carregando…
carregando…
Artigo completo sobre epistaxe: anatomia vascular do nariz (Kiesselbach e Woodruff), classificação, etiologia, abordagem inicial na emergência, cauterização, tamponamentos anterior e posterior, cirurgia e embolização, telangiectasia hemorrágica hereditária e pontos clássicos de prova.
[1] Tunkel DE, Anne S, Payne SC, et al. Clinical Practice Guideline: Nosebleed (Epistaxis). Otolaryngol Head Neck Surg. 2020;162(1 Suppl):S1-S38 · DOI 10.1177/0194599819890327 | [2] Beck R, Sorge M, Schneider A, Dietz A. Current approaches to epistaxis treatment in primary and secondary care. Dtsch Arztebl Int. 2018;115(1):12-22 · DOI 10.3238/arztebl.2018.0012 | [3] Kucik CJ, Clenney T. Management of epistaxis. Am Fam Physician. 2005;71(2):305-311 · PMID 15686301 | [4] Faughnan ME, Mager JJ, Hetts SW, et al. Second International Guidelines for the Diagnosis and Management of Hereditary Hemorrhagic Telangiectasia. Ann Intern Med. 2020;173(12):989-1001 · DOI 10.7326/M20-1443 · DOI 10.1177/0194599819890327
Epistaxe é a perda de sangue originada da mucosa das fossas nasais (CID-10 R04.0) e representa a urgência otorrinolaringológica mais frequente na prática clínica. Cerca de 60% das pessoas terão pelo menos um episódio ao longo da vida, mas apenas 6 a 10% dos acometidos buscam atendimento médico — e é nesse subgrupo que se concentram os casos graves, sobretudo idosos, hipertensos e usuários de antitrombóticos. Para a prova, o aluno precisa dominar três eixos: a sequência de manejo escalonado (compressão, vasoconstritor tópico, cauterização, tamponamento anterior, tamponamento posterior, ligadura cirúrgica ou embolização), a distinção entre sangramento anterior (90 a 95%, triângulo de Kiesselbach) e posterior (5 a 10%, plexo de Woodruff e ramos da artéria esfenopalatina) e as situações especiais — criança, anticoagulado e telangiectasia hemorrágica hereditária.
A vascularização nasal integra os sistemas carótido externo e interno. A artéria esfenopalatina, ramo terminal da artéria maxilar (carótida externa), entra na cavidade nasal pelo forame esfenopalatino, no meato médio, e divide-se em ramo septonasal (medial) e ramos laterais — é a principal responsável pela irrigação da região posterior e a artéria ligada na cirurgia endoscópica para epistaxe refratária. As artérias etmoidais anterior e posterior, ramos da artéria oftálmica (carótida interna), irrigam o teto do nariz e a porção alta do septo e da parede lateral. Completam a rede a artéria labial superior (facial) e a artéria palatina maior (descendente palatina). O ponto mais cobrado é o triângulo vascular de Kiesselbach (área de Little), placa anastomótica na porção anteroinferior do septo onde convergem as artérias etmoidal anterior, septonasal (esfenopalatina), labial superior e palatina maior: é a origem de cerca de 90 a 95% dos episódios, facilmente visualizada e cauterizada. Na porção posterior da parede lateral, abaixo do corneto médio, o plexo venoso de Woodruff é a sede típica do sangramento posterior do idoso.
