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Revisão completa das fraturas do fêmur proximal no adulto e no idoso: classificação de Garden, Pauwels e Vancouver, epidemiologia brasileira, fisiopatologia da necrose avascular, diagnóstico das fraturas ocultas, manejo da dor com bloqueio da fáscia ilíaca, tratamento cirúrgico por tipo de fratura e prevenção de recidiva com tratamento da osteoporose.
[1] NICE. Hip fracture: management. Clinical Guideline CG124. Londres: National Institute for Health and Care Excellence. 2011 (atualizada) · nice.org.uk/guidance/cg124 | [2] American Academy of Orthopaedic Surgeons. Management of Hip Fractures in Older Adults — Evidence-Based Clinical Practice Guideline. 2021 · aaos.org/hipfxcpg.pdf | [3] Neuman MD, Sieber FE, Dillane D, et al. Spinal anesthesia or general anesthesia for hip surgery in older adults. N Engl J Med. 2021;385(22):2025-35 · PMID 34623788 | [4] Duncan CP, Masri BA. Fractures of the femur after hip replacement. Instr Course Lect. 1995;44:293-304 | [5] Daniachi D, Santos Netto A, Ono NK, et al. Epidemiologia das fraturas do terço proximal do fêmur em pacientes idosos. Rev Bras Ortop. 2015;50(4):371-7 · rbo.org.br
As fraturas do fêmur proximal, chamadas genericamente de fraturas do quadril, são a epidemia ortopédica do envelhecimento populacional: o mundo registra em torno de 1,6 milhão de casos novos por ano, com projeção de duplicação até 2050, e o Brasil acompanha a curva, com predominância de mulheres acima de 80 anos vítimas de quedas de baixa energia sobre solo osteoporótico. É a fratura que mais mata no Trauma do idoso: a mortalidade em 1 ano varia de 20 a 30%, cerca de um terço dos pacientes perde a independência para deambular e menos da metade recupera o nível funcional prévio. Ao mesmo tempo, é a fratura com maior evidência de que tempo é vida: a cirurgia realizada nas primeiras 24 a 48 horas reduz mortalidade, delirium, pneumonia, úlceras por pressão e tromboembolismo, razão pela qual NICE e AAOS recomendam operar no dia da admissão ou no seguinte. Para a prova, o aluno precisa dominar a classificação topográfica (intracapsular ou extracapsular), Garden e Pauwels no colo femoral, Evans no transtrocantérico, Vancouver nas fraturas periprotéticas, o suprimento vascular que explica a necrose avascular, o manejo multimodal da dor com bloqueio da fáscia ilíaca e a escolha entre parafusos, haste cefalomedular e artroplastia.
A primeira divisão que organiza todo o raciocínio é a cápsula articular. As fraturas intracapsulares envolvem cabeça e colo femoral, ocorrem dentro de um compartimento fechado e podem seccionar os vasos retinaculares que irrigam a cabeça, explicando os dois problemas que só elas têm: necrose avascular e não união; por isso, quando deslocadas no idoso, frequentemente são tratadas substituindo a articulação. As fraturas extracapsulares (transtrocantéricas, subtrocantéricas e básicas) ocorrem em osso bem vascularizado e esponjoso, com taxas de união acima de 95% com fixação moderna; o desafio é biomecânico (cominuição e forças musculares deformantes), não vascular. Essa diferença responde à pergunta clássica de prova sobre por que o colo femoral deslocado do idoso vai para artroplastia, enquanto o transtrocantérico vai para osteossíntese.
| Segmento | Classificações clássicas | Implicação terapêutica |
|---|---|---|
| Colo femoral (intracapsular) | Garden I a IV; Pauwels I a III | Risco de necrose avascular e não união; deslocada no idoso costuma indicar artroplastia |
| Transtrocantérica | Evans e Jensen (estável ou instável) | Estável: parafuso deslizante de quadril (DHS); instável: haste cefalomedular |
| Subtrocantérica | Russell-Taylor e AO/OTA | Zona de altas tensões; haste cefalomedular de escolha |
| Básica (metadiafisária) | AO/OTA 31-A3 | Haste cefalomedular; alto risco de desvio com placa isolada |
| Periprotética (em artroplastia prévia) | Vancouver (AG, AL, B1, B2, B3, C) | Conduta depende da estabilidade da haste e do estoque ósseo |
A classificação de Garden divide a fratura do colo em quatro estágios pela integridade do trabeculado e pelo deslocamento. Garden I é incompleta e impactada em valgo (cabeça inclinada sobre o colo, trabeculado ainda contínuo); Garden II é completa, mas não deslocada (traço completo, trabeculado alinhado); Garden III é completa com deslocamento parcial (a cabeça roda em varo, trabeculado desalinhado); Garden IV é completa com deslocamento total, em que a cabeça perde o contato ósseo e volta a se alinhar com o acetábulo, mantendo seu trabeculado em continuidade com o da bacia. Na prática, o que muda a conduta é o par não deslocado (I-II) versus deslocado (III-IV). A classificação de Pauwels complementa pela inclinação do traço no plano coronal e pela estabilidade biomecânica: Pauwels I tem traço com menos de 30 graus em relação à horizontal (forças de compressão, mais estável), Pauwels entre 30 e 50 graus (intermediária) e Pauwels III acima de 50 graus (traço vertical submetido a cisalhamento, altíssima instabilidade e risco de não união, típico do adulto jovem em trauma de alta energia).
