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Revisão completa da obstrução da via aérea: física do estridor, causas por faixa etária, síndromes infecciosas (crupe, epiglottite, traqueíte, abscesso retrofaríngeo) e manejo da aspiração de corpo estranho. Inclui doses de dexametasona e adrenalina, indicações de broncoscopia rígida e de via aérea cirúrgica, com tabelas comparativas e pontos de prova.
[1] Sociedade Brasileira de Pediatria. Aspiração de corpo estranho. Documento Científico do Departamento Científico. 2014 · https://www.sbp.com.br | [2] Sehgal IS, Dhooria S, Ram B, et al. Foreign body inhalation in the adult population: experience of 25,998 bronchoscopies and systematic review of the literature. Respir Care. 2015 · DOI 10.4187/respcare.03976 | [3] Bjornson CL, Johnson DW. Croup. Lancet. 2008;371(9609):329-339 · DOI 10.1016/S0140-6736(08)60170-1 | [4] Flint PW, Haughey BH, Lund VJ, Niparko JK. Cummings Otolaryngology: Head and Neck Surgery. 7ª ed. Elsevier. 2021 · DOI 10.4187/respcare.03976
A obstrução da via aérea é a mais literal das emergências médicas: entre o início do estridor e a hipoxemia grave podem-se contar minutos, e a decisão correta precisa ser tomada antes de qualquer exame complementar. Para o estudante de medicina, o tema aparece simultaneamente em Otorrinolaringologia, Pediatria e Clínica Médica, e é um dos poucos em que a física (lei de Poiseuille) decide a conduta clínica. Este artigo percorre a anatomia aplicada, a semiologia do estridor, as causas por faixa etária, as síndromes infecciosas que obstruem a laringe e o manejo completo da aspiração de corpo estranho, incluindo doses, técnicas de remoção e indicações de via aérea cirúrgica.
A via aérea superior vai das narinas à carina e divide-se, para fins práticos, em quatro regiões: nasal e nasofaríngea, supraglótica (epiglote, aritenoides, pregas ariepiglóticas e vestibulares), glótica (pregas vocais) e subglótica, que se estende da glote à primeira cartilagem traqueal. O anel cricoide é o ponto mais estreito da via aérea da criança (cerca de 4 a 5 mm no neonato) e é inexpansível, pois é cartilagem completa: por isso o edema subglótico da criança é tão devastador. No adulto, o ponto mais estreito é a própria glote.
A lei de Poiseuille explica a urgência: em fluxo laminar, a resistência das vias aéreas é inversamente proporcional ao raio elevado à quarta potência; com o fluxo turbulento que aparece na obstrução, a relação chega à quinta potência. Na prática, 1 mm de edema circunferencial na subglote de um lactente reduz o diâmetro de 4 mm para 2 mm e a área da luz em cerca de 65 a 75 por cento, multiplicando a resistência ao fluxo em mais de dez vezes. O mesmo 1 mm na traqueia de um adulto (12 mm) é irrelevante. Isso justifica por que o lactente com laringite descompensa durante o choro (fluxo turbulento) e por que qualquer manipulação desnecessária é perigosa.
Estridor é um som musical, áspero e de alta frequência produzido pelo fluxo turbulento através de um segmento estreitado da via aérea. Não é um diagnóstico, mas um sinal de obstrução que precisa de causa. Diferencia-se do sibilo (sopro contínuo, predominantemente expiratório, de origem intratorácica, típico da asma) e do rouco (alteração da voz de origem glótica). A classificação do estridor pelo momento da fase respiratória é o primeiro passo diagnóstico e é dos conteúdos mais cobrados em prova.
| Padrão do estridor | Local da lesão | Exemplos típicos |
|---|---|---|
| Inspiratório | Via aérea extratorácica: supraglote e glote | Laringomalácia, paralisia bilateral de pregas vocais, epiglottite, angioedema, abscesso peritonsilar |
| Expiratório | Via aérea intratorácica: traqueia distal e brônquios | Traqueomalácia, compressão extrínseca por anel vascular ou massa, corpo estranho bronquial |
| Bifásico (inspiratório e expiratório) | Glote, subglote e traqueia cervical (segmentos fixos) | Estenose subglótica, corpo estranho laríngeo ou traqueal, papilomatose respiratória recorrente, tumor laríngeo, traqueíte bacteriana |
A segunda classificação útil é temporal: estridor agudo (minutos a dias) sugere causa infecciosa, corpo estranho, angioedema, queimadura por inalação ou trauma; estridor crônico (semanas a meses) sugere causa congênita no lactente (laringomalácia, estenose subglótica congênita, hemangioma subglótico, paralisia de pregas vocais, anel vascular) ou neoplasia e estenose pós-intubação no adulto. Estridor neonatal presente desde o primeiro dia de vida praticamente garante causa congênita; estridor que surge após intubação prolongedada sugere estenose subglótica adquirida, que responde por cerca de 90 por cento dos casos na infância.