| Característica | Sangramento anterior | Sangramento posterior |
|---|---|---|
| Local de origem | Triângulo de Kiesselbach (área de Little), septo anterior | Plexo de Woodruff, ramos da esfenopalatina, meato médio |
| Frequência | Cerca de 90 a 95% dos casos | Cerca de 5 a 10% dos casos |
| Faixa etária típica | Crianças e adultos jovens | Idosos, hipertensos e anticoagulados |
| Gravidade | Geralmente leve e autolimitado | Sangramento volume maior, risco de via aérea e choque |
| Apresentação | Saída de sangue pela narina, ponto muitas vezes visível | Corrimento predominantemente para a faringe, pode ser bilateral |
| Primeira linha de tratamento | Compressão, vasoconstritor tópico e cauterização | Tamponamento posterior ou balão, com avaliação otorrinolaringológica urgente |
| Complicações típicas | Recorrência e perfuração septal por cauterização | Hipovolemia, aspiração, necrose por pressão e toxemia |
Epistaxe define-se como qualquer sangramento originado na mucosa nasal, com drenagem anterior pela narina, posterior para a nasofaringe ou mista. A classificação clinicamente útil combina topografia, causa e comportamento ao longo do tempo. A maioria dos casos atendidos em atenção primária (estimativa de 70 a 90%) são primários ou idiopáticos, sem fator causal identificável após anamnese e exame; os secundários relacionam-se a causas locais, sistêmicas ou drogas. Para fins de conduta e seguimento, o que muda o nível de cuidado é a topografia (anterior versus posterior), a gravidade hemodinâmica e a refratariedade ao tamponamento bem posicionado.
A investigação etiológica segue três perguntas: existe causa local? existe droga anti-hemostática? existe doença sistêmica? Nas crianças, trauma digital (coto), corpo estranho e rinite alérgica dominam; nos adultos jovens, trauma, rinite e uso recreacional de cocaína inalatória (que causa necrose e perfuração septal); nos idosos, atrofia da mucosa, hipertensão arterial e anticoagulantes ou antiagregantes. O uso de antitrombóticos multiplica por cerca de 2 a 3 o risco de epistaxe que exige atendimento, e a combinação de antiagregante mais anticoagulante é a de maior risco — mas a decisão de suspender a droga deve pesar risco trombótico individual, nunca ser automática.
| Grupo de causas | Exemplos frequentes |
|---|---|
| Locais | Trauma nasal e facial, coto digital, corpo estranho, rinite alérgica e não alérgica, desvio septal, rinossinusite, mucosa seca atrófica do idoso, cirurgia nasal prévia, intubação nasogástrica, tumores nasais e nasofaríngeos |
| Drogas e iatrogenia | AAS, clopidogrel, varfarina, dabigatrano, rivaroxabana, apixabana, AINEs, corticoides nasais, descongestionantes tópicos crônicos (rinite medicamentosa), cocaína inalatória |
| Sistêmicas | Hipertensão arterial (presente em grande parte dos hospitalizados, embora papel causal seja controverso), insuficiência hepática, uremia, trombocitopenia e coagulopatias, leucemia e mieloproliferativas, telangiectasia hemorrágica hereditária (Rendu-Osler-Weber) |
| Ambientais | Ar seco e frio, altitudes elevadas, aquecimento interno no inverno, tabagismo e poluição |
A prevalência ao longo da vida é de aproximadamente 60%, com apenas 6 a 10% dos indivíduos acometidos procurando serviço de saúde. A distribuição etária é bimodal: o primeiro pico ocorre abaixo dos 10 anos (epistaxe anterior, trauma digital e corpo estranho, raramente grave) e o segundo entre 45 e 80 anos, no qual aumentam a proporção de sangramentos posteriores, a necessidade de tamponamento, a hospitalização e as complicações. Estudos de serviços de urgência mostram que a maioria dos casos é idiopática; entre os hospitalizados, hipertensão e terapia antitrombótica são os fatores associados mais frequentes, e a incidência de epistaxe aumenta continuamente com a idade e com a expansão do uso de anticoagulantes orais diretos e antiagregantes. A mortalidade direta é raríssima (relatos inferiores a 0,5% em séries hospitalares), mas a recorrência é o grande problema clínico: taxas de ressangramento após tamponamento anterior chegam a 20 a 40% em 12 meses, e a epistaxe refratária consome recursos elevados de urgência e cirurgia.
O manejo começa pelo suporte básico: paciente sentado com o tronco inclinado à frente (evita deglutição de sangue e protege a via aérea), orientação para respirar pela boca e cuspir o sangue, avaliação hemodinâmica e acesso venoso se houver instabilidade ou sangramento importante. Sinais de alerta para sangramento posterior são sangue escorrendo continuamente pela parede posterior da faringe, sangramento bilateral, falha do tamponamento anterior bem posicionado e queda hematimétrica desproporcional ao sangramento visível. A elevação pressórica durante o episódio é tanto causa quanto consequência (dor, ansiedade, esforço): controlar a dor e a ansiedade faz parte do tratamento, e a hipertensão persistente deve ser tratada de forma gradual, nunca abrupta e descontrolada.
