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Revisão completa das otites média aguda, com derrame, supurativa crônica e externa, incluindo critérios AAP 2013, doses de antibióticos por faixa etária, regras de observação expectante, indicações de tubo de ventilação e manejo da otite externa necrosante.
[1] Lieberthal AS, Carroll AE, Chonmaitree T, et al. The Diagnosis and Management of Acute Otitis Media (AAP Clinical Practice Guideline). Pediatrics. 2013;131(3):e964-e999 · DOI 10.1542/peds.2012-3488 | [2] Rosenfeld RM, Schwartz SR, Cannon CR, et al. Clinical Practice Guideline: Acute Otitis Externa (AAO-HNS). Otolaryngol Head Neck Surg. 2014;150(1 Suppl):S1-S24 · DOI 10.1177/0194599813517083 | [3] Rosenfeld RM, Tunkel DE, Schwartz SR, et al. Clinical Practice Guideline: Tympanostomy Tubes in Children (Update). Otolaryngol Head Neck Surg. 2022;166(1 Suppl) · DOI 10.1177/01945998211065662 | [4] Qureishi A, Lee Y, Belfield K, Birchall JP, Daniel M. Update on otitis media - prevention and treatment. Infect Drug Resist. 2014;7:15-24 · DOI 10.2147/idr.s39637 · DOI 10.1542/peds.2012-3488
Otite média aguda (OMA) é a infecção bacteriana mais frequente da infância e a principal razão de prescrição de antibióticos em pediatria: cerca de 80% das crianças têm pelo menos um episódio até os 3 anos, com pico entre 6 e 18 meses de vida. A otite externa (OE), por sua vez, acomete cerca de 10% das pessoas ao longo da vida e é dominada pela Pseudomonas aeruginosa. Confundir os dois compartimentos (ouvido médio versus canal auditivo) é o erro clássico do inexperiente: a OMA exige amoxicilina em dose alta, enquanto a OE aguda é tratada com gotas tópicas, e antibiótico sistêmico de rotina só piora a seleção de bactérias resistentes. Este artigo percorre definições, microbiologia, critérios diagnósticos da AAP 2013, doses por faixa etária, regras de observação expectante, indicações de tubo de ventilação e o reconhecimento da OE necrosante, com as pegadinhas que mais caem em prova.
Otite média é a inflamação da orelha média, com ou sem derrame; otite externa é a inflamação do conduto auditivo externo e/ou orelha externa. A distinção entre as entidades do ouvido médio é cronológica e otoscópica, e cada uma tem conduta própria, resumida a seguir.
| Entidade | Definição | Marcador temporal | Conduta-chave |
|---|---|---|---|
| Otite média aguda (OMA) | Inflamação aguda do ouvido médio com derrame e sinais de inflamação da membrana timpânica | Início rápido, sintomas em até 48 h | Antibiótico ou observação expectante conforme idade e gravidade |
| OMA recorrente | 3 ou mais episódios em 6 meses, ou 4 ou mais em 12 meses com pelo menos 1 no semestre anterior | Critério de contagem da AAP | Reavaliar indicação de tubo de ventilação |
| Otite média com derrame (OME) | Derrame no ouvido médio sem sinais de inflamação aguda | Persistência maior que 3 meses define forma crônica | Observação; tubo se bilateral com perda auditiva documentada |
| Otite média supurativa crônica (OMSC) | Otorreia persistente ou recorrente por perfuração timpânica ou tubo | Otorreia por 2 a 6 semanas ou mais | Gotas tópicas com quinolona; avaliar colesteatoma e correção cirúrgica |
| Otite externa aguda | Inflamação difusa do conduto, geralmente por umidade ou trauma (orelha de nadador) | Menos de 3 semanas de evolução | Limpeza do conduto e gotas tópicas com anti-infeccioso |
| Otite externa crônica | Inflamação persistente do conduto, com prurido e descamação | 3 meses ou mais | Cesar manipulação, tratar dermatite de base, afastar alergia de contato |
| Otite externa necrosante (maligna) | Osteomielite da base do crânio a partir do conduto, quase sempre por Pseudomonas | Otorreia e otalgia refratárias por semanas | Hospitalização, quinolona sistêmica prolongada e controle glicêmico |
Até 80% das crianças apresentam pelo menos um episódio de OMA até os 3 anos e a grande maioria até os 5 anos, com pico de incidência entre 6 e 18 meses, coincidindo com a imaturidade da tuba auditiva. Fatores de risco clássicos: frequência a creches, tabagismo passivo, aleitamento materno por menos de 6 meses, histórico familiar positivo, uso de chupeta e sexo masculino. As vacinas conjugadas pneumocócicas reduziram a incidência de OMA por sorotipos vacinais e a proporção de Streptococcus pneumoniae, com relativo aumento de Haemophilus influenzae não tipável. A OE tem prevalência ao longo da vida em torno de 10%, com picos no verão e em nadadores; a forma necrosante é típica de idosos diabéticos e imunossuprimidos, com letalidade histórica elevada quando não tratada.