A fratura do fêmur proximal é doença do idoso frágil: cerca de 75 a 80% dos casos ocorrem em mulheres, a idade média fica acima de 80 anos e o mecanismo é queda da própria altura em cerca de 90% dos casos, com impacto lateral direto sobre o trocânter em osso osteoporótico. O estudo brasileiro de referência, conduzido em hospital-escola da região central de São Paulo e publicado na Revista Brasileira de Ortopedia em 2015, confirmou o perfil nacional: predomínio feminino, faixa acima de 80 anos, queda de baixa energia como principal mecanismo e letalidade hospitalar em torno de 5%, crescente com a idade. Dados administrativos do DATASUS mostram dezenas de milhares de internações anuais no país, com mortalidade intra-hospitalar em torno de 4 a 5% e custo elevado. Fatores de risco independentes incluem osteoporose, sarcopenia e quedas recorrentes, uso de benzodiazepínicos e anticonvulsivantes, hipovitaminose D, tabagismo, baixo índice de massa corporal e fragilidade; no extremo oposto, o adulto jovem fratura o colo em trauma de alta energia (acidente motoautomobilístico, queda de altura), cenário de emergência cirúrgica absoluta. Um grupo crescente é o das fraturas atípicas subtrocantéricas e diafisárias associadas ao uso prolongado de bisfosfonatos, com traço transverso, espessamento cortical lateral e dor prodômica no terço proximal da coxa.
A irrigação da cabeça femoral no adulto vem predominantemente da artéria circunflexa femoral medial, cujos ramos retinaculares superiores e posteriores sobem pelo colo dentro da cápsula reflexa; a artéria do ligamento da cabeça (ligamento redondo, ramo da obturatória) traz contribuição menor, mais relevante a partir da sexta década, e os vasos metafisários suprem a região do colo. Quando o traço transcervical desloca, os retinaculares se rompem e a cabeça fica isquêmica: a necrose avascular aparece em meses a 2 anos, com colapso segmentar em crescente que justifica a escolha da artroplastia no idoso com fratura deslocada. Nas intracapsulares, o hematoma dentro da cápsula fechada pode elevar a pressão intracapsular e comprimir os vasos remanescentes, e por isso, no adulto jovem, preconiza-se fixação urgente (idealmente em menos de 24 horas), com redução anatômica, podendo-se considerar capsulotomia ou artrocentese para descompressão. Na subtrocantérica, a biomecânica explica o desvio: o segmento proximal é puxado em flexão e rotação externa pelo iliopsoas inserido no pequeno trocânter e abduzido pelo glúteo médio no grande trocânter, enquanto o distal é tracionado em adução e medialização pelos adutores, padrão que a placa isolada dificilmente controla e que favorece a haste cefalomedular.
O quadro clássico após queda é inconfundível: dor intensa na região inguinal e no trocânter, incapacidade de levantar e deambular, membro com encurtamento aparente, rotação externa de 45 a 60 graus e abdução discreta (o membro repousa rodado para fora pela tração dos rotadores externos sem o contraponto do colo íntegro), além de dor à rotação passiva e à percussão do calcâneo. Atenção às formas que enganam: o idoso com fratura impactada de Garden I pode deambular com dor inguinal mecânica e exame apenas sugestivo; a fratura por estresse do colo cursa com dor progressiva à marcha; a fratura atípica por bisfosfonato tem dor prodômica em coxa há semanas; e o paciente neurológicamente comprometido pode apresentar apenas irritabilidade e recusa de deambulação. O exame deve documentar estado da pele (fratura fechada ou exposta, rara aqui), pulsos distais, sensibilidade e função motora, dor em pelve e coluna associada (fraturas simultâneas de ramo pubiano e vertebrais são frequentes), além de avaliação cognitiva basal para estratificar risco de delirium.
