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Revisão completa dos carcinomas espinocelulares de cabeça e pescoço: classificação por sítio e por HPV, carcinogênese, apresentação clínica, estadiamento TNM 8ª edição, tratamento cirúrgico e quimiorradioterapia com doses (cisplatina, cetuximabe, TPF), esvaziamentos cervicais e suporte nutricional baseado na diretriz ESPEN.
[1] National Comprehensive Cancer Network. NCCN Clinical Practice Guidelines in Oncology: Head and Neck Cancers. Plymouth: NCCN · https://www.nccn.org/professionals/physician_gls/pdf/head-and-neck.pdf | [2] Matos LL, et al. Latin American Consensus on the Treatment of Head and Neck Cancer. JCO Global Oncology. 2024;10:e2300343 · DOI 10.1200/GO.23.00343 | [3] Muscaritoli M, Arends J, Bachmann P, et al. ESPEN practical guideline: Clinical Nutrition in cancer. Clinical Nutrition. 2021;40(5):2898-2913 · DOI 10.1016/j.clnu.2021.02.005 | [4] Forastiere AA, Goepfert H, Maor M, et al. Concurrent chemotherapy and radiotherapy for organ preservation in advanced laryngeal cancer. New England Journal of Medicine. 2003;349(22):2091-2098 · DOI 10.1056/NEJMoa030117 | [5] Bonner JA, Harari PM, Giralt J, et al. Radiotherapy plus cetuximab for squamous-cell carcinoma of the head and neck. New England Journal of Medicine. 2006;354(6):567-578 · DOI 10.1056/NEJMoa053422 | [6] Amin MB, Edge SB, Greene FL, et al. AJCC Cancer Staging Manual. 8ª ed. Nova York: Springer; 2017 | [7] Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Estimativa 2023: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA; 2023 · https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files/media/document/estimativa-2023.pdf · DOI 10.1016/j.clnu.2021.02.005
Os carcinomas espinocelulares de cabeça e pescoço somam centenas de milhares de casos novos por ano no mundo e constituem, no Brasil, um dos grupos tumorais mais frequentes em homens: a Estimativa 2023 do INCA projeta 15.100 casos novos por ano de câncer de cavidade oral (11.200 homens e 3.990 mulheres) e 6.110 casos de câncer de laringe (5.410 homens e 700 mulheres) no triênio 2023-2025. O diagnóstico ainda é tardio em mais da metade dos casos no país, o que reduz as chances de cura e aumenta a morbidade do tratamento. Duas mudanças recentes moldaram a especialidade e viraram tema de prova: a separação do carcinoma orofaríngeo relacionado ao HPV (com estadiamento e prognóstico próprios na 8ª edição do AJCC) e a centralidade do suporte nutricional, já que a desnutrição acomete 35-50% dos pacientes ao diagnóstico e é o determinante reversível mais importante de complicações, interrupção de tratamento e mortalidade. Para a prova, domine: sítios anatômicos e sua drenagem linfática, papel do p16 como biomarcador do HPV, esquema de cisplatina concomitante à radioterapia, o estudo RTOG 91-11 de preservação laríngea, indicações de esvaziamento cervical e as metas calórico-proteicas e a via de nutrição enteral do paciente submetido a radioterapia.
O câncer de cabeça e pescoço é o termo genérico para tumores malignos da via aerodigestiva superior e estruturas anexas, excluídos os tumores de pele, globo ocular, tireoide, paratireoides e sarcomas. Mais de 90% são carcinomas espinocelulares (CEC), originários do epitélio escamoso de revestimento. A classificação clinicamente útil é por sítio de origem, porque cada topografia tem rota de disseminação, estadiamento TNM e abordagem terapêutica distintos: cavidade oral (língua móvil, assoalho, gengiva, rebordo alveolar, palato duro, mucosa jugal e lábio), orofaringe (amígdala, base da língua, palato mole e parede faríngea posterior), laringe (supraglote, glote e subglote), hipofaringe (seios piriformes, parede pós-cricóidea), nasofaringe, cavidade nasal e seios paranasais, glândulas salivares e tumores metastáticos cervicais de primário oculto.
