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Revisão completa das principais ectoparasitoses humanas: escabiose comum e costrosa, pediculoses, ftiríase, tungíase e miíases. Cobre classificação, epidemiologia, fisiopatologia, diagnóstico clínico e parasitológico, esquemas terapêuticos com doses, complicações e medidas de controle em saúde pública.
[1] Heukelbach J, Feldmeier H. Scabies. Lancet. 2006;367(9524):1767-74 · DOI 10.1016/S0140-6736(06)68755-8 | [2] Engelman D, Cantey PT, Marks M, et al. The public health control of scabies: priorities for research and action. Lancet. 2019;393(10173):81-92 · DOI 10.1016/S0140-6736(19)31136-5 | [3] Rosumeck S, Nast A, Dressler C. Ivermectin and permethrin for treating scabies. Cochrane Database Syst Rev. 2018;(4):CD012994 · DOI 10.1002/14651858.CD012994 | [4] Karimkhani C, Colombara DV, Drucker AM, et al. The global burden of scabies: a cross-sectional analysis from the Global Burden of Disease Study 2015. Lancet Infect Dis. 2017;17(12):1247-54 · DOI 10.1016/S1473-3099(17)30483-8 | [5] Heukelbach J. Tungiasis. Rev Inst Med Trop Sao Paulo. 2005;47(6):307-13 · DOI 10.1590/S0036-46652005000600001 | [6] Feldmeier H, Heukelbach J. Epidermal parasitic skin diseases: a neglected category of poverty-associated plagues. Bull World Health Organ. 2009;87(2):152-9 · DOI 10.2471/BLT.07.047335 · DOI 10.1016/S0140-6736(19)31136-5
Ectoparasitoses são infestações causadas por artrópodes que vivem sobre a superfície da pele ou dentro dela, incluindo ácaros, piolhos, pulgas e larvas de moscas. Agrupam-se, com as entomoses em geral, entre as doenças dermatológicas mais prevalentes do planeta e concentram-se em populações em situação de vulnerabilidade social, moradia precária e dificuldade de acesso a água e saneamento. A escabiose isoladamente afeta na ordem de 200 milhões de pessoas em algum momento e foi reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como doença tropical negligenciada em 2017, com inclusão de códigos próprios na CID-11. No Brasil, a escabiose e a pediculose do couro cabeludo são endêmicas em escolas e comunidades, e a tungíase permanece um problema relevante no Nordeste e na Amazônia. Para a prova, o aluno precisa dominar quatro eixos: reconhecer o padrão clínico de cada ectoparasitose, indicar o exame confirmatório correto, prescrever o esquema terapêutico com dose e duração e organizar o tratamento dos contatos e do ambiente.
Define-se ectoparasitose como a infestação por um artrópode que utiliza o hospedeiro humano como habitat cutâneo, alimentando-se de sangue, tecido ou queratina. Um subconjunto dessas doenças, que se desenvolve exclusivamente dentro da epiderme ou imediatamente abaixo dela, foi agrupado sob o termo doenças parasitárias epidérmicas, como escabiose, tungíase, pediculoses e larva migrans cutânea, todas fortemente associadas à pobreza. A classificação mais útil para a clínica combina o táxon do agente com o tempo de contato com o hospedeiro.
| Ectoparasitose | Agente | Habitat principal | Transmissão |
|---|---|---|---|
| Escabiose | Sarcoptes scabiei var. hominis | Túneis na camada córnea | Contato pele a pele prolongado |
| Pediculose da cabeça | Pediculus humanus capitis | Couro cabeludo, retroauricular | Contato direto, pentes e bonés |
| Pediculose do corpo | Pediculus humanus corporis | Fibras de roupas de uso contínuo | Compartilhamento de roupas e de cama em condições precárias |
| Ftiríase | Phthirus pubis | Pêlos pubianos, perianais, cílios | Contato sexual íntimo, raro fômites |
| Tungíase | Tunga penetrans | Epiderme e derme de pés | Pisar solo com pulgas infectantes |
| Miíase furuncular | Dermatobia hominis | Nódulo cutâneo com larva | Mosca vetor deposita ovos |
| Miíase de ferida | Cochliomyia hominivorax | Tecidos necróticos e cavidades | Oviposição em feridas abertas |
A carga global de escabiose concentra-se em regiões tropicais e de baixa renda, com maiores prevalências na Oceania, África Oriental e Sudeste Asiático. Crianças pequenas, idosos, pessoas imunossuprimidas e comunidades fechadas (creches, asilos, presídios, aldeias indígenas e quartéis) concentram surtos. No Brasil, inquéritos em comunidades do Nordeste e da Amazônia relatam prevalências que variam amplamente, de poucos por cento em áreas urbanas a mais de 30 por cento em aldeias indígenas e comunidades vulneráveis. A pediculose do couro cabeludo é a infestação mais comum da infância após as virosses comuns, com pico entre 3 e 11 anos e sem relação com higiene pessoal. A tungíase é endêmica no Brasil (Ceará, Pernambuco, Bahia, Pará), na África subsaariana, no Caribe e na América Central, atingindo até metade dos moradores de comunidades rurais muito pobres.