A radiografia anteroposterior de pelve, com quadril em rotação interna, associada ao perfil do quadril afetado, é o exame inicial e detecta a maioria das fraturas; contudo, de 2 a 9% das fraturas do quadril são ocultas, com radiografia inicial falsamente normal, sobretudo fraturas impactadas e por estresse. Diante de clínica sugestiva e radiografia normal, o próximo passo é a ressonância magnética, padrão-ouro com sensibilidade próxima de 100% nas primeiras 24 a 72 horas, capaz de mostrar edema medular e o traço oculto, além de diagnosticar diferenciais como fratura de ramo pubiano, lesão acetabular e osteíte. A cintilografia óssea, historicamente a segunda linha, só atinge boa sensibilidade após 48 a 72 horas e sofre com a redução de captação no idoso; a tomografia, útil no planejamento de fraturas complexas e periprotéticas, é inferior à ressonância para ocultas, pois mostra bem corticais e mal edema medular precoce. O diagnóstico diferencial inclui contusão de partes moles, lombociatalgia com dor referida, fratura de pubis e acetábulo, artrite séptica e metástases com dor mecânica; no idoso anticoagulado, hematoma da parede abdominal e da bainha dos retos imita fratura de quadril.
| Método | Papel no protocolo | Desempenho e observações |
|---|---|---|
| Radiografia (AP de pelve e perfil) | Exame inicial de todos os pacientes com suspeita | Detecta a maioria; 2 a 9% das fraturas são ocultas com RX inicial normal |
| Ressonância magnética | Suspeita clínica com radiografia normal | Padrão-ouro das ocultas: sensibilidade próxima de 100% em 24-72 h, incluindo edema medular |
| Cintilografia óssea | Alternativa quando RM indisponível | Sensibilidade alta apenas após 48-72 h; reduzida no idoso |
| Tomografia computadorizada | Planejamento de fraturas complexas e periprotéticas | Excelente para corticais e classificação; inferior à RM para ocultas precoces |
O controle da dor na chegada é prioridade humanitária e terapêutica: idoso com dor não levanta, não coopera, delira e piora. A base é analgesia multimodal: paracetamol intravenoso 1 g a cada 6 horas (máximo de 3 a 4 g/dia no idoso), opioide titulado por doses baixas (morfina 2 a 4 mg IV fracionada, com vigilância de sedação e retenção urinária) e uso criterioso e curto de AINEs, evitados de rotina por risco renal e gastrointestinal. A peça que mais reduz dor e consumo de opioide é o bloqueio do plano da fáscia ilíaca, guiado por ultrassom, com 20 a 40 mL de anestésico local (bupivacaína 0,25 a 0,3% ou ropivacaína 0,3 a 0,5%), que anestesia o nervo femoral e o cutâneo lateral da coxa no seu trajeto pré-fascial; a diretriz do NICE recomenda oferecê-lo precocemente no pronto-socorro, e as revisões mostram queda consistente da dor à mobilização e do uso de opioide nas primeiras 24 horas, com perfil de segurança favorável quando respeitadas a dose máxima de anestésico local e a aspiração intermitente. Duas práticas abandonadas pelas evidências merecem nota: a tração cutânea ou esquelética de rotina não melhora dor nem desfechos e pode causar lesão de pele e nervo, e a medicação única em altas doses de opioide aumenta delirium.
Na escolha da técnica anestésica, o ensaio REGAIN (Neuman e colaboradores, New England Journal of Medicine, 2021) randomizou cerca de 1.600 pacientes com 50 anos ou mais para raquianestesia ou anestesia geral com estratégia moderna: o desfecho combinado de morte ou incapacidade de deambular aos 60 dias foi praticamente idêntico (18,5% com raquianestesia contra 18,3% com geral), sem superioridade da técnica regional, e cerca de 15% dos pacientes alocados à raquianestesia exigiram conversão para geral. A leitura prática é que a escolha deve ser individualizada (condições de via aérea, anticoagulação, preferência e experiência do serviço), e análises secundárias mostram mais dor pós-operatória e maior uso de opioide no grupo regional. O essencial é operar cedo, com anestesia adequada e protocolo de prevenção e tratamento da hipotensão perioperatória, conforme o paciente.