Se o ponto sangrante é visível na área de Kiesselbach após vasoconstrição, a cauterização é a terapia de escolha: química com bastão de nitrato de prata a 75% (contato de 5 a 10 segundos na mucosa ao redor do ponto, jamais sobre cartilagem exposta) ou elétrica, preferencialmente bipolar, mais controlada. Regra de segurança clássica: não cauterizar os dois lados do septo na mesma sessão, pelo risco de perfuração septal por lesão concomitante do pericôndrio. Quando o ponto não é visível ou a cauterização não controla o sangramento, avança-se para o tamponamento, escolhendo material absorvível em pacientes anticoagulados (não require remoção e causa menos trauma de mucosa) e não absorvível (esponjas expansivas, gazes ou balões) nos demais, com remoção programada em 24 a 72 horas.
| Método | Indicação | Detalhes práticos |
|---|---|---|
| Cauterização com nitrato de prata 75% ou bipolar | Ponto sangrante anterior visível | Anestesia tópica prévia; nunca bilateral no mesmo ponto septal na mesma sessão (perfuração) |
| Tamponamento anterior absorvível (colágeno, gelatina, ácido hialurônico, cola de fibrina) | Sangramento anterior em anticoagulados ou pós-cauterização | Degrada espontaneamente; dispensa remoção; menos recidiva de dor e trauma |
| Tamponamento anterior não absorvível (esponja expansiva, gaze com pomada, balão nasal) | Sangramento anterior difuso ou ponto não localizado | Hidratar a esponja com soro e pomada antibiótica; remover em 24 a 72 h com retorno agendado |
| Tamponamento posterior (gaze posterior, cateter de Foley, balão duplo epistaxe) | Sangramento posterior ou falha do tamponamento anterior | Exige monitorização (risco de hipoxemia, vagal e toxemia); remoção em 48 a 72 h |
| Ácido tranexâmico tópico | Sangramento anterior ativo | 500 mg (5 mL) em gaze intranasal ou nebulização por 10 a 15 min; ensaios randomizados mostram menos ressangramento e menos necessidade de tamponamento |
| Ácido tranexâmico sistêmico | Epistaxe refratária e telangiectasia hemorrágica hereditária | 10 mg/kg IV a cada 8 h ou 1 g IV; evidência ainda limitada especificamente em epistaxe |
Pacientes que recebem tamponamento não absorvível devem ter retorno programado para remoção e reavaliação da mucosa. A profilaxia antibiótica durante o tamponamento permanece controversa, sem evidência robusta de prevenção de sinusite ou toxicidade infecciosa; quando adotada, especialmente em tamponamento posterior, cobertura antistaphylococcus com amoxicilina 500 mg VO de 8/8 h ou amoxicilina-clavulanato 875/125 mg VO de 12/12 h enquanto o material permanecer posicionado é o esquema habitual, obrigatório na presença de valvulopatia ou prótese. Pacientes em uso de antitrombóticos não devem ter a droga suspensa rotineiramente: a decisão é individualizada, discutindo risco trombótico (por exemplo, stent recente) versus gravidade do sangramento.
A falha do tamponamento posterior ou a recorrência persistente exige hemostasia definitiva por otorrinolaringologista. O procedimento de escolha é a cirurgia endoscópica nasal com cauterização ou ligadura seletiva da artéria esfenopalatina, que controla o sangramento em aproximadamente 76 a 99% dos casos com morbidade baixa; quando a fonte situa-se acima do meato médio, pode-se associar ligadura da artéria etmoidal anterior por via cutânea (incissão palpebral medial). A embolização transfemoral da artéria maxilar, com partículas de PVA de 150 a 500 mícrons e gelatina, alcança sucesso de 71 a 95% e é reservada a pacientes de alto risco cirúrgico ou como resgate: é eficaz, porém carrega complicações raras e graves — acidente vascular cerebral isquêmico por refluxo (aproximadamente 0,1 a 0,6%), necrose de pele de face e cegueira por migração para a artéria oftálmica. A escolha entre ligadura e embolização depende da equipe, do paciente e da fonte do sangramento, e ambas exigem investigação endoscópica prévia para excluir lesões focais (tumores, malformações).
