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Revisão didática das luxações glenoumerais e de quadril: anatomia e biomecânica, classificação, apresentação clínica, exame neurovascular obrigatório, radiologia, técnicas de redução fechada com detalhes práticos, conduta pós-redução e complicações como necrose avascular e lesão do nervo axilar e ciático.
[1] Zacchilli MA, Owens BD. Epidemiology of shoulder dislocations presenting to emergency departments in the United States. J Bone Joint Surg Am. 2010;92(3):542-549 | [2] Hovelius L et al. Primary anterior dislocation of the shoulder in young patients: a ten-year prospective study. J Bone Joint Surg Am. 1996;78(11):1677-1684 · PMID 8934482 | [3] Foulk DM, Mullis BH. Hip dislocation: evaluation and management. J Am Acad Orthop Surg. 2010;18(4):199-209 · PMID 20357229 | [4] Hougaard K, Thomsen PB. Traumatic posterior dislocation of the hip: prognostic factors influencing the incidence of avascular necrosis of the femoral head. Arch Orthop Trauma Surg. 1986;106(1):32-35 · PMID 3566493 · DOI 10.1007/BF00435649 | [5] Tornetta P III et al (eds). Rockwood and Green's Fractures in Adults. 9ª ed. Wolters Kluwer; 2019
O ombro é a grande articulação que mais se luxa no corpo humano: responde por cerca de metade das luxações que chegam aos pronto-socorros, com incidência estimada em 23,9 casos por 100 mil pessoas-ano nos Estados Unidos. O quadril é o extremo oposto: a articulação mais estável do esqueleto precisa de trauma de alta energia para sair do lugar, e justamente por isso a luxação do quadril é emergência ortopédica com relógio correndo, pois cada hora de atraso aumenta o risco de necrose avascular da cabeça femoral. Entre os dois temas moram os nervos axilar e ciático, as manobras de redução com nomes de médicos, lesões com nomes de cirurgiões (Bankart, Hill-Sachs, Pipkin) e uma regra de ouro: examinar e documentar neurovascular antes e depois de qualquer redução.
A articulação glenoumeral troca estabilidade por amplitude: a cabeça umeral tem área óssea cerca de três vezes maior que a glenoide, que é rasa e só ganha profundidade pelo lábio fibrocartilaginoso. Os estabilizadores estáticos são a cápsula, os ligamentos glenoumerais (sobretudo o inferior, o mais importante contra a translação anterior) e o lábio; os estabilizadores dinâmicos são o manguito rotador, que centraliza a cabeça durante o movimento, e a escápula, cujo ritmo coordena a elevação do braço. O desequilíbrio entre mobilidade extrema e contenção óssea mínima explica os dois picos epidemiológicos: homens jovens em esporte de contato e quedas, e mulheres idosas com fraturas por fragilidade e lesões do manguito.
| Direção | Frequência | Mecanismo típico | Posição do braço | Lesões associadas |
|---|---|---|---|---|
| Anterior (subcoracoidea) | 95-97% | Abdução com rotação externa e força posterior (queda com braço aberto) | Levemente abduzido e em rotação externa, apoiado na mão contralateral | Bankart, Hill-Sachs, lesão do manguito, fratura do grande tubérculo |
| Posterior | 2-4% | Convulsão, eletrocussão, força axial com braço em rotação interna | Aduzido, em rotação interna fixa, ombro achatado anteriormente | Fratura-impacção da cabeça (sinal do vale), lesão do lábio posterior |
| Inferior (luxatio erecta) | menos de 1% | Hiperabdução com a cabeça umeral empurrada para baixo | Preso em abdução completa acima da cabeça | Grande lesão do manguito e alta frequência de lesão neurovascular |
Na luxação anterior clássica, o paciente chega ao pronto-socorro segurando o braço sadio contra o tronco do lado lesionado. A inspeção mostra perda do contorno arredondado do ombro (ombro quadrado), proeminência da cabeça umeral na região axilar ou anterior e da apófise coracoide. Qualquer tentativa de movimento é dolorosa e guardada. Na luxação posterior, o defeito é mais sutil: o examinador desatento nota apenas rotação interna fixa e resistência à rotação externa ativa ou passiva, e o ombro parece achatado por trás, com a coracoide saliente: é a luxação que mais passa despercebida em pronto-socorro.