| Sítio | Subsítios principais | Drenagem linfática dominante | Particularidade de prova |
|---|---|---|---|
| Cavidade oral | Língua móvil, assoalho, gengiva, palato duro | Níveis I-III (supraomo-hioideos) | Maior sítio no Brasil; fortemente ligado a tabaco e álcool |
| Orofaringe | Amígdala, base da língua, palato mole | Níveis II-IV e retrofaríngeos | Sítio do carcinoma relacionado ao HPV; estadiamento próprio na 8ª ed AJCC |
| Nasofaringe | Fossa de Rosenmüller, teto | Níveis II-V e retrofaríngeos (drenagem bilateral frequente) | Associado ao EBV; radioterapia é o tratamento base, sem esvaziamento de rotina |
| Laringe | Supraglote, glote, subglote | Supraglote: II-III bilateral; glote: linfática escassa em T1-T2 | Ganho de voz e disfonia precoce; preservação de órgão no avançado |
| Hipofaringe | Seios piriformes | Níveis II-IV e retrofaríngeos | Apresentação tardia; pior prognóstico dos sítios comuns |
| Glândulas salivares | Parótida, submandibular, menores | Parótida: nível II e parotídeos; submandibular: níveis I-II | Histologias diversas (mucoepidermoide, adenóide cístico); paralisia facial é sinal de malignidade |
A segunda chave de classificação, introduzida pela 8ª edição do AJCC (2017), é a biologia: o carcinoma orofaríngeo HPV-positivo é uma entidade nosologicamente separada do HPV-negativo, com população mais jovem, melhor resposta ao tratamento e estadiamento próprio. O biomarcador substituto (surrogate) do HPV usado na rotina é a imuno-histoquímica de p16: expressão nuclear e citoplasmática em mais de 70% das células com intensidade difusa define p16-positivo. p16 é um inibidor de cinases dependente de ciclina que se acumula quando a oncoproteína E7 do HPV inativa o retinoblastoma (Rb): a perda do freio negativo do Rb libera a transcrição de p16. Dessa forma, p16 superexpressado marca indiretamente a expressão funcional de E7.
No mundo, os tumores de cabeça e pescoço respondem por aproximadamente 900 mil casos novos e mais de 400 mil mortes por ano, com grande variação geográfica (o câncer de cavidade oral está entre os três mais incidentes em homens no subcontinente indiano e no Sudeste Asiático, por hábito de mascar betel e tabaco). No Brasil, além dos 15.100 casos anuais de cavidade oral, o INCA destaca que o conjunto de tumores de cabeça e pescoço representa cerca de 25% das neoplasias em homens em regiões como o Norte e o Nordeste, com forte associação com o consumo de tabaco e álcool e áreas de pobreza. A idade típica ao diagnóstico é 55-70 anos no grupo clássico (tabágico e etilista), enquanto o carcinoma orofaríngeo HPV-positivo acomete adultos de 45-60 anos, sem os carcinógenos clássicos. Fatores de risco: tabagismo (risco relativo de 5 a 25 vezes conforme carga; maço-ano é a unidade de exposição), etilismo (risco 2-6 vezes, com efeito multiplicativo e não apenas aditivo com o tabaco - a combinação multiplica o risco em até 15-40 vezes para cavidade oral e laringe), HPV (tipos 16 e, menos comum, 18; prática de sexo oral como fator de exposição; o HPV positivo responde por grande parte dos orofaríngeos nos EUA e norte da Europa e por proporção menor no Brasil), EBV (nasofaringe), má higiene oral e imunossupressão (maior risco em transplantados e no HIV).