A telangiectasia hemorrágica hereditária (THH, doença de Rendu-Osler-Weber; herança autossômica dominante, genes ENG e ACVRL1) é a causa genética mais importante de epistaxe recorrente: mais de 90% dos pacientes apresentam epistaxes espontâneas recorrentes desde a infância ou adolescência. Os critérios de Curaçao definem o diagnóstico: epistaxes espontâneas recorrentes; telangiectasias múltiplas em lábios, língua, face e polpas digitais; malformações arteriovenosas viscerais (pulmão, cérebro, fígado, trato gastrointestinal); familiar em primeiro grau. Três ou quatro critérios tornam o diagnóstico definitivo, dois possível e um improvável. O tratamento é escalonado e conservador: umectação contínua da mucosa, laser da mucosa nasal, ácido tranexâmico (tópico ou sistêmico), bevacizumabe intranasal ou sistêmico nos casos graves; tamponamentos agressivos estão contraindicados porque lesam a mucosa e aumentam as recorrências.
Na criança, a epistaxe é quase sempre anterior e benigna: coto digital, corpo estranho e rinite predominam. Epistaxe unilateral persistente com rinorreia purulenta e fétida sugere corpo estranho nasal. Massa nasal sangrante em adolescente do sexo masculino com obstrução progressiva deve levantar o diagnóstico de angiofibroma nasofaríngeo juvenil: a biópsia é contraindicada pelo risco de sangramento maciço, e a investigação prossegue com tomografia e ressonância. Epistaxe recorrente em criança com equimoses, petéquias ou pallidez pede hemograma para excluir leucemia e trombocitopenia. No idoso anticoagulado, o objetivo é controlar o sangramento com o mínimo de trauma de mucosa (preferência por materiais absorvíveis e ácido tranexâmico tópico), rever a adesão e a necessidade do antitrombótico e garantir seguimento próximo, pois a recorrência é a regra.
O prognóstico da epistaxe anterior isolada é excelente: a maioria resolve com compressão, vasoconstritor e cauterização, sem sequelas. O ressangramento, entretanto, é frequente — até 20 a 40% dos pacientes tamponados voltam a sangrar em 12 meses — e deve motivar tratamento da causa de base (rinite, mucosa seca, revisão do esquema antitrombótico). Na THH, a epistaxe é crônica e a doença requer vigilância de malformações viscerais e manejo multidisciplinar; na epistaxe posterior do idoso, a mortalidade é baixa, mas a morbidade (internação, cirurgia, anemia) é substancial. Seguimento ambulatorial com otorrinolaringologista está indicado após epistaxe grave, refratária ou recorrente.
1.Qual é a origem anatômica mais comum da epistaxe anterior?
2.A primeira conduta diante de um paciente estável com epistaxe anterior ativa é:
3.O triângulo de Kiesselbach recebe contribuição de todas as artérias abaixo, EXCETO:
4.Sangramento predominantemente posterior para a faringe, bilateral, em idoso hipertenso, sugere origem em:
5.A principal complicação da cauterização septal bilateral na mesma sessão é:
6.A indicação de tamponamento posterior ocorre quando:
7.Sobre o uso tópico de ácido tranexâmico na epistaxe anterior, a conduta e a dose usuais são:
8.Paciente 30 anos, epistaxes recorrentes desde a adolescência, telangiectasias em lábios e língua e familiar com malformação arteriovenosa pulmonar. O diagnóstico provável e os critérios usados são:
9.Adolescente do sexo masculino com obstrução nasal progressiva e massa nasofaríngea vascularizada e sangrante. A conduta correta é:
10.Na epistaxe refratária a tamponamentos, o procedimento cirúrgico endoscópico de escolha e sua taxa aproximada de controle são:
acesso de membros
Matérias, materiais na íntegra, resumos, quiz e revisões ficam liberados na sua conta — a prévia desfocada é só um gostinho.
Entrar e continuar