A OMA começa com disfunção da tuba auditiva, geralmente após infecção viral de vias aéreas superiores: a mucosa edemaciada obstrui a tuba, gera pressão negativa no ouvido médio e favorece a aspiração de secreção nasofaríngea colonizada por bactérias. O derrame estéril é então invadido, com resposta inflamatória aguda, hiperemia e abaulamento da membrana timpânica por pressão positiva do pus. A OME surge pelo mesmo mecanismo de disfunção tubária, mas sem invasão bacteriana aguda, e tende à resolução espontânea: a maioria dos derrames pós-OMA resolve em até 3 meses. Fatores anatômicos da criança (tuba mais curta, horizontal e flácida) explicam o pico de incidência no lactente.
Na OE, o agressor é externo: umidade persistente (natação), trauma do conduto (hastes flexíveis, fones de inserção), dermatites e aparelhos auditivos alteram o pH ácido do cera e removem a camada lipídica protetora, permitindo colonização. O desequilíbrio da microbiota favorece Pseudomonas aeruginosa (agente mais comum, presente em boa parte dos casos) e Staphylococcus aureus; cerca de 10% são fúngicas (Aspergillus e Candida), sobretudo após antibióticos tópicos prolongados. Na OE necrosante, a Pseudomonas invade o couro do conduto na junção osteocartilagínea e propaga-se pelo osso temporal, causando osteomielite da base do crânio com risco para nervos cranianos.
| Sítio | Agentes mais comuns | Frequência aproximada | Nota de prova |
|---|---|---|---|
| OMA - Streptococcus pneumoniae | Coco gram-positivo | 25 a 40% dos casos bacterianos | Reduzido após vacinas conjugadas; mais resistente e mais grave |
| OMA - Haemophilus influenzae não tipável | Bacilo gram-negativo | 15 a 30% | Associado a OMA com conjuntivite e a falha de amoxicilina por produção de beta-lactamase |
| OMA - Moraxella catarrhalis | Diplococo gram-negativo | 5 a 15% | Quase 100% produtores de beta-lactamase, mas curso mais branda |
| OMA - vírus (VSR, influenza, rinovírus) | Cofator e agente único | Presente em 40 a 50% dos derrames | Explica componente autolimitado da OMA |
| OE - Pseudomonas aeruginosa | Bacilo gram-negativo | 20 a 60% dos casos | Praticamente universal na OE necrosante |
| OE - Staphylococcus aureus | Coco gram-positivo | 10 a 20% | Inclui furunculose localizada do conduto |
| OE - fungos (Aspergillus, Candida) | Hifas e leveduras | Cerca de 10% | Prurido intenso; cerume com hifas esbranquiçadas ou pontos pretos |
Na OMA do lactente: choro irritável, sono agitado, puxar a orelha, febre e perda de apetite; no pré-escolar e escolar, otalgia localizada é o sintoma dominante, com febre e perda auditiva condutiva. Na otoscopia, o achado que realmente define OMA é o abaulamento da membrana timpânica (moderado a grave, com apagamento das referências), acompanhado ou não de hiperemia; a otorreia súbita com alívio da dor indica perfuração timpânica por OMA (não confundir com OE). Sinais de gravidade: otalgia intensa por mais de 48 h, febre igual ou maior que 39 graus, prostração e sinais de complicação (mastoide com edema e abaulamento retroauricular, desvio do pavilhão, paralisia facial).
Na OE aguda, a queixa é otalgia com prurito, sensação de orelha cheia e otorreia serosa ou purulenta; o sinal Semiológico que diferencia da OMA é a dor intensa à tração do pavilhão e à pressão do trago, pois o conduto inflamado é mobilizado por essas manobras, o que não ocorre no ouvido médio. O conduto aparece edemaciado, eritematoso e com detritos; a membrana timpânica, quando visível, é normal, o que confirma o diagnóstico. Na OE necrosante, o idoso diabético apresenta otalgia grave noturna, otorreia refratária e tecido de granulação na junção osteocartilagínea do conduto; paralisia do facial ou de outros nervos cranianos baixos indica extensão à base do crânio.