Antes e depois de qualquer redução, o exame deve documentar, por escrito: sensibilidade na região do distintivo regimental (face lateral do ombro, território do nervo axilar), força de abdução do deltoide entre 15 e 90 graus (nervo axilar), sensibilidade na face lateral do antebraço (nervo cutâneo braquial lateral ou musculocutáneo), extensão do punho e do polegar (nervo radial) e pulsos umeral e radial. A lesão do nervo axilar ocorre em até 15 a 20% das luxações anteriores em algumas séries, e a esmagadora maioria é neuropraxia com recuperação em semanas a meses. Nas luxações inferiores e nas luxações com fratura do colo do úmero, a taxa de lesão neurovascular é bem maior.
As lesões cápsulo-labiais e ósseas definem o prognóstico de instabilidade. A lesão de Bankart é o descolamento do lábio e do ligamento glenoumeral inferior anteroinferior, o achado anatômico da primeira luxação anterior em jovens; quando arranca fragmento ósseo da glenoide, chama-se Bankart ósseo, e defeitos glenoides maiores que 20 a 25% mudam a cirurgia para reconstrução óssea (Latarjet). A lesão de Hill-Sachs é a fratura por impacção da cabeça umeral contra a borda glenoidal, na face posterolateral; quando grande e situada na faixa funcional do arco de movimento, diz-se engajada, e amplia o risco de recorrência. Em pacientes acima de 40 anos, a lesão do manguito rotador substitui a instabilidade como complicação dominante (presente em cerca de um terço dos casos acima dos 40 e até 80% acima dos 60), junto com fraturas do grande tubérculo em 10 a 15%.
A radiologia do trauma do ombro tem três incidências: ântero-posterior, escapular Y (ou transescapular) e axilar. A incidência axilar é a única que separa claramente luxações anteriores de posteriores e deve ser obtida sempre que possível (na impossibilidade de abduzir, usa-se a variante de Velpeau em obliqua). Radiografias pré-redução confirmam a direção e excluem fratura associada; radiografias pós-redução confirmam a congruência e a redução de eventuais arrancamentos. A ressonância magnética é o exame do planejamento cirúrgico, para lábio e manguito, e a tomografia quantifica perda óssea glenoidal e humeral.
A redução pode ser feita com sedação procedural (midazolam 2 a 5 mg EV fracionado com fentanila 50 a 100 microgramas, ou propofol em ambiente monitorado) ou com analgesia intra-articular: 10 a 20 mL de lidocaína a 1% injetados na articulação após aspiração, com eficácia comparável em vários ensaios. Independentemente da técnica, os músculos precisam estar relaxados: força bruta causa fratura do colo umeral e lesão nervosa.
| Técnica | Como se faz | Vantagem | Cautela |
|---|---|---|---|
| Stimson | Paciente em decúbito ventral, braço pendente da maca com pesos de 2 a 5 kg no punho por 15 a 20 minutos | Tração lenta e fisiológica; exige pouca sedação | Demora e necessidade de monitorização contínua |
| Rotação da escápula | Decúbito ventral ou sentado, rotação medial da borda inferior da escápula após tração leve | Altas taxas de sucesso com pouca sedação | Exigência de treinamento da equipe |
| Milch | Abdução até 90 graus com rotação externa e tração suave, apoiando a cabeça umeral | Pouco traumática, pode ser feita sem sedação | Pior tolerância no início do movimento |
| Tração e contra-tração | Tração do braço em ligeira abdução com contra-tração no tórax por lençol | Simples, depende de assistente | Necessidade de força e de sedação adequada |
| Kocher e técnica de Hipócrates | Alavanca com tração e rotação; pé na axila (Hipócrates) | Descritas nos clássicos | Maior risco de fratura do colo e de lesão do nervo axilar; evitar em idosos |
Após a redução, o exame neurovascular é refeito e radiografias confirmam a congruência. A imobilização em tipoia (ou bandagem tóraco-braquial) por 3 a 4 semanas nos jovens e 1 a 2 semanas acima dos 40 a 60 anos busca equilibrar dois riscos opostos: recorrência e rigidez (capsulite adesiva, mais comum em idosos imobilizados por muito tempo). Estudos sugerem que imobilizar em rotação externa de aproximadamente 10 graus aproxima o lábio da glenoide e pode reduzir a recorrência, mas os resultados são heterogêneos e a tipoia simples continua sendo o padrão na maior parte dos serviços. A reabilitação começa com exercícios isométricos e pendulares, progride para amplitude ativa assistida e, por fim, fortalecimento do manguito e do escapular.
