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Revisão completa de duas geo-helmintoses de alta incidência em provas: Ascaris lumbricoides e Strongyloides stercoralis. Abrange ciclos com os números de migração larvária, síndrome de Löffler, larva currens, síndrome de hiperinfecção, métodos diagnósticos com sensibilidade comparada, esquemas terapêuticos com doses e a primeira diretriz da OMS para estrongiloidíase (2024).
[1] Jourdan PM, Lamberton PHL, Fenwick A, Addiss DG. Soil-transmitted helminth infections. Lancet. 2018;391(10117):252-65 · DOI 10.1016/S0140-6736(17)31930-X | [2] World Health Organization. WHO guideline on preventive chemotherapy for public health control of strongyloidiasis. Genebra: WHO; 2024 · ISBN 978-92-4-009402-4 · https://www.who.int/publications/i/item/9789240094024 | [3] Keiser PB, Nutman TB. Strongyloides stercoralis in the immunocompromised population. Clin Microbiol Rev. 2004;17(1):208-17 · DOI 10.1128/CMR.17.1.208-217.2004 | [4] Markell EK, John DT, Krotoski WA. Markell and Voge Medical Parasitology. 9th ed. Elsevier Saunders; 2006 | [5] Centers for Disease Control and Prevention. About Strongyloides Infection. CDC; 2024 · https://www.cdc.gov/strongyloides/ · DOI 10.1016/S0140-6736(17)31930-X
As helmintíases transmitidas pelo solo acometem cerca de 1,5 bilhão de pessoas no mundo, e dois nematódeos intestinais concentram a atenção das provas por razões opostas: Ascaris lumbricoides infecta de 800 milhões a mais de 1 bilhão de pessoas e causa doença sobretudo por massa e obstrução mecânica, enquanto Strongyloides stercoralis infecta estimativas que variam de 30 a 100 milhões (modelos recentes sugerem mais de 600 milhões) e mata por um mecanismo único no mundo dos helmintos: a autoinfecção, que perpetua a infecção por décadas e explode em síndrome de hiperinfecção letal quando o hospedeiro entra em imunossupressão. O aluno precisa sair deste artigo com dois ciclos biológicos completos na cabeça, a diferença entre larva currens e larva migrans cutânea, a escolha correta do método de fezes para cada parasita e as doses exatas de albendazol e ivermectina.
Nematódeos são vermes cilíndricos com tubo digestivo completo e sexos separados; os geo-helmintos compartilham transmissão ligada à falta de saneamento, mas diferem em tamanho, forma infectante e, sobretudo, na capacidade de autoinfecção. Ascaris lumbricoides é o maior nematódeo intestinal do ser humano, com machos de 15 a 25 cm e fêmeas de 20 a 35 cm, rosados e afilados nas extremidades; Strongyloides stercoralis é quase invisível a olho nu: fêmeas partenogenéticas delgadas de cerca de 2 a 3 mm parasitam a mucosa do duodeno e jejuno proximal. Essas diferenças morfológicas explicam as diferenças clínicas: o Ascaris adoece por massa e migração errática; o Strongyloides, pela invasão larvária contínua.
| Característica | Ascaris lumbricoides | Strongyloides stercoralis |
|---|---|---|
| Adulto | Maior nematódeo intestinal: 15 a 35 cm, habita o jejuno | Fêmea partenogenética de 2 a 3 mm na mucosa duodenal e jejunal |
| Ovo nas fezes | Eliminado em enorme quantidade (cerca de 200 mil ovos/dia por fêmea); casca mamilonada | Raramente visto: a larva rhabditoide eclode ainda no intestino e é eliminada |
| Forma infectante | Ovo embrionado ingerido com água ou alimento | Larva filariforme (3º estágio) que penetra a pele intacta, sobretudo dos pés |
| Embrionação no solo | 2 a 6 semanas para o ovo ficar infectante; ovos permanecem viáveis por meses a anos | Ciclo livre completo no solo, com gerações de vida livre |
| Autoinfecção | Não existe | Interna (larva amadurece no próprio intestino) e externa (na pele perianal): infecção por décadas sem reexposição |
| Migração pulmonar | Sim, obrigatória: as larvas atravessam o pulmão antes de amadurecer | Sim, na infecção inicial e a cada rodada de autoinfecção |
Ciclo do Ascaris: o ovo embrionado ingerido eclode no duodeno, a larva perfura a mucosa, atinge a circulação portal e o fígado nos primeiros dias, passa ao coração direito e pulmão, onde rompe o capilar alveolar por volta do 7º ao 14º dia; ascende pela árvore brônquica até a epiglote, é deglutida e chega ao jejuno, onde amadurece em 8 a 12 semanas. A fêmea começa a eliminar ovos nas fezes cerca de 2 a 3 meses após a infecção e vive 1 a 2 anos. A passagem pulmonar desencadeia a síndrome de Löffler: tosse seca, sibilos, febre baixa, urticária, eosinofilia que pode alcançar 20 a 50% e infiltrados migratórios na radiografia, quadro autolimitado que resolve em dias sem tratamento específico. Na fase de estado, vermes adultos causam doença por massa, irritação mecânica e consumo nutricional; a migração errática para vias biliares, pâncreas, apêndice ou para fora do ânus é facilitada por febre, jejum e alguns anestésicos.