O diagnóstico da OMA é clínico e otoscópico. A AAP 2013 exige dois componentes simultâneos: derrame no ouvido médio e sinais locais ou sistêmicos de inflamação aguda. Basta um dos três cenários: abaulamento moderado a grave da membrana timpânica; abaulamento leve com otalgia de início recente (menos de 48 h) ou otorreia intensa não atribuível a OE; ou otorreia aguda sem outra causa (perfuração). Hiperemia isolada sem abaulamento não fecha OMA. A otoscopia pneumática (mobilidade da membrana) aumenta a acurácia para derrame, e a timpanometria (curva tipo B, plana) é útil quando a otoscopia é inconclusa, com sensibilidade em torno de 80 a 90% para derrame.
A OE é diagnóstico clínico: dor à tração do pavilhão ou pressão do trago com conduto edemaciado. Cultura do conduto está indicada apenas em falha terapêutica, imunossupressão ou suspeita de forma necrosante; nesta, solicitam-se VHS e PCR (elevados e úteis para acompanhar tratamento), tomografia de rocha com janela óssea para demonstrar erosão cortical, cintilografia com gálio (que acompanha a atividade e a resposta) e biópsia para excluir neoplasia. Suspeita de mastoidite pede tomografia de rocha com contraste.
| Entidade | Dor | Achado externo/otoscópico | Conduta inicial |
|---|---|---|---|
| OMA | Otalgia profunda, não alterada pela manipulação do pavilhão | Membrana timpânica abaulada e hiperemiada, mobilidade reduzida | Amoxicilina 80 a 90 mg/kg/dia ou observação conforme idade e gravidade |
| OME | Indolor na maioria | Derrame com nível hidroaéreo ou abaulamento ambarino sem hiperemia aguda | Observação por até 3 meses; avaliar audição |
| OE difusa | Dor à tração do pavilhão e à pressão do trago | Conduto edemaciado, eritematoso, com detritos; membrana normal | Limpeza do conduto e gotas tópicas anti-infecciosas |
| Zoster ótico (Ramsay Hunt) | Otalgia intensa com vesículas | Vesículas no conduto e na concha, paralisia facial ipsilateral | Aciclovir sistêmico e corticoide; avaliar como urgência |
| Colesteatoma | Otalgia e otorreia crônica intermitente | Bolsão retrativo ou massa branca perlácea na membrana | Encaminhamento cirúrgico otorrino; tomografia de rocha |
| Disfunção temporomandibular | Otalgia referida, sem hipoacusia | Otoscopia normal; dor à palpação da ATM e crepitação | Anti-inflamatório, manejo odontológico |
A decisão inicial é entre antibiótico imediato e observação expectante com prescrição de segurança (antibiótico para iniciar se não melhorar em 48 a 72 h). Antibiótico imediato para: menores de 6 meses (qualquer caso); 6 a 23 meses com OMA bilateral ou grave; qualquer idade com OMA grave (otalgia moderada a intensa ou febre igual ou maior que 39 graus); otorreia por perfuração; e imunossuprimidos. Observação é opção para 6 a 23 meses com doença leve unilateral e para maiores de 2 anos com doença leve ou moderada, unilateral ou bilateral, desde que acompanhamento garantido em 48 a 72 h.
| Fármaco | Dose | Via e intervalo | Indicação |
|---|---|---|---|
| Amoxicilina (primeira linha) | 80 a 90 mg/kg/dia (dose máxima usual de 1 g por dose) | VO, de 12/12 h | OMA não grave sem uso de antibiótico nos últimos 30 dias |
| Amoxicilina-clavulanato | 90 mg/kg/dia de amoxicilina com 6,4 mg/kg/dia de clavulanato | VO, de 12/12 h | Falha em 48 a 72 h, antibiótico nos últimos 30 dias ou OMA com conjuntivite |
| Cefdinir | 14 mg/kg/dia | VO, 1 a 2 vezes ao dia | Alternativa em alergia não grave à penicilina |
| Cefuroxima axetil | 30 mg/kg/dia | VO, de 12/12 h | Alternativa em alergia não grave à penicilina |
| Ceftriaxona | 50 mg/kg/dia (máximo 1 g), por 1 a 3 dias | IM ou IV | Falha de tratamento ou vômitos que impedem a via oral |
| Azitromicina | 10 mg/kg/dia no 1o dia, depois 5 mg/kg/dia | VO, 1 vez ao dia, 5 dias | Alergia grave à penicilina (cobertura atípica, não é primeira linha geral) |
Duração do tratamento conforme idade: 10 dias para menores de 2 anos e para doença grave em qualquer idade; 7 dias para 2 a 5 anos com doença leve ou moderada; 5 a 7 dias para 6 anos ou mais com doença leve ou moderada. Falha terapêutica é a ausência de melhora clínica em 48 a 72 h: reavalie o diagnóstico, troque amoxicilina por amoxicilina-clavulanato ou use ceftriaxona, e considere timpanocentese em lactente toxêmico. Analgesia é obrigatória em todos os casos: dipirona, paracetamol 15 mg/kg de 6/6 h ou ibuprofeno 10 mg/kg de 8/8 h; gotas otológicas com anestésico local podem ser usadas apenas com membrana íntegra.