A decisão cirúrgica segue a idade e a demanda funcional: o estudo prospectivo de Hovelius acompanhou 245 pacientes de 12 a 40 anos por 10 anos e mostrou que a idade é o principal preditor de recorrência, com cerca de metade dos menores de 22 anos reluxando; acima dos 40 anos, a recorrência cai para menos de 20%, e a lesão do manguito assume o protagonismo. Indicações clássicas de estabilização cirúrgica (artroscópica de Bankart ou Latarjet): recidiva após tratamento conservador, primeira luxação em atleta jovem de contato, Bankart ósseo com perda glenoidal maior que 20 a 25%, Hill-Sachs engajada e luxação com instabilidade voluntária traumática documentada.
A cabeça femoral está contida em uma esfera óssea profunda (a parte mais frágil é justamente a parede posterior da glenoide acetabular), reforçada pelo ligamento iliofemoral (em Y, na face anterior, o mais forte do corpo), pela cápsula espessa e pelos músculos potentes que a cruzam. A irrigação da cabeça femoral é terminal e retrógrada: a artéria do ligamento redondo e os ramos retinaculares cervicais que sobem pelo colo a partir das artérias circunflexas femorais, que se rompem ou se torcem quando a cabeça sai do acetábulo. É essa vascularização precária que transforma horas de luxação em risco de necrose avascular: a série clássica de Hougaard registrou necrose em 4,8% das luxações reduzidas dentro de 6 horas e em 52,9% das reduzidas depois disso. O mecanismo típico é trauma de alta energia: dorso do joelho contra o painel do carro com quadril flexionado (luxação posterior), queda de altura ou esporte de colisão.
| Característica | Luxação posterior (85-90%) | Luxação anterior (10-15%) |
|---|---|---|
| Mecanismo | Axial no joelho flexionado com quadril flexionado, aduzido e em rotação interna (painel) | Hiperabdução com rotação externa forçada (queda com perna aberta) |
| Deformidade | Membro encurtado, quadril fixo em flexão, adução e rotação interna | Membro alongado, quadril abduzido e em rotação externa (tipo obturatório) |
| Nervo acometido | Ciático em 10 a 20%, com predomínio da divisão peroneal | Femoral, mais raramente |
| Fraturas associadas | Parede posterior do acetábulo, cabeça femoral, colo, diáfise femoral | Fratura da coluna anterior ou da cabeça |
| Manobra clássica | Allis ou Stimson | Bigelow (rotação interna com tração), com força controlada |
A suspeita começa na cena: vítima de colisão automobilística retirada do veículo com o quadril em posição viciosa não deve ser mobilizada sem proteção, e todo joelho traumatado no painel merece radiografia do quadril ipsilateral. No exame, documenta-se deformidade, encurtamento, crepitação, pulsos femoral e pedioso, sensibilidade e força: no ciático, prioriza-se a divisão peroneal, com dorsiflexão do tornozelo e extensão dos dedos (a lesão é predominantemente neuropraxia e a maioria recupera parcial ou completamente). Fratura de diáfise femoral ipsilateral pode mascarar a deformidade clássica: por isso a regra radiografia de quadril, fêmur e joelho do mesmo lado antes de qualquer tentativa de redução. Classificações úteis: Thompson-Epstein (I a V) ordena as luxações posteriores conforme a fratura acetabular associada, e Pipkin (I a IV) ordena as fraturas da cabeça femoral conforme a relação com a fóvea, o colo e o acetábulo.