A fêmea do Sarcoptes scabiei var. hominis mede 0,3 a 0,45 mm e escava túneis serpiginosos de 5 a 15 mm na camada córnea, onde deposita 2 a 3 ovos por dia, totalizando 40 a 50 ovos ao longo da vida de 4 a 6 semanas. As larvas eclodem em 3 a 4 dias e atingem a forma adulta em cerca de 10 a 14 dias. O prurido intenso não é causado mecanicamente pelo ácaro, e sim por reação de hipersensibilidade do tipo IV às fezes e aos produtos do ácaro: por isso leva 2 a 6 semanas para surgir na primeira infestação e apenas 1 a 4 dias na reinfestação. Na escabiose comum de imunocompetentes há apenas 10 a 15 ácaros, o que explica a baixa contagiousidade por fômites e a alta transmissão pelo contato cutâneo direto e prolongado, inclusive sexual.
A lesão elementar é o túnel ou escavação cutânea, linha fina acinzentada ou marrom, frequentemente despercebida devido ao acesso. A distribuição clássica no adulto poupa cabeça e pescoço e atinge espaços interdigitais das mãos, faces volares dos punhos, axilas, cintura, glúteos, aréolas mamárias, umbigo, face interna das coxas e genitais, onde pápulas eritematosas pruriginosas no pênis e no escroto são quase patognomônicas. Em lactentes e crianças menores de 2 anos, ao contrário, palmas, plantas, face e couro cabeludo são acometidos, com vesículas e pústulas. Excoriações, impetiginização e nódulos urticariformes completam o quadro. O prurido é tipicamente noturno e piora com o calor, e a escabiose nodular persiste semanas a meses por reação de hipersensibilidade mesmo após a cura parasitológica.
O Pediculus humanus capitis é um inseto de 3 a 4 mm que vive exclusivamente no couro cabeludo, preferindo as regiões retroauricular e da nuca. A fêmea põe de 4 a 10 lêndeas por dia, ovos ovalados de 0,8 mm firmemente cimentados ao fio de cabelo; as ninfas eclodem em 7 a 10 dias e o adulto vive cerca de 30 dias. O diagnóstico parasitológico exige encontrar lêndeas viáveis a menos de 6 mm do couro cabeludo, pois ovos além dessa distância costumam estar vazios e apenas indicam infestação pregressa. A clínica é de prurido occipital com excoriações, cervical posterior adenomegalia e, em infestações crônicas, impetiginização. O piolho do corpo, maior e com o mesmo gênero, vive e põe ovos nas costuras das roupas, causando prurido em tronco com pápulas urticariformes, excoriações e hiperpigmentação difusa denominada doença dos vagabundos, além de transmitir doenças graves.
O Phthirus pubis, o piolho-da-pubis ou chatão, mede 1 a 2 mm, tem corpo largo e pinças adaptadas a pêlos espessos, habitando a região pubiana, perianal, coxas, tronco piloso, barba e, em crianças, cílios e sobrancelhas, adquiridos por contato íntimo com adultos infestados. O achado semiológico característico são as máculas azul-acinzentadas de 0,5 a 1 cm nas coxas e no tronco, as maculae caeruleae, resultantes da ação anticoagulante da saliva sobre o sangue extravasado. A ftiríase palpebral causa blefarite pruriginosa com lêndeas visíveis nos cílios e deve ser tratada com vaselina sólida oftálmica, pois inseticidas são tóxicos à conjuntiva.
A tungíase é causada pela penetração da pulga Tunga penetrans, a pulga-da-areia ou bicho-de-pé, cuja fêmea fecundada entra na epiderme em áreas de contato com o solo, sobretudo calcanhares, bordas laterais dos pés, espaços interdigitais e região periungueal. Em 7 a 14 dias o abdome se distende até cerca de 1 cm, formando uma lesão papulonodular com ponto central negro correspondente aos genitais e ao ânus do artrópode em contacto com o meio externo, cercada de halo eritematoso e muito dolorosa. A classificação de Fortaleza estratifica as lesões em cinco estágios, do ingresso da pulga à involução da lesão residual após a morte do parasito, que ocorre em torno de 4 a 6 semanas quando não removida. Diferente do que se ensina de cor, a lesão é mais dolorosa do que pruriginosa, e a dor ao deambular é a queixa dominante.