Ciclo do Strongyloides: a larva filariforme penetra a pele (comum em quem anda descalço), cai na corrente sanguínea, passa pelo pulmão, rompe o alvéolo, sobe e é deglutida, amadurecendo na mucosa duodenal; as fêmeas partenogenéticas produzem ovos que eclodem em larvas rhabditoides eliminadas nas fezes. No solo, as larvas podem seguir ciclo de vida livre ou transformar-se em filariformes infectantes. O detalhe que muda tudo é a autoinfecção: parte das larvas rhabditoides amadurece para filariformes ainda dentro do intestino (autoinfecção interna) ou na pele perianal (autoinfecção externa, gerando a larva currens), reinvade o hospedeiro e reinicia o ciclo sem qualquer nova exposição externa — por isso a estrongiloidíase persiste por décadas, mesmo após o paciente deixar a área endêmica, e mantém eosinofilia flutuante. Na imunossupressão, sobretudo por corticosteroides (que aceleram a maturação das larvas e abolem a resposta Th2) e na infecção pelo HTLV-1 (com desvio para o perfil Th1), a autoinfecção se descontrola: é a síndrome de hiperinfecção, com número enorme de larvas trânsitando pulmão e intestino, e a doença disseminada, quando as larvas invadem órgãos além das rotas habituais, levando consigo bactérias entéricas que geram bacteremia e meningite por Gram-negativos.
As geo-helmintoses concentram-se em áreas sem saneamento adequado, nas faixas tropicais e subtropicais: a OMS prioriza crianças em idade pré-escolar (1 a 4 anos) e escolar (5 a 14 anos) para a quimioprevenção com albendazol (400 mg) ou mebendazol (500 mg) em dose única, uma a duas vezes ao ano conforme a prevalência. No Brasil, a prevalência caiu nas últimas décadas com saneamento e tratamento em massa, mas bolsões persistem nas regiões Norte e Nordeste e em populações vulneráveis; a ascaridíase é endêmica onde o esgoto alcança o solo. A estrongiloidíase é sistematicamente subestimada porque o exame parasitológico de fezes convencional tem baixa sensibilidade para o Strongyloides: inquéritos que usam apenas métodos diretos perdem a maioria dos casos, e áreas de endemicidade do HTLV-1, como o Recôncavo Baiano, concentram co-infecções de mau prognóstico. Profissionais de laboratório devem ser alertados: larvas de Strongyloides em amostras frescas podem ser infectantes.
Ascaridíase: a maioria das infecções é oligossintomática e a gravidade depende da carga parasitária. Na fase de migração pulmonar, a síndrome de Löffler domina (tosse, sibilos, eosinofilia de 20 a 50%, infiltrados fugazes); na fase de estado, dor abdominal vaga, náuseas, desconforto periumbilical e, em crianças com alta carga, desnutrição proteico-calórica e prejuízo cognitivo escolar. As complicações é que assustam: obstrução intestinal por bola de vermes (a complicação mais comum, típica de crianças de 2 a 10 anos, com dor em cólica, vômitos, distensão e massa abdominal palpável de vermes enovelados), ascaridíase biliar com cólica, colangite e pancreatite aguda (verme migrado para o colédoco ou ducto pancreático), apendicite ascaridiana, volvo e perfuração com peritonite. Pais relatam a eliminação espontânea de vermes nas fezes ou pela boca e nariz, achado que fecha a suspeita clínica.