| Faixa etária | Causas obstrutivas mais frequentes | Pista diagnóstica que a prova cobra |
|---|---|---|
| Neonato (0 a 28 dias) | Laringomalácia, paralisia de pregas vocais (pós-intubação ou idiopática), estenose subglótica congênita, hemangioma subglótico, membranas laríngeas, anel vascular | Estridor desde o nascimento indica causa congênita; laringomalácia piora em supino, no choro e na mamada e melhora em prono |
| Lactente (1 a 12 meses) | Crupe viral, corpo estranho, hemangioma subglótico em crescimento, estenose subglótica adquirida pós-intubação | Início súbito de engasgo com tosse paroxística em criança antes saudável é corpo estranho até prova em contrário |
| Pré-escolar (1 a 5 anos) | Crupe, corpo estranho, epiglottite, traqueíte bacteriana, abscesso retrofaríngeo, papilomatose recorrente | Criança maior que a típica do crupe, tóxica e com estridor que não responde a corticoide sugere traqueíte bacteriana |
| Escolar e adolescente | Corpo estranho, trauma facial e cervical, queimadura por inalação, epiglottite, angioedema, tumor | Estridor progressivo com disfonia em paciente com papilomatose prévia sugere recidiva ou transformação |
| Adulto | Corpo estranho alimentar (sobretudo acima de 65 anos e com disfagia), angioedema (iatrogênico com IECA ou hereditário), tumor laríngeo, estenose pós-intubação, abscesso e hematoma | Tabagista com estridor progressivo, disfonia maior que 3 semanas e disfagia tem neoplasia laríngea até prova em contrário |
Entre as causas congênitas, a laringomalácia isolada responde por 60 a 75 por cento dos estridores persistentes do neonato e lactente; a estenose subglótica congênita é a segunda causa e a paralisia de pregas vocais a terceira. Entre as causas infecciosas, o crupe é a forma mais comum de obstrução laringea na infância e corresponde a uma fração importante dos atendimentos de urgência respiratória entre 6 meses e 3 anos, com pico no outono. A epiglottite por Haemophilus influenzae tipo b despencou mais de 90 por cento nas faixas vacinadas e hoje é mais comum no adulto não vacinado. A aspiração de corpo estranho, por sua vez, é a causa mais comum de morte acidental por asfixia na faixa de 1 a 3 anos: mais de 80 por cento dos casos ocorrem abaixo dos 3 anos, com pico entre 1 e 2 anos, e centenas de óbitos por engasgo ainda ocorrem por ano em países como os Estados Unidos.
A primeira regra é não piorar o que está estável. A criança com obstrução alta mantém a via aérea aberta com esforço: qualquer choro, manipulação, decúbito forçado ou venipunctura pode converter uma obstrução compensada em emergência. A segunda regra é antecipar: material de via aérea difícil, de via aérea cirúrgica e a presença simultânea de otorrinolaringologista, anestesiologista e pediatra devem ser providenciadas antes que a situação deteriore.
Quatro entidades infecciosas concentram as questões de prova sobre estridor infeccioso na criança: crupe (laringotraqueobronquite viral), epiglottite, traqueíte bacteriana e abscesso retrofaríngeo. A diferenciação rápida entre elas muda a conduta de horas: o crupe é tratado com dexametasona e adrenalina nebulizada; a epiglottite exige via aérea cirúrgica protegida e antibiótico venoso; a traqueíte exige intubação e desbridamento; o abscesso retrofaríngeo pede tomografia e drenagem quando indicado.