A carcinogênese espinocelular da via aerodigestiva superior é multietápica: o epitélio exposto cronicamente aos carcinógenos do tabaco (nitrosaminas, benzopirenos, aldeídos) e do álcool acumula alterações genéticas epiteliais sequenciais, passando de hiperplasia a displasia leve, displasia moderada e grave, carcinoma in situ e carcinoma invasivo - a sequência descrita pelo modelo de Vogelstein adaptado à mucosa oral. Lesões pré-malignas reconhecíveis são a leucoplasia (placa branca não removível; risco de transformação de 5-15%) e a eritroplasia (placa vermelha vascularizada; risco maior que 50%, sendo a lesão pré-maligna de maior risco). O conceito de campo de cancerização (Slaughter, 1953) explica a alta incidência de segundos primários (3-5% ao ano): toda a mucosa exposta compartilha as mesmas mutações iniciais, de modo que o tumor índice é apenas a manifestação mais avançada de um campo inteiramente alterado.
A apresentação depende do sítio, mas três síndromes dominam a prática e as provas: a lesão oral que não cicatriza (úlcera ou endurecimento em língua, assoalho ou gengiva há mais de 3 semanas, às vezes com dor referida ao ouvido homolateral pelo nervo lingual e auriculotemporal), a massa cervical (metástase ganglionar como primeira manifestação, dura, indolor, fixa; no adulto com fatores de risco, adenopatia cervical persistente por mais de 3 semanas exige investigação de primário de cabeça e pescoço) e os sintomas de via aérea superior (disfonia progressiva há mais de 3 semanas na laringe, disfagia e odinofagia persistente, otalgia reflexa, obstrução nasal unilateral com epistaxe na nasofaringe e seios paranasais). Sinais de alarme específicos: trismo (invasão do músculo pterigoide lateral em orofaringe e seios paranasais), paralisia de hipoglosso (desvio de língua), síndrome horner e paralisia recorrente. Perda ponderal maior que 10% em 6 meses é achado comum e acende o alerta nutricional.
| Sítio | Sintoma ou sinal de alerta mais cobrado |
|---|---|
| Cavidade oral | Úlcera indolor que não cicatriza em 3 semanas; nódulo endurecido; dor referida ao ouvido |
| Orofaringe (base de língua e amígdala) | Odinofagia unilateral persistente, otalgia reflexa, massa cervical em nível II; sensação de corpo estranho na garganta |
| Supraglote | Disfagia, otalgia, estridor tardio; massa cervical bilateral (drenagem bilateral) |
| Glote | Disfonia progressiva por mais de 3 semanas (sintoma precoce pela escassez de linfáticos; por isso a maioria é diagnosticada em estágio inicial) |
| Nasofaringe | Massa cervical em nível V ou superior, obstrução nasal unilateral, epistaxe, hipoacusia condutiva por disfunção tubária, paresias de nervos cranianos |
| Glândula salivar | Nódulo parotídeo firme e crescente; início súbito de paralisia facial periférica homolateral é indicativo de malignidade |
A propedêutica segue uma sequência canônica: exame físico completo com inspeção e palpação bimanual da cavidade oral e do pescoço (palpação de todos os níveis), nasofibrolaringoscopia ambulatorial para mapear a extensão e buscar segundos primários da via aerodigestiva (a panendoscopia com broncoscopia e esofagoscopia é reservada a casos selecionados),biópsia incisional da lesão (a punção por agulha fina é para a massa cervical e nunca substitui a biópsia do primário) e imunohistoquímica de p16 em todo carcinoma orofaríngeo. Imagem: tomografia ou ressonância com contraste da região primária e pescoço (a RM é superior para avaliar invasão de base de crânio, espaço pré-epiglótico e perineural); PET-CT no estadiamento do localmente avançado, no primário oculto com metástase cervical e na vigilância pós-tratamento (idealmente 3-6 meses após radioterapia para reduzir falsos positivos por inflamação); TC de tórax para rastrear metástase e segundo primário pulmonar no tabagista. Dosar TSH, cálcio e vitamina D antes e após (vide seguimento), avaliação odontológica pré-radioterapia (extração de dentes com prognóstico ruim pelo menos 10-14 dias antes de iniciar radioterapia, para prevenir osteorradionecrose), avaliação da deglutição e da voz e triagem nutricional obrigatória ao diagnóstico.
