequada é:
3.Paciente com HIV, CD4 de 60 células por mm3 e IgG positivo para T. gondii apresenta cefaleia progressiva e hemiparesia à direita. Ressonância mostra múltiplas lesões com realce em anel nos gânglios da base. Conduta inicial:
4.Por que o esquema com pirimetamina exige ácido folínico (leucovorina) e não ácido fólico?
5.Gestante soronegativa adquire toxoplasmose com 14 semanas de gestação, sem evidência de infecção fetal. O esquema indicado neste momento é:
6.A tétrade clássica (Sabin) da toxoplasmose congênita compreende:
7.O achado oftalmoscópico mais característico da toxoplasmose ocular é:
8.Sobre o uso de corticoides na toxoplasmose ocular:
9.Em relação à profilaxia da toxoplasmose cerebral na AIDS, é correto afirmar:
10.Sobre a associação entre T. gondii e transtornos psiquiátricos, a afirmação mais adequada é:
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