Estrongiloidíase crônica: oscila entre assintomática e sintomas vagos que mimetizam outras doenças — epigastralgia em queimação simula úlcera péptica, diarreia intermitente ou constipação, e tosse com sibilos recorrentes simula asma de início no adulto. O achado cutâneo quase patognomônico é a larva currens: trilha urticariforme serpiginosa, pruriginosa, que avança de 5 a 15 cm por hora — dezenas de vezes mais rápido que a larva migrans cutânea dos ancilostomídeos de cães e gatos, que avança 1 a 2 cm por dia — aparecem em glúteos, coxas, tronco e região perianal, e desaparece em horas. Eosinofilia de 500 a 1.500 por mm3 está presente na maioria dos casos crônicos. Síndrome de hiperinfecção e disseminada: náuseas e vômitos incoercíveis, diarreia profusa com sangue, íleo paralítico, hemorragia digestiva, dispneia hipoxêmica com infiltrados difusos e síndrome do desconforto respiratório agudo, bacteremia e meningite por enterobactérias que acompanham as larvas pela barreira intestinal lesada, choque séptico e falência de múltiplos órgãos. A letalidade descrita varia de 50 a 80% nas séries, e a ausência de eosinofilia é comum justamente nos casos graves — armadilha clássica: eosinopenia não exclui hiperinfecção.
| Aspecto | Ascaridíase | Estrongiloidíase |
|---|---|---|
| Fase precoce | Síndrome de Löffler: tosse, sibilos, eosinofilia de 20 a 50%, infiltrados migratórios | Prurido e erupção no ponto de penetração; sintomas brônquicos leves e fugazes |
| Fase crônica | Dor abdominal vaga, desnutrição em crianças, eliminação de vermes | Epigastralgia, diarreia intermitente, pseudoasma, larva currens, eosinofilia crônica |
| Complicação maior | Obstrução intestinal e ascaridíase biliar (colangite, pancreatite) | Hiperinfecção e disseminação com bacteremia Gram-negativa, meningite e SDRA |
| População de risco | Crianças de 2 a 10 anos em áreas sem saneamento | Corticosteroides, HTLV-1, transplantados, neoplasias hematológicas, idosos institucionalizados |
| Achado de fezes | Ovos abundantes em qualquer método | Larvas rhabditoides; exigir métodos concentrados e seriados |
| Método | Alvo | Sensibilidade aproximada | Comentário |
|---|---|---|---|
| Exame direto único de fezes (Strongyloides) | Larvas rhabditoides | 25 a 30% | Insuficiente para excluir a infecção |
| Baermann-Moraes seriado | Larvas vivas | 60 a 90% com 3 amostras | Depende da experiência do laboratório; amostra fresca |
| Cultura em placa de ágar | Larvas e rastros bacterianos | 85 a 95% | A mais sensível; demora 48 a 72 horas ou mais |
| Sorologia ELISA (Strongyloides) | Anticorpos IgG | 83 a 93% (especificidade 75 a 95%) | Ótima para triagem pré-imunossupressão; não distingue infecção ativa de cura antiga |
| Exame de fezes direto ou Hoffman (Ascaris) | Ovos | 85 a 95% em 1 amostra; acima de 95% com 3 amostras | Postura massiva facilita o diagnóstico |
| Ultrassonografia na ascaridíase biliar | Vermes na via biliar | Apoio à decisão | Estrutura tubular ecogênica com trilhas paralelas no colédoco |
A regra de troca é a pegadinha central: albendazol é excelente para Ascaris e claramente inferior para Strongyloides; ivermectina é a droga de escolha do Strongyloides e tem atividade fraca contra Ascaris. Tratar sempre, mesmo o paciente assintomático, porque a cura interrompe a autoinfecção e previne a catástrofe futura de uma imunossupressão eventual.