O estadiamento clínico (cTNM) orienta o tratamento e o estadiamento patológico (pTNM) o prognóstico. Para os sítios clássicos (cavidade oral, orofaringe HPV-negativo, laringe e hipofaringe), o T cresce com o diâmetro e a profundidade de invasão e o N com o número, tamanho, lateralidade e, crucialmente na 8ª edição, com a extensão extracapsular (ENE): ENE clínica ou patológica upstaging para N3a/N3b. A novidade que cai em prova é o estadiamento separado do carcinoma orofaríngeo p16-positivo, no qual o estádio final depende praticamente só de T e N e é muito mais favorável: T1-T2 com N0-N1 (ganglio ipsilateral único de até 6 cm) é estádio I; T3 ou N2 é estádio II; T4 ou N3 é estádio III. Comparativamente, a mesma extensão anatômica no HPV-negativo seria estágio III ou IV. A carga tabágica maior ou igual a 10 maços-ano piora o prognóstico do HPV-positivo e integra a estratificação de risco das diretrizes.
| Característica | Orofaringe p16 positivo (HPV+) | Orofaringe p16 negativo (HPV-) |
|---|---|---|
| Perfil típico | 45-60 anos, não tabagista, prática de sexo oral | Mais de 55 anos, tabagista e etilista crônico |
| Mecanismo molecular | E6 degrada p53; E7 inativa Rb; genoma estável | Mutações de TP53 (mais de 60%), CDKN2A, NOTCH1; instabilidade genomica |
| Sítio predominante | Base da língua e amígdala | Cavidade oral, laringe, hipofaringe |
| Estadiamento 8ª ed AJCC | Estádios próprios: T1-T2 N0-N1 = estádio I | Estadiamento clássico, em que N2 já é estádio IVA |
| Prognóstico 5 anos | 80-90% de sobrevida global | 40-60%, conforme estágio |
| Segundo primório por campo | Incomum | 3-5% ao ano, campo de cancerização |
A regra estruturante é o estágio: doença inicial (T1-T2, N0-N1 selecionados) recebe modalidade única - cirurgia com esvaziamento cervical apropriado OU radioterapia definitiva (66-70 Gy) -, enquanto a doença localmente avançada (T3-T4, N2-N3 ou doença com fatores de risco patológicos) exige abordagem multimodal: cirurgia seguida de radioterapia adjuvante com ou sem quimioterapia, ou radioterapia definitiva com quimioterapia concomitante com intenção de preservação de órgão. A decisão é multidisciplinar (tumor board) e pondera função (deglutição, voz, aparência), comorbidades, preferência do paciente e expertise disponível. Nas diretrizes atuais, o padrão-ouro da radioterapia é a técnica IMRT (radioterapia com intensidade modulada), que poupa parótidas e estruturas críticas e permite 70 Gy em 35 frações de 2 Gy no leito tumoral e níveis acometidos, com doses escalonadas nos níveis de risco.