As miíases humanas mais relevantes no Brasil são a miíase furuncular pelo Dermatobia hominis, a mosca-berne, e a miíase de ferida pela Cochliomyia hominivorax, a mosca-varejeira. Na miíase furuncular, a mosca vetor deposita ovos aderidos a um mosquito ou mosca que, ao picar o ser humano, libera a larva, que penetra a pele e forma nódulo furuncular com poro central por onde respira, acompanhado de dor pulsátil e serosanguinolentidade; a larva madura emerge após 5 a 12 semanas, mas a extração antecipada é o padrão de conduta. Na miíase de ferida, as larvas se agregam em tecidos necróticos de feridas, ulcerações tropicais, escabiose cruenta, otites e sinusites, podendo causar destruição tecidual extensa, e exigem desbridamento além da remoção mecânica das larvas. Há ainda miíases cavitárias nasais, auriculares e orais, mais comuns em pacientes acamados e desnutridos.
O diagnóstico das ectoparasitoses é essencialmente clínico-epidemiológico, apoiado em exames simples. Na escabiose, a dermatoscopia mostra o sinal do jato com rastro, um triângulo escuro correspondente à cabeça do ácaro seguido de linha translúcida equivalente ao túnel, com sensibilidade na casa de 90 por cento em mãos treinadas, superior à da maioria dos métodos convencionais. O critério de referência clássico é a raspado cutâneo com lamina e óleo mineral, que visualiza o ácaro, os ovos ou as fezes, mas é dependente do operador e da lesão escolhida, com sensibilidade amplamente variável entre cerca de 30 e 90 por cento. Critérios operacionais padronizados pela International Alliance for the Control of Scabies em 2020 dividem os casos em confirmados, clínicos e suspeitos, e servem de base para vigilância e pesquisa.
| Método | O que evidencia | Comentário |
|---|---|---|
| Dermatoscopia | Sinal do jato com rastro, ácaro e túnel | Sensibilidade aproximada de 90 por cento, rápida e não invasiva |
| Raspado cutâneo com óleo mineral | Ácaro, ovos ou escíbalas (fezes) | Padrão convencional, sensibilidade de 30 a 90 por cento conforme a lesão |
| Fita adesiva sobre o túnel | Ácaros e ovos aderidos | Barato e prático em atenção primária |
| Teste da tinta sobre a lesão | Túnel tingido como linha fina | Ajudou a evidenciar escavações, hoje menos usado |
| Exame dos fios capilares com pente fino | Piolhos e lêndeas viáveis | Padrão para pediculose; lêndeas vazias contam como negativo |
| Inspeção das roupas e costuras | Piolho do corpo e ovos | Método de escolha na pediculose corporis |
A pediculose do corpo diagnostica-se examinando as roupas, e não a pele do paciente, uma vez que o inseto apenas se alimenta no hospedeiro. Na tungíase, o achado do ponto negro queratócico com halo inflamatório nos pés é diagnóstico, e estadiamento de Fortaleza orienta a conduta. Nas miíases, a identificação da larva extraída pelas placas espiraculares e pelos espinhos cuticulares define o gênero e a prognóstico, pois larvas de Cochliomyia hominivorax se alimentam de tecido vivo e exigem desbridamento urgente. Dermatoscopia também diferencia lêndeas viáveis de caspa pelas garras de fixação das lêndeas ao fio.
| Doença | Primeira linha | Esquema e dose | Alternativas |
|---|---|---|---|
| Escabiose comum | Permetrina 5 por cento creme | Aplicar do pescoço aos pés à noite, manter 8 a 14 horas, lavar; repetir em 7 dias; couro cabeludo incluso em menores de 2 anos e idosos | Ivermectina 200 mcg por kg VO em dose única, repetir em 7 a 14 dias |
| Escabiose costrosa | Ivermectina VO associada à permetrina | Ivermectina 200 mcg por kg nos dias 1, 2, 8, 9 e 15, acrescentando dias 22 e 29 nos casos graves, além de permetrina a cada 2 a 3 dias na primeira semana e depois semanalmente e queratolítico | Isolamento de contato até 24 horas após a primeira dose |
| Pediculose do couro cabeludo | Permetrina 1 por cento loção ou dimeticone 4 por cento | Permetrina por 10 minutos, repetir em 7 dias; dimeticone por 8 horas age fisicamente, sem resistência | Malatiol 0,5 por cento por 8 a 12 horas, inflamável; ivermectina 0,5 por cento loção por 10 minutos em dose única; ivermectina VO 400 mcg por kg nos dias 1 e 8 |
| Ftiríase | Permetrina 1 por cento na área pilosa | Aplicar por 10 minutos, repetir em 7 dias; tratar contatos sexuais | Cílios: vaselina sólida oftálmica 2 a 4 vezes ao dia por 8 a 10 dias |
| Tungíase | Extração estéril precoce | Remoção da pulga com agulha ou cureta sob antissepsia, curativo oclusivo e verificação da profilaxia antitetânica | Tratar sobreinfecção bacteriana; nunca espremer a lesão |