| Entidade | Agente e faixa etária típica | Quadro clínico marcante | Conduta essencial |
|---|---|---|---|
| Crupe (laringotraqueobronquite) | Vírus parainfluenza tipos 1 a 3 em cerca de 75 por cento dos casos; 6 meses a 3 anos, pico noturno e no outono | Estridor inspiratório, tosse rouca tipo ladrão (tosse de cachorro ou foca), disfonia, febre baixa, criança não tóxica | Dexametasona 0,15 a 0,6 mg/kg em dose única (via oral é tão eficaz quanto intramuscular ou intravenosa) para qualquer gravidade; adrenalina nebulizada se estridor em repouso ou tiragem importante |
| Epiglottite | Haemophilus influenzae tipo b; após a vacinação, tornou-se mais frequente no adulto | Os 4 Ds: disfagia, drooling (sialorreia), disfonia e desconforto respiratório; febre alta, toxicidade, posição em trípode e recusa deitar | Via aérea protegida por intubação em centro cirúrgico com otorrino presente, cultura de sangue e epiglote, e ceftriaxona 50 a 100 mg/kg/dia intravenoso (adulto: 2 g por dia) por 7 a 10 dias |
| Traqueíte bacteriana | Staphylococcus aureus é o agente mais comum, seguido de estreptococos; típica entre 3 e 10 anos | Pródromo viral de 2 a 3 dias que piora abruptamente com febre alta, toxemia, estridor e secreções purulentas; pouca resposta à dexametasona e à adrenalina | Intubação, toilette broncoscópica com remoção de pseudomembranas e antibiótico venoso (vancomicina 60 mg/kg/dia ou oxacilina 200 mg/kg/dia, ajustado à cultura) |
| Abscesso retrofaríngeo | Staphylococcus aureus e Streptococcus pyogenes; típico abaixo de 5 anos, quando ainda existem nódulos linfáticos retrofaríngeos | Febre, odinofagia, recusa alimentar, tortícolis e cervicalgia, voz abafada, sialorreia; estridor se há compressão laríngea | Tomografia de pescoço com contraste para definir extensão; antibioticoterapia venosa e drenagem transoral quando a coleção for maior que 2 cm, crescer ou não regredir em 48 h |
Sobre a adrenalina no crupe: usa-se a L-adrenalina na diluição 1:1000 na dose de 0,5 mL por quilo por nebulização (máximo de 5 mL), ou a adrenalina racêmica a 2,25 por cento na dose de 0,05 mL por quilo (máximo de 0,5 mL), repetindo-se conforme a resposta. O início de ação é de 10 a 30 minutos e a duração é de cerca de 2 horas, motivo pelo qual a criança deve permanecer em observação por pelo menos 2 a 4 horas após a nebulização, antes da alta. Budesonida nebulizada (2 mg) é alternativa quando a via oral não é viável. Humidificação e expectorantes não têm evidência de benefício, embora ainda apareçam em provas antigas.
A aspiração de corpo estranho tem apresentação bifásica que a prova cobra com frequência. A fase inicial, chamada síndrome de penetração, é o episódio súbito de engasgo, tosse paroxística incoercível, estridor, cianose ou sibilos logo após colocar objeto ou alimento na boca; a tosse pode aliviar parcialmente ou o objeto pode migrar. Segue-se um período latente assintomático ou paucissintomático de horas a semanas, e finalmente a fase de complicações: pneumonia do mesmo lóbulo de repetição, atelectasia persistente, abscesso, bronquiectasia, piopneumotórax e, raramente, fístula broncovascular. Importante: a síndrome de penetração clássica está presente em apenas cerca de metade dos casos confirmados, e crianças menores de 3 anos podem aspirar sem testemunhas; por isso, toda pneumonia recorrente no mesmo segmento em criança pequena exige investigação de corpo estranho.
A mortalidade da aspiração se concentra na cena: asfixia por obstrução laríngea completa antes da chegada ao hospital. Uma vez no serviço de referência, com remoção por broncoscopia, a mortalidade hospitalar cai para menos de 1 por cento. O atraso diagnóstico é o principal fator de morbidade: séries brasileiras e internacionais mostram que uma parcela relevante das crianças é tratada como asma ou pneumonia de repetição por semanas antes da broncoscopia.
A radiografia de tórax em inspiração e expiração forçados (ou com decúbito lateral, em crianças que não colaboram) procura sinais indiretos: hiperinsuflação unilateral com desvio mediastínico (enfisema obstrutivo, o achado mais comum na criança), atelectasia, pneumonia e pneumomediastino. Corpos estranhos radiopacos são minoria na infância, porque predominam materiais orgânicos. Conclui-se que a radiografia normal não exclui corpo estranho: ela é normal em 10 a 30 por cento das crianças com aspiração confirmada e a sensibilidade global do método em série pediátricas raramente supera 60 a 70 por cento. A tomografia de tórax com reconstrução pode ajudar nos casos de dúvida, mas nenhum método de imagem substitui a endoscopia quando a suspeita clínica existe.