| Cenário clínico | Estratégia padrão | Comentário |
|---|---|---|
| Cavidade oral inicial (T1-T2 N0) | Cirurgia transoral com esvaziamento eletivo dos níveis I-III | Radioterapia é alternativa; a cirurgia costuma permitir uma etapa só e preservar RT para recorrência |
| Laringe glótica T1-T2 | Radioterapia definitiva (70 Gy) ou cirurgia endoscópica laser (cordectomia) | Cura de 85-95% no T1; preserva voz em ambos |
| Localmente avançado ressecável, bom estado geral | Cirurgia + adjuvância conforme patologia OU quimiorradioterapia definitiva | Ene ou margem positiva: RT + cisplatina concomitante; fatores intermediários: RT isolada 60-66 Gy |
| Localmente avançado, não ressecável ou não operável | Quimiorradioterapia definitiva com cisplatina 100 mg/m2 a cada 3 semanas | Padrão desde o Meta-Analysis of Chemotherapy (MACH-NC): ganho absolito de sobrevida de 6,5% em 5 anos com QT concomitante |
| Inelegível a platina (renal, audição, neuropatia, performance) | Radioterapia + cetuximabe semanal | Alternativa comprovada no estudo de Bonner (NEJM 2006) |
| Nasofaringe não metastático | Radioterapia (IMRT, 70 Gy) + cisplatina concomitante, com ou sem indução | Esvaziamento cervical não é tratamento do N na nasofaringe |
| Doença metastática ou recorrente irresecável | Imunoterapia com pembrolizumabe (isolada ou com quimioterapia) ou esquema EXTREME (cisplatina ou carboplatina + 5-FU + cetuximabe) | Primeira linha atual baseada em KEYNOTE-048; expressão de PD-L1 (CPS) guia a escolha |
A quimioterapia concomitante à radioterapia com cisplatina é o esquema de maior benefício e a base do tratamento não cirúrgico do localmente avançado: cisplatina 100 mg/m2 IV em bolus no dia 1, a cada 21 dias, por 3 ciclos, durante a radioterapia de 70 Gy (esquema usado no RTOG 91-11 e nos estudos de adjuvância), com hidratação abundante, antiemético triplo (apelido do regime de 3 drogas: antagonista 5-HT3 + dexametasona + antagonista NK1) e monitoramento de creatinina, magnésio e audição. Alternativas: cisplatina semanal 40 mg/m2 (melhor tolerância, evidência um pouco menor) e, na intolerância a platina, carboplatina AUC 1,5-2 semanal + 5-FU. O cetuximabe (anticorpo monoclonal quimérico IgG1 anti-EGFR) é a opção clássica para quem não recebe cisplatina: dose de ataque de 400 mg/m2 IV na semana anterior à radioterapia, seguida de 250 mg/m2 semanal durante toda a radioterapia - o estudo de Bonner (NEJM 2006) mostrou aumento do controle locorregional (24,4 versus 14,9 meses de duração mediana) e da sobrevida global (49,0 versus 29,3 meses) em relação à radioterapia isolada, com rash acneiforme como principal toxicidade e preditor de resposta. A quimioterapia de indução ficou reservada a cenários selecionados: o esquema TPF (docetaxel 75 mg/m2 dia 1 + cisplatina 100 mg/m2 dia 1 + fluorouracil 1.000 mg/m2/dia em infusão contínua por 4 dias, a cada 21 dias, 3 ciclos) seguido de radioterapia é opção de preservação de órgão na laringe e hipofaringe avançadas quando se deseja resposta rápida (dor, displasia airway), porém com toxicidade alta e sem benefício consistente de sobrevida sobre a concomitante.
A cirurgia evoluiu para abordagens minimamente invasivas: microcirurgia endoscópica a laser (TLM) para laringe e hipofaringe iniciais e cirurgia transoral robótica (TORS) para amígdala e base da língua, que evitam mandibulotomia e faringotomia externas. Aos tumores avançados aplica-se a ressecção composta aberta (por exemplo, glossectomia total com laringectomia total em tumores de assoalho extensos; comandante é a margem), sempre com reconstrução imediata - retalhos livres microanastomosados (radial de antebraço para mucosa, anterolateral da coxa para volume, fíbula para reconstrução mandibular) ou pediculados (peitoral maior). Princípios oncológicos invioláveis: margem livre de pelo menos 5 mm no intraoperatório (congelada em situações selecionadas), mapeamento preciso e comunicação cirurgião-patologista. Reabilitação: traqueostomia provisória na cirurgia maior, sonda enteral para proteção da via aérea e nutrição, prótese traqueoesofágica para voz (válvula tipo Blom-Singer) após laringectomia, reabilitação fonoaudiológica de deglutição e voz.