A cirurgia nas primeiras 24 a 48 horas é a intervenção de maior impacto no desfecho, e o que atrasa o idoso raramente é o ato ortopédico: é a otimização médica mal conduzida. NICE recomenda operar no dia da admissão ou no dia seguinte, e o adiamento só se justifica por instabilidade hemodinâmica, anticoagulação não revertida, sepse ativa ou insuficiência cardíaca descompensada, situações que devem ser corrigidas em horas, não dias. Pontos práticos de otimização: reverter anticoagulação (varfarina com vitamina K e, se urgente, concentrado de complexo protrombínico; os anticoagulantes orais diretos respeitam janela de 24 a 48 horas conforme a molécula e a função renal), transfundir com gatilho restritivo em torno de hemoglobina de 7 a 8 g/dL no paciente estável, suspender hipnóticos e anticolinesterásicos desnecessários, otimizar analgesia sem hipnotizar, hidratar com cautela e instituir profilaxia de tromboembolismo. Antibioticoprofilaxia com cefazolina 2 g IV (3 g acima de 120 kg) na indução e protocolo de prevenção de delirium e de úlcera por pressão completam o pacote da ortogeriatria, modelo de co-gestão que reduz tempo de internação e complicações.
A fixação com 3 parafusos canulados dispostos em triângulo invertido (dois inferiores divergentes e um superior, calcanhar apoiado na cortical inferior) é o padrão para colo não deslocado (Garden I-II) e para praticamente todas as fraturas do colo no adulto jovem, nas quais preservar a cabeça é obrigatório e a urgência é absoluta. No idoso com colo deslocado (Garden III-IV), a artroplastia é a regra, porque fixar uma cabeça isquêmica troca um problema agudo por necrose e não união; a escolha entre hemiartroplastia e artroplastia total segue o estado funcional e cognitivo: a artroplastia total oferece melhor função e menor risco de revisão em pacientes independentes, comunitários e cognitivamente íntegros, enquanto a hemiartroplastia (unipolar ou bipolar) atende frágeis, institucionalizados ou com demência avançada, em que o risco de luxação e o tempo cirúrgico pesam mais. Nas transtrocantéricas estáveis (traço de duas partes, parede póstero-medial íntegra), o parafuso deslizante de quadril (DHS com parafuso de 135 graus) permanece excelente opção, permitindo impactação controlada; nas instáveis (cominuição póstero-medial, traço reverso, extensão subtrocantérica) e nas subtrocantéricas e básicas, a haste cefalomedular (tipo Gamma ou PFNA) é a preferência por ser biomecanicamente mais estável, com cilindro de parafuso cefálico deslizante e alça cefálica antirrotatória. Em artroplastias do quadril no idoso com fratura, o componente femoral cimentado é recomendado pela diretriz do NICE pela menor dor pós-operatória e menor risco de afrouxamento e revisão, com atenção à reação à cimentação.
| Fratura | Tratamento de eleição | Pontos-chave |
|---|---|---|
| Colo não deslocado (Garden I-II) | Fixação com 3 parafusos canulados em triângulo invertido | Necrose avascular de 5-10%; artroplastia só em exceções (frágil extremo) |
| Colo deslocado no idoso (Garden III-IV) | Artroplastia: total no independente e cognitivamente íntegro; hemi no frágil/demente | Componente femoral cimentado recomendado (NICE); cirurgia em 24-48 h |
| Colo deslocado no adulto jovem | Redução anatômica urgente e 3 parafusos canulados | Emergência: idealmente em menos de 24 h; preservar a cabeça a qualquer custo |
| Transtrocantérica estável | Parafuso deslizante de quadril (DHS, 135 graus) | Impactação controlada; distância ponta-ápice menor que 25 mm contra cut-out |
| Transtrocantérica instável, reversa, subtrocantérica e básica | Haste cefalomedular (Gamma, PFNA) | Controle do padrão de flexão-rotação externa-adução do fragmento proximal |
Com o envelhecimento da população artroplastizada, as fraturas periprotéticas do fêmur tornaram-se problema frequente: acometem cerca de 1% das artroplastias primárias e até 4% das revisões, com fatores de risco que incluem afrouxamento assintomático e osteólise, osteoporose, sexo feminino, hastes não cimentadas com osteólise proximal e quedas recorrentes. A classificação de Vancouver, descrita por Duncan e Masri em 1995, organiza a decisão em três perguntas: onde é a fratura, o haste está estável e o estoque ósseo é suficiente? Os tipos A acometem os trocânteres (AG, grande trocânter; AL, pequeno trocânter) e são tratados conservadoramente quando não deslocados e pouco sintomáticos; o tipo B, ao redor ou logo abaixo da haste, subdivide-se em B1 (haste bem fixada, osteossíntese com placa e cabos ou placas bloqueadas), B2 (haste solta, obrigando revisão com haste longa que atravessa o foco) e B3 (haste solta com estoque ósseo insuficiente, exigindo revisão associada a enxerto estrutural ou endoprótese tumoral); o tipo C ocorre bem abaixo da haste e é fixado isoladamente, como qualquer fratura diafisária. A avaliação pré-operatória exige radiografias de boa qualidade e, frequentemente, tomografia para estabilidade do haste, além de planejamento de estoque de implantes e banco de osso.