A broncoscopia rígida sob anestesia geral, com ventilação espontânea assistida, é simultaneamente o padrão-ouro diagnóstico e terapêutico na criança: permite pinçar e remover o corpo estranho com pinças apropriadas, cesto de dormia ou cateter com balão de Fogarty, além de aspirar secreções e avaliar a mucosa. A taxa de sucesso da retirada por via rígida ultrapassa 95 a 98 por cento, com complicações graves em menos de 1 por cento. No adulto, a broncoscopia flexível é aceita como método diagnóstico inicial e pode ser terapêutica com cesto e laço, reservando-se a rígida para corpos estranhos de grande calibre, íntimos à mucosa ou complicados. Toracotomia com broncotomia é exceção (menos de 1 a 2 por cento): corpo estranho retido com granuloma, fístula ou migração parenquimatosa.
Quando a intubação é impossível e a ventilação falha (cenário não intubável e não ventilável), a via aérea cirúrgica salva a vida em minutos. No adulto, a cricotireoidostomia cirúrgica (ou a agulha com jet ventilation como ponte) é o procedimento de escolha na emergência, pois a membrana cricotireoidea é superficial e avascular. Em crianças menores de 8 a 10 anos, a cricotireoidostomia cirúrgica é contraindicada pelo risco de estenose subglótica: prefere-se a punção cricoidea com agulha como ponta para oxigenação, seguida de traqueostomia cirúrgica em ambiente controlado. A traqueostomia eletiva permanece indicada na obstrução prolongada (estenose laringotraqueal, trauma craniofacial grave, politrauma com ventilação prolongada, paralisia bilateral de pregas vocais) e é feita preferencialmente entre o segundo e o terceiro anéis traqueais.
O prognóstico do estridor depende da causa. A laringomalácia resolve espontaneamente em cerca de 90 por cento das crianças até 18 a 24 meses de vida; os 10 por cento de forma grave (falha de desenvolvimento, apneia, dificuldade alimentar, refluxo gastroesofágico importante) podem exigir supraglotoplastia. O crupe tratado com dexametasona tem evolução benigna em 48 a 72 horas; recorrências atípicas ou estridor persistente devem reabrir a investigação. A epiglottite tratada com via aérea protegida e antibiótico tem boa evolução, com mortalidade atualmente baixa em serviços preparados.
No corpo estranho, as complicações estão relacionadas ao atraso: pneumonia obstrutiva recorrente, atelectasia crônica com perda de volume pulmonar, bronquiectasia, abscesso pulmonar, piopneumotórax, fístula broncopulmonar e, raramente, paralisia diafragmática por lesão do nervo frênico. Após remoção oportuna por broncoscopia rígida em serviço de referência, a recuperação é completa na grande maioria das crianças, com mortalidade hospitalar inferior a 1 por cento; sequelas a longo prazo são raras quando o diagnóstico ocorre na primeira semana.
1.Recém-nascido a termo apresenta estridor inspiratório desde a segunda semana de vida, que piora em decúbito dorsal, durante o choro e a mamada, e melhora em prono, com boa ganância ponderal. Qual é a causa mais provável?
2.Por que 1 mm de edema circunferencial na subglote de um lactente compromete desproporcionalmente a ventilação?
3.Criança de 2 anos, afebril, com tosse tipo ladrão, disfonia e estridor inspiratório há 12 horas, sem tiragem importante em repouso e hidratada. Qual é a conduta de primeira linha?
4.Criança de 4 anos com febre alta, toxicidade, sialorreia, disfagia e desconforto respiratório há 6 horas, sentada em trípede. Qual conduta está correta?
5.Qual é a dose correta de L-adrenalina na diluição 1:1000 para nebulização no crupe moderado a grave?
6.Lactente de 18 meses com episódio de engasgo súbito há 3 dias, tosse persistente e sibilos à direita; radiografia de tórax sem alterações. Qual é a próxima conduta?
7.Qual é o padrão-ouro para remoção de corpo estranho brônquico em crianças?
8.Criança de 4 anos evoluía com virose há 3 dias quando apresentou piora abrupta com febre alta, toxemia, estridor importante e escarro purulento, sem resposta à dexametasona. Qual é a principal hipótese?
9.Lactente de 8 meses, consciente, com obstrução completa da via aérea por corpo estranho em ambiente extra-hospitalar. Qual sequência de manobras está correta?
10.Qual é a principal causa de estenose subglótica adquirida em crianças?
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