| Tipo de esvaziamento cervical | Estruturas removidas / preservadas | Indicação típica |
|---|---|---|
| Radical clássico | Remoção dos níveis I-V com sacrifício de veia jugular interna, músculo esternocleidomastóideo e nervo acessório (XI) | Doença cervical extensa (N3) com invasão dessas estruturas; hoje exceção |
| Radical modificado | Níveis I-V preservando um ou mais: jugular, SCM, XI | Doença cervical operável sem invasão das estruturas |
| Seletivo supraomo-hioideo | Níveis I-III | Cavidade oral N0-N1 (drenagem preferencial) |
| Seletivo lateral | Níveis II-IV (com ou sem V) | Orofaringe, laringe e hipofaringe N0-N1 |
| Esvaziamento do primário oculto | Amigdalectomia + base de língua + níveis II-IV bilaterais guiados por PET e p16 | Adenopatia cervical com primário não localizado após investigação completa |
O manejo do pescoço clinicamente negativo (cN0) baseia-se no conceito de esvaziamento eletivo quando o risco de doença oculta excede 15-20% (regra das diretrizes para cavidade oral e orofaringe com profundidade de invasão maior que 3-4 mm na língua e assoalho). Após quimiorradioterapia definitiva com resposta completa, a cirurgia cervical planejada depende da resposta: N1-N2a com resposta completa pode ter vigilância com PET-CT em 3 meses (taxa de controle maior que 90% quando o PET é negativo), enquanto N2b-N3 costuma indicar esvaziamento cervical planejado, sobretudo se resto metabólico.
A desnutrição é a comorbidade definidora do câncer de cabeça e pescoço: o tumor obstrui a via digestiva e a dor, a mucosite, a disfagia, a anorexia, a ageusia, a xerostomia e a depressão somam-se ao hipermetabolismo inflamatório (caquexia mediada por TNF-alfa, IL-6 e proteólise-inducing factor). A diretriz ESPEN de nutrição em câncer (2021) recomenda triagem nutricional em TODO paciente no diagnóstico e reavaliação em intervalos regulares durante o tratamento, com instrumentos validados (PG-SGA adaptado, NRS-2002, MUST). Metas: 25-30 kcal/kg/dia ajustadas ao gasto (elevar para 30-35 kcal/kg no estresse pós-operatório ou caquexia com perda rápida) e 1,0-1,5 g/kg/dia de proteína, com suplementação de micronutrientes quando indicada. A imunonutrição perioperatória (fórmulas suplementadas com arginina, ômega-3 e RNA) por 5-7 dias antes e após cirurgia major reduz fístulas e infecções de sítio cirúrgico em pacientes desnutridos e está recomendada pela ESPEN.
| Ferramenta nutricional | Quando usar | Ponto de decisão |
|---|---|---|
| Triagem (PG-SGA, MUST, NRS-2002) | No diagnóstico e a cada visita durante RT-QT | Escore de risco alto encaminha para avaliação nutricional completa |
| Avaliação dietética e antropométrica | Sempre que triagem positiva | Perda maior que 5% em 1 mês ou 10% em 6 meses = desnutrição grave |
| Suplemento nutricional oral (SNO) | Ingesta oral insuficiente porém viável | 400-600 kcal/dia fracionado; corrigir sintomas gastrointestinais em paralelo |
| Diagnóstico de disfagia (videofluoroscopia) | Antes e após quimiorradioterapia; aspiração silente é comum | Define consistências seguras e exercícios deglutitórios preventivos |
| Nutrição enteral por sonda (NG ou gastrostomia) | Ingesta menor que 60% das necessidades por mais de 7-10 dias, ou perda maior que 5% em 1 mês | Via enteral é sempre preferível à parenteral |
| Nutrição parenteral | Falha intestinal, fístula alta, íleo prolongado | Rara neste grupo; reservar para impossibilidade de via enteral |
A via de escolha é a enteral, e a decisão clássica de prova é o momento da gastrotomia endoscópica percutânea (GEP): a gastrotomia profilática (antes ou no início da radioterapia, sobretudo quando o plano prevê bilateralidade cervical, T4 ou dor intenso) reduz perda de peso, internações e interrupções do tratamento em relação à gastrotomia reativa (feita só após a desnutrição instalar-se), embora ensaios randomizados mostrem uso mais prolongado da sonda e menor recuperação da deglutição oral no grupo profilático - a escolha é individualizada e discutida no tumor board. A sonda nasogástrica é adequada para períodos curtos (4-6 semanas) e a gastrostomia (endoscópica ou radiológica) para necessidade prevista maior que de 3-4 semanas. A nutrição parenteral só se justifica quando a via enteral é impossível. Boas práticas que salvam o tratamento: manter a ingestão oral segura pelo máximo de tempo (exercícios deglutitórios diários durante a radioterapia reducem disfagia de longo prazo), controle da mucosite e da dor (morfina oral em vez de retardar analgesia), higiene oral com solução salina e bicarbonato, evitar álcool e temperos, e cuidar da xerostomia com saliva artificial.