A mortalidade em 30 dias situa-se entre 5 e 10%, e em 1 ano entre 20 e 30%, com preditores clássicos: idade avançada, sexo masculino, comorbidades (escore ASA), demência, institucionalização, atraso cirúrgico e delirium pós-operatório. Complicações ortopédicas: necrose avascular da cabeça (10 a 30% nas deslocadas fixadas), não união do colo (10 a 30% nas deslocadas), cut-out do parafuso cefálico (1 a 4%, reduzido com distância ponta-ápice menor que 25 mm), falha de material, infecção profunda (1 a 2%), luxação de artroplastia (maior em hemiartroplastia por via póstero-lateral e em cognitivamente comprometidos) e nova fratura contralateral. Complicações clínicas dominam a letalidade precoce: delirium em torno de um terço dos idosos, pneumonia, tromboembolismo venoso e pulmonar, úlcera por pressão, descondicionamento e constipação. A profilaxia de tromboembolismo é obrigatória, com heparina de baixo peso molecular (ex.: enoxaparina 40 mg subcutânea ao dia) ou fondaparinux 2,5 mg ao dia, iniciada no pré ou pós-operatório imediato e mantida por 28 a 35 dias; compressão intermitente complementa. Seguimento funcional com fisioterapia precoce com carga conforme fixação, reabilitação multidisciplinar e ortogeriatria reduzem mortalidade institucional em serviços que implantaram via rápida de fratura de quadril.
Toda fratura de quadril no idoso é sinal avançado de osteoporose não tratada, e a recidiva é frequente: sem intervenção, o risco de nova fratura major chega a cerca de 10% no primeiro ano. O pós-operatório é a janela de oportunidade: prescrever cálcio 1.000 a 1.200 mg/dia e vitamina D 800 a 2.000 UI/dia (corrigindo deficiência com esquemas de reposição), iniciar antirreabsortivo ou anabólico conforme o risco (alendronato 70 mg/semana, risedronato 35 mg/semana, ácido zoledrônico 5 mg IV anual, denosumabe 60 mg subcutâneo a cada 6 meses, ou teriparatida 20 mcg/dia no risco muito elevado), revisar medicamentos que causam quedas (benzodiazepínicos, hipnóticos, anti-hipertensivos em excesso), avaliar visão, força e perigos domiciliares e encaminhar o paciente a um serviço de ligação com fratura (fracture liaison service), modelo com melhor custo-efetividade para capturar, investigar e tratar o idoso fraturado. Em uso prolongado de bisfosfonatos (mais de 3 a 5 anos), reavaliar risco de fratura atípica com radiografia da coxa ante dor prodômica, considerando férias do medicamento em risco baixo e troca por agente anabólico no risco alto.
1.Idoso chega ao pronto-socorro após queda da própria altura com membro direito encurtado, em rotação externa de 50 graus e incapaz de levantar. Qual a hipótese clássica?
2.Qual achado diferencia uma fratura Garden IV de uma Garden III do colo femoral?
3.Paciente com suspeita clínica de fratura de quadril e radiografias iniciais normais. Qual o próximo exame?
4.Qual estrutura é o principal suprimento sanguíneo da cabeça femoral no adulto, cuja lesão explica a necrose avascular?
5.Idoso de 82 anos, independente e cognitivamente íntegro, com fratura deslocada do colo femoral (Garden III). Qual o melhor tratamento?
6.Qual a conduta padrão para fratura transtrocantérica instável (cominução da parede póstero-medial) no idoso?
7.Paciente com artroplastia total há 6 anos chega com fratura ao redor da haste femoral; exames mostram haste solta e estoque ósseo preservado. Vancouver tipo B2. Qual a conduta?
8.Qual medida analgésica precoce recomendada pelo NICE reduz dor à mobilização e consumo de opioides na fratura de quadril?
9.Segundo o ensaio REGAIN (NEJM, 2021), qual a conclusão sobre raquianestesia versus anestesia geral na cirurgia de fratura de quadril em idosos?
10.Idoso operado de fratura do quadril recebe alta. Qual componente é essencial na prevenção de nova fratura nas próximas semanas?
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