| Indicação | Esquema de primeira linha | Alternativa | Observações |
|---|---|---|---|
| Ascaridíase: adultos e crianças acima de 2 anos | Albendazol 400 mg VO em dose única | Mebendazol 500 mg VO dose única (ou 100 mg 12/12 h por 3 dias); pamoato de pirantel 11 mg/kg VO dose única (máximo 1 g) | Cura superior a 90%; crianças de 12 a 23 meses recebem 200 mg de albendazol |
| Ascaridíase na gestação | Pamoato de pirantel 11 mg/kg VO dose única | Benzimidazóis apenas após o primeiro trimestre, conforme protocolo e OMS | Tratar quadros sintomáticos; a massificação de gestantes não é rotina |
| Obstrução intestinal por Ascaris | Conduta conservadora inicial: jejum, sonda nasogástrica, hidratação e correção hidroeletrolítica, antihelmíntico após melhora do íleo | Cirurgia (enterotomia e retirada da bola de vermes) se não resposta em 24 a 48 h, estrangulamento, volvo ou perfuração | ERCP retira o verme da via biliar na colangite e na pancreatite biliar |
| Estrongiloidíase crônica | Ivermectina 200 mcg/kg VO em dose única (protocolos repetem em 24 h) | Albendazol 400 mg VO 12/12 h por 7 dias (cura inferior, cerca de 40 a 50%) | Cura de 85 a 95%; controle com fezes seriadas e queda dos títulos sorológicos |
| Estrongiloidíase hiperinfecção ou disseminada | Ivermectina 200 mcg/kg por dia, VO ou por sonda, mantida por 7 a 14 dias e até duas amostras de fezes negativas com intervalo de 2 semanas; esquemas alternados diários e intermitentes e via subcutânea descritos | Albendazol apenas como coadjuvante na carga parasitária maciça | Tratar a bacteremia em paralelo; rever a imunossupressão; letalidade acima de 50% |
| Co-infecção Strongyloides e HTLV-1 | Ivermectina em esquema estendido e com controle rigoroso de cura | Reavaliar sorologia e fezes seriadas após o tratamento | Falha terapêutica e recidiva mais frequentes que no imunocompetente |
A prevenção individual é sanitária e comportamental: saneamento básico, água tratada, lavagem de mãos e de alimentos, uso de calçados (essencial contra a penetração cutânea do Strongyloides e dos ancilostomídeos) e cuidado de quem caminha descalço em áreas endêmicas. No plano coletivo, a OMS recomenda quimioprevenção em massa com albendazol 400 mg ou mebendazol 500 mg em dose única, periodicidade anual ou semestral conforme a prevalência, para crianças e mulheres em idade fértil em áreas endêmicas, meta reforçada pelo roteiro de doenças tropicais negligenciadas 2021-2030. Em 2024, a OMS publicou a primeira diretriz específica de estrongiloidíase, recomendando, em cenários endêmicos com prevalência alta, a quimioprevenção com ivermectina — mudança de paradigma que elevou o Strongyloides ao grupo das helmintíases com estratégia de eliminação, ao lado do tradicional programa de geo-helmintíases.
1.Criança de 8 anos, de área sem saneamento, apresenta tosse seca, sibilos, urticária e eosinofilia de 35% com infiltrados migratórios na radiografia, duas semanas após brincar em terreno contaminado. Qual o mecanismo do quadro pulmonar?
2.Paciente de 60 anos tratou estrongiloidíase há 30 anos e nunca mais voltou à área rural. O que explica a possibilidade de doença ativa ainda hoje?
3.A diferença clínica entre larva currens (Strongyloides) e larva migrans cutânea (ancilostomídeos de cães e gatos) é:
4.Paciente transplantado em uso de prednisona e micofenolato evolui com íleo, diarreia sanguinolenta, dispneia hipoxêmica e meningite por Escherichia coli. Hemograma sem eosinofilia. Qual a hipótese principal?
5.Qual método tem a maior sensibilidade para diagnosticar estrongiloidíase crônica quando há várias amostras disponíveis?
6.Tratamento de escolha da estrongiloidíase crônica em adulto imunocompetente:
7.Esquema antiparasitário correto para ascaridíase em criança de 6 anos:
8.Criança de 4 anos com massa abdominal palpável, vômitos e distensão, em área endêmica, com diagnóstico de obstrução intestinal por bola de Ascaris sem sinais de estrangulamento. Conduta inicial:
9.Sobre o rastreamento pré-imunossupressão em paciente de área endêmica de estrongiloidíase, a conduta recomendada é:
10.A primeira diretriz da OMS dedicada à estrongiloidíase (2024) recomendou:
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