As complicações do tratamento são frequentes e devem ser buscadas ativamente no seguimento: hipotireoidismo por irradiação cervical (acumulado de 20-40% em 5 anos - dosar TSH a cada 6-12 meses), hipoparatireoidismo pós-cirúrgico (cálcio e vitamina D), estenose esofágica e disfagia crônica com aspiração (a maior causa de mortalidade tardia não oncológica no irradiado), hipacusia por cisplatina (audiometria quando sintomático), nefrotoxicidade e neuropatia periférica, fibrose cervical e linfedema, hipogeusia persistente e hipossalivação. O calendário de vigilância da NCCN: ano 1 a cada 1-3 meses; ano 2 a cada 2-6 meses; anos 3 a 5 a cada 4-8 meses; após 5 anos, anual - com exame físico completo, nasofarro-laringoscopia, TSH periódico, cessação do tabagismo e do álcool (a intervenção de maior impacto no prognóstico global), avaliação dentária e de reabilitação fonoaudiológica. PET-CT aos 3-6 meses pós-radioterapia é o exame mais útil para vigiar o pescoço N+ respondedor. O prognóstico depende de estágio, HPV, ENE, margens e continuidade do tratamento: sobrevida global em 5 anos de 70-90% na doença inicial, 40-60% na localmente avançada HPV-negativa e 80-90% na orofaríngea HPV-positiva; a maioria das recorrências ocorre nos primeiros 24 meses, e segundos primários (3-5% ao ano) exigiam vigilância da via aerodigestiva por toda a vida. Cuidados paliativos devem ser integrados precocemente no localmente avançado e na doença metastática.
1.Homem de 58 anos, tabagista e etilista, com carcinoma espinocelular de amígdala p16 positivo, T2 N1 (ganglio ipsilateral de 3 cm), sem comorbidades. Pela 8ª edição do AJCC, o estadiamento clínico é:
2.O mecanismo molecular pela qual a oncoproteína E6 do HPV contribui para a carcinogênese orofaríngea é:
3.O esquema padrão de quimioterapia concomitante à radioterapia definitiva (70 Gy) no carcinoma localmente avançado de cabeça e pescoço, em paciente elegível a platina, é:
4.Sobre o ensaio RTOG 91-11 (Forastiere, NEJM 2003), em carcinoma avançado de laringe:
5.Paciente com carcinoma de assoalho de boca submetido a ressecção e esvaziamento: margens cirúrgicas positivas e extensão extracapsular (ENE) no nível I. A adjuvância indicada é:
6.A imuno-histoquímica de p16 é usada como biomarcador substituto do HPV na orofaringe porque:
7.Segundo a diretriz ESPEN de nutrição em câncer (2021), as metas nutricionais do paciente com câncer de cabeça e pescoço em tratamento são aproximadamente:
8.Paciente com carcinoma de orofaringe T3 N2c iniciará quimiorradioterapia definitiva com campo cervical bilateral e risco alto de mucosite grave. Sobre a via de nutrição enteral:
9.A complicação endócrina mais frequente e vigilada após radioterapia cervical (campos que incluem a tireoide) é:
10.O conceito de campo de cancerização (Slaughter) explica clinicamente:
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