| Miíase furuncular | Oclusão e extração ou ivermectina | Oclusão do poro com vaselina por 12 a 24 horas para asfixiar a larva, seguida de extração com pinça; ivermectina 200 mcg por kg VO em dose única mata a larva | Compressa com essência de macela tradicional como adjuvante da saída da larva |
A principal complicação das ectoparasitoses é a sobreinfecção bacteriana por Staphylococcus aureus e Streptococcus pyogenes, desde impetigo e celulite até linfangite, sepse e glomerulonefrite pós-estreptocócica, descrita de forma recorrente após surtos de escabiose em comunidades indígenas da Austrália e da América do Sul. O piolho do corpo é o vetor clássico de três doenças graves: tifo epidêmico por Rickettsia prowazekii, febre das trincheiras por Bartonella quintana e febre recorrente por Borrelia recurrentis, todas relacionadas a guerras, migrações e privação extrema de higiene. Na tungíase, as complicações vão de sobreinfecção e deformação ungueal a linfedema crônico, tétano e até amputação de dedos em infestações maciças; anemia ferropriva descrita em pediculose corporis grave; e as miíases cavitárias podem evoluir com destruição de septo nasal, meningoencefalite e óbito.
| Vetor | Doença transmitida | Agente |
|---|---|---|
| Pediculus humanus corporis | Tifo epidêmico | Rickettsia prowazekii |
| Pediculus humanus corporis | Febre das trincheiras | Bartonella quintana |
| Pediculus humanus corporis | Febre recorrente epidêmica | Borrelia recurrentis |
| Sarcoptes scabiei | Nenhuma | Somente a própria escabiose e suas complicações bacterianas |
O prognóstico das formas comuns é excelente com tratamento correto e adesão dos contatos; os pontos de falha habituais são não tratar os contatos, não repetir a segunda aplicação ou dose e confundir o prurido residual de hipersensibilidade com falha terapêutica, levando a retratamentos desnecessários. A escabiose costrosa, entretanto, tem letalidade relevante, sobretudo em idosos e imunossuprimidos, frequentemente por sepse a partir das lesões impetiginizadas.
A estratégia de maior impacto comprovado para reduzir a prevalência comunitária de escabiose é a administração em massa de medicamentos com ivermectina oral, eventualmente combinada à permetrina, para toda a população elegível de comunidades hiperendêmicas. Ensaios comunitários com administração em massa de ivermectina nas Ilhas Salomão, publicados em 2015, e em Fiji, em 2017, reduziram a prevalência de escabiose de níveis basais na faixa de 25 a 32 por cento para menos de 2 por cento após duas rodadas do medicamento. A OMS aprovou, em 2023, códigos específicos na CID-11 para escabiose e outras ectoparasitoses, fortalecendo a vigilância. Para o médico de atenção primária brasileiro, as medidas práticas incluem orientação de higiene e lavagem de roupas, tratamento simultâneo dos círculos familiares e escolares, notificação e manejo de surtos institucionais junto à vigilância epidemiológica e articulação com agentes comunitários para identificar surtos e comunidades hiperendêmicas.
1.Homem de 28 anos com prurido noturno intenso há 3 semanas, lesões eritematosas nos espaços interdigitais das mãos e pápulas no pênis. Sua parceira apresenta prurido há apenas 4 dias. Qual o agente etiológico?
2.Qual esquema é considerado padrão para escabiose costrosa em paciente de 70 anos residente em asilo?
3.Em lactente de 18 meses com escabiose, qual característica diferencia a apresentação da observada em adultos?
4.O sinal dermatoscópico descrito como jato com rastro ou delta-wing jet na escabiose corresponde a:
5.Na pediculose do couro cabeludo, o critério parasitológico de infestação ativa é a presença de:
6.Qual ectoparasitose exige investigação de profilaxia antitetânica como parte do atendimento?
7.Paciente desabrigado, com prurido difuso em tronco, hiperpigmentação e roupas sem troca há semanas. Qual exame confirma a hipótese de pediculose do corpo?
8.Qual doença NÃO é transmitida pelo piolho do corpo?
9.Criança de 6 anos com nódulo furuncular doloroso na couro cabeludo, com poro central, adquirido após passeio em área rural. Conduta de escolha para a miíase furuncular por Dermatobia hominis?
10.Duas semanas após tratamento corretamente realizado da escabiose, o paciente persiste com prurido noturno, sem novas lesões e sem prurido nos contatos tratados. Conduta?
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