A OME assintomática é manejada com observação, pois a maioria dos derrames regride espontaneamente em até 3 meses; autoinsuflação pode ser tentada em crianças maiores. Reavalie audição e otoscopia em 3 meses. A OME é a causa mais comum de perda auditiva condutiva na infância, e a conduta cirúrgica depende dela.
O tratamento da OE aguda é tópico, e esta é a recomendação central da diretriz da AAO-HNS: gotas com anti-infeccioso (quinolona com ou sem corticoide, ou associação de antibióticos não quinolônicos) alcançam concentrações centenas de vezes maiores que a sistêmica no conduto, com cura em torno de 65 a 90% em 7 a 10 dias. Antibiótico sistêmico não é rotina e só se justifica se houver celulite que se estende além do conduto, imunossupressão, diabetes com propagação ou suspeita de OE necrosante.
A OE necrosante é uma osteomielite do osso temporal por Pseudomonas aeruginosa, típica do idoso com diabetes melito (a maioria dos casos) ou imunossuprimido. O quadro é insidioso: otalgia progressiva e noturna, otorreia crônica e granulação característica na junção osteocartilagínea, com VHS e PCR elevados. O diagnóstico exige tomografia com janela óssea (erosão cortical) e/ou cintilografia; a cintilografia com gálio é a que melhor acompanha a resposta ao tratamento, pois a capitação normaliza com a cura, enquanto o tecnécio permanece positivo por meses. Tratamento: ciprofloxacino 750 mg por via oral de 12/12 h (ou 400 mg IV de 8/8 h na doença grave) por 6 a 8 semanas ou mais, desbridamento cirúrgico apenas nos casos refratários, oxigenoterapia hiperbárica como adjunto em seleção de casos e controle glicêmico rigoroso. Monitorar VHS/PRC e função de nervos cranianos; recidivas ocorrem e exigem reavaliação prolongada.
A OMA tem excelente prognóstico: a maioria evolui para cura, com ou sem antibiótico, e cerca de dois terços das dores cedem nas primeiras 48 h. Complicações da OMA incluem perfuração timpânica (a maioria cicatriza em até 2 semanas), OME persistente com perda auditiva condutiva, mastoidite (rara na era vacinal, em torno de 1 a 4 casos por 100.000 crianças-ano em países com vacinação pneumocócica, mas ainda a complicação extracraniana mais frequente), paralisia facial, labirintite e, excepcionalmente, complicações intracranianas (abscesso cerebral, empiema subdural, trombose do seio sigmoide, meningite). Sinais de mastoidite: abaulamento retroauricular com desvio do pavilhão para baixo e para fora, dor à palpação da mastoide e orelha proptótica - é urgência com internação, imagem e cobertura com ceftriaxona. Na OE, o risco principal é a progressão para a forma necrosante com neuropatias cranianas e trombose do seio sigmoide; o prognóstico depende do diagnóstico precoce e da adesão à quinolona prolongada.
1.Lactente de 14 meses, febre de 39,5 graus, choro e membrana timpânica abaulada com hiperemia. Qual o achado otoscópico que define OMA pela AAP 2013?
2.Criança de 19 meses, OMA bilateral não grave, sem antibióticos recentes. Qual conduta?
3.Qual a dose de amoxicilina recomendada como primeira linha na OMA?
4.Criança de 3 anos com OMA em uso de amoxicilina há 72 h continua com otalgia intensa e febre. Próxima conduta?
5.Criança de 4 anos com OMA leve, sem antibiótico no último mês, em condições de reavaliação. Qual a duração do tratamento escolhido?
6.Criança de 4 anos com OME bilateral há 3 meses e perda auditiva condutiva documentada. Conduta?
7.A definição de OMA recorrente pela AAP é:
8.Adulto com otalgia há 3 dias, dor intensa à pressão do trago e conduto edemaciado com detritos, sem febre. Primeira linha?
9.Idoso diabético com otorreia há 3 semanas, otalgia noturna intensa e granulação na junção osteocartilagínea do conduto. Agente e conduta?
10.Paciente com vesículas no conduto auditivo, otalgia excruciante e paralisia facial ipsilateral. Diagnóstico e tratamento?
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