A radiografia ântero-posterior da pelve é obrigatória e geralmente basta para o diagnóstico: na luxação posterior, a cabeça femoral perde a congruência com o teto acetabular, sobe e se sobrepõe ao acetábulo, e o trocânter maior gira para dentro; na anterior, a cabeça desce e medializa, com o colo aparentemente alongado. Incidências obliquas de Judet (45 graus) e, sobretudo, a tomografia computadorizada avaliam fraturas da parede posterior, da cabeça e fragmentos intra-articulares. A tomografia após a redução é padrão de cuidado: identifica fragmentos osteocondrais retidos, incongruência articular e tamanho do defeito da parede, que decidem entre tratamento conservador e cirurgia. A ressonância magnética é o exame mais sensível para necrose avascular precoce no seguimento.
Fraturas associadas mudam a conduta: na fratura da cabeça tipo Pipkin I (abaixo da fóvea, sem carga) pode-se tentar tratamento conservador se a redução for congruente; na Pipkin II (fragmento de carga) e na Pipkin III (com fratura do colo) a fixação cirúrgica é regra; a Pipkin IV (com fratura acetabular) segue o tratamento do acetábulo. Fragmentos intra-articulares retidos impedem carga e indicam retirada artroscópica ou aberta. A luxação anterior reduz-se com tração e rotação interna controlada (manobra de Bigelow invertida), com atenção redobrada ao nervo femoral e aos vasos.
| Complicação | Frequência aproximada | Fatores de risco | Conduta e seguimento |
|---|---|---|---|
| Necrose avascular da cabeça femoral | 4,8% se reduzida em até 6 h; 52,9% se depois | Atraso da redução, gravidade do trauma | Ressonância nos primeiros meses se sintomas; proteger a carga; artroplastia tardia se colapso |
| Lesão do nervo ciático | 10 a 20% das posteriores | Luxação posterior e fratura da parede | Documentar e fisioterapia; maioria neuropraxia com recuperação; explorar se piora após redução |
| Artrose pós-traumática | Até metade em longo prazo | Fratura da cabeça ou do acetábulo, incongruência | Seguimento radiográfico prolongado; tratamento sintomático |
| Ossificação heterotópica | Cerca de 2 a 25% | Fratura da cabeça, cirurgia, trauma de partes moles | Indometacina ou radioterapia profilática conforme protocolo |
| Reluxação | Rara no quadril nativo | Instabilidade posterior e grande defeito ósseo | Reconstrução da parede ou artroplastia restritiva em selecionados |
No ombro, a complicação dominante do jovem é a recorrência: cerca de metade dos menores de 22 anos volta a luxar em poucos anos, contra menos de 20% acima dos 40, quando lesão do manguito rotador, rigidez e capsulite adesiva assumem o primeiro plano, além da maior frequência de fratura do grande tubérculo e da lesão do nervo axilar (geralmente neuropraxia transitória). Recorrências repetidas evoluem para instabilidade crônica com lesões ósseas crescentes e artrose glenoumeral em longo prazo. O seguimento orienta-se pela demanda: atletas de contato e pacientes com primeira luxação antes dos 25 anos merecem discussão precoce de estabilização cirúrgica; idosos, reabilitação dirigida ao manguito e vigilância de rigidez.
1.Qual é a direção mais frequente da luxação traumática da articulação glenoumeral?
2.Após reduzir uma luxação anterior de ombro, qual nervo deve ser sistematicamente testado por sensibilidade na face lateral do ombro e abdução do deltoide?
3.Paciente chega após crise convulsiva com ombro doloroso, braço em rotação interna fixa e resistência à rotação externa. Qual incidência radiográfica é essencial para não perder o diagnóstico?
4.A lesão de Hill-Sachs é:
5.Qual fator está mais fortemente associado à recorrência após uma primeira luxação anterior de ombro tratada conservadoramente?
6.Paciente de 68 anos sofre primeira luxação anterior de ombro em queda da própria altura. Qual complicação é mais provável do que em um atleta de 18 anos?
7.Na manobra de Allis para luxação posterior de quadril, o paciente fica:
8.A deformidade clássica da luxação posterior de quadril é membro:
9.Qual estrutura nervosa deve ser examinada antes e depois da redução da luxação posterior de quadril, priorizando a dorsiflexão do tornozelo?
10.Qual é o pior fator de risco modificável para necrose avascular da cabeça femoral após luxação traumática de quadril?
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